Currículo do Estado de São Paulo
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Desse modo, desenvolve-se a com-
petência discursiva e promove-se o letramento. 
Assim, o centro da aula de Língua Portuguesa 
é o texto, mas o que isso significa realmente?
O texto ao qual nos referimos é aqui 
compreendido em sentido semiótico, poden-
do, assim, estar organizado a partir da com-
binação de diferentes linguagens, não apenas 
da verbal. 
Desse modo, uma foto, uma cena de tele-
novela, uma canção, entre muitas outras possi-
bilidades, são textos. A principal propriedade de 
um texto é que ele comunica, dando a impres-
são de totalidade aos interlocutores. Em outras 
palavras, tanto quem o produz como quem o 
recebe têm a impressão de que aquela produção 
está completa no propósito a que se destina.
Os textos são utilizados em atividades 
sociais variadas. Embora um texto seja sem-
pre uma produção individual, cada esfera de 
utilização da língua constrói seus modelos 
relativamente estáveis orientados pelo con-
teúdo temático, pelo estilo e pela construção 
composicional. É o que denominamos gêneros 
textuais. Alguns exemplos de gênero são aula, 
fofoca, monografia, debate, horóscopo, con-
versa telefônica, conversa em roda de amigos, 
tese de doutoramento etc. 
Os gêneros textuais são, ao mesmo 
tempo, eventos linguísticos e ações sociais. 
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Língua
Portuguesa
Funcionam como paradigmas comunicativos 
que nos permitem gerar expectativas e pre-
visões ao elaborarmos a compreensão de um 
texto. E, embora sejam definidos tanto por 
aspectos formais como funcionais, não há dú-
vidas, entre os estudiosos, de que a função é 
mais importante do que a forma. 
Os gêneros textuais são artefatos linguís-
ticos construídos histórica e culturamente pelas 
pessoas para atingir objetivos específicos em 
situações sociais particulares. 
Por tipologia textual entende-se uma 
espécie de sequência teoricamente definida 
pela natureza linguística de sua composição. 
Enquanto os gêneros textuais são ilimitados, 
os tipos textuais abrangem cinco categorias 
principais: narrar, relatar, prescrever, expor e 
argumentar. Como parte de sua competência 
comunicativa, os enunciadores dispõem de ti-
pologias, adquiridas por contato ou ensino 
organizado, necessárias para compreender ou 
produzir textos específicos. Desse modo, os 
tipos textuais incorporam os gêneros de discur-
so particulares. Por exemplo, dentro da tipolo-
gia narrativa encontramos os gêneros conto, 
fábula, apólogo, romance, telenovela etc. 
O nível de letramento é determinado pela 
variedade de gêneros textuais com os quais a 
criança ou o adulto conseguem interagir. Todos 
os textos surgem na sociedade pertencendo a 
diferentes categorias ou gêneros textuais que 
relacionam os enunciadores com atividades 
sociais específicas. Não se trata de pensarmos 
em uma lista de características que compõem 
um modelo segundo o qual devemos produzir 
o nosso texto, mas de compreender como esse 
texto funciona em sociedade e de que forma 
ele deve ser produzido e utilizado a fim de atin-
gir o objetivo desejado.
Nesse sentido, discurso será entendido 
como a materialidade do texto, organizado em 
um dado gênero, inserido em uma situação real 
de interação entre sujeitos em determinado con-
texto. Em outras palavras, discurso é a lingua-
gem em interação, que leva em conta o que está 
dito ou silenciado, os valores, os sentimentos, 
as vivências e as visões de mundo dos interlocu-
tores envolvidos em uma determinada situação 
comunicativa. É o produto de uma enuncia- 
ção formado por todos os elementos que con-
correm ao processo de significação, de tal modo 
que supera a simples somatória dessas partes. 
O discurso esquematiza as experiências a fim 
de torná-las significantes e compartilháveis.
A proposta de estudar a língua consi-
derada como uma atividade social, como um 
espaço de interação entre pessoas, num deter-
minado contexto de comunicação, implica a 
compreensão da enunciação como eixo central 
de todo o sistema linguístico e a importância 
do letramento, em função das relações que 
cada sujeito mantém em seu meio.
Alguém, com seu trabalho físico e men-
tal, produz um texto em determinado tempo e 
espaço. Esse texto será interpretado por outro 
indivíduo, com uma personalidade específica, 
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Língua
Portuguesa Currículo do Estado de São Paulo
que pode ou não estar nos mesmos tempo e es-
paço do produtor. A esse fato que leva em conta 
esses três eixos (tempo, espaço, indivíduo) na 
produção/recepção textual denominamos enun-
ciação. Esse acontecimento instaura um \u201ceu\u201d 
que, dentro do enunciado, assume-se como o 
responsável pelo ato de linguagem e um \u201cvocê\u201d 
constituído por esse eu enunciador do texto.
Para o trabalho escolar com textos, 
torna-se necessário compreender tanto as ca-
racterísticas estruturais (ou seja, como o texto 
é feito) como as condições sociais de produção 
e recepção, para refletir sobre sua adequa-
ção e funcionalidade. Por exemplo, falar de 
curriculum vitae, na escola, não pode ser sepa-
rado do campo da atividade \u201ctrabalho\u201d, o que 
nos leva a pensar no indivíduo que procura 
emprego, no empregador \u2013 em suas expec-
tativas, habilidades \u2013, em outros gêneros de 
discurso associados, tais como entrevista 
de emprego, anúncio de jornal etc., e nas ques-
tões sociais de desemprego, primeiro emprego 
e competitividade no mundo do trabalho.
Em síntese, temos:
TIPO
Composição linguística que organiza \u2013 
pela sua predominância em um texto \u2013 os dife-
rentes gêneros textuais.
GÊNERO
Evento linguístico social que organiza os 
textos a partir de características sociossemióti-
cas: conteúdos, propriedades funcionais, estilo 
e composição estrutural.
TEXTO
Totalidade semiótica de sentido cons-
tituída por uma combinação de linguagens e 
operações aplicadas ao fluxo de uma produção 
semiótica concreta.
ENUNCIAÇÃO
Ato ou acontecimento pelo qual um in-
divíduo empírico, por meio de trabalho físico e 
mental, produz um enunciado que será recebi-
do, em processo interativo e social, por outro 
indivíduo. Esse acontecimento instaura um \u201ceu\u201d 
que, dentro do enunciado, assume a responsa-
bilidade do ato de linguagem e um \u201cvocê\u201d cons-
tituído pelo \u201ceu\u201d (enunciador) do texto.
DISCURSO
Produto de uma enunciação compos-
to de todos os elementos que concorrem ao 
processo de significação, superando a soma-
tória das partes. O discurso esquematiza as 
experiências a fim de torná-las significantes e 
compartilháveis.
Centrar o ensino de Língua Portuguesa 
no texto requer o desenvolvimento de habili-
dades que ultrapassam uma visão reducionista 
dos fenômenos linguístico e literário.
O discurso literário, como realidade 
linguística e social, atravessa todos os tipos 
textuais. Desse modo, podemos encontrar, 
praticamente, qualquer gênero textual em uma 
obra literária: uma carta, um poema, um con-
to, uma cantiga, uma notícia de jornal, uma 
receita etc. Sirvam de exemplos \u201cPoema tirado 
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Língua
Portuguesa
de uma notícia de jornal\u201d, de Manuel Bandeira, 
e \u201cReceita para fazer um poema dadaísta\u201d, do 
romeno Tristan Tzara. O que, naturalmente, 
não significa que qualquer carta ou notícia de 
jornal sejam consideradas literatura.
Se o texto, em qualquer gênero textual, 
propiciar ao leitor um desafio em que, estetica-
mente, se misturem a construção da cultura com 
o prazer de ler, será um forte candidato a perten-
cer à esfera literária. Isso porque a literatura é, 
antes de tudo, um desafio ao espírito. No entan-
to, ela