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Rua Dr. Moacir Birro, 663 – Centro – Cel. Fabriciano – MG CEP: 35.170-002 
Site: www.ucamprominas.com.br e-mail: diretoria@institutoprominas.com.br 
 
 
BIBLIOTECA PARA O CURSO DE 
ENGENHARIA DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E 
PÂNICO 
 
Selecionamos para você uma série de artigos, livros e endereços na Internet 
onde poderão ser realizadas consultas e encontradas as referências necessárias 
para a realização de seus trabalhos científicos, bem como, uma lista de sugestões 
de temas para futuras pesquisas na área. 
Primeiramente, relacionamos sites de primeira ordem, como: 
 
www.scielo.br 
www.anped.org.br 
www.dominiopublico.gov.br 
 
 
SUGESTÕES DE TEMAS 
1. INTRODUÇÃO À ENGENHARIA DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIOS E 
PÂNICO 
2. FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS; 
3. OS INCÊNDIOS; 
4. A FUMAÇA NOS INCÊNDIOS; 
5. MEDIDAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO. 
6. PROPRIEDADE E COMPORTAMENTO DOS MATERIAIS 
7. MATERIAIS BÁSICOS DE CONSTRUÇÃO; 
8. RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS; 
9. ESTRUTURAS DE CONCRETO; 
10. ESTRUTURAS DE AÇO; 
 
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11. COMPORTAMENTO DE ESTRUTURAS DE MADEIRA FRENTE AO FOGO. 
12. LEGISLAÇÃO, NORMAS, PROJETOS E PLANOS DE ENGENHARIA EM 
SCI 
13. LEGISLAÇÃO, NORMAS E INSTRUÇÕES; 
14. RESPONSABILIDADES CIVIL E CRIMINAL; 
15. PROJETO DE ENGENHARIA EM SCI; 
16. PLANOS DE SEGURANÇA; 
17. PLANO DE INTERVENÇÃO DE INCÊNDIO – INSTRUÇÃO TÉCNICA DO 
CORPO DE BOMBEIROS; 
18. IMPACTOS AMBIENTAIS DECORRENTES DE INCÊNDIOS; 
19. BRIGADAS DE INCÊNDIO. 
20. SISTEMAS DE PREVENÇÃO, CONTROLE E COMBATE A INCÊNDIOS 
21. ARQUITETURA, URBANISMO E A QUESTÃO DA SEGURANÇA CONTRA 
INCÊNDIOS; 
22. COMPARTIMENTAÇÃO E ISOLAMENTO; 
23. SAÍDAS DE EMERGÊNCIA EM EDIFICAÇÕES; 
24. SISTEMA DE DETECÇÃO E ALARME DE INCÊNDIO; 
25. ILUMINAÇÃO DE EMERGÊNCIA; 
26. CONTROLE DA FUMAÇA; 
27. COMBATE COM EXTINTORES PORTÁTEIS; 
28. COMBATE COM ÁGUA; 
29. COMBATE A INCÊNDIO POR AGENTES GASOSOS. 
30. COMPORTAMENTO HUMANO E PÂNICO EM INCÊNDIOS 
31. GASES TÓXICOS; 
32. PRINCIPAIS GASES TÓXICOS; 
33. ÍNDICE DE TOXICIDADE; 
34. EFEITOS E CONSEQUÊNCIAS SOBRE O SER HUMANO; 
 
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35. LESÕES POR INALAÇÃO DE FUMAÇA; 
36. AS CIÊNCIAS DO COMPORTAMENTO HUMANO; 
37. A VISÃO DA PSICOLOGIA; 
38. OS ESTUDOS SOCIOLÓGICOS; 
39. COMPORTAMENTO HUMANO EM SITUAÇÕES DE RISCO; 
40. A RESPOSTA FISIOLÓGICA E O COMPORTAMENTO HUMANO; 
41. CARACTERÍSTICAS DOS OCUPANTES; 
42. O ABANDONO DE EDIFICAÇÕES – MOVIMENTO, TEMPO E 
COMPORTAMENTO DAS PESSOAS; 
43. O PÂNICO; 
44. DEFINIÇÕES; SINTOMAS DO PÂNICO E REAÇÕES INSTINTIVAS; 
45. CAUSAS DO PÂNICO; 
46. CARACTERÍSTICAS DE PESSOAS EM PÂNICO; 
47. PRIMEIROS SOCORROS EM INCÊNDIOS; 
48. PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS: DICAS EMPÍRICAS. 
49. GERENCIAMENTO DE RISCOS E MANUTENÇÃO APLICADA 
50. RISCOS: TERMINOLOGIA ADEQUADA; 
51. GERÊNCIA DE RISCOS; 
52. IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DE RISCOS; 
53. ANÁLISE GLOBAL DE RISCO; 
54. AVALIAÇÃO DE RISCOS PELO MÉTODO GRETENER; 
55. GERENCIAMENTO DE RISCOS APLICADO; 
56. INCÊNDIO DE JATO; 
57. DIMENSÕES DA CHAMA; 
58. INCÊNDIO DE POÇA; 
59. EXPLOSÃO DE NUVEM; 
 
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60. VULNERABILIDADE DAS PESSOAS; 
61. VULNERABILIDADE DAS ESTRUTURAS METÁLICAS; 
62. AUDITORIA INTERNA DE SEGURANÇA NA PREVENÇÃO DE RISCOS; 
63. EVOLUÇÃO E CONCEITOS PARA AUDITORIA; 
64. A AUDITORIA APLICADA À SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E PÂNICO; 
65. MANUTENÇÃO APLICADA A SEGURANÇA; 
66. DEFINIÇÕES, BENEFÍCIOS E FINALIDADES GERAIS DA MANUTENÇÃO; 
67. CONCEITOS BÁSICOS EM MANUTENÇÃO; 
68. O PLANEJAMENTO E O CONTROLE DA MANUTENÇÃO; 
69. A MANUTENÇÃO NAS NORMAS BRASILEIRAS PARA SCI; 
70. MANUTENÇÃO PREVENTIVA; 
71. TRATAMENTO DE FALHAS EM SISTEMA DE SCI. 
72. TÓPICOS ESPECIAIS EM SCI 
73. A INSPEÇÃO PREDIAL; 
74. ETAPAS PARA REALIZAÇÃO DE UMA INSPEÇÃO PREDIAL; 
75. DOCUMENTOS A SEREM ANALISADOS NA INSPEÇÃO PREDIAL; 
76. O SEGURO-INCÊNDIO; 
77. DO NASCIMENTO AO SEGURO SAÚDE – BREVE HISTÓRIA; 
78. SURGIMENTO DO SEGURO NO BRASIL; 
79. O SEGURO-INCÊNDIO E O INSTITUTO DE RESSEGUROS DO BRASIL; 
80. A MATRIZ DE SINISTRALIDADE; 
81. PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE; 
82. INCÊNDIOS EM EDIFÍCIOS-GARAGEM; 
83. PRESERVAÇÃO DE DOCUMENTOS E ARQUIVOS HISTÓRICOS; 
84. A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE INCÊNDIOS; 
85. AÇÕES DO INVESTIGADOR SEGUNDO BRAGA E LANDIM; 
 
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86. MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO; 
87. COMPREENSÃO DA DINÂMICA DO INCÊNDIO; 
88. INFORMAÇÕES PARA O LAUDO PERICIAL; 
89. A IMPORTÂNCIA DA COLETA DE DADOS DE INCÊNDIOS PELOS 
BOMBEIROS. 
90. TÉCNICAS AVANÇADAS DE MANUTENÇÃO 
91. ANÁLISE VIBRACIONAL; 
92. DO SURGIMENTO AOS DIAS ATUAIS; 
93. CONCEITO E APLICAÇÕES; 
94. O USO DA BANCADA RLAM; 
95. FERROGRAFIA; 
96. TRIBOLOGIA; 
97. FERROGRAFIA; 
98. O PROCESSO E TIPOS DE ANÁLISE DA FERROGRAFIA; 
99. EXAME ANALÍTICO (AN); 
100. EXAME QUANTITATIVO (DR); 
101. TERMOGRAFIA; 
102. APLICAÇÕES ELÉTRICAS; 
103. APLICAÇÕES MECÂNICAS; 
104. ULTRASSOM; 
105. FUNDAMENTOS E PRINCÍPIOS DO ULTRASSOM; 
106. APLICAÇÕES DO ULTRASSOM; 
107. COMPONENTES E FUNCIONAMENTO DE UM ULTRASSOM; 
108. ESPECTROGRAFIA; 
109. HIDRÁULICA E ANÁLISE DE PRESSÕES; 
110. HIDRÁULICA; 
 
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111. BOMBAS HIDRÁULICAS; 
112. BOMBAS DE ENGRENAGEM; 
113. CALDEIRAS A VAPOR; 
114. VASOS DE PRESSÃO; 
115. LUBRIFICAÇÃO; 
116. TIPOS DE LUBRIFICAÇÃO; 
117. CARACTERÍSTICAS E PROPRIEDADES DOS ÓLEOS 
LUBRIFICANTES; 
118. PROGRAMA DE LUBRIFICAÇÃO; 
119. PNEUMÁTICA. 
120. PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE 
121. PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: CONCEITUAÇÃO E 
IMPORTÂNCIA; 
122. PROGRAMAS DE PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE; 
123. CRITÉRIOS E TÉCNICAS DE AVALIAÇÃO E CONTROLE DE 
POLUENTES; 
124. POLUIÇÃO E SUAS VÁRIAS FORMAS E CONTROLE BÁSICO; 
125. POLUIÇÃO DO SOLO; 
126. POLUIÇÃO DA ÁGUA; 
127. POLUIÇÃO DO AR; 
128. EIA, RIMA, AIA; 
129. GERENCIAMENTO DO CONTROLE DA POLUIÇÃO; 
130. AUDITORIA AMBIENTAL; 
131. INVENTÁRIO DE EMISSÕES DE POLUENTES PARA O MEIO 
AMBIENTE; 
132. CONFORMIDADE COM A LEGISLAÇÃO AMBIENTAL; 
133. IMPLANTAÇÃO DA GESTÃO AMBIENTAL; 
134. COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO COM A COMUNIDADE; 
 
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135. MONITORAMENTO DA POLÍTICA AMBIENTAL; 
136. QUALIDADE DO AR E DA ÁGUA: PROCESSOS DE PURIFICAÇÃO 
DO SOLO, SERVIÇOS BÁSICOS DE SANEAMENTO EM CASOS DE 
EMERGÊNCIA; 
137. DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS; 
138. PROCESSOS DE PURIFICAÇÃO DA ÁGUA E DO SOLO; 
139. SERVIÇOS BÁSICOS DE SANEAMENTO EM CASOS DE 
EMERGÊNCIA; 
140. RESÍDUOS LÍQUIDOS OU ESGOTOS SANITÁRIOS; 
141. ESGOTOS, COLETA E TRATAMENTO; 
142. DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS – RESÍDUOS SÓLIDOS 
E DE CONSTRUÇÕES CIVIS; 
143. GERAÇÃO, CLASSIFICAÇÃO, TRATAMENTO E DISPOSIÇÃO; 
144. ASPECTOS LEGAIS, INSTITUCIONAISE ÓRGÃOS 
REGULAMENTADORES. 
145. GESTÃO DA SEGURANÇA APLICADA À ENGENHARIA ELÉTRICA 
146. SEGURANÇA DO TRABALHO; 
147. EVOLUÇÃO DA SEGURANÇA DO TRABALHO; 
148. FUNDAMENTOS; 
149. O SISTEMA DE GESTÃO DA SEGURANÇA E SAÚDE NO 
TRABALHO (SGSST); 
150. GRUPO GESTOR EM SEGURANÇA ELÉTRICA; 
151. ACIDENTES, RISCOS E SEGURANÇA; 
152. PROGRAMAS E EQUIPAMENTOS DE SEGURANÇA; 
153. COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES (CPA); 
154. PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS (PPRA); 
155. PROGRAMA DE CONTROLE MÉDICO DE SAÚDE OCUPACIONAL 
(PCMSO); 
156. PROGRAMA DE CONDIÇÕES E MEIO AMBIENTE DE TRABALHO 
NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO (PCMAT); 
 
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157. PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO (PPP); 
158. PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO AUDITIVA (PCA) E PROGRAMA 
DE PROTEÇÃO RESPIRATÓRIA (PPR); 
159. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVA (EPI – 
EPC); 
160. LEGISLAÇÃO, INSPEÇÃO E FISCALIZAÇÃO; 
161. NORMA REGULAMENTADORA NR-10; 
162. PREVENÇÃO E CONTROLE EM MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E 
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS; 
163. CABINES DE TRANSFORMAÇÃO, ATERRAMENTO ELÉTRICO, 
PARA-RAIOS; 
164. AMBIENTES ESPECIAIS, ELETRICIDADE ESTÁTICA, 
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS PROVISÓRIAS; 
165. EQUIPAMENTOS E DISPOSITIVOS ELÉTRICOS. 
166. ÁREA DE UTILIDADES. 
167. SUBESTAÇÕES; 
168. MANUTENÇÃO PREVENTIVA E ENGENHARIA DE SEGURANÇA; 
169. RISCOS NA ELETRIFICAÇÃO RURAL; 
170. ACIDENTES COM CERCAS ENERGIZADAS; 
171. MEDIDAS E EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO COLETIVA E 
INDIVIDUAL; 
172. LEGISLAÇÃO E NORMAS RELATIVAS À PROTEÇÃO CONTRA 
CHOQUES ELÉTRICOS E GERAL. 
173. EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NA CONSTRUÇÃO 
CIVIL 
174. ANÁLISES DE RISCOS TECNOLÓGICOS AMBIENTAIS: perspectiva 
para o campo da saúde do trabalhador 
175. CONFIABILIDADE DOS SISTEMAS DE PREVENÇÃO CONTRA 
INCÊNDIO 
176. O PAPEL DE GERENCIAMENTO DE RISCO NA PEQUENA 
EMPRESA 
 
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177. AS PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS E SUA RELAÇÃO COM 
O MEIO AMBIENTE 
178. AVALIAÇÕES E PERÍCIA - PATOLOGIAS EM CONSTRUÇÃO CIVIL 
179. INSTALAÇÕES ELÉTRICAS E A SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIOS 
180. SEGURANÇA DO TRABALHO: quedas em andaimes na construção 
civil 
181. SEGURANÇA NO TRABALHO: uma abordagem dos perigos em 
espaço confinado na indústria do petróleo 
182. MANUTENÇÃO PRODUTIVA TOTAL - MPT OU TPM EM UMA USINA 
DE AÇÚCAR E ÁLCOOL 
183. O AMBIENTE E AS DOENÇAS DO TRABALHO 
184. MANUTENÇÃO PRODUTIVA TOTAL - TPM 
185. ESPAÇO CONFINADO 
186. A IMPORTÂNCIA DOS ASPECTOS ERGONÔMICOS NA 
CARACTERIZAÇÃO E GERENCIAMENTO DE RISCOS EM AMBIENTES 
TECNOLÓGICOS INFORMACIONAIS 
187. PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE RISCOS EM PRENSA E 
SIMILARES - PPRPS 
188. SEGURANÇA NA CONSTRUÇÃO CIVIL 
189. SEGURANÇA DO SETOR ELÉTRICO EM EMPRESAS 
TERCEIRIZADAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL 
190. A ENGENHARIA DE SEGURANÇA E SUA EVOLUÇÃO 
191. CULTURA DA EMPRESA E A INSERÇÃO DO TRABALHADOR OS 
PROGRAMAS DE SEGURANÇA NO TRABALHO 
192. SEGURANÇA ELÉTRICA EM INSTALAÇÕES PROVISÓRIAS 
193. UMA ABORDAGEM DOS PERIGOS EM ESPAÇO CONFINADO NA 
INDÚSTRIA DO PETRÓLEO 
194. MÉTODOS DE CONSCIENTIZAÇÃO DOS TRABALHADORES PARA 
UTILIZAÇÃO DE EPI´S 
195. OS RUÍDOS EM SERRALHERIAS E A SEGURANÇA DO TRABALHO 
196. AVALIAÇÃO DE RISCOS EM TRANSPORTE TERRESTRE DE 
INFLAMÁVEIS 
 
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197. EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DA SEGURANÇA NO BRASIL 
198. O USO DOS MODELOS FINANCEIROS PARA A OTIMIZAÇÃO DO 
SISTEMA PRODUTIVO 
199. ERGONOMIA E SEGURANÇA NO TRABALHO 
200. RISCOS FÍSICOS, QUÍMICOS E BIOLÓGICOS NO PROCESSO DE 
COMPOSTAGEM DE RESÍDUOS 
201. ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO E CERTIFICAÇÃO 
DE QUALIDADE 
202. SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO E APLICABILIDADE NO 
SETOR PÚBLICO 
203. SEGURANÇA ELÉTRICA EM INSTALAÇÕES PROVISÓRIAS 
204. INOVAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL 
205. A IMPORTÂNCIA DA APLICABILIDADE PRÁTICA DO SISTEMA DE 
GESTÃO E HIGIENE DO TRABALHO 
206. A IMPORTÂNCIA DA APLICABILIDADE DA SAÚDE DO 
TRABALHADOR SOB O ENFOQUE DA ERGONOMIA 
207. A IMPORTÂNCIA E A APLICABILIDADE PRÁTICA DA PREVENÇÃO 
E CONTROLE DE RISCOS EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO 
TRABALHO 
208. O PAPEL DO GERENCIAMENTO DE RISCOS NA EFETIVAÇÃO DA 
SEGURANÇA DO TRABALHO 
209. A IMPORTÂNCIA DA PSICOLOGIA DO COMPORTAMENTO NA 
SEGURANÇA COMPORTAMENTAL NO TRABALHO 
210. CRESCIMENTO POPULACIONAL E A DEGRADAÇÃO DO MEIO 
AMBIENTE 
211. OS RUÍDOS EM SERRALHERIAS E A SEGURANÇA DO TRABALHO 
212. SEGURANÇA DO TRABALHO NAS PEQUENAS E MÉDIAS 
EMPRESAS 
213. EFEITOS DAS ONDAS ELETROMAGNÉTICAS NOS SERES 
HUMANOS 
214. ERGONOMIA NAS EMPRESAS 
215. O USO DO AR COMPRIMIDO EM CLÍNICAS ODONTOLÓGICAS 
 
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216. O PAPEL DO GERENCIAMENTO DE RISCO NA INSTALAÇÃO DO 
CANTEIRO DE OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL 
217. ENGENHARIA DE SEGURANÇA DENTRO DAS ÁREAS ELÉTRICAS 
218. ESPAÇO CONFINADO NR 33: DIFICULDADES DE SE 
ESTABELECER SE UM ESPAÇO DE TRABALHO É CONFINADO OU NÃO 
219. SEGURANÇA E TRABALHO ONLINE - SAFETY AND WORK ONLINE 
220. SEGURANÇA DO TRABALHO, RISCOS DE ACIDENTES E 
EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO 
221. ACIDENTES DO TRABALHO: uma forma de violência 
222. REPERCUSSÕES DA INTRODUÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS E 
AUTOMAÇÃO NAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL 
223. SÓ DE PENSAR EM VIR TRABALHAR, JÁ FICO DE MAU HUMOR": 
atividade de atendimento ao público e prazer-sofrimento no trabalho 
224. UM NOVO OLHAR PARA OS ACIDENTES DE TRABALHO 
225. ESTUDO SOBRE ACIDENTES DE TRABALHO OCORRIDOS COM 
TRABALHADORES 
226. O SISTEMA DE INFORMAÇÕES SOBRE ACIDENTES DO 
TRABALHO 
227. INCIDÊNCIA DE ACIDENTES DE TRABALHO RELACIONADA COM A 
NÃO UTILIZAÇÃO DAS PRECAUÇÕES UNIVERSAIS. 
228. ADESÃO AS MEDIDAS DE PRECAUÇÃO PADRÃO: RELATO DE 
EXPERIÊNCIA. 
 
 
 
 
 
 
 
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ARTIGOS PARA LEITURA, ANÁLISE E UTILIZAÇÃO 
COMO FONTE OU REFERÊNCIA 
 
Revista IBRACON de Estruturas e Materiais 
versão On-line ISSN 1983-4195 
Rev. IBRACON Estrut. Mater. vol.4 no.2 São Paulo jun. 2011 
http://dx.doi.org/10.1590/S1983-41952011000200007 
DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO EM 
SITUAÇÃO DE INCÊNDIO. APRIMORAMENTO DE ALGUMAS 
RECOMENDAÇÕES DO EUROCODE 
 
 
V. P. Silva 
Professor Doutor, Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica, Escola 
Politécnica, Universidade de São Paulo, valpigss@usp.br , Av. Prof. Almeida Prado, trav. 
2, 271 Cid. Universitária, São Paulo, SP, Brasil 
 
 
RESUMO 
 
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Site: www.ucamprominas.com.br e-mail: diretoria@institutoprominas.com.br 
 
A norma brasileira ABNT NBR 15200 está em fase de revisão. Algumas omissões sobre o 
dimensionamento de vigas, na versão de 2004 da norma, serão incluídas agora. 
Possibilidade de redução do c1 em casos em que haja reserva de segurança, 
dimensionamento distinto para laje nervurada unidirecional e aumento de c1 lateral em 
algumas situações são os casos de interesse neste trabalho. O Eurocode fornece 
recomendações a respeito desses itens, no entanto,não são consideradas adequadas aos 
costumes brasileiros de projeto. O objetivo deste trabalho é, por meio de análise térmica 
ou estrutural de vigas de concreto armado, propor alternativas às recomendações do 
Eurocode, visando normatizá-las, já nesta fase de revisão da norma brasileira. 
Palavras-chave: incêndio, dimensionamento, vigas, segurança contra incêndio. 
 
 
 
Texto completo apenas disponivel em PDF. 
Full text available only in PDF format. 
 
BIBLIOGRAFIA 
[01] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Projeto de estruturas de 
concreto em situação de incêndio. NBR 15200. Rio de Janeiro. 2004 [ Links ] 
[02] EUROPEAN COMMITTEE FOR STANDARDIZATION (CEN). Eurocode 2: Design of 
concrete structures – Part 1.2: General Rules – Structural Fire Design. EN 1992-1-2. 
Brussels. 2004. [ Links ] 
[03] FIRE SAFETY DESIGN. TCD with Super Tempcalc. Lund: Fire Safety Design Ltd., 
2000. Disponível emhttp://www.fsd.se/eng/index.html [acesso em 09.10.2002] 
 [ Links ]. 
[04] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 834: fire-resistance 
tests: elements of building construction: part 1.1: general requirements for fire 
resistance testing. 25 p. [ Links ] 
[05] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7480: Aço destinado a 
armaduras para estruturas de concreto armado - Especificação. Rio de Janeiro, 2007. 
 [ Links ] 
 
 
 
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Rem: Revista Escola de Minas 
versão impressa ISSN 0370-4467 
Rem: Rev. Esc. Minas vol.64 no.3 Ouro Preto jul./set. 2011 
http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672011000300003 
 
ESTUDO DA PRESCRITIVIDADE DAS NORMAS TÉCNICAS 
BRASILEIRAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO 
 
Study on the prescriptivity of Brazilian technical standards for fire 
safety 
 
 
Antonio Maria ClaretI; Domênica Loss MattediII 
ICoordenador do Laboratório de Análise de Riscos em Incêndio. Campus Universitário, 
Ouro Preto, MG. claretgouveia@uol.com.br 
IIArquiteta, Mestre em Construção Metálica pela Universidade Federal de Ouro 
Preto.domenicaloss@gmail.com 
 
 
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RESUMO 
A gestão da mudança do ambiente de projeto de segurança contra incêndio de normas 
prescritivas para o de projeto baseado em desempenho é um desafio atual das entidades 
envolvidas com a normalização técnica no País. O processo de mudança demanda a 
adesão de diversas categorias de profissionais e se constitui em um autêntico processo 
de educação. O trabalho descreve uma avaliação da prescritividade do conjunto de 
normas técnicas brasileiras com o objetivo de verificar o grau de dificuldade na 
implantação de normas baseadas em desempenho. A análise de prescritividade foi 
realizada empregando um método de análise discursiva, tendo como base a atribuição de 
pesos de prescritividade a categorias de comandos ou ações de projeto determinadas 
pelos textos normativos. Os resultados indicam que a maioria das normas tem grau de 
prescritividade mediano (grau II), menos de 10% entre as normas ABNT e 30% das 
instruções técnicas têm grau de prescritividade alto (grau III), sugerindo que a 
implantação futura de um ambiente de normalização baseado em desempenho deve ser 
feita de forma gradual e acompanhada de atividades de formação técnica dos 
profissionais. 
Palavras-chave: Normalização, prescritividade, processo de projeto, segurança contra 
incêndio, performance-based design. 
 
ABSTRACT 
Managing fire safety design so that it is according to prescriptive standards and 
accompanies ambient performance is the current challenge for entities dealing with the 
civil construction industry's standardization. It requires the adhesion of various 
professional categories and is, in itself, a constant educational process. This work 
presents an evaluation of the prescriptivity of a set of Brazilian technical standards for 
fire safety, aiming to measure their likely grade of implementation difficulty for 
performance in the ambient's design. The prescriptivity analysis was implemented using 
a discourse analysis technique based on weighing some categories of prescriptive 
commands against the standard's text. The results indicate that most of the rules have 
an average degree of prescriptivity (grade II); less than 10% of the ABNT and 30% of 
the Technical Instructions of Fire Brigades have the highest degree of prescriptivity 
(grade III), suggesting that performance based on ambient design must be implemented 
gradually, and should be accompanied by special training in Fire Engineering. 
Keywords: Standardization, prescriptivity, design process, fire safety, performance 
based design. 
 
 
 
1. Introdução 
 
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Diversos países europeus e asiáticos, além dos Estados Unidos e do Canadá, encontram-
se, hoje, na vanguarda da utilização dos conceitos e dos princípios do projeto baseado 
em desempenho ou, na literatura de língua inglesa, performance-based design (PBD). 
Nesses países, já existem edições autorizadas pelo poder público dos códigos de projeto 
baseados em desempenho (performance-based codes, PBC), cujo emprego é alternativo 
aos códigos de projeto tradicionais, essencialmente prescritivos. Mas, em geral, o cenário 
mundial é o da mudança progressiva do ambiente de projeto prescritivo para o de 
projeto baseado em desempenho (Meacham, 1997). Duas razões principais são 
aventadas para justificar a mudança do ambiente de projeto: a liberdade projetual e a 
optimização da relação benefício-custo. 
A liberdade projetual se caracteriza como a faculdade que se atribui aos profissionais de 
projeto de lançar mão de soluções criativas, empregar métodos de modelamento dos 
fenômenos e de cálculo das grandezas físicas que os representam, bem como de utilizar 
materiais e técnicas construtivas, respeitando unicamente os parâmetros de segurança 
definidos na regulamentação. As soluções prescritivas são gerais e, como tal, tendem ora 
a exceder a demanda específica de uma determinada edificação, ora a contemplá-la por 
falta, gerando situações em que não se conhece uma estimativa global do risco de 
incêndio resultante nos casos particulares (Mattedi, 2006). A optimização da relação 
benefício-custo significa a minimização do risco de danos à vida humana, ao meio 
ambiente e ao patrimônio para um dado nível de investimento em segurança. Beyler 
(2001) afirma que o maior desafio da segurança contra incêndio no século XXI será o da 
redução de custos. No Brasil, nas últimas décadas, observa-se uma constante 
preocupação com o custo de implantação de níveis mínimos aceitáveis de segurança 
contra incêndio nas edificações. 
Certamente todo o potencial de redução de custos da implantação de sistemas efetivos 
de segurança contra incêndio, conservando-se níveis mínimos aceitáveis de segurança 
cada vez mais elevados, para contemplar os anseios das sociedades contemporâneas, 
reside na introdução de normas de projeto baseadas em desempenho (Claret, 2007). 
Coerentemente com os demais projetos, os profissionais são autorizados a usar sua 
criatividade e conhecimento técnico para gerar as soluções que produzam maior 
segurança com o menor investimento; os sistemas de segurança deixam de ser simples 
acréscimos à edificação e ela passa a ser geneticamente segura. 
Mas essa mudança do ambiente de projeto tradicional para o PBDrepresenta diversos 
problemas, dois deles constatáveis à primeira vista: a adequação do aparato técnico à 
disposição dos profissionais de projeto e a aculturação desses profissionais com a nova 
filosofia de projeto. Evidentemente o primeiro problema tem sua solução fortemente 
dependente da pesquisa científica em Engenharia de Incêndio e não será abordado aqui. 
Esse trabalho focaliza apenas o segundo problema, buscando avaliar a dificuldade de 
implantação de um ambiente de projeto baseado em desempenho. O pressuposto para 
essa avaliação consiste em admitir que, tanto mais prescritivo o ambiente de projeto 
atual, maior a resistência à mudança para o PBD, ou seja, parte-se do princípio de que o 
hábito de uso de normas prescritivas representa uma restrição cultural à implantação do 
sistema normativo baseado em desempenho. A medida da prescritividade das normas 
brasileiras mais utilizadas nos projetos de segurança contra incêndio é feita por um 
método que se fundamenta na análise do discurso normativo. 
 
2. Método proposto 
 
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O processo de implantação da normalização brasileira de segurança contra incêndio 
registra considerável atraso em relação ao de outros países desenvolvidos. Atrelada ao 
sistema de metrologia e qualidade industrial, a normalização técnica como um todo não 
era considerada, nos anos setentas, com a importância que deveria merecer. No caso 
particular da segurança contra incêndio, a implantação das normas técnicas e da 
infraestrutura laboratorial básica para a certificação de produtos somente ocorreu alguns 
anos após os grandes incêndios havidos em São Paulo e no Rio de Janeiro no biênio que 
compreende o início 1972 e o início de 1974 (Claret, 2000). Tratando-se de processo que 
demanda lenta aculturação em paralelo com imposição legal, o uso de normas 
prescritivas no Brasil sofreu expansão apenas no início dos anos noventa, justamente 
quando o processo de projeto baseado em desempenho ganhava seus contornos 
aplicativos na Europa e na América do Norte. 
De uma forma geral, a regulamentação prescritiva descreve como o edifício deve ser 
projetado, construído, protegido e mantido, considerando as necessidades dos usuários 
relativas à saúde, à segurança e ao conforto. Na maioria dos casos, as normas 
prescritivas conduzem a soluções padronizadas para diferentes situações de projeto, 
prescindindo de uma análise global do nível de segurança requerido e da interação entre 
os sistemas de segurança utilizados (Meacham, 2004). 
Os códigos baseados em desempenho expressam exigências amplas para uma edificação 
ou sistema construtivo em termos de metas sociais, objetivos funcionais e exigências de 
desempenho, sem que sejam mencionadas as soluções para alcançar tais exigências 
(SFPE, 2000). As proposições dos códigos de desempenho qualificam os níveis de risco 
aceitáveis ou toleráveis sob o ponto de vista da sociedade. Nesse caso, as soluções não 
estão prescritas nas normas técnicas. É de responsabilidade técnica e ética do projetista 
decidir com qual nível de segurança irá trabalhar e, assim, demonstrar que sua solução 
de projeto atende aos objetivos requeridos. Essas soluções tanto podem incorporar 
métodos prescritivos como se constituírem em soluções completamente inovadoras. 
Reflexos dos seus fundamentos, os textos, ou os "discursos", das normas prescritivas e 
de desempenho possuem características específicas e bem definidas que as distinguem. 
Sentenças prescritivas relativas à segurança contra incêndio estabelecem exigências 
mínimas ou máximas que são genéricas por ocupação, como, por exemplo, espaçamento 
máximo de detectores e chuveiros automáticos, resistência ao fogo mínima de elementos 
estruturais e construtivos e, ainda, distâncias máximas a percorrer. Por outro lado, as 
normas de desempenho tratam mais freqüentemente do aspecto qualitativo, 
expressando as necessidades sociais e o nível de comprometimento com a segurança 
contra incêndio. Então, o uso de termos como adequado, apropriado e razoável permite 
ao projetista flexibilidade e fornece diretrizes gerais para a escolha do nível de segurança 
a ser adotado (Custer & Meacham, 1997; Mattedi, 2006). 
Nesse trabalho, foram consideradas normas técnicas, elaboradas pela Associação 
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), e instruções técnicas do Corpo de Bombeiros da 
Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP), todas com forte impacto sobre o 
processo de projeto de sistemas de segurança contra incêndio de edificações. Cabe 
ressaltar que a expressão "normas técnicas" é empregada nesse trabalho para definir o 
gênero ao qual pertencem as "normas convencionais" da ABNT e os "regulamentos e 
instruções técnicas" do CBPMESP. 
O critério de escolha das normas convencionais focalizou, principalmente, as normas de 
procedimento, que, por sua natureza, determinam certas condições de projeto. No 
âmbito das normas convencionais, foram analisadas 12 normas brasileiras (NBR's), 
especialmente as normas do Comitê Brasileiro (CB) de Segurança Contra Incêndio 
 
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(ABNT/CB-24). A inclusão da NBR 9077/93, vinculada ao CB-02, se justifica pelo fato de 
ela ser considerada, entre os profissionais de projeto, a "norma-mãe" que direciona toda 
e qualquer atividade projetual no que concerne a edificações. Quanto às normas 
regulamentares, foram analisadas 10 instruções técnicas (IT's) do CBPMESP, pelo fato de 
tratar-se de uma das regulamentações mais avançadas do País e cuja aplicação 
prevalece sobre as normas da ABNT. A Tabela 1 apresenta a relação das NBR's e das IT's 
analisadas. 
 
 
 
 
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Foram estabelecidos três graus de prescritividade com o objetivo de classificar as normas 
técnicas componentes do conjunto escolhido: grau I: baixa prescritividade; grau II: 
média prescritividade; grau III: alta prescritividade. O significado de cada um desses 
graus de prescritividade vem da noção de intensidade da restrição à liberdade de 
projetar que a norma técnica impõe ao profissional de projeto. Em síntese, se o projetista 
está vinculado a materiais e rotinas de cálculo específicas, descritas no texto normativo, 
entende-se que o seu grau de prescritividade é alto; se, por outro lado, a norma exige 
que se utilizem determinadas classes de materiais, definidas por suas propriedades 
físicas, ou faixas de dimensões ou, ainda, determinados grupos de materiais ou 
determinadas classes de métodos de cálculo, a prescritividade pode ser vista como 
mediana ou baixa, dependendo da extensão das restrições no texto normativo. 
Como meio para quantificar o grau de prescritividade, o método proposto consistiu no 
estabelecimento de classes de "ações" determinadas no discurso normativo. Uma "ação" 
ou um "comando" é conceituado como uma determinação normativa que vincula a 
atividade de projeto em certa extensão. Portanto uma "ação" ou um "comando" 
representa a imposição de limites a uma solução projetual. O exame do texto normativo 
permite identificar essas "ações" ou "comandos" que, inclusive, constituem o núcleo da 
rotina de projeto. 
Nesse trabalho, propõe-se o emprego de dois grupos de "ações" ou "comandos", o grupo 
f e o grupo g, que se encontram caracterizados nas Tabelas 2 e 3, respectivamente. As 
"ações" ou "comandos" constituintes do grupo f consistem em expressões que 
especificam exatamente um determinado campo de atuação do profissional de projeto. A 
especificaçãode um determinado método, de um determinado material (que a parede 
deva ser de concreto, por exemplo), de dimensões e distâncias (que a largura livre de 
uma passagem seja 1 m, por exemplo) ou, ainda, a especificação dos tipos de 
dispositivos ou equipamentos de segurança, quantidade e local onde devam ser 
instalados (caso típico dos extintores e dos chuveiros automáticos) são cláusulas que 
prescrevem exatamente qual deve ser a ação do projetista. Já os "comandos" ou "ações" 
do grupo g estabelecem limites (que a distância a percorrer não deva exceder a 25 m, 
por exemplo) ou, ainda, especificam uma classe de métodos de cálculo ou classe de 
materiais (que o material deva ser cerâmico, por exemplo). 
Em ambos os grupos, f e g, o impacto prescritivo do "comando" ou "ação" determinado 
pela norma técnica é avaliado pela atribuição de pesos, tanto maiores quanto maior a 
vinculação imposta ao projetista. As Tabelas 2e 3 mostram também os pesos atribuídos 
aos diferentes tipos de "comandos". Considera-se que as "ações" constituintes do grupo 
g sejam mais brandas no seu impacto na restrição à liberdade de projetar, mas percebe-
se que esse "grau de prescritividade de uma dada ação normativa", considerada 
isoladamente, não depende exclusivamente de sua pertinência a um grupo ou a outro. 
Por exemplo, observa-se que o peso atribuído a g1 é maior que aquele atribuído a f3. A 
atribuição de pesos foi feita tomando por base os seguintes princípios: 
(a) A determinação de materiais representa uma restrição projetual de maior impacto 
que a determinação do método de dimensionamento que, por sua vez, tem 
prescritividade maior que a determinação de um método de execução. 
(b) A determinação de uma classe de materiais vem a ser de maior impacto na liberdade 
projetual que a determinação de uma classe de métodos de dimensionamento que, por 
sua vez, é mais restritiva que a determinação de uma classe de métodos executivos. 
O peso total de prescritividade é um número absoluto e não tem maior significado, 
porque o número de "comandos" ou de "ações" determinado por uma norma varia. Mas 
 
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um índice percentual de prescritividade absoluto, Ipa, de uma norma pode ser 
calculado imediatamente, considerando 
 
Desse modo, tem-se a informação de que, se uma norma emite C "comandos", 
Ipa comandos entre eles podem ser considerados de prescritividade alta, ou seja, podem 
significar grandes restrições à atividade projetual. Mas, em geral, sobre o projeto incidem 
simultaneamente as determinações de várias normas. Tomando como referência um 
conjunto de n normas técnicas que totalizem N "comandos" ou "ações" de projeto, sendo 
Ppi o peso total de prescritividade da norma i, seu índice de prescritividade relativo, Ipri, 
pode ser definido por 
 
Cada norma é avaliada isoladamente em primeiro lugar. Seja, por exemplo, uma norma 
técnica na qual se identifique um número C de "comandos", que devem ser pesquisados 
e classificados nos grupos f ou g, verificando-se a freqüência Fj com que cada tipo de 
"comando" (fj ou gj) compõe o texto normativo. A cada tipo de comando corresponde um 
peso de prescritividade pj, conforme as Tabelas 2 e 3. Portanto pode-se atribuir à norma 
considerada um peso total de prescritividade, Pp, que se define por 
 
Observa-se na eq. 2 que, ao dividir o peso total de prescritividade, Ppi, da norma i pelo 
produto do número de comandos pelo peso máximo de um comando, tem-se a 
quantificação do valor prescritivo daquela norma em relação ao valor prescritivo do 
conjunto das normas. Esse índice permite eliminar possíveis distorções referentes à 
quantidade de comandos e seus respectivos pesos de uma norma em relação às demais 
do conjunto. 
Finalmente, para obter uma medida normalizada dos índices de prescritividade relativos, 
situando-os na faixa arbitrariamente escolhida de 0 a 9, foi definido o índice de 
prescritividade normalizado, Ipn, dado por: 
 
 
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Desse modo, os graus de prescritividade das normas ficam associados a índices de 
prescritividade normalizados de forma que: grau I (baixo): 0<Ipri<3,0; grau II (médio): 
3,1<Ipri<6,0; grau III (alto): 6,1< Ipri< 9,0. 
 
3. Análise 
As normas técnicas que compõem o conjunto de normas incidentes sobre um projeto de 
segurança contra incêndio foram examinadas com o objetivo de identificar os 
"comandos" e de classificá-los de acordo com os grupos de comandos descritos 
nas Tabela 2 e 3. Ao final do exame de cada norma, foi possível determinar o peso total 
de prescritividade (Pp), o índice de prescritividade absoluto (Ipa) e o índice de 
prescritividade normalizado (Ipni) de cada documento, conforme mostra a Tabela 4. 
 
 
 
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Conclui-se da análise dos índices de prescritividade relativa, Ipri, que tanto o conjunto de 
normas ABNT quanto o conjunto das Instruções Técnicas apresentam prescritividade 
média muito próximas (5,1 para o conjunto ABNT e 5,3 para o conjunto das IT's do 
CBPMESP). Esse resultado parece indicar que a demanda social por mais liberdade de 
projetar não se fez ainda notar no conjunto das normas convencionais, isto é, quando a 
sociedade se reúne para estabelecer uma norma, tendo a faculdade de elaborá-la de 
modo avançado, fá-la com o mesmo nível de restrição que a corporação de bombeiros, 
naturalmente mais restritiva nesse aspecto. 
Levando a um gráfico, Figura 1, os índices de prescritividade absolutos das normas ABNT 
e das instruções técnicas que compõem o conjunto analisado, considerada a ordem 
crescente, verifica-se que os textos das instruções técnicas tendem a ser ligeiramente 
mais prescritivos que os das normas técnicas ABNT. Isto permite concluir que, ressalvada 
a inexistência de correspondência entre as normas de um conjunto e de outro, o 
ambiente de projeto é igualmente prescritivo quando se usam as normas ABNT e as 
instruções técnicas. O índice médio de prescritividade absoluto é da ordem de 59%, o 
que faz supor uma forte vinculação da atividade de projeto às soluções determinadas 
pelos textos normativos. 
 
 
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Os índices de prescritividade absolutos revelam também semelhanças entre os textos 
normativos. Comparando-se, por exemplo, a partir da Tabela 4, a norma NBR 14432/00 
e a IT 08/01, ambas relativas ao projeto de segurança de estruturas de aço em incêndio, 
verifica-se que o índice de prescritividade comum é 57%. De fato, no que tange às 
"ações' de projeto determinadas por essas normas técnicas, elas são muito semelhantes, 
sendo que a norma ABNT descreve o método de projeto simplificado e a instrução técnica 
apenas o referencia. 
É interessante observar a identidade entre os índices de prescritividade absolutos das 
normas NBR 9077/93 e da IT 11/01, ambas relativas ao projeto de saídas de 
emergência, tendo índice de prescritividade absoluto igual a 70%. Essa ocorrência e 
outras mais que podem ser encontradas em análise mais pormenorizada, revelam que a 
matriz das normalizações brasileiras de segurança contra incêndio é comum, havendo 
completaidentidade entre os textos normativos no que tange a seu caráter prescritivo. 
De acordo com os resultados constantes da Tabela 5, verifica-se (vide Tabela 2) que há 
uma predominância, tanto entre as normas NBR's, quanto entre as IT's, do grau II de 
prescritividade, que corresponde ao índice de prescritividade normalizado situado no 
intervalo de 3,1 a 6,0. 
 
 
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4. Conclusões 
A partir desses resultados, pode-se concluir que a grande incidência das normas e 
instruções técnicas de grau II representa um universo de média prescritividade. Isso 
significa que, em geral, esses documentos interferem de forma significativa na tomada 
de decisões e na liberdade projetual, conduzindo a soluções padronizadas e pouco 
flexíveis. 
A não ocorrência de nenhuma norma ABNT ou instrução técnica do CBPMESP no grau I, 
baixa prescritividade, reafirma a conclusão de o ambiente de projeto de segurança contra 
incêndio no Brasil ser tipicamente prescritivo com grau mediano de prescritividade, isto 
é, os profissionais de projeto são vinculados a grupos de materiais, de processos de 
cálculo e de dimensões projetuais predeterminados pelo órgão normativo. 
Registram-se apenas uma norma ABNT e três instruções técnicas no grau de 
prescritividade III. Isto ocorre porque seus comandos são fortemente determinantes da 
conduta profissional ao mesmo tempo em que essas normas têm considerável 
importância no conjunto de normas analisadas. 
Portanto o cenário normativo brasileiro atual faz supor certo grau de dificuldade na 
mudança da filosofia normativa prescritiva para a baseada em desempenho. Mas, sendo 
necessária a implementação de normas baseadas em desempenho no País, como 
resultado de uma demanda gerada pela inserção em uma economia globalizada e pela 
demanda pela optimização da relação benefício-custo, os resultados desse trabalho 
sugerem uma implementação gradual com um período relativamente longo de 
convivência entre normas prescritivas e normas baseadas em desempenho. Amplo 
treinamento por parte dos profissionais de projeto e das autoridades fiscalizadoras 
constitui também um aspecto importante para concretizar essa realidade. 
 
 
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5. Referências bibliográficas 
BEYLER, C. L. Fire Safety Challenges in the 21st century. Journal of Fire Protection 
Engineering, v. 11, n. 01, p. 4-15, fev. 2001. [ Links ] 
CLARET, A. M. Resistência ao fogo de estruturas: alternativas técnicas para a 
redução do custo da proteção passiva. Ouro Preto: LARIN, 2000. 12p. (Relatório 
Interno). [ Links ] 
CLARET, A. M. Análise de risco de incêndio em sítios históricos. Brasília: Programa 
Monumenta, 2007. 103p. (Cadernos Técnicos 5). [ Links ] 
CUSTER, R. L. P., MEACHAM, Brian J. Introduction to performance-based fire 
safety. Quincy: National Fire Protection Association, 1997. 260 p. [ Links ] 
MATTEDI, D. L. Uma contribuição ao estudo do processo de projeto de segurança 
contra incêndio baseado em desempenho. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro 
Preto, 2006. 208 f. (Dissertação de Mestrado em Construção Metálica). [ Links ] 
MEACHAM, B. J. Concepts of a performance-based building regulatory system for the 
United States. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON FIRE SAFETY SCIENCE, 
5. Proceedings... Melbourne: International Association for Fire Safety Science, 1997. p. 
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MEACHAM, B. J. The evolution of performance-based codes and fire safety design 
methods. NIST-GCR-98-761. Gaithersburg: National Institute of Standards and 
Technology, 1998. Disponível em: <http://fire.nist.gov/bfrlpubs/>. Acesso em: 08 mar. 
2004, 65 p. [ Links ] 
SOCIETY OF FIRE PROTECTION ENGINEERS. SFPE Engineering guide to 
performance-based fire protection analysis and design of buildings. Quincy: 
National Fire Protection Association, 2000. 170 p. [ Links ] 
 
 
 
A importância da segurança contra incêndio em elementos construtivos 
 
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Data: 26/10/2011 / Fonte: Revista Emergência 
Os objetivos fundamentais da segurança contra incêndio são: minimizar o 
risco à vida e reduzir a perda patrimonial. Entende-se como risco à vida a 
exposição severa à fumaça ou ao calor dos usuários da edificação e, em 
menor nível, o desabamento de elementos construtivos sobre os usuários 
ou equipe de combate. 
 
A principal causa de óbitos em incêndio é a exposição à fumaça tóxica ou 
asfixiante que ocorre nos primeiros momentos do sinistro. Assim, a 
segurança à vida depende, prioritariamente, da rápida desocupação do 
ambiente em chamas. Edifícios de pequeno porte, de fácil desocupação, 
exigem menos dispositivos de segurança e a verificação da estrutura em 
situação de incêndio pode ser dispensada. Edifícios de maior porte, em que 
há dificuldade de se avaliar o tempo para desocupação e que um eventual 
desabamento pode afetar a vizinhança ou a equipe de combate, exigem 
maior segurança e verificação das estruturas em incêndio. 
 
Um sistema de segurança contra incêndio consiste em um conjunto de 
meios ativos (extintores, hidrantes, detecção de calor ou fumaça, brigada 
 
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contra incêndio, etc.) e passivos (resistência ao fogo das estruturas, 
escadas de segurança, compartimentação, etc.). O nível mínimo de 
segurança contra incêndio, para fins de segurança à vida ou ao patrimônio 
de terceiros, geralmente é estipulado em códigos ou normas. 
 
É intrínseco ao ser humano exigir segurança em seu local de moradia e de 
trabalho. Eis porque a segurança contra incêndio é correntemente 
considerada no projeto hidráulico, elétrico e arquitetônico. Atualmente, sabe-
se que esta consideração deve ser estendida também ao projeto de 
estruturas de edificações de maior porte ou risco, em vista de os materiais 
estruturais perderem capacidade resistente em situação de incêndio. 
 
Leia o artigo completo na edição de outubro da Revista Emergência. 
 
Valdir Pignatta e Silva, Fabio Domingos Pannoni, Edna Moura Pinto 
e Adilson Antônio da Silva 
 
*Este artigo foi publicado originalmente no livro "A Segurança contra 
Incêndio no Brasil" com o título "Segurança das Estruturas em Situação de 
Incêndio", de Silva et al. (2008). Nesta edição, publicaremos a primeira parte 
do artigo. 
 
http://revistaincendio.com.br/ 
 
 
 
ABNT/CB-024 - Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio 
 
 
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ABNT/CB-024 – SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO 
SUPERINTENDENTE: José Carlos Tomina 
Secretaria Técnica: Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo 
Secretária: Rosane Servare 
Praça Clóvis Bevilacqua, 421 - 3 sobreloja 
01018-001 - São Paulo - SP 
Fone: (11) 3396-2324 - Fax: (11) 3396-2035 
mailto: cb24@abnt.org.br 
 
ÂMBITO DE ATUAÇÃO: Normalização no campo de segurança contra incêndio 
compreendendo fabricação de produtos e equipamentos, bem como projetos e 
instalação de prevenção e combate a incêndio e serviços correlatos; análise e 
avaliação de desempenho ao fogo de materiais, produtos e sistemas dentro dos 
ambientes a eles pertinentes;medição e descrição da resposta dos materiais, 
produtos e sistemas, quando submetidos a fontes de calor e chama, sob condições 
controladas de laboratório, no que concerne a terminologia, requisitos, métodos de 
ensaio e generalidades. Excluindo-se a normalização de equipamentos de proteção 
individual que é de responsabilidade do ABNT/CB-32. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Legislação de Segurança Contra Incêndio e Pânico - Decreto 
nº 897, de 21/09/76 e Legislações complementares 
• 
• 
 Disponibilizamos para consulta o Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico (COSCIP), 
Decreto nº 897, de 21 de setembro de 1976, que tem por propósito estabelecer os requisitos de 
segurança indispensáveis para as edificações construídas no território do Estado do Rio de 
Janeiro bem como as suas legislações complementares mais utilizadas. Clique AQUI para ler ou 
baixar em formato PDF o COSCIP 
Legislações Complementares: 
 Decreto-Lei Estadual N° 247 – 21/07/1975 – Atribui competência ao CBMERJ para realizar 
estudos, planejar, executar e fiscalizar normas que disciplinam a segurança das pessoas e seus 
bens contra incêndio e pânico em todo o Estado do Rio de Janeiro. 
 
Decreto Estadual N° 35.671 – 09/06/2004 – Segurança Contra Incêndio e Pânico nas 
Edificações anteriores ao Decreto n° 897/76. 
 
Lei Estadual nº 938, de 16/12/85 - Dispõe sobre medidas que garantam a segurança de 
assistentes de espetáculos públicos e dá outras providências. 
 
Lei Estadual nº 1535, de 26/09/89 - Medidas que orientem os frequentadores de recintos 
fechados em caso de acidentes. 
 
Lei Estadual nº 1587, de 14/12/1989 - que dispõe sobre a fabricação e o uso de para-
raios radioativos e dá outras providências. 
 
Lei Estadual nº 1866, de 08/10/91 - Proíbe a comercialização de fogos de artifício, artefatos 
pirotécnicos e dá outras providências. 
 
Lei Estadual nº 2026, de 22/07/92 -Proíbe a realização de espetáculos que impliquem 
maus tratos aos animais. 
 
Lei Estadual nº 2460, de 08/11/95 - Torna obrigatória a abertura de portas no sentido de 
dentro para fora em locais de reunião de público. 
 
Lei Estadual nº 2780 de 04/09/1997 – Obriga os condomínios fechados ao aumento das 
entradas para acesso de viaturas do Corpo de Bombeiros. 
 
Lei Estadual nº 2803 DE 07/10/1997 – Veda utilização e instalação subterrâneas para 
armazenamento ou transporte de combustíveis ou substâncias perigosas. 
 
Lei Estadual nº nº 3021, de 23/07/1998 – Autoriza a realização de rodeios e vaquejadas 
no Estado. 
 
Resolução SEDEC nº 109, de 21/01/1993 – Ficam aprovadas as Normas Técnicas n° 
EMG BM/7 001 e 002/1993. 
 
 
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Resolução SEDEC nº 111 de 09/02/93 – Define o Órgão próprio para a fiscalização dos 
estabelecimentos de diversões públicas. 
 
Resolução SEDEC nº 112, de 19/03/1993 – Fixa os valores a serem pagos pelos 
Estabelecimentos de Ensino do CBMERJ. 
 
Resolução SEDEC nº 124, de 17/06/1993 – Ficam aprovadas as Normas Técnicas n° 
EMG BM/7-003, 004 e 005-1 
 
Resolução SEDEC nº 125 – 29/06/1993 - Aprova a Norma Técnica n° EMG BM/7 006. 
 
Resolução SEDEC nº 135, de 16/09/1993 – Somente a Diretoria de Serviços Técnicos 
(DGST), emitirá o Laudo nos casos que estabelece. 
 
Resolução SEDEC nº 136, de 30/09/1993 - Preenchimento do Documento de 
Arrecadação de Emolumentos. 
 
Resolução SEDEC nº 142, de 15/03/1994 - Baixa instruções complementares para 
execução do Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico (COSCIP), dando nova redação à 
Portaria-002/78, e às Notas Técnicas, Normas Técnicas e Ordens de Serviço emitidas após a 
vigência do mesmo, até o ano de 1992 
 
Resolução SEDEC nº 148, de 25/05/1994 – Define normas de procedimentos na análise 
dos projetos de edificações. 
 
Resolução SEDEC nº 166, de 10/11/1994 – Baixa instruções suplementares ao Decreto n° 
897/1976 - COSCIP. 
 
Resolução SEDEC nº 169, de 28/11/1994 - Baixa Instruções complementares para a 
apresentação de projetos de segurança contra incêndio e pânico na Diretoria Geral de Serviços 
Técnicos do CBMERJ 
 
Resolução SEDEC nº 180, de 16/03/1999 – Aprova a utilização das tubulações de cobre 
nas instalações preventivas. 
 
Resolução SEDEC nº 278, de 21/12/2004 - Dá nova redação aos dispositivos da Resolução 
N° 112. 
 
Resolução SEDEC nº 279, de_11/01/2005 – Dispõe sobre a Avaliação e a Habilitação do 
Bombeiro Profissional Civil. 
 
Resolução SEDEC nº 284, de_25/04/2005 – Institui o novo Documento de Arrecadação de 
Emolumentos do Corpo de Bombeiros - DAEM, e dá outras providências. 
 
Portaria CBMERJ nº 383, de_10/03/2005 – Regulamenta os dispositivos da Resolução n° 
279/2005, que trata a Avaliação e a Habilitação do Bombeiro Profissional Civil. 
 
 
 
 
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A NOCIVIDADE NO TRABALHO: contribuição da ergonomia 
 
Ada Ávila Assunção 
Francisco de Paula Antunes Lima 
ASSUNÇÃO, A.A.; LIMA, F.P.A.. A contribuição da ergonomia para a identificação, 
redução e eliminação da nocividade do trabalho In: MENDES, R. Patologia 
do Trabalho. 2.ed. atualizada e ampliada. São Paulo: Atheneu, 2003. vol.2, parte III, cap.45, 
p.1767-1789. 
 
OS LIMITES DA EPIDEMIOLOGIA E DA HIGIENE PARA SE COMPREENDER A 
NOCIVIDADE NO TRABALHO 
A maioria das pesquisas sobre as causas dos problemas de saúde no trabalho se contentam 
em identificar os fatores de risco de uma doença, ou aqueles que possam alterar um estado de 
saúde. 
O conceito clássico designa risco como um fator cuja presença está associada a uma maior 
probabilidade de que determinada doença venha a se desenvolver. Mas quando se trata da 
prevenção dos danos à saúde dos trabalhadores, considerar a nocividade como fator é um erro 
conceitual, não sem poucas conseqüências na elaboração de medidas preventivas. 
Dentro do objetivo de melhorar a saúde no trabalho, de prevenir os acidentes, vigiar as 
instalações perigosas, de construir sistemas de trabalho que não seriam apenas destinados aos 
jovens homens em boa saúde, mas também às mulheres, aos velhos, aos incapazes fisicamente 
(Wisner, 1993)68, a listagem ou os check-lists de fatores de risco é insuficiente. 
Primeiramente, este instrumento não considera a ação de homens e mulheres reunidos por 
objetivos semelhantes em situações de trabalho. Desconsiderando a ação individual e 
coletiva dos trabalhadores, não apreende os complexos mecanismos de evitação do risco, seja 
pela elaboração de estratégias individuais (Gaudart, 1996)19, seja pela elaboração de 
estratégias coletivas (Assunção, 1998-3; Pueyo & Gaudart, 1997-51). 
O mais usual dos instrumentos de análise de postos de trabalho são as listas de verificação 
(ou check lists). Estas listas tem uma série de vantagens: são facilmente utilizáveis e bastante 
completas quanto aos itens considerados, pois sistematizam a experiência e o conhecimento já 
consolidado. Além de funcionarem como instrumentos de medida e de avaliação, servem de 
 
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ajuda à memória, evitando que se esqueça algum item importante na fase de análise ou de 
controle dos riscos. Entretanto, o que constitui sua principal vantagem é também a sua 
principal fraqueza. 
Quanto mais geral um instrumento, menos ele permite identificar problemas específicos dasituação de trabalho e dos modos operatórios. Assim, uma lista extensa de fatores que podem 
causar as LER, por exemplo, permite ver apenas o que já é conhecido e comum a todos os 
postos de trabalho, mas não aquilo que é específico aos postos em questão. Para usar um 
exemplo do cotidiano, é mais ou menos como aquelas pessoas que, para resolver seus 
problemas de visão, eram obrigadas a escolher uns óculos no conjunto exposto na banca do 
feirante. Certamente elas conseguiam enxergar melhor, mas não tão bem quanto poderiam se 
tivessem lentes corretivas personalizadas. 
Da mesma forma, na análise ergonômica do trabalho é necessário desenvolver técnicas de 
observação específicas e não usar check lists padronizados. 
Mas por que os check lists não funcionam e apenas fornecem, na verdade, uma visão grosseira 
e deturpada das condições de trabalho? Em primeiro lugar, quem os utiliza corre o risco de 
só enxergar o que a lista permite ver, isto é, o que ela já contém. Dessa forma, deixa-se de 
lado tudo o que pode ser diferente do que já se conhece sobre o problema a ser analisado. É 
evidente que esse tipo de análise deixa escapar a causa de novos problemas ou então a 
especificidade de cada situação de trabalho, incluindo o próprio trabalhador no que ele tem 
de singular. 
O uso de check lists comporta outros vícios inerentes ao próprio instrumento. Além de incluir 
apenas o que já se sabe sobre um problema, os check lists pretendem servir de instrumentos de 
avaliação e medida do risco de um determinado posto de trabalho, quando se trata de uma 
relação multifatorial. 
Aqui, a deficiência advém precisamente da extensão exagerada dos itens considerados. 
Quando se inclui um item que não é pertinente àquele posto, tende-se a diminuir a 
probabilidade da situação ser considerada de risco. Todos os fatores se eqüivalem. No caso 
das LER, por exemplo, a repetitividade é comparada ao uso de luvas, manipular materiais 
congelados ou estar submetido a vibração. Não se analisa como esses fatores se associam e se 
relacionam num posto de trabalho e atividade específicos, mas apenas se estão presentes ou 
não numa situação de trabalho. O que se ganha em facilidade e amplitude, perde-se em 
acuidade e profundidade necessárias para entender a complexidade da situação de trabalho. 
 
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O princípio subentendido do check-list é que o parâmetro de comparação adotado passa a ser 
um posto de trabalho no qual estariam presentes todos os fatores desfavoráveis - na verdade 
um posto que não existe em lugar algum -, quando de fato se verifica que a presença de 
apenas um fator, dependendo da sua intensidade, pode desencadear as LER, e que há fatores 
que são preponderantes, notadamente o ritmo de trabalho e as posturas estáticas. 
Assim, mais importante do que reconhecer a presença de riscos, é saber como um fator 
determinado, afeta o corpo do trabalhador. Isto só é possível quando se entende como as 
pessoas trabalham, isto é, quando se compreende o que é a atividade de trabalho. 
Visto sob este ângulo, risco e condição insegura são relações, e não um fator ou uma 
condição em si. Pois, em primeiro lugar, os fatores de risco presentes nos ambientes 
de trabalho se combinam quando eles agem sobre o organismo. E além disso, um fator de 
risco tem repercussões variadas sobre o corpo. 
Em segundo lugar, os fatores de risco podem ter consequências sobre vários aspectos da vida 
do indivíduo. Por exemplo, as perturbações do sono e os problemas familiares em caso 
de trabalho noturno. 
Em terceiro lugar, a maioria dos estudos sobre os riscos à saúde dos trabalhadores repousa 
sobre a observação de grupos populacionais definidos pela sua exposição ou pela patologia 
profissional. O objetivo é estabelecer uma relação entre os fatores de risco (químicos, físicos, 
biológicos e ou ligados à organização do trabalho) e as doenças diagnosticadas. E quando 
não se conhece nenhum e nem outro, o que fazer diante das queixas ditas inespecíficas? 
 
OS LIMITES DA SEGURANÇA DO TRABALHO 
A análise e a prevenção de acidentes tem se apoiado essencialmente na confiabilidade dos 
sistemas técnicos, o que permitiu elevar o patamar de segurança naqueles setores onde há 
condições favoráveis à sua aplicação, como a aeronáutica, aeroespacial e nuclear1. Desta 
forma, pelo menos em setores considerados estratégicos, pôde-se chegar a uma taxa 
relativamente reduzida de acidentes (ver PERROW, 1984-49; REASON, 1990-52; 
AMALBERTI, 1996-2). Todavia, não há mais avanços significativos nesta área desde os anos 
70, quando a taxa de acidentes nos setores mencionados atingiu um patamar que gira em torno 
de um evento por milhão. Se esta taxa for comparada à frequência de acidentes em outros 
setores, é evidente que houve um relativo progresso da segurança. Não obstante, os acidentes 
que ocorrem são considerados inaceitáveis, em parte precisamente devido à imagem 
 
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de segurança que lhes é associada. Além disso, o caráter catastrófico desses eventos (em 
alguns casos acarretando também danos e efeitos prolongados sobre o meio ambiente) faz 
com que a baixa frequência seja pouco significativa, devido ao aumento da gravidade dos 
acidentes. 
Mais recentemente, ao reconhecer as limitações das técnicas de confiabilidade, 
a engenharia de segurança começou a se interessar pelo fator humano, tentando estender ao 
comportamento humano os mesmos princípios e modelos utilizados para analisar os 
dispositivos técnicos, o que, evidentemente, não resolverá de todo o problema, porquanto, 
quando muito, se chegará ao mesmo impasse anterior (para uma análise crítica das técnicas de 
confiabilidade aplicadas à análise do erro humano ver Reason,1990-52). Entretanto, nessa 
tentativa enviesada há o reconhecimento de que o “fator humano” constitui um elo 
fundamental na operação dos sistemas sociotécnicos. 
Este breve balanço serve apenas para indicar que a prevenção de acidentes encontra-se diante 
de limites que colocam em xeque a prática convencional da engenharia de segurança. De 
modo geral, esses limites se manifestam nos seguintes aspectos, internos e externos 
à segurança propriamente dita: 
1) supremacia da produção e do lucro a curto prazo em relação à segurança; 
2) limitações da legislação e da normatização para garantir uma melhoria contínua 
da segurança dos sistemas produtivos; 
3) ineficácia das prescrições de comportamentos e de procedimentos seguros, como tentativa 
de evitar os ditos “erros humanos”; 
4) ação meramente corretiva quando se trata de “acidentes normais” e de riscos latentes 
inerentes aos sistemas complexos. 
Cada uma dessas limitações constitui, ao mesmo tempo, um limite do conhecimento, da 
formação e da prática da engenharia de segurança. 
 
Além das pressões sociais e de interesses específicos em jogo, esses setores possuem outras 
características que favorecem o desenvolvimento e a aplicação de técnicas sofisticadas de 
confiabilidade: base técnica desenvolvida (incluindo os processos de fabricação de 
componentes), facilitando o controle em toda a cadeia produtiva; custo elevado das 
instalações e das perdas decorrentes de possíveis acidentes, fazendo com que a balança da 
análise custo/benefícios penda na direção da prevenção. 
 
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1. Supremacia da produção e do lucro a curto prazo em relação à segurança 
É uma questão antiga se a produção e o lucro são compatíveis com boas condições 
de trabalho e com a segurança.Comumente esta questão é colocada na forma de análise de 
custos e benefícios, através da qual se tenta demonstrar que a segurança se paga. Noutros 
termos, as melhorias de condições de trabalho deveriam ser consideradas como um 
investimento, em pé de igualdade com qualquer outro investimento produtivo, e não como um 
custo que apenas onera a produção. 
Todavia, os esforços direcionados à demonstração dessa compatibilidade e de convencimento 
dos empresários nunca deram resultados. 
A análise de custos x benefícios não aumenta a segurança, ao contrário, coloca-lhe peias, 
pois assume como pressuposto que as ações voltadas à segurança devem se pautar pelos 
cálculos de retorno financeiro. Se uma melhoria de condições de trabalho não propicia o 
retorno esperado ou se o retorno for muito incerto, então não se justificaria o investimento. 
Somente uma crença metafísica na compatibilidade total entre boas condições de trabalho e 
produtividade poderia justificar os investimentos, mas a realidade tem desmentido esse 
princípio em várias situações práticas, onde outros critérios acabam prevalecendo no 
momento de tomada de decisão. Assim, dependendo do custo da mão-de-obra, quando ela é 
muito barata é mais vantajoso, e tolerável segundo uma perspectiva puramente econômica, 
conviver com um número elevado de acidentes: considera-se “natural” convivermos com 
piores condições de trabalho no Brasil do que na Europa. 
O risco é parte inerente da atividade humana. O domínio do homem sobre a natureza só se 
desenvolve quando objetos desconhecidos são explorados. Não há como fazê-lo sem assumir 
uma certa dose de risco. De certa forma, o risco é o preço que se paga ao desenvolvimento da 
própria capacidade humana de tornar a vida mais confortável e mais segura. Todavia, esta 
argumentação abstrata não justifica a distribuição desigual dos riscos e das responsabilidades 
entre trabalhadores e os tomadores de decisão. Esse é o ponto falho da ideologia do “risco 
social”, que tolera os acidentes em nome do progresso econômico. 
Segundo Celso B. Leite, ex-secretário da Previdência Social, os acidentes e doenças 
do trabalho deveriam ser considerados como um “risco social”, sendo inadequada a 
concepção de risco profissional que acarreta a responsabilidade civil da empresa. De acordo 
com o autor, a concepção de que “são as máquinas da empresa que ferem ou matam os 
 
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empregados acidentados (...) pode ter tido suas razões de ser, mas hoje está ultrapassada, 
não só pelo seu teor de paternalismo mas também porque a mecanização das atividades é um 
imperativo do desenvolvimento tecnológico”. 
Sendo assim, afirma que “o risco profissional constitui de fato o inevitável <<risco do 
progresso>>, inerente ao anseio humano por recursos mecânicos e técnicos sempre mais 
avançados.” (Leite, 1977)28. 
Se não é possível o progresso sem acidentes, talvez seja possível com menos acidentes, ou 
mesmo diminuir o ritmo do desenvolvimento tecnológico para avaliar e controlar melhor os 
riscos. Não se trata, aqui, de contrapor utopias às necessidades econômicas, mas apenas 
reconhecer que a taxa de acidentes não é algo inevitável, inerente ao progresso técnico, mas 
sim socialmente determinada, segundo critérios de tolerância de cada época. 
Uma área particularmente crítica é precisamente aquela que está na dianteira do progresso 
técnico: a ciência. Nem sempre os próprios cientistas e seus auxiliares estão protegidos dos 
riscos decorrentes de suas atividades (contaminação por substâncias tóxicas e radioativas, ou 
por microorganismos etc.). Mas também aqui não é inevitável que esses riscos sejam 
assumidos pelos “trabalhadores da linha de frente”. Um certo controle social poderia 
minimizar os efeitos imprevisíveis desta atividade que está no limiar do conhecimento2. 
Assumir riscos também faz parte das atividades cotidianas que se desenrolam em qualquer 
processo produtivo. O que difere em cada atividade ou situação é a gravidade dos riscos e das 
consequências das decisões, o que também altera a forma de se estabelecerem compromissos 
entre objetivos conflitantes. Em certas situações os efeitos de decisões equivocadas podem ser 
corrigidos sem acarretar maiores consequências, em outras não se pode permitir o erro. 
Trabalhar implica necessariamente suprir as lacunas do que foi prescrito e, diante do real, para 
ser eficiente o trabalhador assume a responsabilidade por certas decisões (ver Quadro 4- 
Acidente do manobrista de locomotiva). Parte dessa realidade do trabalho é, hoje, 
reconhecida e incentivada através da melhoria contínua, do aumento do desempenho e da 
busca incessante de recordes de produção. O mundo da produção é invadido por performances 
esportivas: se fala em times e equipes, em bater recordes e em premiações. Mas quem arbitra 
o jogo? Quem decide o risco aceitável? Hoje, o maior obstáculo para a prevenção é que estas 
questões nem mesmo são colocadas: cada vez mais os móbiles da eficiência predominam 
sobre a segurança e sobre a prudência. 
 
 
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2. A prática prevencionista como simples aplicação de leis e normas 
A intervenção da engenharia de segurança tem se limitado às exigências legais. Esse viés 
profissional do engenheiro de segurança está relacionado, entre outras coisas, ao próprio 
surgimento da profissão no Brasil, no bojo de uma série de medidas que procuravam conter o 
escândalo dos recordes de acidentes de trabalho nos anos 60 e 70. Os serviços de segurança 
internos à empresa e a presença do engenheiro de segurança se tornaram obrigatórios por 
força de lei, o que favorece um certo desvio da prática prevencionista. A reserva de mercado 
do engenheiro de segurança tem como contrapartida a ação nos limites do previsto na lei e de 
forma apenas legal. 
Não importa se a prevenção está sendo efetiva, importa se a lei está sendo cumprida. 
Há uma série de procedimentos, todos criados com as melhores intenções, que se tornam 
meros rituais uma vez que são incorporados à legislação e tornados obrigatórios na prática 
da engenharia de segurança e de outras profissões relacionadas à saúde ocupacional. O caso 
da NR-17, com a fixação de limites para entrada de dados, é paradigmático: desde que o 
número de toques esteja abaixo do limite legal, os novos casos de lesões por esforços 
repetitivos são descaracterizados e atribuídos a outras causas não relacionadas ao trabalho. O 
mesmo ocorre com a obrigatoriedade dos mapas de risco, do PCMSO e do PPRA, cumpridos 
apenas de forma ritualística e muitas vezes sem benefícios diretos para a segurança e a saúde 
do trabalhador. 
Ser engenheiro de segurança corresponde cada vez mais a saber de cor a pequena “bíblia 
verde”, o livro que contém as portarias e normas regulamentadoras. A discussão em torno de 
alterações das normas mobiliza mais tempo e esforço do que qualquer outra ação em prol 
da segurança. Não se pretende, aqui, menosprezar a importância da legislação e de seu 
aperfeiçoamento, mas sim colocar em questão o fato de que a aplicação da lei tenha se 
tornado a maior habilidade dos engenheiros de segurança. 
2 Para uma proposta de controle social das inovações industriais, ver Castleman (1979)10. 
 
Além dessa deturpação evidente da prática prevencionista, as ações nos limite da lei reforça a 
ideia de culpabilidade. Dessa forma voltamos à época da caça às bruxas, do bode expiatório, e 
nos afastamos do espírito das luzes que caracteriza a produção incessante de conhecimento 
necessário para fazer face a eventos incertos e imprevisíveis como são os acidentes. 
 
 
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3. Ineficácia das prescrições de comportamentos e de procedimentos seguros 
A engenharia de segurança é essencialmente fundada em normas e prescrições de atos 
seguros. 
Por isso, a maior parte das análises desemboca na identificação de atos inseguros. O acidente 
corresponde ao ato inseguro, a causa é substituída pela culpa ou responsabilidade penal, o 
inquérito policial substitui a análise das circunstâncias e do processo de produção. Não é a 
conclusão quanto aos atos inseguros que leva à prevenção baseada em mudanças de atitude e 
de comportamento, mas a sim a concepção racionalizante de que o comportamento humano é 
determinado exclusivamente pela consciência e que, portanto, o acidente decorre da falta de 
consciência do risco. O caso do acidente com o manobrista de locomotiva descrito no quadro 
4 mostra os limites desta concepção. 
Se o trabalhador não usa o cinto de segurança não se procuram as causas objetivas e as 
circunstâncias que o levaram a se comportar desta forma: a análise esbarra na classificação de 
ato inseguro e de imprudência. Quando deveria estar à frente da legislação, aperfeiçoando-a, a 
prevenção anda, em verdade, a reboque do direito. 
O caso do mapa de risco é típico. Criado no seio do movimento operário italiano como um 
elemento de um conjunto de instrumentos de controle social da exposição a riscos 
ocupacionais, tornou-se, no Brasil, um instrumento burocrático e um simples meio de 
comunicação que enfeita paredes de escritórios e galpões, aos quais ninguém mais presta 
atenção e nem poderia prestar, tão atarefados estão com a produção. É hoje o símbolo maior 
do fetiche da consciência do risco, como se a regulação do comportamento decorresse direta e 
unicamente da consciência dos indivíduos. Mais ainda, o mapa de risco reflete um princípio 
cartesiano-racionalista extremado: todos os riscos podem ser identificados, quantificados e 
localizados fisicamente no ambiente de trabalho. Não se consideram as interações entre 
riscos, que podem se potencializar, sua evolução temporal e tampouco os determinantes não 
materiais das situações de trabalho. Escapam a esta técnica de análise e de registro os 
“acidentes normais”3 e os “riscos latentes” (Reason, 1990)52, que não são diretamente 
visíveis ou que resultam de interações complexas entre falhas menores. 
 
4. Ação corretiva quando se trata de “acidentes normais” (sistemas complexos) 
 
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Os engenheiros e técnicos de segurança são treinados para aplicar técnicas, não para 
desvendar casos, interpretar e propor novas explicações e evidenciar a complexa trama causal 
dos acidentes. 
De modo geral, somos treinados a ver os acidentes como eventos anormais, e não a ver nos 
eventos normais do cotidiano a origem potencial e latente dos acidentes. 
A prevenção encontra-se, assim, diante de um paradoxo: os “acidentes normais” reduzem a 
prática de segurança a uma ação meramente corretiva; só analisamos e agimos após o fato 
ocorrido. Os engenheiros se tornam bombeiros correndo atrás do prejuízo e apagando 
incêndios. Podemos ainda falar de prevenção se é necessário esperar que certos tipos de 
acidentes ocorram para somente então admitir sua possibilidade? 
Se a resposta é afirmativa, então é necessário reconhecer que a casualidade passa uma rasteira 
na causalidade e voltamos às explicações dos acidentes como fatalidade, a fortuna contra a 
qual os homens nada podem fazer. Na prática, os acidentes que continuam ocorrendo, apesar 
dos programas de prevenção, são considerados como decorrentes da fatalidade, de eventos 
fortuitos imprevistos e imprevisíveis. No entanto, é bem possível que, tal como em uma 
crônica de uma morte anunciada, eles tenham se manifestado através de sinais aos quais não 
foi atribuída nenhuma importância. 
Os engenheiros de segurança e as técnicas convencionais não são capazes de explicar esses 
eventos, nem de aprender com eles, o que seria possível caso a análise evidenciasse alguns 
princípios gerais, permitindo se antecipar a outros acidentes que possuem uma mesma 
natureza. 
 
3 O termo “acidentes normais” foi cunhado por Perrow (1984)48 para caracterizar acidentes de grandes 
proporções que ocorrem quando o sistema está funcionando bem ou quando apresenta falhas menores. 
Esses acidentes decorrem da complexidade dos sistemas, cujas intrincadas relações criam situações que fogem 
ao controle dos operadores e que também não podem ser antecipadas pelos especialistas em segurança. 
 
Há, aqui, uma defasagem entre a produção de novos conhecimentos, teorias e metodologias 
de análise e sua assimilação pela prática. A pesquisa própria, isto é, por iniciativa dos técnicos 
e engenheiros, e a incorporação de novas teorias à prática de prevenção avançam lentamente e 
apenas como casos isolados. 
A aprendizagem constante, o interesse em investigar as causas dos acidentes, a preocupação 
em desvendar a trama complexa dos acidentes normais, em vasculhar o palheiro em busca das 
agulhas que são os incidentes e os mecanismos de regulação cotidianos, em identificar e 
 
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desarmar as bombas-relógio que são os acidentes latentes, nada disso instiga os 
prevencionistas que se limitam a aplicar as normas para deixar a sua consciência jurídica 
dormir em paz. 
 
A atividade de trabalho é contextualizada 
Uma dos aspectos que ajuda a explicar a diferença entre o trabalho prescrito e 
o trabalho real é que a atividade se realiza sempre em contextos específicos. Apesar da 
tentativa de se controlar todos os fatores intervenientes na produção, sempre ocorrem 
incidentes e variações que mudam a situação de trabalho: a matéria-prima não é fornecida a 
tempo ou na qualidade desejada; as ferramentas se desgastam, as máquinas se desregulam ou 
quebram; colegas faltam ou entram novatos na equipe; os modelos de produtos se modificam; 
etc. Mesmo se todos esses parâmetros fossem controlados e mantidos dentro de margens 
de segurança aceitáveis, ainda assim haveria algo que sempre muda, o próprio trabalhador: 
hoje está mais cansado do que ontem, não dormiu direito, está preocupado com a falta de 
dinheiro, neste ano está evidentemente mais velho do que no ano anterior, mas também mais 
experiente, aprendeu como fazer esta montagem que era considerada difícil, desenvolveu mais 
uma habilidade etc. 
Portanto, longe de ser um conjunto de regras conhecidas de antemão, a atividade é um 
conjunto de regulações contextualizadas, no qual tomam parte tanto a variabilidade do 
ambiente quanto a variabilidade própria ao trabalhador. Por isso, para se entender o que é 
o trabalho de uma pessoa, é necessário observar e analisar o desenrolar de sua atividade em 
situações reais, em seu contexto, procurando identificar tudo o que muda e faz o trabalhador 
tomar micro-decisões a fim de resolver os pequenos mas recorrentes problemas do cotidiano 
da produção. Estas situações são tão numerosas, e dependentes das circunstâncias, que os 
trabalhadores as esquecem tão logo o que as motivou desapareça. Por esta razão, a análise 
ergonômica do trabalho requer um longo tempo de observação, acompanhando o trabalhador 
durante a realização de suas tarefas e em situações variadas. 
 
A atividade de trabalho funda-se sobre regulações subconscientes 
Um outra dificuldade para compreender a atividade de trabalho é que várias das habilidades 
desenvolvidas pelos trabalhadores tornam-se automatismos, isto é, hábitos de comportamento 
que são eficazes, mas que são colocadosem prática de forma subconsciente. Por isso, não 
 
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basta perguntar aos trabalhadores quais são as dificuldades de sua tarefa, porque grande parte 
dos problemas já se tornaram “naturais”, isto é, não são mais percebidos como problemáticos. 
A atividade está fundada na experiência dos trabalhadores, que se desenvolve ao longo da 
vida profissional. Quando perguntados sobre como realizam uma tarefa, os trabalhadores 
sempre dizem que é no “olhômetro”, no “sentimento”, forma como traduzem a sua 
experiência acumulada, às vezes duramente devido às restrições da organização do trabalho. 
Esta experiência se manifesta num “simples” toque de dedo para ajustar uma peça; num golpe 
de vista para avaliar um empeno, na escuta atenta para perceber se a máquina está bem 
regulada etc. 
É sobretudo em razão dessas competências tácitas que as tentativas de rodízio entre funções 
dificilmente são bem sucedidas. Quando se quer mudar um trabalhador de um posto 
menospreza-se o tempo que lhe foi necessário para conseguir fazer o trabalho atual com mais 
facilidade, e o tempo que será necessário para desenvolver as novas habilidades para realizar a 
outra tarefa. Como parte desta experiência se tornou subconsciente, nem o próprio trabalhador 
sabe explicar claramente como faz o seu trabalho e todos os macetes que adquiriu. Age como 
um peixe dentro d’água. Dessa forma, não consegue transmitir tudo o que sabe e quase 
sempre fica impaciente com os novatos, pois tudo lhe parece tão simples e evidente que o 
trabalhador experiente não entende mais porque o outro não trabalha tão bem quanto ele ou 
não aprende logo. Mesmo pessoas experientes que são emprestadas para outros setores têm 
dificuldades de se ajustarem à forma de trabalhar de outra equipe. 
Essas dificuldades para analisar a atividade podem ser contornadas através de métodos e 
técnicas de observação apropriadas, capazes de evidenciar esses conhecimentos tácitos, que 
não se mostram a um olhar menos cuidadoso. 
Além desses seis ingredientes identificados por Schwartz, dependendo das condições para 
construir tais competências, os trabalhadores desenvolvem a longo termo um saber sobre as 
propriedades das suas próprias ações, sua eficácia, e suas próprias possibilidades. A partir da 
reflexão sobre seus sucessos e seus fracassos, o indivíduo constrói uma representação sobre os 
pontos fortes e os pontos fracos a qual lhe permite evitar deficiências que ele diagnostica no 
transcorrer da sua atividade (Amalberti, 1996)2. 
Os metaconhecimentos, quer dizer, a representação das suas próprias possibilidades 
desempenham um papel essencial no ajuste das ações tendo em vista o seu fim (Valot et coll., 
1993)64, e podem contribuir, uma vez levados em conta nas análises das situações 
 
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de trabalho, no planejamento de ações preventivas mais coerentes e eficazes. Trata-se de um 
saber específico do trabalhador sobre as suas próprias competências num campo particular ou 
numa situação dada. Os metaconhecimentos, ou o saber sobre o seu corpo e sobre si mesmo, 
orientam a atividade mesmo quando as margens de liberdade deixadas pela organização 
do trabalho são estreitas. Estes saberes específicos têm a função de permitir ao trabalhador 
ajustar o modo operatório aos seus recursos cognitivos e fisiológicos e jogam favoravelmente 
na construção da saúde. Por exemplo, às 3h o operador da sala de controle evita navegar sobre 
um grande número de telas procurando parâmetros para fazer um diagnóstico, ele adota 
“atalhos”, e poupa o esforço cognitivo necessário para compensar a queda de vigilância 
devido ao ritmo circadiano (Terssac et. al., 1983)62. 
Individualmente, a mobilização das competências adquiridas com a experiência estaria na 
base da elaboração dos modos operatórios, os quais podem ser considerados estratégias para 
compensar certos declínios nas funções psicofisiológicas. Com a experiência, se a 
organização do trabalho permite, os operadores adaptam cada vez mais suas estratégias em 
função do seu custo físico, em termos de esforços a fornecer e do tempo destinado à 
realização das tarefas. Os estudos mostram uma mudança das estratégias para evitar a 
mobilização de funções degradadas nas situações conhecidas (Assunção 1998)3. Para atingir 
um objetivo, o sujeito colocaria em marcha uma estratégia de desvio da dificuldade por 
evitação (Marquié, 1995)40. Por exemplo, o operário de uma indústria de automóveis verifica 
mais freqüentemente as fichas no posto de trabalho, ele desconfia da sua capacidade de 
memória e antecipa, tomando as mesmas informações mais de uma vez, para não se encontrar 
sob pressão temporal (Gaudart, 1996)19. 
 
4. PRINCÍPIOS PARA UM MODELO ALTERNATIVO DE ANÁLISE E 
PREVENÇÃO 
A relação entre produção do conhecimento e prática de transformação 
Toda ciência ou abordagem específica de uma dada disciplina defronta-se com o problema de 
transformar a realidade, isto é, de traduzir em prática os conhecimentos que produziu. 
Todavia, dependendo dos princípios que a orientam, a distância entre saber e fazer pode ser 
maior ou menor. 
O descompasso entre os objetivos científicos e os da prevenção transparece, por exemplo, no 
caso dos efeitos dos fatores de risco sobre a reprodução humana. Os agentes químicos podem 
 
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afetar a maturação das células germinativas e o equilíbrio endócrino e, após um acúmulo no 
organismo, até mesmo afetar uma gravidez futura. Esperamos os resultados dos estudos ou 
que os efeitos apareçam para que possamos intervir nas situações de trabalho? Encontramos 
aqui a questão de Joffe (1992)24: é preciso esperar um século para obter os resultados dos 
estudos prospectivos, um século antes de explicar, por exemplo, as causas de mal formações 
provavelmente relacionadas com a utilização de substâncias químicas? 
Se por um lado existem questões a serem esclarecidas pela ciência, por outro lado, muitos 
resultados de pesquisas são redundantes, por exemplo, a repetição de estudos transversais 
sobre os efeitos neurocomportamentais de solventes em grupos de expostos produzindo ou 
reforçando resultados já bastante conhecidos (Hogstedt et Lundberg, 1992)23. E os 
trabalhadores continuam expostos. Alguns destes estudos partem de casos-controles, onde os 
indivíduos já estão doentes. 
Parece que as aquisições da ciência não jogam necessariamente a favor da diminuição da 
desigualdade social entre os mais protegidos e os mais expostos. Está aí o exemplo do 
amianto, o conhecimento sobre os seus efeitos não impediu, até hoje, que os trabalhadores 
ficassem expostos. 
Além disso, as medidas de prevenção são oriundas de estudos que se baseiam 
no trabalho prescrito e não no trabalho real. Elas analisam dose, tempo de exposição, idade 
(enquanto variável), mas não a maneira como o trabalhador cumpre o objetivo determinado 
pela organização. Talvez aprofundando o estudo da diferença entre o trabalho real e 
o trabalho prescrito em situações concretas de produção possamos explicar o resultado 
paradoxal obtido por Hagberg (1988)21: apenas 20% do transporte de peso relatado pelos 
trabalhadores nos questionários pode ser comprovado à observação direta. Todavia 
poderíamos atribuir esse resultado aparentemente paradoxal a um viés de método: talvez essa 
diferença não teria aparecido se tivessem sido feitas análises sistemáticas em situação real 
de trabalho. 
Da mesma forma, os estudos que avaliam as variações da funçãopulmonar de operários 
expostos a isocianatos durante a jornada de trabalho têm o objetivo de avaliar os riscos 
respiratórios e de conhecer os mecanismos de sensibilização a estas substâncias, mas se 
preocupam pouco em saber como os trabalhadores estabelecem estratégias para evitar a 
exposição. A investigação da exposição pregressa se contenta em identificar a presença ou 
não do risco em algum período do seu passado profissional, sem interrogar sobre as possíveis 
 
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estratégias elaboradas pelos pacientes para evitar o risco a que sempre estiveram expostos, e 
porque, em um determinado momento (a ser explorado), essa estratégia falhou ou não foi 
possível ser implementada por ele na intimidade da sua atividade de trabalho. 
Uma questão fundamental, nem sempre problematizada, diz respeito à possibilidade efetiva de 
conciliar eficiência da produção com a saúde e conforto dos trabalhadores, isto é, se saúde e 
produção são sempre compatíveis. Na prática, sempre que há uma contradição manifesta entre 
produção e saúde, é esta última que acaba sofrendo. Assim, se fazem horas-extras para 
cumprir prazos de entrega; acelera-se o ritmo de trabalho para recuperar atrasos, paradas 
inesperadas ou refugos; se dobra turno em caso de absenteísmo; trabalha-se à noite para fazer 
com que as máquinas não parem; mesmo quando o trabalho é facilitado por alguma melhoria 
do processo, tende-se a aumentar o ritmo e a meta de produção; e assim por diante. 
O princípio ergonômico é que a produção deve ser adequada às características, limites e 
capacidades dos homens e não o contrário. E este princípio deve valer imediatamente para 
organizar o trabalho (ritmo, pausas, posto, metas, rodízio de tarefas, etc.) e não esperar até 
que se encontre uma solução técnica que minimize a carga de trabalho. Esses 
aperfeiçoamentos técnicos são evidentemente sempre bem-vindos, mas não se pode deles 
esperar uma solução, pois o que define carga de trabalho é a divisão e a organização das 
tarefas e não as técnicas e processos de fabricação4. A crença de que há uma solução técnica 
para todos os problemas de saúde ocupacional, sem mudar a forma de organização da 
produção, apenas retarda uma mudança mais efetiva, que requer alterações profundas na 
forma de produzir (ver Quadro 3 – A atividade do caixa de supermercado). 
 
4 Há uma exceção importante a esta afirmação, que é válida apenas para processos de produção (ou partes dele) 
mecanizados ou automatizados. Quando o processo de trabalho ainda é manual, como na montagem, o método 
de fabricação é idêntico à divisão de tarefas e à sua organização (ritmo, pausa, et.). Em consequência, definir o 
método de trabalho é definir diretamente o que será a carga de trabalho. Mas isto também quer dizer que o 
método de trabalho manual deixa de ser uma simples questão técnica, sob responsabilidade exclusiva dos 
engenheiros de tempos e métodos: dividir tarefas e organizar o trabalho é essencialmente uma questão social, 
que depende, portanto, de negociações entre trabalhadores e patrões. 
Por esta razão, os estudos de tempos e métodos não têm fundamento científico. 
 
 
A ergonomia, ao fundar a análise e a prevenção na compreensão da atividade, dispõe de meios 
mais eficazes para implementar mudanças pertinentes (ver Quadro 1- caso da oficina de 
solda). 
 
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Para além das questões de ordem econômica, a efetividade das mudanças requer medidas 
compatíveis com os objetivos e meios usuais para realizar o trabalho. Não é incomum ver 
dispositivos de segurança desligados ou desativados, regras de segurança desobedecidas, 
EPIs não utilizados porque sua especificação desconsiderou necessidades inerentes à 
realização da atividade. Entrando em conflito com a produção, o mais comum é que 
a segurança seja menosprezada. 
No caso do campo eletromagnético, Thériault (1992)63 sublinha que não é difícil observar os 
trabalhadores em empresas de distribuição e manutenção de energia elétrica para testar a 
hipótese de uma relação entre o câncer e a exposição a esse risco físico. Concordamos com 
este autor quando ele afirma: o mais difícil seria implementar as medidas de eliminação do 
risco de câncer. 
Elaborar as medidas de prevenção dos danos à saúde provocados pelas condições específicas 
de trabalho sem considerar a atividade real de homens e mulheres reforça o modelo de 
trabalhador "tayloriano", trabalhador-padrão, que inspira a concepção da maioria dos sistemas 
técnicos e organizacionais. A prevenção dos danos que as condições de trabalho específicas 
possam originar pode contribuir não só produzindo conhecimentos, através do estudo do 
homem em situação real de trabalho, que permitam melhor compreender esta realidade, mas 
também fornecer instrumentos para ação. Nesse sentido é necessário elaborar medidas de 
prevenção que procurem considerar: 
- as atividades mentais e atividades físicas implicadas em toda ação humana; 
- a dependência entre os diversos componentes da atividade; 
- que a adaptação das funções fisiológicas e psicológicas às exigências externas não é infinita; 
- que os indivíduos agem, diante das mesmas circunstâncias, de maneiras diferentes; 
- que os indivíduos são permeáveis às agressões do ambiente. 
Estas assertivas partem de resultados de estudos ergonômicos que colocam em evidência que: 
- a atividade física, gestual e postural, não é dissociável da atividade perceptiva e mental 
subjacente; mesmo os trabalhos ditos manuais, os mais repetitivos possíveis, exigem uma 
atividade mental intensa, mesmo que monótona, devido às exigências de tempo; 
- a programação de uma atividade depende daquelas que a precedem e daquelas que a 
sucedem: existem regulações e retroações contínuas na execução de tarefas consideradas 
automáticas; 
 
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- as funções humanas possuem condições limitadas de funcionamento ótimo que devem ser 
respeitadas sob risco de atingirem conseqüências irreversíveis; 
- todo indivíduo é variável ao longo do tempo, durante a jornada de trabalho, de um dia a 
outro e ao curso de sua vida em função da sua idade e da sua história profissional em 
particular, 
- os indivíduos são diferentes entre eles, neste sentido, o indivíduo "padrão" é um mito. 
 
Alternativas para análise de riscos 
A maior parte dos especialistas em segurança do trabalho considera inevitável que certos 
acidentes ocorram e continuem a ocorrer diante da relatividade de nosso conhecimento, da 
incerteza em situações de tomada de decisão ou devido à complexidade dos sistemas 
sociotécnicos. Quanto a nós, apesar de compartilharmos seus diagnósticos, acreditamos que a 
análise das condições cotidianas, quer dos processos decisórios quer da gestão e do controle 
da produção, permite evidenciar os mecanismos de regulação e, desta forma, se antecipar 
àqueles eventos catastróficos que se anunciam já no modo normal de funcionamento dos 
sistemas de produção. 
Os métodos tradicionais são falhos quando se quer fazer uma análise minuciosa e que esta 
requer uma análise da atividade de trabalho. Mas o que é esta “atividade”? A resposta a esta 
questão mostra porque não é suficiente, como já foi discutido, utilizar check lists e a 
necessidade de reorientar a observação para além dos fatores imediatamente visíveis. 
Para compreender a atividade de trabalho de alguém é necessário um longo tempo de 
observação, utilizando técnicas compatíveis com a natureza do que é observado. A 
dificuldademaior é que a atividade não é algo estático que se pode observar e qualificar com 
um simples sim ou não (como nos check-lists), ela se desenrola no tempo, é dinâmica e 
variável, e por isso só pode ser compreendida se acompanhada de perto e enquanto ela se 
desenrola. 
Há várias características da atividade que tornam necessário proceder a uma análise demorada 
e minuciosa antes de se fazer um diagnóstico. Um aspecto fundamental é que a atividade é 
algo diferente de sua descrição. Realizar um trabalho é bem mais do que seguir um conjunto 
de regras ou procedimentos operatórios, por mais precisa e detalhada que possa ser a 
descrição da tarefa (como é feito nos procedimentos operatórios da ISO 9000). Há sempre 
algo que não pode ser colocado em forma de regras explícitas e claras, o que exige que o 
 
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trabalhador invente alguma coisa para conseguir realizar seu trabalho. Isto é o que, em 
ergonomia, se denomina de diferença entre trabalho prescrito e trabalho real. Esta diferença 
pode ferir o senso comum dos engenheiros, que sempre acreditam que a obediência a um 
padrão qualquer é a melhor forma de se conseguir qualidade e eficiência, mas o que se 
verifica em todas as situações de trabalho é que apenas obedecer ao padrão não permite obter 
uma produção satisfatória. Aliás, quando os trabalhadores querem pressionar os patrões 
durante uma negociação costumam recorrer à operação padrão (ou greve do zelo), limitando-
se a fazer estritamente o que é previsto nos procedimentos, o que sempre gera ineficiências e 
atrasos ou interrupção quase total da produção. Há, portanto, algo na maneira como os 
trabalhadores realizam suas atividades que está para além do que se conhece formalmente e 
está descrito nos procedimentos operatórios. 
A necessidade de analisar a atividade aqui e agora, não implica em esperar que os acidentes 
ocorram. Em vários casos, a experiência acumulada permite reconhecer situações 
potencialmente arriscadas, como: 1) transferência de tecnologia; 2) programas de aumento de 
produtividade; 3) mudanças de processos e introdução de inovações; 4) mudanças 
organizacionais (turnos, terceirização, aposentadorias e demissões). 
Pode-se perceber, em contraposição a essas situações, que a segurança de um sistema 
depende fundamentalmente da experiência acumulada, que pode ser desestabilizada em 
situações de mudança. Inovações importantes deveriam ser reproduzidas em escala real, mas 
de forma controlada, não mesclando atividades produtivas e experimentos. A produção 
sempre está sujeita a certas exigências (prazos, qualidade e quantidade) que são incompatíveis 
com a fase de aprendizagem e de domínio de um novo processo. Aqui é necessário mais 
cautela e mais tempo de reflexão, raramente possíveis quando se entra no ritmo de produção 
normal. 
Em suma, a ergonomia oferece uma concepção de segurança que, revalorizando o cotidiano e 
a experiência, permite antever e evitar os “acidentes normais”, baseada nos seguintes 
princípios: 
1. Análise voltada às situações de “normalidade”, procurando evidenciar os compromissos 
cognitivos, as micro-regulações, as variabilidades do processo e os incidentes; 
2. Controle especial de situações potencialmente perigosas, como inovações tecnológicas e 
organizacionais, transferência de tecnologia, mudanças de procedimentos e de processos, 
programas de aumento de produtividade. O fundamento desse controle também está no 
 
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conhecimento do cotidiano mencionado no item anterior. Sobretudo quando se trata de 
transferência de tecnologia, esquece-se de trazer junto com o novo equipamento as regras de 
prudência que garantiam a sua operação segura; 
3. Revalorização da intuição e da experiência dos trabalhadores, sobretudo daqueles que estão 
em posição subalterna e que não dominam nem as habilidades discursivas nem os 
instrumentos de demonstração matemática e experimental de suas opiniões, tal como ocorre 
com os engenheiros; 
4. Abrir espaço e valorizar a controvérsia ao invés do consenso. Em termos de antecipação de 
riscos potenciais, manter a fé em demonstrações objetivas é evidentemente inadequado. De 
que vale a certeza dos números diante de eventos que são, por natureza, incertos? Os cálculos 
probabilísticos da confiabilidade de sistemas têm se mostrado insuficientes para lidar com 
sistemas complexos. Por outro lado, o consenso, hoje tão valorizado na gestão à moda 
japonesa, normalmente obtido pela coerção direta ou indireta, elimina as diferenças de 
opinião e faz com que as controvérsias acabem antes de se chegar a um real convencimento; 
5. Desenvolvimento coletivo e socialmente controlado de tecnologias de risco (sobre isso, ver 
Castleman, 1979)10. Esta prática de cooperação já é uma realidade em pesquisa e 
desenvolvimento que envolvem investimentos de risco. Nada impede que também seja um 
investimento para avaliação e controle dos riscos em prol da segurança. 
 
A contribuição da ergonomia na formalização da experiência do trabalho 
Até o presente momento, todas as abordagens da segurança, das mais convencionais às mais 
críticas, vêm dedicando atenção exclusivamente à análise dos acidentes. Parece ser natural 
que a prevenção de acidentes deva partir da compreensão dos próprios acidentes. Todavia, 
esta forma de ação, por mais que produza conhecimentos relevantes, acaba colocando a 
prevenção a reboque dos acidentes: é necessário que ocorram acidentes para que se aprenda 
como evitá-los. 
Além de se reduzir a prevenção a uma prática meramente corretiva, se coloca um problema 
analítico que limita a própria inteligibilidade das causas que produzem os acidentes. Ao 
contrário do que acredita a maioria dos prevencionistas, a descrição dos acidentes ocorridos e 
das causas dos "erros humanos" é menos explicativa das falhas do operador do que parece à 
primeira vista. Essa mudança de perspectiva é o ponto de partida para se construir uma nova 
 
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forma de análise de riscos e de uma prática prevencionista mais eficaz para lidar com os 
acidentes normais. 
Amalberti (1996)2, recorrendo à metodologia de análise ergonômica do trabalho, inverte a 
preocupação central da segurança com os acidentes e erros cometidos, propondo uma 
abordagem produtiva da segurança: manter a segurança ao invés de controlar os riscos. Para 
tanto propõe analisar os mecanismos cognitivos colocados em ação pelos operadores em 
situações normais. A normalidade é que deve revelar as causas potenciais dos acidentes, pois 
as situações só são mantidas normais através de um esforço ativo dos operadores, que regulam 
e corrigem múltiplos incidentes e disfunções inevitáveis do processo produtivo. 
Esses mecanismos cognitivos e micro-regulações permitem ao operador estabelecer um 
compromisso cognitivo e prático, quase sempre eficaz, entre três objetivos mais ou menos 
contraditórios conforme as circunstâncias: 1) a segurança (sua própria segurança e a do 
sistema); 2) o desempenho (imposto pela organização, mas também desejado pela equipe e 
pelo operador individualmente); 3) e a minoração das conseqüências fisiológicas e mentais 
deste desempenho (fadiga, estresse, esgotamento). O que é considerado extraordinário, nesta 
perspectiva, não são os acidentes e situações que fogem ao controle, mas sim que isto não 
ocorra mais freqüentemente, graças aos compromissos e micro-regulações que estão presentes 
em qualquer atividade. “O operador humano possui umaverdadeira arte para regular esse 
compromisso de modo dinâmico, em função das exigências da situação e de uma visão 
reflexiva de suas próprias capacidades no momento.” (Amalberti, 1996)2. 
Esta forma de entender os mecanismos de regulação permite compreender os acidentes de 
outra forma: o acidente seria a ruptura da capacidade de gestão do compromisso cognitivo e 
não causado por erros ou falhas humanas. Isso nos conduz a privilegiar os estudos em 
situações de normalidade ou incidentais e não as grandes catástrofes ou acidentes. Os estudos 
dos acidentes ocorridos ajudam a entender como o compromisso cognitivo foi rompido, não 
em que ele consiste, como ele se dá e porque ele é necessário no cotidiano do trabalho. 
 
A abordagem ergonômica da nocividade implica uma mudança de perspectiva 
Na investigação das relações saúde-trabalho em situações reais de trabalho, propomos 
evidenciar os sentidos latentes e a pluralidade de sentidos: ver o mundo dos trabalhadores por 
seus próprios olhos, parafraseando o lema fundamental da moderna etnografia5. Esta 
abordagem esbarra, inicialmente, na necessidade de desconstruir a ideologia espontânea na 
 
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qual fomos “con-formados”, que se caracteriza por um olhar externo, o modelo do consultor, 
do especialista que detém todo o saber ou do moralista que julga o comportamento do outro. 
Esta ideologia perpassa todas as esferas da vida humana, manifestando-se também no 
cientificismo que orienta a maior parte das análises do trabalho. 
Aprender a ver o mundo do trabalho pelos olhos dos trabalhadores não é uma atitude 
espontânea, sobretudo quando de trata de profissionais já impregnados de preconceitos 
ideológicos, com formações e experiências que tendem a afastá-los do mundo do trabalho e a 
contrapô-los socialmente aos trabalhadores, como os engenheiros de segurança e os médicos 
do trabalho. Esta mudança de perspectiva deve ser construída, superando obstáculos 
arraigados no senso comum e nas visões de mundo hegemônicas, pois a perspectiva da AET 
consiste em compreender o comportamento no trabalho através dos olhos do próprio 
trabalhador. 
A etnografia moderna nasce também desta mudança de perspectiva, quando deixa de 
enquadrar outros povos e culturas nos padrões eurocêntricos. Da mesma forma, constitui 
princípio de sabedoria colocar-se no lugar do outro antes de julgá-lo. Nos meios acadêmicos, 
todos já passamos pela experiência (infelizmente ainda predominante) de vermos nossos 
próprios trabalhos e de nossos orientandos serem sempre julgados pela perspectiva do outro, 
que projeta na tese avaliada a sua própria vontade, identificando, a partir daí, as 
“insuficiências” do trabalho em relação àquele que ele gostaria de ter realizado. Dificilmente 
se faz uma análise e crítica imanentes, tomando como fio condutor a proposta do próprio 
autor, identificando, então, as deficiências reais na efetivação do que ele se propôs fazer. 
Estas situações são contra-exemplos da mudança que a AET quer operar na abordagem das 
relações saúde e trabalho. Seu objetivo principal é realizar uma análise imanente, colada ao 
comportamento do trabalhador, de suas razões, objetivos e motivações. Trata-se de 
compreender a atividade por dentro, reconstituir a sua lógica em seu curso próprio de ação. 
Procurar pelos motivos do outro, compreender suas razões e possibilidades de ação, critérios 
de decisão e compromissos entre objetivos conflitantes, implica estabelecer formas de inter-
relação social (e profissional, quando se pensa nos especialistas que prescrevem 
comportamentos – médicos, engenheiros de segurança etc.) que reconfiguram a 
personalidade dos indivíduos. A AET, ao buscar o sentido do comportamento dos 
trabalhadores, permite o descentramento de perspectiva: colocar-se no lugar do outro, não 
mais como um princípio moral, mas baseado em observações objetivas do sentido subjetivo e 
 
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de explicitação de razões razoáveis e intercomunicáveis. Explicitar o sentido não implica em 
objetivação da subjetividade, mas em reconhecer que cada indivíduo é, um última instância, o 
juiz de si mesmo (Schwartz, 1992)57. Por isso não há análise ergonômica do trabalho sem 
autoconfrontação, que se dá em três níveis: operatório (o quê o trabalhador faz?), cognitivo 
(com que finalidade? para quê?) e ético (por quê?). Não se pode analisar nenhum desses 
aspectos e sobretudo não se pode compreender a atividade separando-os em objetos analíticos 
distintos. 
A abordagem ergonômica da nocividade comporta também uma certa experiência de vida, 
uma mudança pessoal e de visão de mundo, incompatível com as perspectivas autoritárias, 
com o olhar externo do juiz. Na ergonomia não há lugar para a categoria de culpa, isto é 
próprio ao olhar exterior do direito, que tenta regular o comportamento e os atos sem chegar à 
sua base objetiva que se revela nos conflitos e contradições e sociais diante dos quais todos 
somos obrigados a nos posicionar quando estamos diante de alguém que trabalha. 
 
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musculo-squelettiques dans la restauration collective. Paris, 1998. [Thèse de Doctorat 
d’Ergonomie. École Pratique des Hautes Études]. 
5 O objetivo final da etnografia é, segundo Malinowsky (1978)40, “apreender o ponto de 
vista dos nativos, seu relacionamento com a vida, sua visão de seu mundo.” (p. 33-34. Grifos 
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O Endereço da Prevenção 
Segurança e Saúde no Trabalho 
Artigo 
 
O Risco da Exposição ao Sol na Construção Civil 
( Traduzido livremente por Ricardo Mattos* ) 
Radiação Ultravioleta 
Riscos à saúde fazem com que a proteção solar seja essencial no trabalho desenvolvido a céu 
aberto, como é o caso da construção civil. A radiação ultravioleta (UV) está nos atingindo 
 
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diariamente, proveniente do sol. Embora os raios sejam invisíveis, o seu efeito na pele pode 
ser visto e sentido quando uma exposição prolongada resulta em queimaduras dolorosas. Com 
a depreciação da camada de ozônio na atmosfera da Terra, cresceram os riscos da exposição à 
radiação ultravioleta. Isso causou o crescimento da preocupação sobre o assunto em todo o 
mundo. 
A radiação ultravioleta ocupa a faixa entre a luz visível e o raio-X, no espectro 
eletromagnético. Os raios UV têm comprimento de onda mais curtos do que a luz visível. 
Comprimentos de onda são medidos em nanômetros (nm), que representam um bilionésimo 
do metro ( 1nm = 1 x 10-9 m ). 
A radiação ultravioleta pode ser dividida em três categorias, de acordo com os comprimentos 
de onda, conforme mostrado a seguir: 
 
UV-A 
320 – 400 
nm 
UV-
B 
290 – 320 
nm 
UV-
C 
100 – 290 
nm 
Os raios UV-C do sol, entretanto, não representam uma preocupação porque os comprimentos 
de onda mais curtos que 290 nm são filtrados pela camada de ozônio, na atmosfera, e não 
alcançam a superfície da terra. 
A superexposição à radiação UV leva à dolorosa vermelhidão da pele – a queimadura. A pele 
pode ficar bronzeada, ao produzir melanina para se proteger. Embora essa pigmentação escura 
bloqueie parcialmente os raios, a proteção está longe de ser completa e danos à pele ainda 
acontecem. Como se vê, o bronzeado que há tanto tempo vinha sendo associado com saúde e 
boa aparência é, na verdade, um sinal de uma pele danificada. 
 
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Cada exposição aos raios ultravioletas é armazenada em nossa pele. O bronzeado pode 
desaparecer no inverno mas o dano causado pela exposição à UV é cumulativo. A exposição 
crônica ou prolongada à radiação ultravioleta tem sido relacionada com diversos efeitos à 
saúde, incluindo o câncer de pele, envelhecimento prematuro da pele e problemas nos olhos. 
Quiemaduras solares com bolhas, sofridas durante a infância e adolescência são consideradas 
como origem para um melanoma, a mais perigosa forma de um câncer de pele. Melanomas 
podem gerar metástases para outras pasrtes do corpo e levar à morte. Para pessoas com três ou 
mais queirmaduras com bolhas antes dos vinte anos, o risco de desenvolverem melanoma é 
quatro a cinco vezes maior do que para aqueles que não tiveram esse tipo de ocorrência. 
Pessoas que trabalham a céu aberto, por três ou mais anos, ainda como adolescentes, têm três 
vezes maior risco do que a média de desenvolverem um melanoma. Hereditariedade também 
pode ser um fator com 10 % dos casos de melanoma ocorrendo em família. 
Além disso, pessoas com a pele clara, louras ou ruivas ou ainda com marcas, sardas ou sinais 
nos braços, rosto ou nas costas são mais propícias a adquirir melanoma. 
 
UV-A e UV-B 
A exposição a luz solar geralmente resulta na exposição tanto à UV-A quanto à UV-B. 
Exposição à UV-B causa queimaduras, produção de melanina, desgaste da camada mais 
externa da pele e danos aos tecidos que compõem a pele. A exposição à UV-B também é 
carcinogênica. Na verdade, ela é a primeira causa de cânceres de pele que não sejam 
melanomas. 
A radiação UV-A penetra mais profundamente do que a UV-B, danificando as estruturas 
internas da pele e acelerando o seu processo de envelhecimento. 
O câncer de pele pode resultar da radiação ultravioleta, vinte ou trinta anos após a exposição. 
 
Danos aos olhos 
 
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A radiação UV pode danificar os olhos assim como a pele. Um estudo recente foi feito com 
pescadores que permaneciam muito tempo na água e estavam expostos não somente à luz 
direta mas também à luz refletida do sol. Os pescadores que não protegiam seus olhos do sol 
tiveram mais de três vezes a incidência da forma mais comum de catarata do que aqueles que 
protegiam seus olhos regularmente. 
 
Proteção 
Para se proteger dos raios ultravioletas, use filtro solar, utilize óculos escuros com proteção 
UV e procure não se expor ao sol no final da manhã e no início da tarde, quando os raios são 
mais intensos. 
Qualquer pessoa que fique muito tempo exposta ao sol deve usar filtro solar. Usado 
corretamente, o filtro solar irá reduzir a intensidade do dano à pele, pelo boqueio dos raios 
UV. Os filtros solares devem ter no rótulo a indicação do fator de proteção solar ( FPS ). 
Esse fator – FPS – estima a quantidade de proteçãooferecida contra a radiação UV-B. Quanto 
maior o número do FPS, maios será a proteção à UV-B. Utilizar um filtro solar com FPS 15 
permite a você ficar ao sol 15 vezes mais tempo do que você ficaria sem o filtro e sofrer o 
mesmo nível de exposição. 
Filtros de largo espectro devem ser utilizados e devem ter um FPS maior ou igual a 15. 
Coloque o filtro solar 15 a 30 minutos antes da exposição e reaplique generosamente a cada 
duas ou quatro horas. 
 
 
*Ricardo Pereira de Mattos é engenheiro eletricista e engenheiro de segurança. É professor 
convidado dos cursos de pós graduacão em Engenharia de Segurança do Trabalho da UFRJ e 
da UFF, ex-conselheiro do CREA-RJ, e sócio efetivo da SOBES – Sociedade Brasileira de 
Engenharia de Segurança. Este artigo foi publicado na Revista “Construction Safety”, volume 
6, nº 2, na edição de verão, em 1995. Essa revista é editada pela Associação para a Segurança 
da Construção de Ontário ( Canadá ) – CSAO Construction Safety Association of Ontario. 
 
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Nota do tradutor: A idéia de traduzir e publicar o artigo nesta página, tantos anos depois de 
sua primeira leitura, me ocorreu após acompanhar o sofrimento de um colega, vítima de 
melanoma. O artigo também me chama a atenção por ser originário do Canadá, um país que 
tem o frio, e não o sol, como sua marca registrada. Mesmo assim, a Associação para a 
Segurança da Construção Civil do principal Estado daquele país, dedicou amplo espaço em 
sua revista para tratar deste importantíssimo tema. O que diremos então da importância de 
tratarmos desse assunto no tropicalíssimo Brasil ? 
Mais informações sobre a CSAO, podem ser conferidas em www.csao.org . 
 
 
 
 
 
 
 
 
A SEGURANÇA DAS PESSOAS E O NOVO PADRÃO BRASILEIRO 
DE PLUGUES E TOMADAS 
Ricardo Pereira de Mattos, em 3 de agosto de 2010* 
 
O novo padrão brasileiro de plugues e tomadas veio estabelecer um patamar de segurança e 
funcionalidade para as instalações elétricas prediais. Ele foi adotado após alguns anos de 
intensa discussão dentro da comunidade técnica especializada: profissionais, empresas, 
associações, com o respaldo técnico da ABNT, que editou a NBR 14136, e o apoio legal 
doINMETRO. Infelizmente, nem todos os profissionais se interessaram pelo debate, alguns 
 
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até porque não acreditaram que as medidas seriam adotadas. Talvez por isso, ainda haja 
muitas dúvidas entre os usuários e até mesmo entre os profissionais que atuam na área de 
instalações prediais. 
 
As diferenças 
A principal diferença é que não tínhamos um padrão para esses dispositivos. Ao longo dos 
anos, fomos obrigados a conviver com tipos diferentes que foram surgindo de acordo com a 
demanda de novos equipamentos e de padrões estrangeiros. A maioria desses tipos era 
incompatível com as normas brasileiras de instalações elétricas, principalmente pela ausência 
da conexão para o aterramento, medida indispensável para a segurança das pessoas. 
As novas tomadas e plugues são muito mais seguras pois foram projetadas tendo a segurança 
como um de seus principais objetivos. Além dos itens visíveis como a conexão de 
aterramento ( o terceiro pino ) e do formato de encaixe, que não permite o contato acidental 
com os pinos durante a colocação do plugue, há inovações na parte interna das tomadas. Os 
contatos internos somente se fecham quando os dois pinos entram simultaneamente. Isso 
evita, por exemplo, que a inserção de um objeto metálico em um dos furos da tomada feche o 
contato e provoque um choque elétrico. É uma medida contra as “travessuras” das crianças, 
por exemplo, contra a distração, tentativas de conectar plugues no escuro etc. 
Outro item muito importante, é que os aparelhos elétricos de maior potência, serão montados 
com plugues de pinos mais grossos, de forma que não será possível conectá-los com as 
tomadas comuns. É uma medida preventiva de forma que equipamentos de consumo elevado 
de energia não provoquem uma sobrecarga nessas tomadas, isto é, aquecimento excessivo e 
ignição de incêndios. Para esses equipamentos, com plugues mais grossos, há tomadas 
equivalentes com orifícios mais grossos e portanto, com maior capacidade de suportar a 
passagem da energia elétrica. 
 
A transição 
 
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Em um primeiro momento não há necessidade de intervir na instalação elétrica. A cada novo 
equipamento adquirido, o consumidor poderá optar em usar um adaptador ou trocar a tomada. 
Não se deve trocar o plugue de um equipamento, salvo no caso de um acidente que tenha 
provocado a sua deterioração. Os cabos e os plugues dos equipamentos integram um conjunto 
testado e aprovado. Por isso não é recomendável alterar a configuração original do fabricante 
do equipamento. 
No caso do aterramento, não basta trocar a tomada para garantir a segurança. Por trás de cada 
tomada nova, também é necessário que exista o fio-terra, aquele fio que vai conduzir a 
corrente elétrica caso ocorra um defeito, evitando que a corrente percorra o corpo de uma 
pessoa que esteja em contato com o equipamento elétrico que apresentou o defeito. Esse fio-
terra (condutor de proteção) já deveria estar instalado pois é uma exigência técnica que consta 
nas normas técnicas há muitos anos. Além disso, há uma lei federal (Lei 11.337/2006) que 
determina a obrigatoriedade da instalação do aterramento. Portanto, todas as novas 
construções, desde 2006, devem obedecer a essa exigência. 
Observe que os plugues e tomadas integram um conjunto de ações para aumentar a segurança 
das instalações elétricas prediais. Eles, sozinhos, não resolvem todos os problemas. Se a 
instalação é nova e todas as tomadas já estão instaladas de acordo com o novo padrão, a 
situação é mais simples. Para equipamentos antigos, devem usar os adaptadores. Quando 
adquirirem novos equipamentos, eles já virão preparados para as novas tomadas. 
 
Manutenção 
A necessidade de substituição de uma tomada gera uma oportunidade de se pensar no 
conjunto da instalação. Se nunca foi feita uma revisão das instalações elétricas, essa é uma 
medida importante a ser adotada. Com o passar dos anos, aumentou de forma impressionante 
a quantidade de equipamentos elétricos instalados nas residências e escritórios. Se a instalação 
não acompanhar essas evolução, os fios, as tomadas e disjuntores ou fusíveis instalados há 
dezenas de anos podem não suportar a carga instalada. No caso de disjuntores e fusíveis, se 
tiverem sido bem dimensionados e instalados eles começarão a desarmar ou queimar. É um 
sintoma de problemas a serem resolvidos urgentemente. A carga elétrica excessiva pode 
 
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provocar aquecimento dos fios e tomadas, tornando-se focos de ignição de incêndios. Isso 
também pode ocorrer se tiverem sido utilizados produtos inadequados na fabricação dos fios, 
tomadas, plugues, adaptadores, extensões etc. Pode parecer estranho, mas infelizmente há 
muitos produtos “piratas”, principalmente em lojas não especializadas e no comércio de rua. 
Esses produtos custam menos porque usam materiais de qualidade inferior, e seu desempenho 
não atende o que exigem as normas e nem mesmo as características que estampam em suas 
embalagens. Outro cuidado a ser tomado diz respeito ao uso de extensões de tomadas. Os 
prédiosmais antigos possuem pouca quantidade de tomadas em cada cômodo. Isso fez com 
que se proliferassem as extensões, fixas ou móveis, e os “tês” ou benjamins, para a instalação 
dos novos aparelhos elétricos. Esses dispositivos, embora sejam extremamente práticos, 
podem fazer com que em um único ponto esteja acumulada uma carga excessiva, sinônimo de 
superaquecimento. Por isso, em uma reforma, é imprescindível incluir o aumento da 
quantidade de pontos de tomadas, utilizando, é claro, o novo padrão. 
A manutenção de qualquer tipo de instalação é fundamental para o seu desempenho 
satisfatório ao longo dos anos. Entretanto, não é uma prática comum em instalações prediais. 
Na maior parte dos casos, infelizmente, as intervenções só acontecem nas reformas, 
ampliações etc. A manutenção pode começar com um tipo de inspeção visual que o próprio 
usuário pode e deve fazer, identificando problemas tais como tomadas sobrecarregadas de 
equipamentos, plugues imprensados atrás de armários, sofás ou outros móveis, cortinas e 
tapetes em contato com fios ou conexões de tomadas, interruptores e tomadas com alteração 
em sua cor original (causada por aquecimento). Outras observações importantes ainda a cargo 
do usuário, dizem respeito à percepção de determinadas ocorrências como o aquecimento de 
interruptores, queima de lâmpadas em intervalos curtos de tempo, variações muito bruscas na 
iluminação quando outros equipamentos estão ligados (ar condicionado e chuveiros, por 
exemplo), disjuntores desarmando ou fusíveis queimando. Em seguida, cada um dos 
problemas identificados deve ser corrigido com o auxílio de profissionais qualificados. Não 
há prescrições na legislação ou nas normas técnicas quanto à periodicidade da manutenção 
preventiva das instalações prediais. O ideal é uma inspeção anual nos termos explicados 
anteriormente e a cada cinco anos a inspeção visual qualificada das partes internas de 
interruptores e tomadas, e do quadro de disjuntores, e o reaperto das conexões. Nessa 
manutenção preventiva, proposta para cada cinco anos, seriam feitas as substituições, 
inclusive da fiação de alguns dos circuitos elétricos, bem como o acréscimo de circuitos, 
 
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disjuntores, proteção diferencial, tomadas, testes de continuidade e outros ensaios previstos na 
normalização técnica, especialmente na NBR 5410, norma brasileira de instalações elétricas 
de baixa tensão. Por sinal, essa norma estabelece, detalhadamente, os testes que devem ser 
feitos antes de uma instalação ficar pronta e durante o seu funcionamento. 
 
Profissionais qualificados 
As intervenções em instalações elétricas devem ser feitas exclusivamente por profissionais 
qualificados. Ao usuário leigo não deve ser permitido o acesso às partes internas das 
instalações ou dos equipamentos. Portanto, sua atuação deve estar restrita à substituição de 
lâmpadas e instalação de equipamentos que dependam exclusivamente de conexão direta a 
uma tomada. É interessante observar que até mesmo atividades simples requerem cuidados. A 
troca de uma lâmpada, por exemplo, exige que o circuito esteja desligado pois um contato 
indesejado com a parte interna do bocal da lâmpada pode ocasionar um choque. Ligar um 
equipamento com os pés ou mãos molhados, também pode causar um choque se houver 
algum defeito de isolamento no equipamento e o circuito não estiver protegido com o fio terra 
ou com um interruptor de corrente de fuga (denominado de dispositivo DR). 
 
Cuidados 
Quando se trata de eletricidade, alguns cuidados importantes são: Adquirir equipamentos e 
materiais elétricos de boa qualidade. Em grande parte dos casos, esses equipamentos possuem 
a certificação obrigatória assinalada pelo selo do INMETRO. Contratar serviços 
especializados, com profissionais qualificados. Utilizar os recursos tecnológicos de proteção, 
ou seja, circuitos elétricos com aterramento, proteção diferencial residual (DR) contra 
choques, disjuntores para impedir a sobrecarga e os curto-circuitos. Tudo isso não dispensa os 
cuidados básicos de não deixar fios e instalações expostas, não mexer em circuitos elétricos 
ou equipamentos com os pés ou mãos molhados, manter as instalações inacessíveis para 
crianças, nunca mexer nas instalações sem desligar o disjuntor correspondente e não abrir 
 
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equipamentos elétricos sem desligá-los da tomada. Lembre-se que a eletricidade mata, mesmo 
em circuitos aparentemente inofensivos. 
As pesquisas realizadas no Brasil pela ABRACOPEL – Associação Brasileira de 
Conscientização para os Perigos da Eletricidade comprovam que a quantidade de acidentes 
com eletricidade é muito grande. Outra instituição que vem fazendo levantamentos das 
condições das instalações elétricas nas grandes cidades brasileiras é o Instituto Procobre, 
através do Programa Casa Segura. Esses levantamentos mostraram que, em grandes cidades 
brasileiras, mais da metade dos residências com mais de 20 anos de construção, nunca fizeram 
uma reforma nas instalações elétricas. Eis aí uma informação assustadora, que explica a razão 
das terríveis notícias sobre acidentes domésticos fatais. Em resumo, a eletricidade não mata 
apenas no trabalho, mas em residências e nas ruas. Para as instalações elétricas prediais, o 
novo padrão brasileiro de plugues e tomadas vem cumprir uma parte da responsabilidade 
técnica das empresas e profissionais de engenharia quanto a proteção das pessoas e do 
patrimônio. Que cada um faça a sua parte. 
 
• Ricardo Pereira de Mattos é Engenheiro Eletricista e Engenheiro de Segurança. 
Professor em cursos de pós-graduação em engenharia de segurança do trabalho, no 
Rio de Janeiro, mantém um portal de informações em Segurança e Saúde no Trabalho, 
no endereço www.RicardoMattos.com , incluindo um grupo de discussão voltado à 
Segurança em Instalações Elétricas. 
 
 
 
DESÍDIA: palavra bonita, mas ordinária 
 
Ricardo Pereira de Mattos* 
 
Revendo as estatísticas de acidentes do trabalho no Brasil, me veio à lembrança esta palavra: 
desídia. Não tenho dúvida que muitos empregadores e governantes ainda atuam de forma 
 
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desidiosa em relação à prevenção de acidentes do trabalho. E podemos adotar a mesma 
argumentação sobre a prevenção de acidentes em geral. 
Mais utilizada no meio jurídico, encontram-se nos dicionários, vários significados para a 
palavra desídia, entre eles o desleixo, a negligência, a indolência e a desatenção. 
É interessante notar que ela é mais utilizada para caracterizar a ação, ou melhor, a omissão do 
empregado, sendo até uma das justificativas para a sua demissão. O próprio Estatuto do 
Servidor Público da União, apresenta a conduta desidiosa como proibida e a sua constatação 
como passível de demissão. Quis a lei deixar claro que não tolera o servidor relapso, 
desleixado, displicente, enfim aquele que se comporta de forma desidiosa. E quanto ao 
empregador e seus propostos; e ao próprio Estado ? 
Desídia. Palavra bonita, mas ordinária. E digo ordinária, pois ela se apresenta de forma 
habitual, comum, regular, frequente, no meio ambiente do trabalho. 
Vou retomar a razão da escolha deste tema, ou melhor, desta palavra, quando penso nos 
acidentes do trabalho,em suas ocorrências e suas consequências. 
Temos, no Brasil, inúmeros instrumentos legais que abordam o tema da segurança do 
trabalho. Entre eles, com destaque, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e suas 34 
Normas Regulamentadorasde Segurança e Saúde no Trabalho. O Ministério do Trabalho e 
Emprego está formalmente designado para fiscalizar o trabalho seguro, integrando-se no 
conceito internacional de Inspeção do Trabalho, conforme preceitua a OIT – Organização 
Internacional do Trabalho. Aliás, o nosso país é signatário de dezenas de Convenções 
Internacionais sobre o tema da segurança e saúde dos trabalhadores. Complementando a 
legislação trabalhista, dentro dessa temática, existe a legislação previdenciária. E os 
instrumentos legais e normativos, provenientes de inúmeras instituições públicas, tais como a 
ANVISA, o INMETRO, a FUNDACENTRO, o INSS. Sob o ponto de vista da melhor 
técnica, o Brasil integra o sistema internacional de normalização, capitaneado pela ISO, com a 
representação da ABNT. E o exercício profissional apresenta-se muito bem regulamentado 
por órgãos com estrutura nacional, como é o caso dos conselhos profissionais, tomando como 
exemplo o CREA, CRM, OAB, apenas para mencionar alguns dos mais conhecidos. 
Diante dessa superestrutura legal e normativa, a existência de trabalho escravo, infantil e de 
mais de 500 mil acidentes do trabalho por ano, me incita a exclamar: desídia! Não bastassem 
as mortes, repetem-se as assustadoras quantidades anuais de mais de dez mil trabalhadores 
permanentemente incapacitados para o trabalho. 
 
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Ao conhecer esses acidentes, identificamos causas ordinárias como quedas, choque elétrico, 
incêndios, explosões, esmagamentos, asfixia. Todas essas ocorrências estão previstas no 
arcabouço legal e normativo mencionado e para cada uma delas há medidas de prevenção. 
Não se encontra outra palavra mais eloquente do que desídia ao se constatar que 
recomendações explícitas de leis, portarias, resoluções, normas etc, vêm sendo desrespeitadas 
por empregadores sob a omissão dos fiscalizadores. Essa conduta desidiosa busca encontrar 
respaldo, infelizmente, na argumentação fajuta que as exigências são muito rígidas, que os 
custos são elevados e que os prazos são exíguos. Como se legisladores e profissionais 
estivessem escrevendo e publicando letras mortas e portanto inaplicáveis. 
A conduta desidiosa, frente à prevenção de acidentes, está instalada de tal forma na sociedade, 
que o Ministério Público do Trabalho criou um instrumento de controle denominado Termo 
de Ajustamento de Conduta (TAC). Por intermédio desse TAC, as empresas firmam um 
compromisso formal de... obedecer à legislação. Se isso tudo não é desídia, que outra palavra 
escolher ? 
 
*Este artigo foi publicado na internet, em 29 de janeiro de 2012, por Ricardo Pereira de 
Mattos, professor e engenheiro de segurança do trabalho, no Rio de Janeiro. O autor mantém 
um portal na Internet, dedicado ao tema da prevenção de acidentes, no 
endereço www.RicardoMattos.com . 
 
 
 
 
O ACOLHIMENTO E OS PROCESSOS DE TRABALHO EM SAÚDE: O CASO DE 
BETIM, MINAS GERAIS, BRASIL 
 
1 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, 
Universidade Estadual de Campinas. Cidade Universitária Zeferino Vaz, Campinas, 
SP 13083-970 Brasil. 
 
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 Resumo 
Este trabalho relata experiência de inversão do modelo tecno-assistencial para a 
saúde, tendo como base a diretriz operacional do acolhimento. O acolhimento 
propõe que o serviço de saúde seja organizado, de forma usuário-centrada, partindo 
dos seguintes princípios: 1) atender a todas as pessoas que procuram os serviços 
de saúde, garantindo a acessibilidade universal; 2) reorganizar o processo de 
trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central do médico para uma equipe 
multiprofissional ¬ equipe de acolhimento ¬, que se encarrega da escuta do usuário, 
comprometendo-se a resolver seu problema de saúde; e 3) qualificar a relação 
trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros humanitários, de solidariedade 
e cidadania. Por meio da investigação realizada, foi possível observar um aumento 
significativo do rendimento profissional, dos servidores não-médicos, que passaram 
a atuar na assistência; esse elevado rendimento profissional determinou, por 
conseqüência, maior oferta e aumento extraordinário da acessibilidade aos serviços 
de saúde. 
Palavras-chave: Avaliação de Programas; Assistência Médica; Assistência 
Ambulatorial; Serviços de Saúde Comunitários 
 
Introdução 
 À medida que nos aproximamos dos momentos de relações dos usuários com os 
serviços de saúde e com os seus trabalhadores, para verificarmos o seu 
funcionamento, vamo-nos surpreendendo com a descoberta de que, sempre que 
houver um processo relacional de um usuário com um trabalhador, haverá uma 
dimensão individual do trabalho em saúde, realizado por qualquer trabalhador, que 
comporta um conjunto de ações clínicas. Ações clínicas aí significam o encontro 
entre necessidades e processos de intervenção tecnologicamente orientados, os 
quais visam operar sobre o campo das necessidades que se fazem presente nesse 
 
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encontro, na busca de fins implicados com a manutenção e/ou recuperação de um 
certo modo de viver a vida. 
Esses encontros, que se dão entre dois indivíduos, são produzidos em um espaço 
intercessor (Merhy, 1997a) no qual uma dimensão tecnológica do trabalho em 
saúde, clinicamente evidente, sustenta-se: a da tecnologia das relações, território 
próprio das tecnologias leves (Merhy, 1997b). 
Olhando esses momentos pelo lado do trabalho tanto do médico, quanto do de um 
porteiro de um serviço de saúde são-nos reveladas questões-chave sobre os 
processos de produção em saúde, nos quais o acolhimento adquire uma expressão 
significativa. Isto é, em todo lugar em que ocorre um encontro enquanto trabalho de 
saúde entre um trabalhador e um usuário, operam-se processos tecnológicos 
(trabalho vivo em ato) que visam à produção de relações de escutas e 
responsabilizações, as quais se articulam com a constituição dos vínculos e dos 
compromissos em projetos de intervenção. Estes, por sua vez, objetivam atuar sobre 
necessidades em busca da produção de algo que possa representar a conquista de 
controle do sofrimento (enquanto doença) e/ou a produção da saúde. 
Esses processos intercessores como o acolhimento são atributos de uma prática 
clínica realizada por qualquer trabalhador em saúde, e focá-los analiticamente é criar 
a possibilidade de pensar a micropolítica do processo de trabalho e suas 
implicações no desenho de determinados modelos de atenção, ao permitir pensar 
sobre os processos institucionais por onde circula o trabalho vivo em saúde, 
expondo o seu modo privado de agir à um debate público no interior do coletivo dos 
trabalhadores, com base em uma ótica usuário-centrada. 
No entanto, o tema do acolhimento apresenta-nos um outra possibilidade: a de 
argüir sobre o processo de produção da relação usuário-serviço sob o olhar 
específico da acessibilidade, no momento das ações receptoras dos clientes de um 
certo estabelecimento de saúde. 
Olhando assim, como uma etapa deste processo de produção, o acolhimento 
funciona como um dispositivo a provocar ruídos sobre os momentos nos quais o 
 
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serviço constitui seus mecanismos de recepção aos usuários, enquanto certas 
modalidades de trabalho em saúde quese centram na produção de um mútuo 
reconhecimento de direitos e responsabilidades, institucionalizados pelos serviços 
de acordo com determinados modelos de atenção à saúde. 
Como etapa do conjunto do processo de trabalho que o serviço desencadeia na sua 
relação com o usuário, o acolhimento pode, analiticamente, evidenciar as dinâmicas 
e os critérios de acessibilidades a que os usuários (portadores das necessidades 
centrais e finais de um serviço) estão submetidos, nas suas relações com o que os 
modelos de atenção constituem como verdadeiros campos de necessidades de 
saúde, para si. 
Os encontros e desencontros nessa etapa podem, ao gerar ruídos e estranhamentos 
para um olhar analisador (em produção no interior da equipe de trabalhadores), 
revelar uma dinâmica instituidora que se abre a novas linhas de possibilidades, no 
desenho do modo de se trabalhar em saúde, permitindo a introdução de 
modificações no cotidiano do serviço em torno de um processo usuário-centrado, 
mais comprometido com a defesa da vida individual e coletiva. 
Em síntese, o que propomos é pôr em prática o acolhimento como um dispositivo 
que interroga processos intercessores que constroem relações clínicas das práticas 
de saúde e que permite escutar ruídos do modo como o trabalho vivo é capturado, 
conforme certos modelos de assistência, em todo lugar em que há relações clínicas 
em saúde. Além disso, deve também expor a rede de petição e compromisso que há 
entre etapas de certas linhas de produção constituídas em certos estabelecimentos 
de saúde, interrogando centralmente as relações de acessibilidade. 
Qual a vantagem de atuar sobre esses ruídos e processos? 
Na medida em que, nas práticas de saúde, individual e coletiva, o que buscamos é a 
produção da responsabilização clínica e sanitária e da intervenção resolutiva, tendo 
em vista as pessoas, como caminho para defender a vida, reconhecemos que, sem 
acolher e vincular, não há produção desta responsabilização e nem otimização 
 
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tecnológica das resolutividades que efetivamente impactam os processos sociais de 
produção da saúde e da doença. 
Tendo como base essas premissas, vejamos adiante, com a descrição de um 
processo iniciado junto a uma rede de serviços de saúde, no âmbito municipal, as 
possibilidades de introduzir esses percursos, na busca de impactar os mecanismos 
de acesso e de explorar as possibilidades de novos desenhos micropolíticos no 
modo cotidiano de realização de certos modelos de atenção à saúde. 
 
 O caso de Betim: relato de uma experiência 
 
Em Betim, vivia-se, no ano de 1996, intensa mobilização na rede básica assistencial 
para a implantação do acolhimento, diretriz do modelo tecno-assistencial, orientado 
nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). O acolhimento propõe, 
principalmente, reorganizar o serviço, no sentido da garantia do acesso universal, 
resolubilidade e atendimento humanizado. Oferecer sempre uma resposta positiva 
ao problema de saúde apresentado pelo usuário é a tradução da idéia básica do 
acolhimento, que se construiu como diretriz operacional. 
Pelo lugar estratégico ocupado por essa proposta, achamos que o acolhimento 
deveria ser estudado, para se verificar a sua eficácia e assim oferecer subsídios à 
sua consolidação nas Unidades de Saúde, procurando, ao mesmo tempo, viabilizar 
seu aperfeiçoamento, enquanto tecnologia de organização de serviços de saúde. 
Este estudo é devedor de uma investigação realizada pela Rede de Investigação em 
Sistemas e Serviços de Saúde no Cone Sul. Pretende-se, a partir desta 
investigação, manter interlocução com as entidades formadoras de recursos 
humanos e os diversos serviços de saúde, como exercício por excelência da práxis 
como método de construção de novas propostas, substantivas o suficiente para dar 
respostas à altura dos desafios na organização de sistemas e serviços de saúde. 
 
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Para este estudo, foi eleita a Unidade Básica de Saúde (UBS) Rosa Capuche, 
situada no bairro Jardim Petrópolis, com população de 10.256 pessoas na sua área 
de abrangência, para o ano de 1996, de acordo com o IBGE. 
 
Antes do acolhimento 
 
 No ano de 1995 (considerando-se de março de 1995 a fevereiro de 1996 antes da 
implantação do acolhimento), a Unidade fez 1.342 atendimentos em média por mês, 
com 1.456 horas trabalhadas, entre todos os profissionais da assistência. O 
processo de trabalho era o tradicionalmente conhecido, centrado na figura e no 
saber do médico para o atendimento aos usuários. Em vista da baixa oferta de 
consultas médicas, para o acesso às mesmas utilizava-se o velho sistema de fichas. 
Esta era a única forma de administrar o serviço oferecido em vista da demanda da 
população. Os que procuravam consulta e não conseguiam ficha sequer entravam 
na Unidade de Saúde, "era do portão pra casa" ou para a peregrinação em outros 
serviços. 
Em meados de 1995, contando com a assessoria do Laboratório de Planejamento e 
Administração de Sistemas de Saúde Lapa/Unicamp, o grupo dirigente da 
Secretaria de Saúde de Betim (incluindo aí o corpo gerencial) discutiu a proposta de 
inversão do modelo tecno-assistencial, baseado nas diretrizes do acesso, 
acolhimento, vínculo e resolubilidade. Foi a partir daí que a Secretaria Municipal de 
Saúde tomou a decisão de implantar o acolhimento em toda a rede de serviços. 
 
Em que consiste o acolhimento enquanto diretriz operacional 
 
 
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 O acolhimento propõe inverter a lógica de organização e funcionamento do serviço 
de saúde, partindo dos seguintes princípios: 
1) Atender a todas as pessoas que procuram os serviços de saúde, garantindo a 
acessibilidade universal. Assim, o serviço de saúde assume sua função precípua, a 
de acolher, escutar e dar uma resposta positiva, capaz de resolver os problemas de 
saúde da população. 
2) Reorganizar o processo de trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central 
do médico para uma equipe multiprofissional equipe de acolhimento , que se 
encarrega da escuta do usuário, comprometendo-se a resolver seu problema de 
saúde. 
3) Qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros 
humanitários, de solidariedade e cidadania. 
 
Implantação do acolhimento 
 
 O ponto de partida para a implantação do acolhimento foi a decisão do grupo 
dirigente da Sesa, tomada através dos órgãos colegiados de direção, quais sejam, o 
Grupo de Direção Estratégica GDE (que reunia a Secretária de Saúde e os 
gerentes dos projetos estratégicos) e o Colegiado Gestor (formado pelo GDE e 
todos os gerentes de Unidades de Saúde). Essa decisão partia de alguns 
pressupostos básicos, como: 
1) A maioria das pessoas que necessitavam de atendimento em saúde estavam 
excluídas dos serviços, daí a grande desconfiança e, até mesmo, opinião negativa 
que os usuários têm dos serviços de saúde. 
2) As pessoas que procuravam a Unidade de Saúde faziam-no, majoritariamente, 
em busca da consulta médica, estrangulando completamente este serviço. Por outro 
 
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lado, um grande número dessas mesmas pessoas não necessitava da consulta, 
mesmo que essa fosse sua demanda individual. 
3) O trabalho na Unidade de Saúde eracentrado na pessoa e no saber médico, 
ficando os outros profissionais subestimados no processo de trabalho, tendo o seu 
potencial para a assistência enormemente oprimido, reduzindo a oferta de serviços. 
4) A relação trabalhador-usuário sofria de crônica degeneração, causada pela 
alienação dos trabalhadores do seu processo de trabalho, ou seja, este se realizava 
compartimentado, com os procedimentos sem a necessária integração 
multidisciplinar. O objeto de trabalho 'problema de saúde' recebia, dessa forma, um 
tratamento sumário e burocrático, numa relação impessoal com o usuário. O mais 
comum mesmo era a sua exclusão. No entanto, os trabalhadores, embora 
conscientes dos problemas, sentiam-se impotentes para mudar aquela situação 
existente, lamentada por eles próprios. O contexto sugeria, então, aparente 
contradição de interesses entre trabalhadores e usuários dos serviços de saúde. 
A partir da decisão de implantar o acolhimento, e sob a permanente coordenação da 
gerente da UBS, definiu-se pela organização de uma equipe de acolhimento, 
composta pelos profissionais de nível superior, por uma técnica e auxiliares de 
enfermagem, para oferecer a escuta dos usuários. Os médicos ficaram na 
retaguarda, ou seja, atendendo nos consultórios os usuários encaminhados pela 
equipe de acolhimento. Eliminaram-se a ficha e a fila de madrugada, abrindo-se as 
portas da Unidade de Saúde, com atendimento a todos os usuários que a 
procurassem. Organizou-se a sala de espera, substituindo a recepção. 
O Conselho Local de Saúde teve um papel importante para a implantação do 
acolhimento. Isso se deu, principalmente, no período da semana anterior à data 
prevista, quando o Conselho procurou avisar à comunidade o novo funcionamento 
da Unidade de Saúde. 
 
O processo de trabalho no acolhimento 
 
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 O acolhimento modifica radicalmente o processo de trabalho. O impacto da 
reorganização do trabalho na Unidade se dá principalmente sobre os profissionais 
não-médicos que fazem a assistência. No caso da UBS Rosa Capuche, consideram-
se a enfermeira, a assistente social, a técnica e a auxiliar de enfermagem. Na atual 
situação, a equipe de acolhimento passa a ser o centro da atividade no atendimento 
aos usuários. Os profissionais não-médicos passam a usar todo seu arsenal 
tecnológico, o conhecimento para a assistência, na escuta e solução de problemas 
de saúde trazidos pela população usuária dos serviços da Unidade. 
A enfermeira, além de acolher, garante a retaguarda do atendimento realizado pelas 
auxiliares de enfermagem. Contribuem nesse processo os protocolos, que orientam 
sobre os procedimentos a serem adotados pela equipe de acolhimento. Na UBS 
Rosa Capuche, por exemplo, os protocolos orientam o enfermeiro na prescrição de 
vários exames e medicamentos, o que aumenta em grande medida a resolubilidade 
deste profissional na assistência, favorecendo enormemente o fluxo dos usuários. 
No modelo anterior, por a assistência estar centrada no médico, o enfermeiro não 
realizava todo o seu potencial técnico, reduzindo sua capacidade de intervenção. 
Em estudo comparando este novo modelo com o do período anterior ao 
acolhimento, os dados de rendimento mostram que seu rendimento agora é 
aumentado em 600%. 
Esse novo papel da enfermagem na Unidade de Saúde, com acolhimento, não se 
deu sem tensões. Subjacente a este processo está a disputa pela supremacia do 
saber e do poder no serviço de saúde, até então, monopólio médico. Como parte 
desse polêmico processo, registram-se pressões da Câmara de Vereadores contra o 
atendimento realizado pela enfermeira. Foi importante também um concorrido 
debate sobre o acolhimento, promovido pelo Sindicato dos Médicos de Minas 
Gerais, que contou com o relato de diferentes experiências de sua implantação. 
É importante registrar que, além de utilizar todo seu arsenal técnico, a enfermeira, 
com a reorganização do processo de trabalho, vê-se dotada de maior autonomia na 
função que exerce. Essa autonomia deve ser entendida dialeticamente como a 
 
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condição que o profissional tem de decidir sobre seu trabalho, como o exercício 
pleno do 'saber-fazer' no momento do procedimento assistencial. 
Em relação à auxiliar de enfermagem, seu trabalho anterior à implantação do 
acolhimento resumia-se às atividades próprias da sua função (curativo, injeção, 
vacina, distribuição de medicamentos) e ao apoio aos médicos. Hoje, a relação da 
auxiliar com os médicos é do acolhimento para a retaguarda, após realizar a escuta 
do problema de saúde do usuário; ou seja, é uma relação circunscrita ao exercício 
multiprofissional. 
A assistente social participa do acolhimento e coordena os grupos programáticos. 
Os programas, considerados atividade fundamental para garantir a integralidade da 
assistência, são fatores importantes na garantia do sucesso do acolhimento. Isto 
porque resolvem grande parte da demanda, com ações dirigidas para grupos 
prioritários de atenção à saúde. 
No caso dos médicos, nota-se que seu processo de trabalho não foi modificado 
tanto quanto seria necessário para causar impacto na assistência, a partir da sua 
atividade específica. O trabalho destes profissionais foi organizado de tal forma que 
eles ficaram, às vezes, na retaguarda (consultas aos usuários encaminhados pela 
equipe de acolhimento) e, outras vezes, na equipe de acolhimento. Houve inclusive 
redução do agendamento, porém sem grande sucesso na sua inserção no novo 
modelo. O trabalho médico permanecia incólume à velha lógica da consulta/agenda, 
determinante neste processo. Voltaremos a esse tema mais à frente. 
 
Os números do acolhimento 
 
 A seguir, relacionamos o resultado da aplicação de diversos indicadores que dizem 
respeito a medidas de avaliação da Unidade de Saúde e do acolhimento. 
a) Acessibilidade aos serviços da Unidade de Saúde. 
 
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Os dados comparados de acessibilidade aos serviços demonstram o aumento 
extraordinário do atendimento geral da Unidade, com a implantação do acolhimento 
e a reorganização do processo de trabalho (Tabela 1). O rendimento será detalhado 
a seguir, com indicador específico. 
 
 
 
b) Rendimento profissional. 
Constata-se, pelos dados de produção/horas trabalhadas, o aumento extraordinário 
do rendimento da enfermeira e da assistente social (Figura 1), confirmando a tese de 
que estas profissionais, com a reorganização do processo de trabalho, utilizam todo 
o seu potencial para a assistência. Este rendimento, associado ao das auxiliares de 
enfermagem, garante impacto extraordinário no acesso aos usuários. 
c) Indicador de resolubilidade da equipe de acolhimento. 
Como resolubilidade, neste caso, considera-se a solução encontrada pela equipe de 
acolhimento para as queixas, sem outro tipo de encaminhamento. Como equipe de 
acolhimento, considera-se a equipe multiprofissional, organizada na Unidade, para 
fazer a escuta dos problemas de saúde trazidos pelos usuários. Na UBS Rosa 
Capuche, essa equipe foi organizada contando com a enfermeira, a assistente social 
e as auxiliares de enfermagem. 
Corroboram para a resolubilidade da equipe de acolhimento (Figura 2) fatores que 
atuam juntos e simultaneamente, quais sejam: 
 
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Site: www.ucamprominas.com.br e-mail: diretoria@institutoprominas.com.br1) Discussões permanentes entre a equipe da Unidade de Saúde, para avaliar e 
reprocessar o acolhimento. 
2) Capacitação da equipe, adquirida com a própria experiência no atendimento. A 
experiência adquirida proporciona segurança para decidir, para efetivamente 'fazer' 
com base em determinado 'saber', adquirido na vivência da assistência ao usuário. 
3) Utilização de protocolos, elaborados pela equipe técnica da UBS, os quais 
indicam a conduta a ser adotada diante dos problemas de saúde que mais se 
apresentam no acolhimento. 
4) Interação da equipe, com enfermeiras e médicos fazendo a retaguarda do 
acolhimento e a capacitação em serviço. A indicação de determinada conduta 
pressupõe uma decisão do profissional, o que, no modelo tradicional, apresenta-se 
como um ato isolado, solitário. 
5) Funcionamento dos grupos programáticos, que haviam deixado de funcionar no 
início da implantação do acolhimento, em razão da prioridade dada ao trabalho 
exclusivamente assistencial naquele momento específico. 
 
A gestão da Unidade com acolhimento 
 
 O processo de gestão da Unidade de Saúde é compatível com o modelo tecno-
assistencial. Assim, o acolhimento só é possível se a gestão for participativa, 
baseada em princípios democráticos e de interação entre a equipe. Isto se dá 
porque a inversão do modelo tecno-assistencial, com mudanças estruturais no 
processo de trabalho, pressupõe a adesão dos trabalhadores à nova diretriz. Este 
compromisso com a mudança, com a construção do devir, só é possível quando os 
profissionais discutem e efetivamente podem decidir sobre a organização dos 
serviços na Unidade de Saúde. 
 
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A gestão democrática e participativa criou oportunidade para que se experimentasse 
na Unidade de Saúde um processo pedagógico, auto-conduzido, de extrema 
riqueza. Os trabalhadores passaram a conhecer o usuário, a partir do momento em 
que este adentrou a Unidade. Por outro lado, o permanente contato com a 
assistência, as inúmeras reuniões dos fóruns, discussões técnicas de grupos 
programáticos, o debate sobre a política de saúde, levaram os trabalhadores a 
assimilar um conhecimento importante acerca da sua realidade e da realidade 
institucional. Podemos dizer que eles adquiriram capacidade de auto-análise, o que 
lhes deu possibilidade de autogestão na organização do processo de trabalho e, por 
conseqüência, dos serviços. O Colegiado Gestor e o Fórum Saúde se tornaram 
assim, por excelência, dispositivos auto-analíticos e autogestores, que 
protagonizaram um processo instituidor e organizador no interior da Unidade de 
Saúde (Baremblit, 1992). 
Associa-se a esse modelo de gestão o planejamento estratégico situacional, 
incorporado no instrumental de trabalho da Unidade de Saúde mediante a 
colaboração do Lapa-Unicamp e com a interferência do Grupo de Apoio à Gestão 
GAG. 
 
 Concluindo 
 O acolhimento como fator de mudança 
 
 
O que transparece de forma enfática em todo o trabalho de investigação sobre o 
acolhimento é sua contemporaneidade, ou seja, a capacidade de se colocar no 
nosso tempo, mobilizar energias adormecidas, reacender a esperança e colocar em 
movimento segmentos importantes dos serviços de saúde, como grupos sujeito que 
se propõem à construção do novo, a fazer no tempo presente aquilo que é o objetivo 
no futuro. 
 
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No imaginário coletivo, ele é a realização da utopia construída com o advento do 
SUS e perdida no momento seguinte, com a constituição de uma hegemonia 
neoliberal nos serviços de saúde. 
O acolhimento associa na forma exata o discurso da inclusão social, da defesa do 
SUS, a um arsenal técnico extremamente potente, que vai desde a reorganização 
dos serviços de saúde, a partir do processo de trabalho, até à constituição de 
dispositivos auto-analíticos e autogestoress, passando por um processo de 
mudanças estruturais na forma de gestão da Unidade. 
 Problemas de primeira hora 
 
 
O primeiro problema enfrentado para a implantação do acolhimento diz respeito ao 
temor, próprio da condição humana, de encarar o novo, por excelência o 
desconhecido. 
Vencida esta primeira dificuldade, o acolhimento chegou e encontrou uma Unidade 
de Saúde que vinha há muitos anos funcionando com reduzida oferta de serviços, 
baixa presença dos usuários por causa da inacessibilidade à Unidade, tendo, por 
conseqüência, incalculável demanda reprimida, não apenas para os serviços 
próprios da UBS, como também para os procedimentos especializados. Implantando 
o acolhimento, aqueles problemas anteriormente existentes no serviço apareceram 
de forma enfática, muito mais evidentes. 
Olhando um pouco sobre alguns medos relacionados ao acolhimento, vale destacar 
aquele que se refere à falsa noção de que o mesmo faz com que a UBS torne-se um 
grande pronto-atendimento (PA). Em Belo Horizonte, onde o acolhimento já é uma 
realidade mais ampla e experimentada, o acolhimento permite, de fato, tornar a UBS 
em um verdadeiro estabelecimento de saúde onde se faça saúde pública, pois uma 
coisa é o uso do pronto-atendimento como um recurso a mais para abordar o 
usuário, e outra coisa é reduzir a UBS a um lugar exclusivo onde só se faz PA. 
 
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Temos visto que o acolhimento tem levado a Unidade a receber e incorporar os 
grupos de riscos como uma realidade sua, à qual deve dar uma resposta individual e 
coletiva e pela qual tem que se responsabilizar. 
 
Limites do acolhimento 
 
 Após um ano de implantação do acolhimento na Unidade, permanecem três 
questões que se impõem como limites à nova diretriz, sobre os quais devemos nos 
debruçar para encontrar as alternativas técnicas para sua consolidação. 
1) A pequena inserção dos profissionais médicos no acolhimento. 
2) O agendamento de consultas médicas permanece como uma questão crítica no 
serviço. A diretriz do acolhimento pressupõe agenda aberta para os casos que 
necessitem. 
3) Um terceiro desafio é a conciliação do trabalho da assistência dentro da Unidade 
de Saúde com o trabalho externo. 
 
Desafios para a consolidação da inversão do modelo assistencial 
 
Podemos começar por refletir sobre os limites do acolhimento, relacionados acima. 
Uma primeira questão que fica evidente é a seguinte: Por que não se conseguiu 
incorporar o profissional médico a esse processo, a ponto de a sua participação 
específica causar impacto na solução dos problemas de saúde da população 
usuária? 
 
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A primeira questão a ser pensada é a seguinte: o trabalho nos estabelecimentos de 
saúde e, entre eles, na Unidade Básica é organizado, tradicionalmente, de forma 
extremamente parcelado. Em eixo verticalizado, organiza-se o trabalho do médico e, 
entre estes, de cada especialidade médica. Assim, sucessivamente, em colunas 
verticais, vai se organizando o trabalho de outros profissionais. Essa divisão do 
trabalho se dá, de um lado, pela consolidação nos serviços de saúde das 
corporações profissionais; por outro, no caso dos médicos, pela especialização do 
saber e, conseqüentemente, do trabalho em saúde. 
A organização parcelar do trabalho fixa os trabalhadores em uma determinada etapa 
do projeto terapêutico. A superespecialização,o trabalho fracionado, fazem com que 
o profissional de saúde se aliene do próprio objeto de trabalho. Desta forma, ficam 
os trabalhadores sem interação com o produto final da sua atividade laboral, mesmo 
que tenham dele participado, pontualmente. Como não há interação, não haverá 
compromisso com resultado do seu trabalho. 
O acolhimento, ao reprocessar o trabalho na Unidade de Saúde, com base na 
formação de uma equipe multiprofissional, a equipe de acolhimento, conseguiu 
quebrar a verticalidade da organização do trabalho na Unidade, mexendo 
radicalmente no processo de trabalho dos profissionais não-médicos. Contudo, não 
foi possível romper com a lógica do trabalho médico, que se dá em torno da 
agenda/consulta. Assim, enquanto os outros profissionais interagem em equipe, de 
forma extremamente dinâmica, acompanhando o resultado do seu trabalho, os 
médicos permanecem fechados num círculo vicioso, visualizando parcialmente a 
realidade. 
E como poderia ser resolvida essa questão finalmente? 
Nossas reflexões a partir de então seguem em sintonia e cumplicidade com as 
formulações recentes do Laboratório de Planejamento e Administração de Sistemas 
de Saúde Lapa (Departamento de Medicina Preventiva e Social-Unicamp). Estes 
consideram o vínculo como a diretriz que, acoplada ao acolhimento, é capaz de 
garantir o real reordenamento do processo de trabalho na Unidade de Saúde, 
resolvendo definitivamente a divisão de trabalho compartimentada e saindo da lógica 
 
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agenda/consulta para uma outra da responsabilização de uma equipe 
multiprofissional, com o resultado do trabalho em saúde. Isto é o que Gastão 
Wagner de Sousa Campos chama de 'A Obra'. Assim, "...em relação ao trabalho 
clínico, não haveria como valorizar-se 'A Obra' sem um processo de trabalho que 
garantisse os maiores coeficientes de Vínculo entre profissional e paciente" 
(Campos, 1997:235). Considera-se vínculo a responsabilização pelo problema de 
saúde do usuário, individual e coletivo. 
O atendimento em saúde seria feito por meio da adscrição da clientela a 
determinada equipe da Unidade de Saúde, formada, no mínimo, pelo médico, 
enfermeiro, pediatra, gineco-obstetra e auxiliares de enfermagem. Esta equipe 
passaria a se responsabilizar pelas pessoas inscritas, devendo, para isto, mobilizar 
todos os recursos dentro e fora da Unidade que pudessem favorecer este objetivo, 
tais como exames, consultas especializadas, internação etc. 
A equipe deve ter autonomia para agir, mobilizar os recursos necessários para fazer 
saúde. É importante a avaliação permanente do seu trabalho, agora facilitado, na 
medida em que este resultado é produto do labor de um mesmo grupo 
multiprofissional, ou seja, foram as mesmas pessoas que desenvolveram todo o 
processo vivido pelo usuário, individual ou coletivo, no seu processo saúde-doença. 
O trabalho externo pode ser feito de duas formas. Na primeira, ele deve ser 
realizado pelas equipes multiprofissionais da Unidade de Saúde, que, ao 
responsabilizarem-se pela sua clientela, podem mobilizar recursos até mesmo de 
visitas e internações domiciliares, ou outros recursos, que se encontram juntos à 
comunidade. 
A segunda forma diz respeito à vigilância à saúde. Esta deve estar combinada com o 
planejamento e gestão dos serviços de saúde e em perfeita sintonia com a realidade 
social, econômica, epidemiológica local, bem como com as necessidades dos 
usuários da região. Este trabalho deve ser executado por uma equipe, auto-intitulada 
Equipe de Saúde Pública, formada especificamente com esse objetivo, podendo 
atuar vinculada a uma ou a várias unidades de uma mesma região da cidade. 
 
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Essas diretrizes gerais fazem parte da mais recente experiência de organização de 
serviços de saúde, alinhados à perspectiva de efetiva construção de um sistema de 
saúde com base no acesso para todos, eqüidade, integralidade das ações, eficácia, 
com atendimento de qualidade e humanizado e sob controle social. 
 Referências 
BAREMBLIT, G., 1992. Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes. Rio 
de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos. 
CAMPOS, G. W. S., 1997. Subjetividade e administração de pessoal. In: Agir em 
Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko, org.), pp. 229-266, 
São Paulo: Editora Hucitec. 
FRANCO, T. B., 1997. Acolhimento: Diretriz do Modelo Tecno-Assistencial em 
Defesa da Vida. Trabalho apresentado à Rede de Investigação em Sistemas e 
Serviços de Saúde do Cone Sul, Fundação Oswaldo Cruz. (mimeo.) 
MERHY, E. E., 1997a. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo 
em saúde. In: Agir em Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko, 
org.), pp. 71-112, São Paulo: Editora Hucitec. 
MERHY, E. E., 1997b. A rede básica como uma construção da saúde pública e seus 
dilemas. In: Agir em Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko, 
org.), pp. 197-228, São Paulo: Editora Hucitec. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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DA MEDICINA DO TRABALHO À SAÚDE DO TRABALHADOR 
 
 
René MendesI; Elizabeth Costa DiasII 
IDepartamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas 
da UNICAMP Campinas, SP; Departamento de Medicina Preventiva e Social da 
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 
IIDepartamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da 
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Belo Horizonte, MG - Brasil 
 
 
RESUMO 
Ensaio de revisão sobre a evolução dos conceitos e práticas da medicina do 
trabalho à saúde do trabalhador, passando pela saúde ocupacional. Busca-se 
responder às seguintes questões: quais as características básicas da medicina do 
trabalho (na sua origem e na sua evolução); como e por que evoluiu a medicina do 
trabalho para a saúde ocupacional; por que o modelo da saúde ocupacional se 
 
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mostrou insuficiente; em que contexto surge a saúde do trabalhador; quais as 
principais características da saúde do trabalhador. 
Descritores: Saúde ocupacional. Medicina ocupacional, história. 
 
 
Introdução 
O presente artigo constitui um ensaio de revisão sobre a evolução dos conceitos e 
práticas da medicina do trabalho à saúde do trabalhador, passando pela saúde 
ocupacional. O caráter de ensaio decorre da natureza preliminar deste exercício, 
pois que tal caminhada encontra-se em processo, e seu estudo está limitado pela 
falta do distanciamento histórico e de metodologias mais adequadas à sua 
abordagem. 
Como artigo de revisão, tem sua base principal em documentos disponíveis, porém 
não se limita à literatura "cientifica", incipiente em estudos e trabalhos que abordem 
o tema proposto. Incorpora as discussões recentes deste processo que vêm se 
dando, no âmbito da academia e no conjunto da sociedade. 
O presente trabalha busca responder a algumas questões básicas, tais como: 
- Quais as principais características da medicina do trabalho (na sua origem e na 
sua evolução)? 
- Como e por que evoluiu a medicina do trabalho para a saúde ocupacional? 
- Por que o modelo da saúde ocupacional se mostrou insuficiente?- Em que contexto surge a saúde do trabalhador? 
- Quais as principais características da saúde do trabalhador? 
Muitas outras perguntas não menos importantes, tanto de natureza epistemológica 
quanto prospectiva, poderiam ser formuladas. Contudo, no presente trabalho, a 
análise se restringirá a estas. 
 
Principais características da medicina do trabalho 
A medicina do trabalho, enquanto especialidade médica, surge na Inglaterra, na 
primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial56. 
Naquele momento, o consumo da força de trabalho, resultante da submissão dos 
trabalhadores a um processo acelerado e desumano de produção, exigiu uma 
 
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intervenção, sob pena de tornar inviável a sobrevivência e reprodução do próprio 
processo. 
Quando Robert Dernham, proprietário de uma fábrica têxtil, preocupado com o fato 
de que seus operários não dispunham de nenhum cuidado médico a não ser aquele 
propiciado por instituições filantrópicas, procurou o Dr. Robert Baker, seu médico, 
pedindo que indicasse qual a maneira pela qual ele, como empresário, poderia 
resolver tal situação, Baker respondeu-lhe: 
"Coloque no interior da sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de 
intermediário entre você, os seus trabalhadores e o público. Deixe-o visitar a fábrica, 
sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa 
verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos 
trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a 
ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer: meu médico é a 
minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção 
da saúde e das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer 
qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser 
responsabilizado". 
A resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica, 
surgindo assim, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho40. 
Na verdade, despontam na resposta do fundador do primeiro serviço médico de 
empresa, os elementos básicos da expectativa do capital quanto às finalidades de 
tais serviços: 
- deveriam ser serviços dirigidos por pessoas de inteira confiança do empresário e 
que se dispusessem a defendê-lo; 
- deveriam ser serviços centrados na figura do médico; 
- a prevenção dos danos à saúde resultantes dos riscos do trabalho deveria ser 
tarefa eminentemente médica; 
- a responsabilidade pela ocorrência dos problemas de saúde ficava transferida ao 
médico. 
A implantação de serviços baseados neste modelo rapidamente expandiu-se por 
outros países, paralelamente ao processo de industrialização e, posteriormente, aos 
países periféricos, com a transnacionalização da economia. A inexistência ou 
 
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fragilidade dos sistemas de assistência à saúde, quer como expressão do seguro 
social, quer diretamente providos pelo Estado, via serviços de saúde pública, fez 
com que os serviços médicos de empresa passassem a exercer um papel vicariante, 
consolidando, ao mesmo tempo, sua vocação enquanto instrumento de criar e 
manter a dependência do trabalhador (e freqüentemente também de seus 
familiares), ao lado do exercício direto do controle da força de trabalho. 
A preocupação por prover serviços médicos aos trabalhadores começa a se refletir 
no cenário internacional também na agenda da Organização Internacional do 
Trabalho (OIT), criada em 1919. Assim, em 1953, através da Recomendação 97 
sobre a "Proteção da Saúde dos Trabalhadores", a Conferência Internacional do 
Trabalho instava aos Estados Membros da OIT que fomentassem a formação de 
médicos do trabalho qualificados e o estudo da organização de "Serviços de 
Medicina do Trabalho". Em 1954, a OIT convocou um grupo de especialistas para 
estudar as diretrizes gerais da organização de "Serviços Médicos do Trabalho". Dois 
anos mais tarde, o Conselho de Administração da OIT, ao inscrever o tema na 
ordem-do-dia da Conferência Internacional do Trabalho de 1958, substituiu a 
denominação "Serviços Médicos do Trabalho" por "Serviços de Medicina do 
Trabalho". 
Com efeito, em 1959, a experiência dos países industrializados transformou-se na 
Recomendação 11245, sobre "Serviços de Medicina do Trabalho", aprovada pela 
Conferência Internacional do Trabalho. Este primeiro instrumento normativo de 
âmbito internacional passou a servir como referencial e paradigma para o 
estabelecimento de diplomas legais nacionais (onde aliás, baseia-se a norma 
brasileira). Aborda aspectos que incluem a sua definição, os métodos de aplicação 
da Recomendação, a organização dos Serviços, suas funções, pessoal e 
instalações, e meios de ação45. 
Segundo a Recomendação 11245, "a expressão 'serviço de medicina do trabalho' 
designa um serviço organizado nos locais de trabalho ou em suas imediações, 
destinado a: 
- assegurar a proteção dos trabalhadores contra todo o risco que prejudique a sua 
saúde e que possa resultar de seu trabalho ou das condições em que este se efetue; 
 
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- contribuir à adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular pela 
adequação do trabalho e pela sua colocação em lugares de trabalho 
correspondentes às suas aptidões; 
- contribuir ao estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível do 
bem-estar físico e mental dos trabalhadores"45. 
Desta conceituação podem ser extraídas mais algumas características da medicina 
do trabalho (além das anteriormente identificadas, a propósito de sua origem), assim 
como alguns questionamentos que têm a ver com suas limitações, a saber: 
- A medicina do trabalho constitui fundamentalmente uma atividade médica, e o 
"locus" de sua prática dá-se tipicamente nos locais de trabalho. 
- Faz parte de sua razão de ser a tarefa de cuidar da "adaptação física e mental dos 
trabalhadores", supostamente contribuindo na colocação destes em lugares ou 
tarefas correspondentes às aptidões. A "adequação do trabalho ao trabalhador", 
limitada à intervenção médica, restringe-se à seleção de candidatos a emprego e à 
tentativa de adaptar os trabalhadores às suas condições de trabalho, através de 
atividades educativas. 
- Atribui-se à medicina do trabalho a tarefa de "contribuir ao estabelecimento e 
manutenção do nivel mais elevado possível do bem-estar físico e mental dos 
trabalhadores", conferindo-lhe um caráter de onipotência, próprio da concepção 
positivista da prática médica. 
Esta visão de onipotência da medicina fica exemplificada no discurso de Selby57, em 
1939, quando ao tratar da finalidade e da organização dos serviços médicos de 
empresa, afirmava: 
"It is the plant physician's privilege and duty to cooperate (...) to conserve human 
values..."57. 
ou nas palavras de Townsend59, em 1943: 
"[Occupational Medicine] is concerned with every phase of the health of the man 
behind the machine, wheter it is the industrial dust in the air he breathes or the food 
his wife has packed in his dinner pail. In short, it is the problem of keeping the worker 
on the job, and in good health, so that he can work at the top efficiency." 
Aliás, tanto a expectativa de promover a "adaptação" do trabalhador ao trabalho, 
quanto a da "manutenção de sua saúde", refletem a influência do pensamento 
 
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mecanicista na medicina científica e na fisiologia. No campo das ciências da 
administração, o mecanicismo vai sustentar o desenvolvimento da "Administração 
Científica do Trabalho", onde os princípios de Taylor, ampliados por Ford, encontram 
na medicina do trabalho uma aliada para a perseguição do seu "telos" último: a 
produtividade17. 
Não é ao acaso que a Henry Ford tenha sido atribuída a declaração de que "o corpo 
médico é a seção de minha fábrica que me dá mais lucro" (citada por Oliveira e 
Teixeira44). 
A explicação é dada por Oliveira e Teixeira44 com as seguintes palavras: 
"Em primeiro lugar, a seleção de pessoal, possibilitando a escolha de uma mão-de-
obra provavelmente menos geradora de problemas futuros como o absentismo e 
suas conseqüências (interrupção da produção, gastos com obrigações sociais, etc.). 
Em segundo lugar, o controle deste absentismo na força de trabalho já empregada, 
analisando os casos de doenças, faltas, licenças, obviamente com mais cuidado e 
maior controle por parte da empresa do que quando esta função é desempenhada 
por serviços médicos externos a ela, por exemplo, da Previdência Social. Outro 
aspecto é a possibilidade de obter um retorno mais rápido da força de trabalho à 
produção, na medida em que um serviço próprio tem a possibilidade de um 
funcionamento mais eficaz nesse sentido, do que habitualmente 'morosas' e 
'deficientes' redes previdenciárias e estatais, ou mesmo a prática liberal sem 
articulação com a empresa." 
 
Como e por que evoluiu a medicina do trabalho para a saúde ocupacional? 
O preço pago pelos trabalhadores em permanecer nas indústrias durante os anos da 
II Guerra Mundial, em condições extremamente adversas e em intensidade de 
trabalho extenuante, foi - em algumas categorias - tão pesado e doloroso quanto o 
da própria guerra. Sobretudo porque, terminado o conflito bélico, o gigantesco 
esforço industrial do pós-guerra estava recém iniciando. 
Num contexto econômico e político como o da guerra e o do pós-guerra, o custo 
provocado pela perda de vidas - abruptamente por acidentes do trabalho, ou mais 
insidiosamente por doenças do trabalho - começou a ser também sentido tanto pelos 
empregadores (ávidos de mão-de-obra produtiva), quanto pelas companhias de 
 
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seguro, às voltas com o pagamento de pesadas indenizações por incapacidade 
provocada pelo trabalho. 
A tecnologia industrial evoluira de forma acelerada, traduzida pelo desenvolvimento 
de novos processos industriais, novos equipamentos, e pela síntese de novos 
produtos químicos, simultaneamente ao rearranjo de uma nova divisão internacional 
do trabalho. 
Entre muitos outros desdobramentos deste processo, desvela-se a relativa 
impotência da medicina do trabalho para intervir sobre os problemas de saúde 
causados pelos processos de produção. Crescem a insatisfação e o questionamento 
dos trabalhadores - ainda que apenas 'objeto' das ações - e dos empregadores, 
onerados pelos custos diretos e indiretos dos agravos à saúde de seus empregados. 
A resposta, racional, "científica" e aparentemente inquestionável traduz-se na 
ampliação da atuação médica direcionada ao trabalhador, pela intervenção sobre o 
ambiente, com o instrumental oferecido por outras disciplinas e outras profissões. 
A "Saúde Ocupacional" surge, sobretudo, dentro das grandes empresas, com o traço 
da multi e interdisciplinaridade, com a organização de equipes progressivamente 
multi-profissionais, e a ênfase na higiene "industrial", refletindo a origem histórica 
dos serviços médicos e o lugar de destaque da indústria nos países 
"industrializados"... 
Nada mais oportuno que citar, textualmente, esta característica inovadora da saúde 
ocupacional, nas palavras de Hussey26 quando, em 1947, discutia um artigo sobre o 
lugar da engenharia na saúde ocupacional: 
"This whole subject of Occupational Health is analogous to a three-legged stool, one 
leg representing medical science, one representing engineering and chemical 
science and one representing social sciences...Up to the present we have been 
trying to balance ourselves on two legs and in some instances on one leg. It is a very 
uncomfortable position and one that cannot get us very far and certainly will lead, as 
it has, to fatigue." 
A racionalidade "científica" da atuação multiprofissional e a estratégia de intervir nos 
locais de trabalho, com a finalidade de controlar os riscos ambientais, refletem a 
influência das escolas de saúde pública, onde as questões de saúde e trabalho já 
vinham sendo estudadas há algum tempo. Na metade deste século intensificam-se o 
 
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ensino e a pesquisa dos problemas de saúde ocupacional nas escolas de saúde 
pública - principalmente nos Estados Unidos (Harvard, Johns Hopkins, Michigan, e 
Pittsburgh) - com forte matiz ambiental. 
Assim, de um lado a saúde ocupacional passa a ser considerada como um ramo da 
saúde ambiental (como, aliás aconteceu também na Faculdade de Saúde Pública da 
Universidade de São Paulo); de outro, desenvolvem-se fortes unidades de higiene 
"'industrial", através de "grants" e contratos de serviços com grandes empresas. No 
estabelecimento da higiene ocupacional nestes centros acadêmicos e em 
instituições governamentais de projeção, os nomes de Theodore Hatch, Phillip 
Drinker, Herbert Stokinger e John Bloomfield, entre outros, passam a constituir 
referência obrigatória3,56. 
Contudo, o desenvolvimento da saúde ambiental/ saúde ocupacional nas escolas de 
saúde pública dos Estados Unidos, centrado na higiene ocupacional, deu-se, não de 
forma complementar, mas acompanhado de uma relativa desqualificação do 
enfoque médico e epidemiológico da relação trabalho-saúde. 
Vale lembrar que havia sido Alice Hamilton -médica pioneira nos estudos das 
doenças profissionais - quem dera, de 1919 a 1935, projeção à Universidade 
Harvard, ao enfocar os problemas de saúde do trabalhador sob o ângulo médico-
epidemiológico. Assim fez Anna Baetjer, que por mais de 60 anos dedicou-se aos 
estudos da patologia do trabalho na Escola de Saúde Pública da Universidade Johns 
Hopkins. E assim foi com muitos outros centros3,24,25,56. 
No Brasil, a adoção e o desenvolvimento da saúde ocupacional deram-se 
tardiamente, estendendo-se em várias direções. Reproduzem, aliás, o processo 
ocorrido nos países do Primeiro Mundo. 
Na vertente acadêmica, destaca-se a Faculdade de Saúde Pública da Universidade 
de São Paulo, que dentro do Departamento de Saúde Ambiental, cria uma "área de 
Saúde Ocupacional", e estende de forma especial sua influência como centro 
irradiador do conhecimento, via cursos de especialização e, principalmente, via pós-
graduação (mestrado e doutorado). Com efeito, este modelo foi reproduzido em 
outras instituições de ensino e pesquisa, em especial em nível de alguns 
departamentos de medicina preventiva e social de escolas médicas. 
 
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Nas instituições, a marca mais característica expressa-se na criação da Fundação 
Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO), 
versão nacional dos modelos de "Institutos" de Saúde Ocupacional desenvolvidos no 
exterior, a partir da década de 50, entre eles, os de Helsinque, Estocolmo, Praga, 
Budapeste, Zagreb, Madrid, o NIOSH em Cincinnati, Lima e de Santiago do Chile. 
Na legislação, expressou-se na regulamentação do Capítulo V da Consolidação das 
Leis do Trabalho(CLT), reformada na década de 70, principalmente nas normas 
relativas à obrigatoriedade de equipes técnicas multidisciplinares nos locais de 
trabalho (atual Norma Regulamentadora 4 da Portaria 3214/ 78); na avaliação 
quantitativa de riscos ambientais e adoção de "limites de tolerância" (Normas 
Regulamentadoras 7 e 15), entre outras. Apesar das mudanças estabelecidas na 
legislação trabalhista, foram mantidas na legislação previdenciária/ acidentária as 
características básicas de uma prática medicalizada, de cunho individual, e voltada 
exclusivamente para os trabalhadores engajados no setor formal de trabalho. 
Caberia, ao encerrar esta parte, saber porque o modelo da saúde ocupacional - 
desenvolvido para atender a uma necessidade da produção - não conseguiu atingir 
os objetivos propostos. Dentre os fatores que poderiam ser listados para explicar 
sua insuficiência, estão: 
- o modelo mantém o referencial da medicina do trabalho firmado no mecanicismo; 
- não concretiza o apelo à interdisciplinaridade: as atividades apenas se justapõem 
de maneira desarticulada e são dificultadas pelas lutas corporativas; 
- a capacitação de recursos humanos, a produção de conhecimento e de tecnologia 
de intervenção não acompanham o ritmo da transformação dos processos de 
trabalho; 
- o modelo, apesar de enfocar a questão no coletivo de trabalhadores, continua a 
abordá-los como "objeto" das ações de saúde; 
- a manutenção da saúde ocupacional no âmbito do trabalho, em detrimento do setor 
saúde. 
 
A insuficiência da saúde ocupacional e o surgimento da saúde do trabalhador. 
A insuficiência do modelo da saúde ocupacional não constitui fenômeno pontual e 
isolado. Antes, foi e continua sendo um processo que, embora guarde uma certa 
 
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especificidade do campo das relações entre trabalho e saúde, tem sua origem e 
desenvolvimento determinados por cenários políticos e sociais mais amplos e 
complexos. 
Além disto, ainda que este processo tenha traços comuns que lhe conferem uma 
certa universalidade, ele ocorre em ritmo e natureza próprios, refletindo a 
diversidade dos mundos políticos e sociais, e as distintas maneiras de os setores 
trabalho e saúde se organizarem. 
Em que cenário a insuficiência deste modelo se evidencia? 
Um movimento social renovado, revigorado e redirecionado surge nos países 
industrializados do mundo ocidental - notadamente Alemanha, França, Inglaterra, 
Estados Unidos e Itália - mas que se espraia mundo afora. São os anos da segunda 
metade da década de 60, (maio de 1968 tipifica a exteriorização deste fenômeno) 
marcados pelo questionamento do sentido da vida, o valor da liberdade, o 
significado do trabalho na vida, o uso do corpo, e a denúncia do obsoletismo de 
valores já sem significado para a nova geração. Estes questionamentos abalaram a 
confiança no Estado e puseram em xeque o lado "sagrado" e "místico" do trabalho - 
cultivado no pensamento cristão e necessário na sociedade capitalista. 
Este processo leva, em alguns países, à exigência da participação dos 
trabalhadores nas questões de saúde e segurança. Elas, mais que quaisquer outras, 
tipificavam situações concretas do cotidiano dos trabalhadores, expressas em 
sofrimento, doença e morte5,53. 
Como resposta ao movimento social e dos trabalhadores, novas políticas sociais 
tomam a roupagem de lei, introduzindo significativas mudanças na legislação do 
trabalho e, em especial, nos aspectos de saúde e segurança do trabalhador. Assim, 
por exemplo, na Itália, a Lei 300, de 20 de maio de 1970 ("Norme per la libertá e la 
dignitá dei lavoratori, della libertá sindicale e dell'attivitá sindicale nei luoghi di 
lavoro"), mais conhecida como "Estatuto dos Trabalhadores", incorpora princípios 
fundamentais da agenda do movimento de trabalhadores, tais como a não 
delegação da vigilância da saúde ao Estado, a não monetização do risco, a 
validação do saber dos trabalhadores e a realização de estudos e investigações 
independentes, o acompanhamento da fiscalização, e o melhoramento das 
condições e dos ambientes de trabalho1,4,36,46,51. 
 
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Conquistas básicas de natureza semelhante, com algumas peculiaridades próprias 
de contextos político-sociais distintos, foram também sendo alcançados pelos 
trabalhadores norte-americanos (a partir da nova lei de 1970), ingleses (a partir de 
1974), suecos (a partir de 1974), franceses (a partir de 1976), noruegueses (1977), 
canadenses (1978), entre outros36,46,55. 
Toda esta nova legislação tem como pilares comuns o reconhecimento do exercício 
de direitos fundamentais dos trabalhadores, entre eles, o direito à informação (sobre 
a natureza dos riscos, as medidas de controle que estão sendo adotadas pelo 
empregador, os resultados de exames médicos e de avaliações ambientais, e 
outros; o direito à recusa ao trabalho em condições de risco grave para a saúde ou a 
vida; o direito à consulta prévia aos trabalhadores, pelos empregadores, antes de 
mudanças de tecnologia, métodos, processos e formas de organização do trabalho: 
e o estabelecimento de mecanismos de participação, desde a escolha de 
tecnologias, até, em alguns países, a escolha dos profissionais que irão atuar nos 
serviços de saúde no trabalho1,3,5,43,46,51,55 
A década de 70 testemunha profundas mudanças nos processos de trabalho. Num 
sentido mais "macro", observa-se uma forte tendência de "terciarização" da 
economia dos países desenvolvidos, isto é, o início de declínio do setor secundário 
(indústria), e o crescimento acentuado do setor terciário (serviços), com óbvia 
mudança do perfil da força de trabalho empregada10,50. 
Ocorre um processo de transferência de indústrias para o Terceiro Mundo, - uma 
verdadeira transnacionalização da economia - principalmente daquelas que 
provocam poluição ambiental ou risco para a saúde (ex.: asbesto, chumbo, 
agrotóxicos, e outros), e das que requerem muita mão-de-obra, com baixa 
tecnologia, como é o caso típico das "maquiladoras", que rapidamente se instalam 
nas "zonas livres" ou "francas", mundo afora. Os países do Terceiro Mundo, afligidos 
pela elevação dos preços do petróleo e pressionados pela recessão que se instala 
universalmente, buscam o desenvolvimento econômico a qualquer custo, aceitando 
e estimulando esta transferência, supostamente capaz de amenizar o desemprego e 
gerar divisas8,31,37. 
 
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Num nível mais "micro", observa-se a rápida implantação de novas tecnologias, 
entre as quais podem ser destacadas duas vertentes que se completam: a 
automação (máquinas de controle numérico, robots, e outros) e a informatização50,60. 
Apesar de a automação e a informatização virem cercadas de uma certa aura mítica 
de se constituirem na "última palavra da ciência a serviço do homem", elas 
introduziram, na verdade, profundas modificações na organização do trabalho. Por 
exemplo, permitiram ao capital diminuir sua dependência dos trabalhadores, ao 
mesmo tempo em que aumentaram a possibilidade de controle. Ressurge, com vigor 
redobrado, o taylorismo, através de dois de seus princípios básicos: o da primazia 
da gerência (via apropriação do conhecimento operário e pela interferência direta 
nos métodos e processos), e o da importância do planejamento e controle do 
trabalho17, 60. 
Contudo, se de um lado o capital busca reeditar as bases da "administração 
científica do trabalho", agora mais sofisticada, de outro, abre espaço a formas de 
"resistência" desenvolvidaspelos trabalhadores. Como conseqüência, são 
desenvolvidas, nos países escandinavos, experiências dos "grupos semi-
autônomos", na Volvo e Saab, numa perspectiva de ampliar a participação dos 
trabalhadores, diminuindo os enfrentamentos. 
No campo das idéias sobre saúde, predominava, até os anos'70, a concepção 
positivista de que a Medicina teria ampla autonomia e estaria no mesmo nível que 
outros subsistemas - como o econômico, o político, o educacional - e a suposição de 
que seria possível transformar a sociedade a partir de qualquer desses setores20. 
Esta visão de mundo sustenta a teoria da multicausalidade do processo saúde-
doença, onde os fatores de risco do adoecer e morrer são considerados com o 
mesmo valor ou potencial de agressão ao homem, visto este como "hospedeiro". A 
prática da saúde ocupacional assenta-se sobre esta concepção. 
Entretanto, a partir do final dos anos'60, começam a aparecer críticas a esta 
concepção e a denúncia dos efeitos negativos da medicalização e do caráter 
ideológico e reprodutor das instituições médicas, com a proposta de 
desmedicalização da sociedade18,20,42. 
No campo da prática médica, surgem programas alternativos de auto-cuidado de 
saúde, de assistência primária, de extensão de cobertura, de revitalização da 
 
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medicina tradicional, uso de tecnologia simplificada, e ênfase na participação 
comunitária20. 
Apesar da "apropriação" pelo Estado de algumas destas alternativas, surgidas da 
crítica às instituições médicas, e do fracasso relativo dessas medidas, elas 
revitalizam a discussão teórica sobre a articulação da saúde na sociedade20,42. 
Nesse intenso processo social de discussões teóricas e de práticas alternativas, 
ganha corpo a teoria da determinação social do processo saúde-doença, cuja 
centralidade colocada no trabalho - enquanto organizador da vida social - contribui 
para aumentar os questionamentos à medicina do trabalho e à saúde 
ocupacional15,30,58. 
As críticas tornam-se mais contundentes, à medida que surgem, em nível da rede 
pública de serviços de saúde, programas de assistência aos trabalhadores, com 
ativa participação destes, e das suas organizações. Os programas contribuem para 
desvelar o impacto do trabalho sobre a saúde, questionam as práticas dos serviços 
de medicina do trabalho nas empresas e instrumentalizam os trabalhadores nas 
suas reivindicações por melhores condições de saúde13,15,19,32,33,41,47,58. 
Neste processo de questionamento da prática médica e gestação de uma nova 
prática, alguns pensadores tiveram papel de destaque. Entre eles, Polack48 com 
suas idéias radicais, de que "a medicina no modo de produção capitalista é a 
medicina do capital"; Berlinguer5, que trabalhou ativamente a questão da saúde do 
trabalhador no movimento da Reforma Sanitária italiana; e Foucault18,20, ao dissecar 
questões nevrálgicas da prática médica, desnudando o poder e o controle, tão bem 
representados na medicina do trabalho. 
Quais as conseqüências deste intenso processo social de mudanças sobre a 
aparente hegemonia do "modelo da saúde ocupacional"? 
É possível identificar, entre outras: 
- Os trabalhadores explicitam sua desconfiança nos procedimentos técnicos e éticos 
dos profissionais dos serviços de saúde ocupacional (segurança, higiene e medicina 
do trabalho); estes têm uma enorme dificuldade em lidar com o "novo", mormente 
naquilo que significou perda de poder e hegemonia5,16,39,51. 
- O exercício da participação do trabalhador em questões de saúde pôs em xeque, 
em muitos casos, conceitos e procedimentos amplamente consagrados pela saúde 
 
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ocupacional, como por exemplo, o valor e a ética de exames médicos pré-
admissionais e periódicos, utilizados, segundo a denúncia dos trabalhadores, para 
práticas altamente discriminatórias28. 
- Desmorona o mito dos "limites de tolerância" que fundamentou a lógica da saúde 
ocupacional (principalmente higiene e toxicologia) por mais de 50 anos. A 
fundamentação científica é questionada (para não dizer desmoralizada); o conceito 
de "exposição segura" é abalado; e os estudos de efeitos comportamentais 
provocados pela exposição a baixas doses de chumbo e de solventes orgânicos, 
põem em xeque os critérios de "proteção de saúde" que vigiram nos países 
industrializados ocidentais até há pouco6,9,14,21,29,54. 
- À medida em que a organização do trabalho amplia sua importância na relação 
trabalho/saúde, requerem-se novas estratégias para a modificação de condições de 
trabalho, que "atropelam" a Saúde Ocupacional (até então trabalhando na lógica 
"ambiental")23. 
- A utilização de novas tecnologias - em especial as que introduzem a automação e 
a informatização nos processos de trabalho - embora possa contribuir para o 
melhoramento das condições de trabalho. acabam introduzindo novos riscos à 
saúde, quase sempre decorrentes da organização do trabalho, e portanto, de difícil 
"medicalização" 
- As modificações dos processos de trabalho em nível "macro" (terciarização da 
economia), e "micro" (automação e informatização), acrescentados à eliminação dos 
riscos nas antigas condições de trabalho, provocam um deslocamento do perfil de 
morbidade causada pelo trabalho: as doenças profissionais clássicas tendem a 
desaparecer, e a preocupação desloca-se para as outras "doenças relacionadas 
com o trabalho" (work related diseases). Passam a ser valorizadas as doenças 
cardiovasculares (hipertensão arterial e doença coronariana), os distúrbios mentais, 
o estresse e o câncer, entre outras. Desloca-se, assim, a vocação da saúde 
ocupacional, passando esta a se ocupar da "promoção de saúde", cuja estratégia 
principal é a de, através de um processo de educação, modificar o comportamento 
das pessoas e seu "estilo de vida"10,22,34,35. 
- Na verdade, esta nova exigência colocada à saúde ocupacional nos países 
desenvolvidos e nas grandes corporações no Terceiro Mundo, se superpõe àquelas 
 
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existentes na imensa maioria dos estabelecimentos de trabalho (pequenos e 
médios) e na economia informal, onde permanecem as condições de risco para a 
saúde dos trabalhadores, com os problemas clássicos e graves, até hoje não 
solucionados pelos modelos utilizados. 
 
Características da saúde do trabalhador 
Do intenso processo social de mudança, ocorrido no mundo ocidental nos últimos 
vinte anos, foram mencionados, anteriormente, alguns aspectos que, no âmbito das 
relações trabalho x saúde, conformaram a saúde do trabalhador. 
Como característica básica desta nova prática, destaca-se a de ser um campo em 
construção no espaço da saúde pública. Assim, sua descrição constitui, antes, uma 
tentativa de aproximação de um objeto e de uma prática, com vistas a contribuir para 
sua consolidação enquanto área19,58. 
O objeto da saúde do trabalhador pode ser definido como o processo saúde e 
doença dos grupos humanos, em sua relação com o trabalho. Representa um 
esforço de compreensão deste processo - como e porque ocorre - e do 
desenvolvimento de alternativas de intervenção que levem à transformação em 
direção à apropriação pelos trabalhadores, da dimensão humana do trabalho, numa 
perspectiva teleológica. 
Nessa trajetória, a saúde do trabalhador rompe com a concepção hegemônica que 
estabelece um vínculo causai entre a doença e um agente específico, ou a um grupo 
de fatores de risco presentes no ambiente de trabalho e tenta superar o enfoque que 
situa sua determinaçãono social, reduzido ao processo produtivo, desconsiderando 
a subjetividade15,30,58. 
Apesar das dificuldades teórico-metodológicas enfrentadas, a saúde do trabalhador 
busca a explicação sobre o adoecer e o morrer das pessoas, dos trabalhadores em 
particular, através do estudo dos processos de trabalho, de forma articulada com o 
conjunto de valores, crenças e idéias, as representações sociais, e a possibilidade 
de consumo de bens e serviços, na "moderna" civilização urbano-industrial15. 
Nessa perspectiva, e com as limitações assinaladas, a saúde do trabalhador 
considera o trabalho, enquanto organizador da vida social, como o espaço de 
dominação e submissão do trabalhador pelo capital, mas, igualmente, de resistência, 
 
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de constituição, e do fazer histórico. Nesta história os trabalhadores assumem o 
papel de atores, de sujeitos capazes de pensar e de se pensarem, produzindo uma 
experiência própria, no conjunto das representações da sociedade15,53. 
No âmbito das relações saúde x trabalho, os trabalhadores buscam o controle sobre 
as condições e os ambientes de trabalho, para torná-los mais "saudáveis". É um 
processo lento, contraditório, desigual no conjunto da classe trabalhadora, 
dependente de sua inserção no processo produtivo e do contexto sócio-político de 
uma determinada sociedade43,53. 
Assim, a saúde do trabalhador apresenta expressões diferentes segundo a época e 
o país, e diferenciada dentro do próprio país, como pode ser observado na Itália, na 
Escandinávia, no Canadá, ou no Brasil. Porém, apesar das diferenças, mantém os 
mesmos princípios - trabalhadores buscam ser reconhecidos em seu saber, 
questionam as alterações nos processos de trabalho, particularmente a adoção de 
novas tecnologias, exercitam o direitto à informação e a recusa ao trabalho perigoso 
ou arriscado à Saúde 1,4,5,43,46 
Na implementação deste "novo" modo de lidar com as questões de saúde 
relacionadas ao trabalho, os trabalhadores contam com dois apoios importantes: 
uma assessoria técnica especializada e o suporte, ainda que limitado, dos serviços 
públicos estatais de saúde. 
No Brasil surge a assessoria sindical feita por profissionais comprometidos com a 
luta dos trabalhadores, que individualmente ou através de organizações como o 
Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de 
Trabalho (DIESAT) e o Instituto Nacional de Saúde no Trabalho (INST), no caso do 
Brasil, estudando os ambientes e condições de trabalho, levantando riscos e 
constatando danos para a saúde; decodificando o saber acumulado, num processo 
contínuo de socialização da informação; resgatando e sistematizando o saber 
operário, vivenciando, na essência, a relação pedagógica educador-educando16,27,52. 
Também pode ser constatada a contribuição ao desenvolvimento da área de saúde 
do trabalhador, trazida pelos técnicos que em nível das instituições públicas - as 
Universidades e Institutos de Pesquisa, a rede de Serviços de Saúde e fiscalização 
do trabalho - somam esforços na luta por melhores condições de saúde e trabalho, 
 
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através da capacitação profissional, da produção do conhecimento, da prestação de 
serviços e da fiscalização das exigências legais13,19,47,58. 
Como características desta "nova prática" cabe ainda mencionar o esforço que vem 
sendo empreendido no campo da saúde do trabalhador para integrar as dimensões 
do individual x coletivo, do biológico x social, do técnico x político, do particular x 
geral. E um exercício fascinante, ao qual têm se dedicado os profissionais de saúde 
e os trabalhadores, que parece apontar uma saída para a grave crise da "ciência 
médica" ou das "ciências da saúde", neste final de século. Os cânones clássicos 
colocados a partir de formas fragmentadas de ver e estudar o mundo, se 
contribuiram para o aprofundamento do conhecimento em níveis inimagináveis, 
estão a necessitar de uma nova abordagem que consiga reuní-los, articulá-los, 
colocando-os a serviço dos homens. 
No Brasil, a emergência da saúde do trabalhador pode ser identificada no início dos 
anos'80, no contexto da transição democrática, em sintonia com o que ocorre no 
mundo ocidental. 
Entre suas características básicas, destacam-se: 
- Ganha corpo um novo pensar sobre o processo saúde-doença, e o papel exercido 
pelo trabalho na sua determinação2,15,49,58. 
- Há o desvelamento circunscrito, porém inquestionável, de um adoecer e morrer 
dos trabalhadores, caracterizado por verdadeiras "epidemias", tanto de doenças 
profissionais clássicas (intoxicação por chumbo, mercúrio, benzeno, e a silicose), 
quanto de "novas" doenças relacionadas ao trabalho, como a LER (lesões por 
esforços repetitivos), por exemplo16,47,52. 
- São denunciadas as políticas públicas e o sistema de saúde, incapazes de dar 
respostas às necessidades de saúde da população, e dos trabalhadores, em 
especial12,49. 
- Surgem novas práticas sindicais em saúde, traduzidas em reivindicações de 
melhores condições de trabalho, através da ampliação do debate, circulação de 
informações, inclusão de, pautas específicas nas negociações coletivas, da 
reformulação do trabalho das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes 
(CIPAs), no bojo da emergência do novo sindicalismo16,27. 
 
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Este processo social se desdobrou em uma série de iniciativas e se expressou nas 
discussões da VIII Conferência Nacional de Saúde, na realização da I Conferência 
Nacional de Saúde dos Trabalhadores, e foi decisivo para a mudança de enfoque 
estabelecida na nova Constituição Federal de 1988. Mais recentemente, a 
denominação "saúde do trabalhador" aparece, também, incorporada na nova Lei 
Orgânica de Saúde, que estabelece sua conceituação e define as competências do 
Sistema Único de Saúde neste campo7,11,12,38. 
À guisa de conclusão retoma-se a idéia expressa na Introdução deste ensaio. 
A caminhada da medicina do trabalho à saúde do trabalhador encontra-se em 
processo. Sua história pode ser contada em diferentes versões, porém com a 
certeza de que é construída por homens que buscam viver. Livres. 
 
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Cad. Pesqui. no.115 São Paulo Mar. 2002 
doi: 10.1590/S0100-15742002000100005 
 
PESQUISA QUALITATIVA: REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO DE CAMPO 
 
 
Rosália Duarte 
Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro 
 
 
RESUMO 
Este trabalho discute algumas das dificuldades mais freqüentemente enfrentadas 
por pesquisadores em trabalhos de campo, no que diz respeito ao uso de 
 
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metodologias de base qualitativa. Procura-se apresentar, no decorrer do texto, 
problemas que envolvem, por exemplo, a delimitação do universo de pesquisa, a 
definição de critérios para a seleção dos sujeitos a serem entrevistados, elaboração 
de roteiros de entrevistas e sua realização, organização e análise de dados 
qualitativos, entre outros, visando contribuir com as discussões relativas à adoção 
desse tipo de metodologia no campo educacional. 
PESQUISA QUALITATIVA – TRABALHO DE CAMPO – PESQUISA ETNOGRÁFICA 
– METODOLOGIA DE PESQUISA 
 
 
INTRODUÇÃO 
Uma pesquisa é sempre, de alguma forma, um relato de longa viagem empreendida 
por um sujeito cujo olhar vasculha lugares muitas vezes já visitados. Nada de 
absolutamente original, portanto, mas um modo diferente de olhar e pensar 
determinada realidade a partir de uma experiência e de uma apropriação do 
conhecimento que são, aí sim, bastante pessoais. 
Contudo, ao escrevermos nossos relatórios de pesquisa ou teses de doutorado, 
muitas vezes nos esquecemos de relatar o processo que permitiu a realização do 
produto. É como se o material no qual nos baseamos para elaborar nossos 
argumentos já estivesse lá, em algum ponto da viagem, separado e pronto para ser 
coletado e analisado; como se os "dados da realidade" se dessem a conhecer, 
objetivamente, bastando apenas dispor dos instrumentos adequados para recolhê-
los. 
Não parece ser assim que as coisas se passam. A definição do objeto de pesquisa 
assim como a opção metodológica constituem um processo tão importante para o 
pesquisador quanto o texto que ele elabora ao final. De acordo com Brandão (2000), 
a tão afirmada, mas nem sempre praticada, "construção do objeto" diz respeito, 
entre outras coisas, à capacidade de optar pela alternativa metodológica mais 
adequada à análise daquele objeto. Se nossas conclusões somente são possíveis 
em razão dos instrumentos que utilizamos e da interpretação dos resultados a que o 
uso dos instrumentos permite chegar, relatar procedimentos de pesquisa, mais do 
 
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que cumprir uma formalidade, oferece a outros a possibilidade de refazer o caminho 
e, desse modo, avaliar com mais segurança as afirmações que fazemos. 
 
REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO DE CAMPO 
De modo geral, durante a realização de uma pesquisa algumas questões são 
colocadas de forma bem imediata, enquanto outras vão aparecendo no decorrer do 
trabalho de campo. A necessidade de dar conta dessas questões para poder 
encerrar as etapas da pesquisa freqüentemente nos leva a um trabalho de reflexão 
em torno dos problemas enfrentados, erros cometidos, escolhas feitas e dificuldades 
descobertas. 
Este trabalho surgiu da necessidade de partilhar algumas informações e reflexões 
acerca do recurso à pesquisa qualitativa que, apesar dos riscos e dificuldades que 
impõe, revela-se sempre um empreendimento profundamente instigante, agradável 
e desafiador. 
 
A SELEÇÃO DE SUJEITOS EM ABORDAGENS QUALITATIVAS 
De um modo geral, pesquisas de cunho qualitativo exigem a realização de 
entrevistas, quase sempre longas e semi-estruturadas. Nesses casos, a definição de 
critérios segundo os quais serão selecionados os sujeitos que vão compor o 
universo de investigação é algo primordial, pois interfere diretamente na qualidade 
das informações a partir das quais será possível construir a análise e chegar à 
compreensão mais ampla do problema delineado. A descrição e delimitação da 
população base, ou seja, dos sujeitos a serem entrevistados, assim como o seu grau 
de representatividade no grupo social em estudo, constituem um problema a ser 
imediatamente enfrentado, já que se trata do solo sobre o qual grande parte do 
trabalho de campo será assentado. 
A pesquisa que gerou as reflexões trazidas neste trabalho (Duarte, 2000), tinha 
como objeto de estudo o processo de formação profissional de cineastas brasileiros 
e, nesse caso, a escolha dos entrevistados esteve vinculada à necessidade de 
compreender o referencial simbólico, os códigos e as práticas daquele universo 
cultural específico, que não apresenta contornos muito bem definidos. Como saber, 
por exemplo, quem de fato pertencia, naquele momento, à categoria de cineasta no 
 
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Brasil? Se não se trata de uma profissão legalmente regulamentada, com exigências 
explícitas do ponto de vista da formação escolar/acadêmica, como saber quem 
poderia ser considerado diretor de cinema? A partir de que critérios passa-se a ser 
considerado membro de uma categoria profissional desse tipo? Essas questões 
precisaram ser respondidas antes do início do trabalho de campo. 
Entre 1988 e 1990, uma equipe de pesquisadores da Universidade Paris 8, na 
França, realizou uma investigação que tinha como objeto de estudo as formas de 
aprendizagem e de organização de uma categoria profissional denominada Les 
Réalisateurs1, que, naquele contexto, é composta por diferentes setores cujas 
atividades estão relacionadas a produtos audiovisuais – cinema, televisão, vídeo, 
publicidade, filmes institucionais, filmes e vídeos educativos, documentários entre 
outras. 
A primeira parte do relatório dessa pesquisa fala, justamente da enorme dificuldade 
encontrada pela equipe de delimitar seu universo de estudo e buscar uma definição, 
mesmo que provisória, para um meio profissional resistente a qualquer 
categorização genérica. Os pesquisadores assinalam que desde o começo puderam 
perceber que, quando se trata de um setor ou grupo social cujas delimitações são 
muito fluidas, a definição da base da enquete constitui-se um problema. 
Naquele caso, a solução encontrada foi a de trabalhar com três abordagens 
diferentes – uma genealógica: origem social do termo "realizador"; uma empírica: 
verificar, mediante a pesquisa qualitativa, como os realizadores se percebem e a 
partir de que categorias organizam o discurso sobre sua atividade profissional; e 
outra, bibliográfica: análise de textos profissionais, da imprensa especializada e de 
documentos sindicais. 
Vencida essa etapa, a equipe considerou possível traçar um esboço da categoria 
profissional em questão, partindo para a elaboração de um cadastro com dados 
biográficos dos sujeitos reconhecidos pelo meio como profissionais da área. Esses 
dados foram obtidos por meio de cadastros de instituições ou entidades de classe e 
da realização de entrevistas semi-estruturadas com representantes dessas 
instituições. Com isso, organizou-se um banco de dados com referências de todos 
os realizadores de audiovisual em atividade na França naquele momento. Do banco 
 
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de dados foram selecionados os sujeitos que viriam a ser entrevistados por meio de 
surveys. 
A pesquisa sobre cineastas brasileiros também exigiu um mapeamento da 
população em estudo e aadoção de critérios bem definidos para a seleção dos 
entrevistados. Nesse caso, optou-se pelo sistema de rede2, no qual se busca um 
"ego" focal que disponha de informações a respeito do segmento social em estudo e 
que possa "mapear" o campo de investigação, "decodificar" suas regras, indicar 
pessoas com as quais se relaciona naquele meio e sugerir formas adequadas de 
abordagem. De um modo geral, as pessoas indicadas pelo "ego" sugerem que se 
procurem outras ou fazem referência a sujeitos importantes no setor e assim se vai, 
sucessivamente, amealhando novos "informantes". Essa é uma alternativa muito 
utilizada em pesquisas qualitativas e se tem mostrado produtiva. Alguém do meio, a 
partir do próprio ponto de vista, tem, relativamente, melhores condições de fornecer 
informações sobre esse meio do que alguém que observa, inicialmente de fora. 
No meu caso, uma longa entrevista com um professor de cinema da Universidade 
Federal Fluminense ajudou a esboçar um mapa do grupo profissional em estudo e 
iniciar uma rede que viria permitir a incorporação progressiva de novos sujeitos à 
pesquisa. Vale dizer que esse professor veio a participar ainda de etapas posteriores 
da pesquisa, orientando eventualmente a seleção de entrevistados ou mesmo 
contribuindo para a análise da adequação de hipóteses ad hoc formuladas ao longo 
da investigação. 
Contatos posteriores com o sindicato da categoria permitiriam a obtenção de 
informações mais precisas acerca de suas formas e instâncias de organização e de 
reconhecimento oficial. O sindicato dispunha, na ocasião, de um anuário 
relativamente atualizado, no qual constavam nomes e endereços de técnicos da 
indústria cinematográfica que exercem suas atividades nas regiões Norte, Nordeste, 
Sudeste e Centro-Oeste, incluídas, aí, algumas centenas de pessoas oficialmente 
registradas como diretores de cinema. 
Um dicionário de cineastas brasileiros, que também é uma forma de legitimação 
(Miranda, 1990) tornou-se, igualmente, fonte de consulta, pois trazia dados 
biográficos e filmográficos, incluindo participações em festivais e premiações de 
diretores de cinema socialmente reconhecidos, dados esses que viriam a ajudar na 
 
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preparação das entrevistas. Desse modo, associando informações advindas de 
diferentes fontes, foi possível organizar um pequeno banco de dados, relativamente 
detalhado, que passou a funcionar como base para a construção da população da 
pesquisa. 
 
DELIMITAÇÃO DO UNIVERSO DE SUJEITOS A SEREM ENTREVISTADOS 
Numa metodologia de base qualitativa o número de sujeitos que virão a compor o 
quadro das entrevistas dificilmente pode ser determinado a priori – tudo depende da 
qualidade das informações obtidas em cada depoimento, assim como da 
profundidade e do grau de recorrência e divergência destas informações. Enquanto 
estiverem aparecendo "dados" originais ou pistas que possam indicar novas 
perspectivas à investigação em curso as entrevistas precisam continuar sendo 
feitas. 
À medida que se colhem os depoimentos, vão sendo levantadas e organizadas as 
informações relativas ao objeto da investigação e, dependendo do volume e da 
qualidade delas, o material de análise torna-se cada vez mais consistente e denso. 
Quando já é possível identificar padrões simbólicos, práticas, sistemas 
classificatórios, categorias de análise da realidade e visões de mundo do universo 
em questão, e as recorrências atingem o que se convencionou chamar de "ponto de 
saturação", dá-se por finalizado o trabalho de campo, sabendo que se pode (e deve) 
voltar para esclarecimentos. 
No que diz respeito ao número de pessoas entrevistadas, o procedimento que se 
tem mostrado mais adequado é o de ir realizando entrevistas (a prática tem indicado 
um mínimo de 20, mas isso varia em razão do objeto e do universo de investigação), 
até que o material obtido permita uma análise mais ou menos densa das relações 
estabelecidas naquele meio e a compreensão de "significados, sistemas simbólicos 
e de classificação, códigos, práticas, valores, atitudes, idéias e sentimentos" 
(Dauster, 1999, p. 2). Eventualmente é necessário um retorno ao campo para 
esclarecer dúvidas, recolher documentos ou coletar novas informações sobre 
acontecimentos e circunstâncias relevantes que foram pouco explorados nas 
entrevistas. 
 
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Na pesquisa a que se refere este texto, o trabalho de campo foi interrompido quando 
se avaliou que com o material obtido seria possível: 1) identificar padrões simbólicos 
e práticas empregadas no universo estudado; 2) descrever e analisar diferentes 
trajetórias profissionais e construir hipóteses relativas ao processo de formação e de 
socialização profissional; 3) identificar valores, concepções, idéias, referenciais 
simbólicos que organizam as relações no interior desse meio profissional, buscando 
compreender seus códigos, o ethos3 profissional, mitos, rituais de consagração e 
legitimação, diferentes visões de cinema e concepções de aprendizagem do ofício e 
4) configurar algum nível de generalização no que dizia respeito a essa categoria 
profissional, ao seu sistema de aprendizagem, regras de funcionamento, relação 
com o trabalho, rituais de ingresso e de consagração e assim por diante. 
Para Dauster (idem), esse tipo de trabalho de campo tem como objetivo 
"compreender as redes de significado a partir do ponto de vista do 'outro', operando 
com a lógica e não apenas com a sistematização de suas categorias" (p. 2) e não 
deve ser interrompido enquanto essa lógica não puder ser, minimamente, 
compreendida. 
 
SITUAÇÃO DE CONTATO 
As situações nas quais se verificam os contatos entre pesquisador e sujeitos da 
pesquisa configuram-se como parte integrante do material de análise. Registrar o 
modo como são estabelecidos esses contatos, a forma como o entrevistador é 
recebido pelo entrevistado, o grau de disponibilidade para a concessão do 
depoimento4, o local em que é concedido (casa, escritório, espaço público etc.), a 
postura adotada durante a coleta do depoimento, gestos, sinais corporais e/ou 
mudanças de tom de voz etc., tudo fornece elementos significativos para a 
leitura/interpretação posterior daquele depoimento, bem como para a compreensão 
do universo investigado. 
Entrevistas realizadas em locais de trabalho, por exemplo, geralmente trazem 
problemas difíceis de solucionar: situações externas freqüentemente as interrompem 
(um telefonema "importante", uma decisão "urgente", a secretária, recados etc.), 
fazendo com que o entrevistado perca o "fio da meada" e se veja obrigado a retomar 
a narrativa de um outro ponto ou, até mesmo, a desistir de vez daquele assunto. 
 
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Pessoas conversando e transitando por salas contíguas, telefones tocando, a 
agenda aberta sobre a mesa a lembrar outros compromissos, enfim, a presença 
marcante dos sinais que caracterizam ambientes designados como "de trabalho" 
costumam aguçar a ansiedade com relação ao tempo de duração do depoimento, 
interrompendo o livre fluxo de idéias e precipitando a interrupção do depoimento. 
Em geral esse tipo de entrevista flui muito mais tranqüilamente quando realizada na 
residência da pessoa entrevistada. Em ambiente doméstico, privado, parece haver 
mais liberdade para expressão das idéias e menos preocupação com o tempo. Por 
essa razão, essas costumam ser entrevistas mais longas e, de modo geral, mais 
densas e produtivas. Vale a pena sugerir,quando da solicitação da entrevista, que o 
depoimento seja colhido na residência de quem vai concedê-lo. 
Outras formas de contato podem também integrar estratégias de investigação 
qualitativa como conversas informais em eventos dos quais participam pessoas 
ligadas ao universo investigado (desde que registradas de algum modo – de 
preferência, no diário de campo) e coleta de informações adicionais, realizadas de 
forma mais ou menos regular, por telefone e/ou por correio eletrônico. Nesse caso, 
trata-se de um material complementar à pesquisa e, embora não se constitua foco 
central da análise, participa significativamente desta. 
 
A REALIZAÇÃO DE ENTREVISTAS 
Aprender a realizar entrevistas é algo que depende fundamentalmente da 
experiência no campo. Por mais que se saiba, hipoteticamente, aquilo que se está 
buscando, adquirir uma postura adequada à realização de entrevistas semi-
estruturadas, encontrar a melhor maneira de formular as perguntas, ser capaz de 
avaliar o grau de indução da resposta contido numa dada questão, ter algum 
controle das expressões corporais (evitando o máximo possível gestos de 
aprovação, rejeição, desconfiança, dúvida, entre outros), são competências que só 
se constroem na reflexão suscitada pelas leituras e pelo exercício de trabalhos 
dessa natureza. 
Entrevista é trabalho, alerta Zaia Brandão (2000), e como tal "reclama uma atenção 
permanente do pesquisador aos seus objetivos, obrigando-o a colocar-se 
intensamente à escuta do que é dito, a refletir sobre a forma e conteúdo da fala do 
 
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entrevistado" (p. 8) – além, é claro, dos tons, ritmos e expressões gestuais que 
acompanham ou mesmo substituem essa fala – e isso exige tempo e esforço. 
À medida que perguntas vão sendo feitas diversas vezes, para diferentes pessoas, 
em circunstâncias diversas, e passamos a ouvir nossa própria voz nas gravações 
realizadas é que se torna possível avaliar criticamente nosso próprio desempenho e 
ir corrigindo-o gradativamente. Elaborar roteiros de entrevistas e formular perguntas 
podem, inicialmente, parecer tarefas simples, mas, quando disso depende a 
realização de uma pesquisa, não o é. 
Em situações de coleta de depoimentos orais, posturas mais formais do tipo 
"respostas diretas a perguntas idem" não costumam produzir bons resultados e, 
quando acontecem, poucas vezes resistem às primeiras interrogações referentes a 
experiências de caráter pessoal. Falar de gostos e interesses pessoais, da relação 
com os pais, do ambiente familiar, da própria infância e juventude, dos amigos, de 
experiências escolares, de um modo geral, deixa as pessoas mais livres para 
expressarem idéias, valores, crenças, significações, expectativas de futuro, visões 
de mundo e assim por diante. Essas situações de contato exigem atenção 
redobrada por parte do pesquisador, pois ele corre o risco de ver a entrevista 
escapar-lhe completamente das mãos e perder-se dos objetivos da pesquisa, 
restringindo-se a divagações ou, mesmo, resvalando para uma espécie de "troca de 
experiências" mútuas, que compromete bastante a qualidade do trabalho. 
Livros e artigos relatando vivências com entrevistas dessa modalidade e/ou coleta 
de depoimentos orais ou de histórias de vida são de grande valia, especialmente 
para pesquisadores iniciantes. Esses trabalhos costumam trazer orientações básicas 
sobre formas de solicitar entrevistas, posturas a serem adotadas ou evitadas nessas 
circunstâncias, erros mais comuns, elaboração de roteiros etc. Existem muitos 
manuais sobre o assunto e, por mais que possam parecer simplificados, são úteis na 
qualificação de pesquisadores ainda não experientes no uso dessa metodologia. 
O recurso a entrevistas semi-estruturadas como material empírico privilegiado na 
pesquisa constitui uma opção teórico-metodológica que está no centro de vários 
debates entre pesquisadores das ciências sociais. Em geral, a maior parte das 
discussões trata de problemas ligados à postura adotada pelo pesquisador em 
situações de contato, ao seu grau de familiaridade com o referencial teórico-
 
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metodológico adotado e, sobretudo, à leitura, interpretação e análise do material 
recolhido (construído) no trabalho de campo. 
Para Queiroz (1988), a entrevista semi-estruturada é uma técnica de coleta de 
dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador e 
que deve ser dirigida por este de acordo com seus objetivos. Desse modo, da vida 
do informante só interessa aquilo que vem se inserir diretamente no domínio da 
pesquisa. A autora considera que, por essa razão, existe uma distinção nítida entre 
narrador e pesquisador, pois ambos se envolvem na situação de entrevista movidos 
por interesses diferentes. 
Camargo (1984) concebe esse formato de entrevista menos como técnica de 
pesquisa do que como opção metodológica, pois implica uma teoria, e enfatiza as 
contribuições oferecidas nesse campo pela Antropologia e pela História. A seu ver, 
essas disciplinas, mais consensuais e homogêneas que as demais, oferecem uma 
experiência comum ao procedimento, bem como um legado teórico aceito, que 
devem ser tomados como referência na perspectiva de acumulação de saber 
científico nesse campo. 
Durhan (1986) alerta para as muitas armadilhas embutidas no processo de 
identificação subjetiva que se estabelece nesse tipo de coleta da dados, 
especialmente quando entrevistador e entrevistado compartilham um mesmo 
universo cultural. Nesses casos, adverte, corre-se sempre o risco de começar a 
explicar a realidade pelas categorias "nativas", ou seja, de passar a olhar a realidade 
exclusivamente pela ótica do interlocutor. 
De acordo com Velho (1986), o risco existe sempre que um pesquisador lida com 
indivíduos próximos, às vezes conhecidos, com os quais compartilha preocupações, 
valores, gostos, concepções. No entanto, assinala que, quando se decide tomar sua 
própria sociedade como objeto de pesquisa, é preciso sempre ter em mente que sua 
subjetividade precisa ser "incorporada ao processo de conhecimento desencadeado" 
(p. 16), o que não significa abrir mão do compromisso com a obtenção de um 
conhecimento mais ou menos objetivo, mas buscar as formas mais adequadas de 
lidar com o objeto de pesquisa. 
Esse autor sublinha que o uso de depoimentos colhidos nesse tipo de investigação 
implica a produção de um texto no qual os recortes das falas, os indivíduos 
 
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privilegiados, os temas destacados e tantas outras formas de intervenção 
expressam menos as dúvidas e opiniões dos informantes que o posicionamento do 
pesquisador-autor. A preocupação teórica particular deste, referida à formação e aos 
interesses próprios, estabelece o distanciamento necessário para que seu discurso 
nunca se confunda com o de seus interlocutores5. 
Analisando a forma como foram colhidos os depoimentos que compõem La Misère 
du Monde, livro de Pierre Bourdieu sobre pessoas "miseráveis", Nonna Mayer (1995) 
critica, exatamente, a ausência desse distanciamento. Segundo a autora, a maior 
parte das entrevistas realizadas pela equipe dirigida por Bourdieu contradiz, de 
forma sistemática, os princípios defendidos pelo próprio autor, em trabalhos 
anteriores, quanto à natureza do papel do sociólogo como aquele que, dotado de um 
"habitus científico", é capaz de reinserir o discurso do interlocutor no contexto social 
e cultural do qual ele é produto. 
Embora reconheça o papel inovadorda equipe que desenvolveu esse trabalho, bem 
como o valor da obra, a autora contesta a opção feita por Bourdieu de intensificar a 
proximidade social e cultural entre entrevistados e entrevistadores (que teriam sido 
incentivados, inclusive, a entrevistar amigos e parentes), reduzindo, portanto, o 
distanciamento. Essa postura, a seu ver, permitiu uma excessiva interferência no 
discurso do interlocutor, assim como inversões no papel do sociólogo que, ao se 
colocar atrás da voz do entrevistado, teria ficado reduzido a um écrivain public, a 
quem cabe apenas apresentar, sem traí-las, as mensagens que lhe são confiadas. 
As formas de colher, transcrever e interpretar relatos orais têm sido objeto de 
severas críticas por parte da sociologia, no que diz respeito à chamada "garantia de 
confiabilidade". No entanto, alguns estudos vêm mostrando a viabilidade de se 
estabelecerem critérios rigorosos para avaliação de confiabilidade de conclusões 
que se baseiam nesse procedimento de investigação. Em 1997, a revista Sociology 
publicou estudo empírico no qual pesquisadores ingleses sugerem um procedimento 
a que denominam inter-rater reliability como um desses critérios. 
O que eles propõem é, basicamente, que os relatos gravados e transcritos, assim 
como os procedimentos utilizados para colhê-los, sejam acessíveis a diferentes 
pesquisadores que não participam da pesquisa em questão, para que cada um 
 
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possa fazer suas própria interpretação do conteúdo dos relatos colhidos e, dessa 
forma, auxiliar na validação dos resultados apresentados (Armstrong et al., 1997). 
Nos limites impostos a trabalhos dessa natureza, procurar seguir o modelo ora 
proposto, entre outros, levando procedimentos, análises, hipóteses etc. ao 
conhecimento e crítica de outros pesquisadores, em momentos distintos da 
investigação, pode contribuir para a garantia de confiabilidade e legitimidade de 
resultados/interpretações apresentados ao final da pesquisa. Anexar transcrições 
completas de parte das entrevistas ao corpo do relatório de pesquisa, para que o 
leitor possa ter acesso ao chamado "material bruto" e tirar suas conclusões, também 
pode funcionar como estratégia a ser empreendida nessa mesma direção. 
 
PROBLEMAS MAIS FREQÜENTES COM O ROTEIRO DA ENTREVISTA 
De maneira geral, a realização de entrevistas nos obriga a rever o roteiro. Uma das 
razões é, por exemplo, quando o entrevistador sente necessidade de explicar a 
pergunta ao entrevistado, ou seja, todas as vezes em que é formulada, tal pergunta 
suscita tantas dúvidas que é preciso reiterar sempre o que se quer, de fato, saber. 
Nesse caso, é melhor retirá-la do roteiro, pois, quando se tenta explicar demais, 
acaba-se dizendo, de um modo ou de outro, o que se espera que o outro responda. 
Algumas perguntas levam a divagações intermináveis e precisam ser repensadas, 
sob pena de acrescentarem ao material "bruto" uma enorme quantidade de 
informações "descartáveis", que dificultarão, em muito, o processo analítico. 
Há, ainda, a dificuldade de se obterem respostas condizentes com os objetivos 
traçados para uma dada pergunta. Esse problema ocorreu no curso da investigação 
a que este trabalho faz referência, no tocante à questão relacionada aos filmes que 
teriam sido importantes na vida dos entrevistados. Formulada de maneira direta: 
"que filmes foram importantes na sua vida?", a pergunta suscitava respostas 
carregadas de critérios formais de julgamento de obras cinematográficas: eram 
importantes os filmes designados como tal pelos cânones da crítica de cinema e/ou 
da cinefilia. Desse modo, a lista de filmes "marcantes" era praticamente a mesma 
em todas as entrevistas. Não que a resposta fosse artificial; era profundamente 
verdadeiro que certos filmes tivessem sido, de fato, "definitivos" para a maioria 
daquelas pessoas. 
 
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No entanto, eram outros os objetivos que levaram à formulação daquela pergunta – 
esperava-se não só identificar o sistema de referência-padrão daquele grupo social, 
mas, principalmente, obter um material pessoal, mais subjetivo, que permitisse 
levantar hipóteses acerca de como são estabelecidas as relações "amorosas" 
(afetivas) entre os espectadores e seus filmes preferidos, fora dos parâmetros da 
racionalidade crítica de quem domina o assunto. Tencionava-se buscar um 
inventário de emoções mobilizadas por imagens fílmicas, descrevendo marcas que 
esse tipo de imagem deixa na memória. 
A discussão com outros pesquisadores possibilitou a identificação da natureza do 
problema: era preciso tentar trazer à tona reminiscências de filmes sobre os quais 
não se tinha grandes expectativas antes de vê-los, filmes que não tinham sido objeto 
de crítica, de premiações ou coisas do tipo. Desejava-se resgatar lembranças de 
cenas ou seqüências vistas (vividas) na sala escura, em um momento da vida em 
que não havia, ainda, o crivo do conhecimento "intelectual" do cinema, estética e/ou 
politicamente condicionado. E isso não seria conseguido com uma indagação direta. 
Nesse ponto, a formulação de uma outra pergunta, além da que já vinha sendo feita, 
possibilitou alcançar a meta traçada. 
Muitos problemas podem ser identificados no roteiro das entrevistas quando elas 
saem do papel (ou do computador) e ganham significado na interação 
entrevistador/entrevistado. Por essa razão, este deve ser um instrumento flexível 
para orientar a condução da entrevista e precisa ser periodicamente revisto para que 
se possa avaliar se ainda atende os objetivos definidos para aquela investigação. 
 
ANÁLISE DE "DADOS" QUALITATIVOS 
Métodos qualitativos fornecem dados muito significativos e densos, mas, também, 
muito difíceis de se analisarem. Sempre se lê isso em textos sobre metodologias de 
pesquisa em ciências sociais, entretanto só se tem idéia da dimensão dessa 
afirmação quando se está diante de seu próprio material de pesquisa e se sabe que 
é preciso dar conta dele. 
De modo geral, ao final de um trabalho de campo relativamente extenso, pode-se ter 
em mãos em torno de trinta entrevistas semi-estruturadas, de uma hora e meia cada 
(cuja transcrição dá, em média, vinte a vinte e cinco laudas); registros escritos de 
 
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conversas não gravadas; eventuais mensagens trocadas por correio eletrônico; 
notas de campo; materiais audiovisuais; textos e/ou reportagens sobre o tema, 
publicados em jornais e revistas; notas biográficas e, ainda, dados de outras 
pesquisas sobre o mesmo tema ou temas afins. 
Esse material precisa ser organizado e categorizado segundo critérios relativamente 
flexíveis e previamente definidos, de acordo com os objetivos da pesquisa. É um 
trabalho árduo e, numa primeira etapa, mais "braçal" do que propriamente analítico. 
Para ajudar na realização de tarefas que envolvem essa etapa da análise de dados 
coletados/construídos em pesquisas qualitativas, dispõe-se de bons aplicativos para 
microcomputadores pessoais que facilitam bastante o trabalho. Esses aplicativos 
criam um ambiente digital no qual se podem gerenciar e explorar diferentes 
documentos (entrevistas, notas de campo, relatórios, tabelas e gráficos importados 
de programas de análise de dados quantitativos etc.), criar categorias, codificar 
textos, fazer cruzamentos, uniões, interseções de códigos já criados, armazenar 
idéias, lembretes e notas sobre os dados, importar e exportar dados de e para 
outros programas (editores de texto ou bancosde dados), além de estabelecer 
padrões de análise para a construção de hipóteses, entre outros recursos. 
Esses programas podem ser utilizados na leitura/interpretação de materiais advindos 
de pesquisa do tipo etnográfica (incluindo diários de campo), de estudos de caso, de 
trabalhos com grupos focais, entre outras metodologias qualitativas, e possibilitam, 
inclusive, a construção de teorias a partir da combinação, confrontação e teste de 
materiais codificados. Entre os mais amigáveis, encontram-se o Folio Views e o 
NUD*IST. 
Registrado como Qualitative Solutions and Research, para Windows e Macintosh, 
NUD*IST foi criado por um casal de pesquisadores (ele, analista de sistemas, ela, 
pesquisadora qualitativa) e desenvolvido em Melbourne, Austrália. Trata-se de um 
pacote destinado a auxiliar o usuário na análise de dados não numéricos e não 
estruturados, pela disponibilização de recursos para sua codificação por meio de um 
sistema de indexação de códigos e/ou pesquisas de texto (encontrar palavras, 
frases e expressões). 
Vencida a etapa de organização/classificação do material coletado, cabe proceder a 
um mergulho analítico profundo em textos densos e complexos, de modo a produzir 
 
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interpretações e explicações que procurem dar conta, em alguma medida, do 
problema e das questões que motivaram a investigação. As muitas leituras do 
material de que se dispõe, cruzando informações aparentemente desconexas, 
interpretando respostas, notas e textos integrais que são codificados em "caixas 
simbólicas", categorias teóricas ou "nativas" ajudam a classificar, com um certo grau 
de objetividade, o que se depreende da leitura/interpretação daqueles diferentes 
textos. 
Assim, fragmentos de discursos, imagens, trechos de entrevistas, expressões 
recorrentes e significativas, registros de práticas e de indicadores de sistemas 
classificatórios constituem traços, elementos em torno dos quais construir-se-ão 
hipóteses e reflexões, serão levantadas dúvidas ou reafirmadas convicções. Aqui, 
como em todas as etapas de pesquisa, é preciso ter olhar e sensibilidade armados 
pela teoria, operando com conceitos e constructos do referencial teórico como se 
fossem um fio de Ariadne, que orienta a entrada no labirinto e a saída dele, 
constituído pelos documentos gerados no trabalho de campo. 
Daqui para frente trata-se de produzir "resultados" e explicações cujo grau de 
abrangência e generalização depende do tipo de ponte que se possa construir entre 
o microuniverso investigado e universos sociais mais amplos. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Neste artigo procurou-se fazer uma apresentação sistemática de formas correntes 
de uso de certos procedimentos de pesquisa, sinalizando para as dificuldades e 
armadilhas mais comuns nessas circunstâncias. 
Vale reafirmar que a confiabilidade e legitimidade de uma pesquisa empírica 
realizada nesse modelo dependem, fundamentalmente, da capacidade de o 
pesquisador articular teoria e empiria em torno de um objeto, questão ou problema 
de pesquisa. Isso demanda esforço, leitura e experiência e implica incorporar 
referências teórico-metodológicas de tal maneira que se tornem lentes a dirigir o 
olhar, ferramentas invisíveis a captar sinais, recolher indícios, descrever práticas, 
atribuir sentido a gestos e palavras, entrelaçando fontes teóricas e materiais 
empíricos como quem tece uma teia de diferentes matizes. Tal é, a meu ver, a 
aventura da pesquisa científica. 
 
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VELHO, G. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Rio de Janeiro: 
Zahar, 1986. [ Links ] 
 
 
1. Essa pesquisa não foi publicada até o presente momento em razão de 
divergências surgidas entre os financiadores ao final de sua elaboração. O acesso a 
cópias somente é permitido na Biblioteca do Centro Nacional de Cinematografia da 
França e foi lá que obtive, do diretor geral da biblioteca, o exemplar de que 
disponho. Em muitos momentos da pesquisa busquei referências nos resultados 
obtidos naquela investigação, com os quais procurei estabelecer algum nível de 
diálogo. 
2. De acordo com Bott (1976), o conceito de rede tem sido usado com tantos fins 
que se tornou difícil adotar universalmente qualquer conjunto de definições ou 
mesmo alcançar o sentido para o qual demonstra maior utilidade. Portanto, adverte 
oautor, é preciso esclarecer, em cada estudo empírico, de que maneira e em que 
perspectiva pretende-se adotá-lo. Nessa pesquisa, o conceito de rede tem como 
referência a concepção adotada por Bott: "a rede é definida como todas ou algumas 
unidades sociais (indivíduos ou grupos) com as quais um indivíduo particular ou um 
grupo está em contato" (p. 299). Trata-se, aqui, de uma "rede pessoal" na qual 
existe um ego focal que está em contato direto ou indireto (através de seus inter-
relacionamentos) com qualquer outra pessoa situada dentro da rede (p. 300-302). 
3. Entendido como aspectos morais, estéticos e valorativos de uma cultura 
determinada. 
 
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4. Vale lembrar que, em se tratando de entrevistas de uma hora e meia a duas horas 
de duração, deve-se esperar um certo nível de ansiedade por parte do entrevistado 
no que diz respeito ao tempo. 
5. Tais considerações levaram-me à decisão de nunca fazer referência, em artigos 
ou relatórios de pesquisa, aos nomes verdadeiros das pessoas que concedem os 
depoimentos. Entendo que ao recortar e editar as falas desses sujeitos, ao produzir 
diálogos fictícios entre pessoas que não se falaram, ao cruzar relatos orais e 
discursos acadêmicos, produzo um texto de minha autoria e de minha inteira 
responsabilidade, embora tenha como fonte as falas das pessoas entrevistadas. 
 
 
 
 
 
"SÓ DE PENSAR EM VIR TRABALHAR, JÁ FICO DE MAU HUMOR": ATIVIDADE 
DE ATENDIMENTO AO PÚBLICO E PRAZER-SOFRIMENTO NO TRABALHO1 
 
 
Mário César Ferreira 
Ana Magnólia Mendes 
Universidade de Brasília 
 
 
Resumo 
 
O texto aborda a inter-relação entre atividade de atendimento ao público e vivências 
de prazer-sofrimento no trabalho. A perspectiva de investigação é interdisciplinar, a 
partir de um diálogo entre a ergonomia francófona e a psicodinâmica. Em 
ergonomia, são utilizadas as noções de serviço de atendimento ao público, atividade 
e carga de trabalho, enquanto que em psicodinâmica são utilizados conceitos que 
fundamentam o prazer-sofrimento no trabalho. A pesquisa realizou-se em uma 
instituição pública do Distrito Federal com 64 sujeitos. A metodologia articula 
técnicas de coleta e análise de dados qualitativa e quantitativa, utilizando Análise 
 
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Ergonômica do Trabalho - AET e a Escala de Prazer-Sofrimento no Trabalho - 
EPST. Os resultados mostram que a atividade de trabalho constitui um dos 
elementos explicativos para a predominância de vivências de sofrimento dos 
atendentes. Trata-se de um estudo exploratório que avança na interface entre as 
duas disciplinas, estabelecendo algumas perspectivas para novos estudos. 
Palavras-chave: Ergonomia, Psicodinâmica, Atividade, Atendimento ao público, 
Prazer-sofrimento. 
 
 
O objetivo desse texto é abordar a inter-relação entre a atividade de trabalho e as 
vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores em um contexto organizacional 
específico de atendimento ao público, buscando identificar seu impacto no bem-
estar psíquico dos sujeitos. A partir de um estudo de caso, a abordagem da temática 
é construída com base em um diálogo teórico-metodológico entre duas disciplinas: a 
ergonomia francófona e a psicodinâmica do trabalho. 
A relação entre essas duas disciplinas tem sido amplamente discutida. O ponto de 
intersecção entre elas encontra-se na preocupação de estudar o contexto de 
trabalho como um fator que influencia a saúde do trabalhador. Ambas distinguem-se 
nas especificidades do seu objeto de estudo e na metodologia para apreendê-lo, o 
que não invalida a tentativa de buscar relações que ampliem e complementem o 
entendimento da inter-relação entre bem-estar psíquico de determinada categoria 
profissional e suas atividades de trabalho. 
O enfoque teórico adotado para investigar a inter-relação fundamenta-se em duas 
premissas interdependentes: a atividade do sujeito em situação de trabalho é um 
processo permanente de regulação que visa responder adequadamente aos 
objetivos das tarefas, às múltiplas determinações do contexto de trabalho 
(situacionais, físicas, materiais, instrumentais, organizacionais, sociais), e à 
avaliação que o sujeito faz de seu estado interno; e o prazer-sofrimento é uma 
vivência subjetiva do próprio trabalhador, compartilhada coletivamente e influenciada 
pela atividade de trabalho. Nessa perspectiva analítica, todo o trabalho veicula 
implicitamente um custo humano que se expressa sob a forma de carga de trabalho, 
 
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e as vivências de prazer-sofrimento têm como um dos resultantes o confronto do 
sujeito com essa carga que, por conseguinte, impacta no seu bem-estar psíquico. 
A importância desse estudo prende-se, principalmente, aos seguintes aspectos: o 
serviço de atendimento ao público é, ainda, um campo de investigação pouco 
conhecido nas ciências humanas; a abordagem centra-se na interface da ergonomia 
com a psicodinâmica, cujas pesquisas têm sido conduzidas de forma isolada; e os 
resultados obtidos podem contribuir para estabelecer novas linhas de investigação e 
aprimorar o instrumental teórico-metodológico utilizado. Do ponto de vista 
organizacional, as recomendações formuladas com base nos resultados obtidos 
podem contribuir para garantir o bem-estar dos sujeitos, a eficiência e a eficácia dos 
serviços prestados. 
O enfoque metodológico para a análise do recorte temático ¾ centrado na atividade 
de atendimento e nas vivências de prazer-sofrimento no trabalho ¾ orientou-se 
pelas seguintes questões: em que consistem as atividades de atendimento ao 
público no contexto organizacional estudado ? Quais são as condições de trabalho, 
disponibilizadas pela instituição, que caracterizam o serviço de atendimento e 
influenciam a atividade dos sujeitos? Como os atendentes percebem o trabalho que 
realizam ? Como se caracterizam suas vivências de prazer-sofrimento ? 
A busca de respostas para essas questões guiou-se pela construção de um quadro 
teórico específico de referência, articulando conhecimentos oriundos da ergonomia e 
da psicodinâmica para entender o mesmo objeto de investigação. 
Quadro teórico de referência 
O contexto de serviço de atendimento ao público constitui o cenário sociotécnico do 
trabalho no qual se inscreve a atividade dos sujeitos. Esse cenário é um objeto de 
investigação relativamente recente em ergonomia (Falzon & Lapeyrière, 1998; 
Santos, Chaves, Pavão & Bijos, 1994). O esforço de elaboração conceitual do 
fenômeno atendimento ao público, buscando caracterizar esse tipo de situação de 
trabalho, deu origem ao primeiro esboço teórico-metodológico que tem orientado 
alguns estudos (Ferreira, Araujo & Araujo, 1998; Gonçalves & Ferreira, 1999). 
Nessa abordagem, o atendimento ao público constitui, freqüentemente, um serviço 
terminal que resulta da sinergia de multivariáveis: a conduta do usuário, as 
atividades dos funcionários envolvidos na situação, a organização do trabalho e as 
 
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condições físico-ambientais/instrumentais. Assim, o atendimento ao público pode ser 
definido como um serviço complexo que coloca em cena diferentes interlocutores, 
cuja interação social é mediada por distintas necessidades, podendo ser facilitada 
ou dificultada em função das condições (físicas, materiais, instrumentais,organizacionais) disponibilizadas pela organização. Em ergonomia, o estudo da 
temática é centrado nas situações nas quais se desenrola o serviço (setting 
organizacional) e emergem os indicadores críticos como, por exemplo, tempo 
excessivo de espera e reclamações dos usuários (Ferreira, Carvalho & Sarmet, 
1999; Freire & Ferreira, 2000). 
Os disfuncionamentos existentes constituem a ponta do iceberg, buscando-se 
investigar sua gênese a partir de uma perspectiva tridimensional: (a) a lógica da 
instituição, identificando os fatores (processos organizacionais e suportes 
disponibilizados) que caracterizam o modo de ser habitual da instituição; (b) a lógica 
do atendente, analisando os fatores (perfil individual, competência profissional e 
estado de saúde) que caracterizam o modo operatório usual do funcionário, 
estruturadores da conduta nas situações de atendimento; (c) a lógica do usuário, 
analisando os fatores (perfil socioeconômico e representação social) que 
caracterizam o modo de utilização dos serviços pelos usuários e seu comportamento 
nas situações de atendimento. Nessa abordagem, a atividade do sujeito é uma 
categoria nuclear de análise. 
Segundo os enfoques e campos de interesse, o conceito de atividade varia, 
evidenciando o seu caráter nômade e polissêmico (Ferreira, no prelo; Hubault, 
1995). Todavia, observa-se que a variabilidade de aspectos evocados na literatura 
caracteriza-se, sobretudo, pela ênfase em aspectos que se complementam 
mutuamente, oriundos de disciplinas com as quais a ergonomia vem estabelecendo 
um diálogo: Psicologia, Sociologia, Filosofia (Schwartz, 1992; Teiger, 1992; Terssac, 
1995). Em ergonomia, a atividade constitui uma categoria teórica central que orienta 
o "olhar" dos ergonomistas no estudo do trabalho (Leplat & Hoc, 1983). A noção de 
atividade não tem vocação para abstração, ao contrário, ela aparece inseparável, 
lato sensu, de um corpo, de uma temporalidade e de um contexto sociotécnico. 
Assim, para a ergonomia o trabalho é uma atividade mediadora entre o sujeito e um 
contexto singular que se caracteriza como uma via de mão dupla: o sujeito, ao agir 
 
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direta ou indiretamente (mediação instrumental) sobre o meio pela atividade de 
trabalho, é, ao mesmo tempo, transformado por ele em função dos efeitos e 
resultados de sua ação. Tal interação não se opera ao acaso, mas é guiada por 
objetivos que o sujeito coloca para si em função das propriedades da situação e de 
seu objeto de ação (finalismo). A estruturação dos objetivos orienta a interação com 
o meio e resulta de um processo de apropriação (no sentido piagetiano do termo) e 
de releitura do que foi prescrito pela organização do trabalho. 
Essa interação, mediada pela atividade, é abordada em termos de estratégias de 
regulação e compensação do sujeito, e resultam do acúmulo de suas experiências e 
do conhecimento do seu próprio funcionamento (Weill-Fassina, 1990; Weill-Fassina, 
Dubois & Rabardel, 1993). Tais estratégias se expressam por meio de modos 
operatórios que o sujeito constrói (de forma mais ou menos consciente), buscando 
estabelecer um compromisso (não-estável) de compatibilidade entre os objetivos da 
produção, a competência que ele dispõe e a preservação de sua saúde (Laville, 
1983; Wisner, 1994). 
Nessa perspectiva, a produção teórica em ergonomia opera uma distinção 
importante entre os conceitos de atividade e tarefa. O conceito de tarefa expressa o 
trabalho prescrito que estabelece, principalmente, o que e o como do trabalho a ser 
executado (Laville, Teiger & Daniellou, 1989), dando visibilidade aos "braços 
invisíveis" da organização do trabalho, cuja pretensão é, em certa medida, fixar os 
"trilhos da atividade". 
Para a ergonomia, a discrepância existente entre a tarefa prescrita e a atividade dos 
sujeitos constitui uma dimensão crucial a ser explorada, buscando-se identificar, 
principalmente, o custo humano do trabalho. Tal custo é abordado em termos de 
carga de trabalho (Brito, 1991; Ferreira & Marcelin, 1983; Moraes & Mont'Alvão, 
1998), cujos componentes ¾ físico, cognitivo e psíquico ¾ que lhe são inerentes, 
exigem do sujeito um esforço permanente de adaptação e evidenciam a função 
mediadora da inter-relação trabalho-desgaste vivenciada por ele (Daniellou, 1984; 
Laurell & Noriega, 1989; Leplat, 1996). 
A atividade expressa uma modalidade de comportamento do sujeito que tende a ser 
estruturada sob a forma de estratégias e modos operatórios para responder às 
exigências físicas, cognitivas e psíquicas inerentes às tarefas e às condições de 
 
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trabalho disponilizadas pela organização. Do ponto de vista social, o trabalho 
envolve diferentes sujeitos em interação com determinada realidade, dando lugar à 
produção de significações psíquicas e de (re)construção de relações sociais. Por 
esta razão, as influências deste contexto podem ser multideterminadas (positivas ou 
negativas), dependendo do confronto entre o sujeito e a atividade, relação essa 
definidora da qualidade do bem-estar psíquico do trabalhador. 
Assim, a forma como o trabalho é realizado permite a percepção da atividade como 
significativa ou não, influenciando o sentido particular que ela assume para cada 
sujeito, sendo a partir da construção deste sentido específico que emergem 
vivências de prazer e de sofrimento. 
O prazer-sofrimento no trabalho tem sido estudado pela psicodinâmica do trabalho 
desde os anos 80, como um constructo dialético. Pesquisas realizadas por Mendes 
(1995, 1999), Mendes e Linhares (1996) e Mendes e Abrahão (1996) indicam que o 
prazer é vivenciado quando o trabalho favorece a valorização e reconhecimento, 
especialmente, pela realização de uma tarefa significativa e importante para a 
organização e a sociedade. O uso da criatividade e a possibilidade de expressar 
uma marca pessoal também são fontes de prazer e, ainda, o orgulho e admiração 
pelo que se faz, aliados ao reconhecimento da chefia e dos colegas. 
As vivências de sofrimento aparecem associadas à divisão e à padronização de 
tarefas com subutilização do potencial técnico e da criatividade; rigidez hierárquica, 
com excesso de procedimentos burocráticos, ingerências políticas, centralização de 
informações, falta de participação nas decisões e não-reconhecimento; pouca 
perspectiva de crescimento profissional. 
Segundo Dejours (1987, 1993, 1994), o trabalho contém vários elementos que 
influenciam a formação da auto-imagem do trabalhador que, por sua vez, é razão 
para o sofrimento. Tais pesquisas revelam que situações de medo e de tédio são 
responsáveis pela emergência do sofrimento, que se reflete em sintomas como a 
ansiedade e a insatisfação. Apontam ainda para a relação entre esses sintomas e a 
incoerência entre o conteúdo da tarefa e as aspirações dos trabalhadores; a 
desestruturação das relações psicoafetivas com os colegas; a despersonalização 
com relação ao produto; frustrações e adormecimento intelectual. Ainda em relação 
 
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ao sofrimento, pesquisas realizadas por Jayet (1994) resultam em categorias de 
signos indicadores do sofrimento associado ao trabalho (Tabela 1). 
 
 
 
Para Dejours (1995, 1997, 1998), o sofrimento, além de ter origem na mecanização 
e robotização das tarefas, nas pressões e imposições da organização do trabalho, 
na adaptação à cultura ou ideologia organizacional, representada nas pressões do 
mercado, nas relações com osclientes e com o público, é também causado pela 
criação das incompetências, significando que o trabalhador se sente incapaz de 
fazer face às situações convencionais, inabituais ou erradas, quando acontece a 
retenção da informação que destrói a cooperação. 
Ainda para o autor, as novas formas de sofrimento estão associadas às atuais 
formas de organização do trabalho. Os itens mais relevantes nessas mudanças são 
a cooperação e a reprovação. O trabalhador tem de fazer o que não fazia antes, e 
esta diferença pode implicar reprovação, que não passa pela questão moral ou 
social, ou de culpa do superego, mas é uma traição ao próprio eu, um risco de 
perder a identidade, a promessa que fez a si mesmo, e que não pode ser resgatada, 
gerando uma "ferida" na sua cidadania. 
 
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Dessa forma, o sofrimento é capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade, 
conduzindo a problemas mentais; mas ao mesmo tempo, é elemento para a 
normalidade, quando existe um compromisso entre o sofrimento e a luta individual e 
coletiva contra ele, sendo o saudável não uma adaptação, mas o enfrentamento das 
imposições e pressões do trabalho que causam a desestabilidade psicológica, tendo 
lugar o prazer quando esse sofrimento pode ser transformado. 
A partir destas pesquisas, Mendes (1999) elaborou um conceito a partir de dados 
empíricos para as vivências de prazer-sofrimento, o qual fundamenta a abordagem 
da psicodinâmica neste estudo. Esse conceito é uma operacionalização do 
constructo que deu origem à elaboração de uma escala submetida à análise fatorial, 
resultando em três indicadores de cada uma das vivências. 
Nesse estudo, o prazer é definido a partir de dois fatores: valorização e 
reconhecimento no trabalho. A valorização é o sentimento de que o trabalho tem 
sentido e valor em si mesmo, é importante e significativo para a organização e a 
sociedade. O sentimento de reconhecimento significa ser aceito e admirado no 
trabalho e ter liberdade para expressar sua individualidade. O sofrimento é definido a 
partir do fator desgaste, que é a sensação de cansaço, desânimo e 
descontentamento com relação ao trabalho. 
Verifica-se, então, que a discrepância entre tarefa prescrita e atividade real, 
enquanto desencadeadora de um custo psíquico para o trabalhador, traz 
consequências para a organização do trabalho em termos da natureza da tarefa em 
si e das relações socioprofissionais, fazendo com que o sujeito se coloque em 
estado de esforço permanente para dar conta da realidade, muitas vezes, 
incompatível com seus investimentos psicológicos e seus limites pessoais, gerando 
sofrimento. Quando existe uma predominância da compatibilidade entre tarefa 
prescrita e atividade real, ou uma flexibilidade na organização do trabalho que 
permita a negociação ou ajustamento do sujeito às condições adversas da situação, 
têm lugar vivências de prazer. 
Nesse sentido, a ergonomia e a psicodinâmica do trabalho contribuem para uma 
análise do contexto de trabalho à medida que envolvem aspectos concretos das 
situações e aspectos simbólicos representativos dessa realidade para os indivíduos; 
 
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isso revela a importância que a atividade assume para o sujeito, desencadeando 
vivências de prazer e de sofrimento no trabalho. 
 
Abordagem Metodológica 
Contexto sociotécnico do trabalho de atendimento ao público 
A instituição pesquisada vincula-se à Secretaria de Segurança Pública. Ela é de uma 
entidade autárquica de administração superior, integrante do Sistema Nacional de 
Trânsito, cujas finalidades principais são registro e licenciamento de veículos; 
formação, habilitação e reciclagem de condutores; policiamento e fiscalização de 
trânsito; aplicação de penalidades. Trata-se de uma instituição, no rol das públicas, 
com maior flexibilidade para gerir sua estrutura administrativa e de pessoal em 
função da autonomia que lhe é garantida juridicamente. 
Para operacionalizar suas finalidades, a instituição tem como uma de suas fontes de 
recursos financeiros o recolhimentos de taxas pelos serviços prestados aos 
usuários. Isto constitui um fator importante para a compreensão da relação 
instituição-público, pois agrega um componente - usuário mais exigente - que 
influencia as interações sociais estabelecidas no contexto do serviço de 
atendimento. 
A instituição dispõe de uma estrutura administrativa ascendente vertical, cuja 
"ossatura" está baseada na existência de diretorias, divisões, seções e núcleos. Os 
dados foram coletados nas seções de Cadastro e Habilitação de Condutores, 
Registro e Licenciamento de Veículos, Serviço de Controle de Infrações, Serviço de 
Processamento de Dados e no guichê de Recepção e Informações, unidades 
organizacionais escolhidas em função do papel estratégico no contato direto com o 
público. 
Apesar do funcionamento ainda precário do Núcleo de Pesquisa e Processamentos 
de Dados, alguns elementos servem como indicadores do volume de serviços 
prestados pela instituição, relacionados direta ou indiretamente com o público: a 
frota de veículos em 1999 foi estimada em 800 mil unidades; o fluxo mensal de 
público na sede é de aproximadamente 16 mil usuários; a seção de licenciamento de 
veículos tem a maior demanda, com cerca de 550 usuários/dia. 
Participantes 
 
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A pesquisa realizou-se com uma amostra de 64 participantes de um total de 82 
funcionários lotados no serviço de atendimento da instituição. A amostra caracteriza-
se, predominantemente, por funcionários exercendo os cargos de técnico em 
informática, pesquisador de veículos e assistente de trânsito, lotados na Seção de 
Licenciamento de Veículos e na Seção de Habilitação, com escolaridade de 2o grau 
completo, sexo feminino, casados e com tempo de serviço entre um e cinco anos. 
Instrumentos 
Para investigar a atividade, realizaram-se as observações livre e sistemática e 
entrevistas individuais. Para medir as vivências de prazer-sofrimento, utilizou-se a 
"Escala de Prazer-sofrimento no Trabalho ¾ EPST", validada por Mendes (1996). 
Procedimentos 
A EPST foi aplicada individualmente em todos os funcionários do serviço de 
atendimento, no total de 82, dos quais apenas 64 instrumentos foram devolvidos. 
Sua utilização objetivou traçar um quadro epidemiológico da situação atual dos 
funcionários em relação ao seu bem-estar psíquico. Vale ressaltar que a proposta da 
escala é oferecer indicadores a partir da investigação dos fatores que compõem as 
vivências de prazer-sofrimento no trabalho. 
As observações livres realizaram-se em dez postos de trabalho com o objetivo de 
manter os primeiros contatos com os funcionários e estabelecer uma visão 
panorâmica do trabalho e das condições em que é realizado. Elas tiveram a duração 
de 16 horas e foram registradas a partir de anotações escritas e uso de gravações 
em fitas cassetes. 
As observações sistemáticas ocorreram em seis postos de trabalho com os objetivos 
de: (a) identificar e colocar em contexto os modos operatórios dos sujeitos em 
função das exigências e da evolução das situações; (b) registrar e quantificar 
categorias de análise em intervalos de tempo pré-definidos no curso da atividade 
dos sujeitos. O tempo destinado à etapa foi de seis horas e para registrá-la contou-
se com o suporte de câmera VHS e máquina fotográfica. 
As entrevistas individuais semi-estruturadas foram realizadas com 31 funcionários da 
amostra pesquisada etiveram por objetivo: (a) identificar estratégias cognitivas de 
trabalho dos sujeitos; (b) validar os dados coletados, sobretudo, os oriundos da 
 
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observação sistemática. Elas tiveram uma duração média de 40 minutos e seu 
registro se deu por meio de anotações manuais. 
Quanto à análise dos dados, as observações e as entrevistas foram descritas 
qualitativamente com base na análise de conteúdo categorial (Bardin, 1974) 
referentes à atividade de atendimento e às condições de trabalho. Analisou-se a 
EPST em termos de técnicas de estatística descritiva, média, desvio-padrão e teste 
"t" de diferença das médias. Os dados obtidos foram sistematizados sob a forma de 
quadros, tabelas e figuras. 
Os resultados de cada um dos instrumentos são integrados na discussão do 
trabalho e formam um conjunto de dados que, apesar de abordados 
metodologicamente de maneira distinta, fornecem subsídios para o estabelecimento 
de relações, tanto do ponto de vista empírico quanto teórico, no sentido de atender 
aos objetivos do estudo. 
 
Resultados e discussão 
A análise da atividade de atendimento nos setores observados possibilitou construir 
um cenário explicativo da inter-relação dos sujeitos com o trabalho, identificando e 
avaliando diferentes fatores que caracterizam as exigências externas e fornecem 
elementos para a compreensão dos resultados obtidos nas vivências de prazer e 
sofrimento no trabalho. 
A atividade de atendimento ao público: um ritual quotidiano de tratamento de 
informações 
Globalmente, o quotidiano dos atendentes é marcado por três momentos distintos: 
(a) organização e preparação do posto de trabalho para o início da jornada; (b) o 
atendimento das múltiplas demandas dos usuários, durante o expediente ao público; 
e (c) encaminhamento e arquivamento de documentos resultantes dessas 
demandas. Logo, o atendimento ao público constitui o centro das atividades dos 
funcionários e sua variabilidade é determinada pelo universo de tarefas prescritas. O 
serviço transferência de veículos (Figura 1), realizado com alta freqüência no Setor 
de Licenciamento de Veículos, é representativo das modalidades de procedimentos 
típicos no trabalho dos atendentes. 
 
 
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A análise de diferentes fluxos dos procedimentos de rotina possibilitou evidenciar um 
traço característico do trabalho de atendimento ao público: é uma atividade rotineira 
complexa de tratamento de informações, marcada por procedimentos 
administrativos habituais, estruturados em uma lógica algorítimica do tipo "Se... (tal 
situação ou evento se apresenta), então... (executa-se tal procedimento)". Como no 
exemplo apresentado na Figura 1, se o usuário deseja transferir a propriedade de 
seu veículo (diagnóstico), então é imperioso (tomada de decisão) verificar se ele 
apresenta a documentação exigida. 
Assim, o tratamento de informações é baseado predominantemente no diagnóstico 
das exigências da situação, com base em critérios prescritos pela instituição, que 
orienta as tomadas de decisão. A atividade de atendimento implica um conjunto de 
ações rotineiras, principalmente, de solicitação, identificação, cotejamento, pesquisa, 
registro, emissão, orientação e arquivamento de informações. 
Condições de trabalho que influenciam as atividades dos atendentes 
A análise ergonômica possibilitou levantar os principais fatores que caraterizam as 
condições de trabalho dos atendentes. Globalmente, eles expressam a dimensão 
material e instrumental do trabalho e funcionam como elementos estruturadores das 
 
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estratégias operatórias dos sujeitos para responder às exigências do trabalho 
prescrito. Dentre os principais aspectos críticos constatados, merecem destaque: a 
sinalização interna, o layout do local de atendimento, os postos de trabalho 
existentes e o sistema informatizado. 
A sinalização interna do espaço da insituição é praticamente inexistente. Constatou-
se enorme perturbação visual, composta por resquícios de uma sinalização que se 
expressa, principalmente, sob a forma de papéis impressos e manuscritos, placas de 
papelão e dizeres em vinil colados nos vidros. Regra geral, os elementos de 
sinalização encontram-se dispostos de forma inadequada, dificultando a percepção 
e a orientação dos usuários. Como conseqüências principais, observam-se os 
seguintes problemas: 
(a) deficiência estética, pois não se utilizam criteriosamente padrões cromáticos, 
tipográficos e signos lingüísticos; 
(b) falta de padronização dos meios de sinalização em função da diversidade de 
veículos de informação utilizados; 
(c) inexistência de sinalização em locais estratégicos, caso da porta de entrada do 
local de atendimento; 
(d) incompatibilidade com as normas de segurança, pois não há sinalização 
indicando saídas de emergência e extintores. 
Em síntese, a improvisação constitui a principal característica no trato institucional 
da sinalização, produzindo impactos negativos para o serviço de atendimento ao 
público: contribuindo para a interrupção do trabalho, potencializando a ocorrência de 
erros, retrabalho e incidentes; aumentando o nível de ruído proveniente das 
conversas entre usuários, dificultando a concentração dos atendentes; e, 
principalmente, aumentando o esforço dos usuários no processo de busca de 
informações e orientação; assim, os recursos de sinalização visual geram incertezas 
nas pessoas, obrigando-as, por exemplo, comumente a entrar na fila para obter, 
muitas vezes, uma informação banal. 
O layout do local de atendimento constitui outro fator crítico, pois a distribuição da 
estrutura organizacional e as modalidades de utilização do espaço físico não 
atendem aos aspectos sociotécnicos dos serviços e às necessidades dos sujeitos. 
Dentre os principais problemas existentes, destacam-se: 
 
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(a) distribuição espacial da estrutura organizacional inadequada às rotinas e aos 
procedimentos dos serviços, dificultando a circulação de usuários e o fluxo de 
funcionários; 
(b) co-habitação de setores de back-office e front-office no local de atendimento, 
indicando uma disposisão não-criteriosa de unidades organizacionais; 
(c) localização inapropriada do guichê de recepção e informação, dificultando sua 
identificação pelos usuários; 
(d) espaço físico insuficiente e desconfortável para os usuários no local de espera, 
obrigando-os, em muitos casos, a esperar em pé para serem atendidos; 
(e) arranjamento espacial dos guichês de atendimento que não atenta à diversidade, 
à variabilidade e às especificidades dos usuários (por exemplo, atendimento 
diferenciado para gestantes, idosos e deficientes físicos). 
Tais limites de layout do local de atendimento reduzem a qualidade dos serviços 
prestados pela instituição e repercutem negativamente nas situações de 
atendimento ao público, pois tendem a transformar o usuário em um "barril de 
pólvora" prestes a explodir no guichê, contribuindo, dessa forma, para agravar o seu 
relacionamento com os atendentes. 
Os postos de trabalho, disponibilizados pela organização para o atendimento ao 
público, colocam limites aos atendentes para a execução eficiente dos serviços e 
uma interação eficaz com os usuários. O mobiliário utilizado, regra geral, é antigo ¾ 
suaaquisição data de 1982 ¾ e não acompanhou a evolução dos serviços e o 
crescimento das demandas. 
Os limites constatados são determinados, sobretudo, pela formatação 
(arranjamento) e pelas dimensões de seus componentes (Figura 2), produzindo: (a) 
a perda da qualidade estética em função do uso inadequado ou não-criterioso de 
formas, cores, texturas, tipos de materiais; (b) a redução da qualidade funcional pela 
evolução das necessidades de funcionários e usuários, constituindo-se em 
obstáculos para a eficácia dos serviços prestados pela instituição; (c) a redução da 
qualidade ergonômica diante dos limites impostos às atividades dos sujeitos, 
dificultando a eficiência na execução dos serviços (manuseio, compatibilidade de 
movimentos, segurança e conforto) e o bem-estar dos funcionários. 
 
 
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A análise de interface do sistema informatizado, à época do estudo em fase de 
reconversão, evidenciou um conjunto de limites do software do serviço de 
atendimento ao público, sob duas dimensões complementares: 
(a) limites intrínsecos: em algumas telas, as funções de alterações, multas, consultas 
e impressões não estão agrupadas espacialmente, dificultando a memorização e 
discriminação dos diferentes ícones pelos atendentes; a lógica de funcionamento do 
sistema impõe ao atendente a necessidade de voltar às telas iniciais toda vez que 
este precisa mudar de uma função para outra, aumentando a carga de trabalho e 
potencializando a probabilidade de erros e retrabalho; algumas telas iniciais 
possuem funções que são utilizadas raramente, aumentando a densidade 
informacional; 
(b) limites extrínsecos: a lógica de funcionamento do programa concebida para a 
modificação de dados do usuário requer o refazer de etapas, levando ao retrabalho; 
a lógica de navegação impõe, em muitos casos, que os funcionários cliquem até 
cinco vezes consecutivas no ícone com o objetivo de retornar, passo a passo, à tela 
inicial; as duas funções mais utilizadas (consulta e impressão de borderô) se 
encontram em páginas diferentes do menu, exigindo que o funcionário mude sempre 
de uma tela para outra, em todos os serviços realizados; algumas funções no 
sistema possuem uma freqüência de utilização quase nula, com relatos de total 
desinformação sobre sua utilidade; as mensagens de erro em inglês geram 
dificuldades de interpretação pelos funcionários que não conhecem o idioma. 
 
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Os resultados evidenciam a vocação tecnocêntrica no uso da informática, ou seja, 
vários aspectos de seu funcionamento mostram uma concepção que não atende de 
modo satisfatório à lógica de trabalho dos atendentes, gerando um conflito de 
interação entre os funcionários e o sistema informatizado que impacta 
negativamente na qualidade da interação com o usuário. Os conflitos de interação 
na interface aumentam, sobretudo, o custo cognitivo do trabalho (exemplo, 
quantidade de etapas para navegar no software), levando os atendentes a construir 
estratégias para amenizar as suas conseqüências. 
As múltiplas exigências da atividade de atendimento ao público: indicadores da 
complexidade do trabalho 
O tratamento de informações que caracteriza a natureza da atividade dos 
atendentes assume uma feição singular no contexto sociotécnico estudado em 
função de múltiplas exigências externas, oriundas das condições e das relações 
sociais de trabalho existentes. Tais exigências são reveladoras da carga cognitiva de 
trabalho singular dos atendentes, e dão visibilidade aos indicadores da 
complexidade do trabalho dos funcionários no setting organizacional do atendimento 
(Tabela 2). 
 
 
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Do ponto de vista psicológico, tais indicadores de complexidade impõem aos 
atendentes exigências cognitivas (perceptivas, mnemônicas, elaboração mental) em 
um contexto de trabalho singular, cuja interação de diferentes variáveis aumenta o 
esforço de tratamento das informações. Assim, a construção de habilidades 
cognitivas é centrada na abstração (decodificar os sentidos das situações e planejar 
as ações) com base na experiência e nas informações disponíveis no campo 
perceptual. 
Nesse sentido, os atendentes desenvolvem estratégias de regulação que visam 
atenuar o custo humano do trabalho que se caracterizam pelas habilidades de: 
diagnóstico das demandas; resoluções de problemas; gestão do tempo em função 
das prioridades, da comunicação e da cooperação intra e inter-equipes. 
Custo psíquico da atividade de atendimento ao público: indicadores de vivências de 
prazer-sofrimento 
Os resultados obtidos na Escala de Prazer-Sofrimento no Trabalho são 
apresentados na Tabela 3, e indicam a média total da amostra nos três fatores do 
instrumento. A diferença entre as médias nos três fatores é significativa, conforme 
 
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resultados do teste "t" de comparação de médias entre grupos de diferentes 
variáveis, tendo apresentado níveis de significância de p £ 0,05. Considerando que a 
EPST é uma escala de cinco pontos, apresentando um ponto médio em três, os 
resultados diferenciam-se para os fatores do prazer (ambos abaixo da média, 2,3 
para valorização e 2,6 para reconhecimento) e para o fator desgaste do sofrimento 
que se encontra acima do ponto médio (com média de 4,5). 
 
 
 
Os resultados dessas análises indicam que existe um predomínio da vivência de 
sofrimento no serviço de atendimento ao público na organização estudada, e o 
prazer é vivenciado moderadamente pela proximidade do resultado dos fatores 
valorização e reconhecimento com o ponto médio da escala, significando que ambas 
existem para os trabalhadores, só que em níveis diferentes. Isso demonstra que as 
situações de prazer-sofrimento não são excludentes, ainda que para este grupo de 
trabalhadores predomine o sofrimento. 
Os resultados em relação ao sofrimento indicam a presença do desgaste no 
trabalho. Os trabalhadores que sentem desgaste estão submetidos a atividades 
cansativas, desagradáveis, repetitivas, com mais sobrecarga, o que gera 
frustrações, desânimo, insatisfação. Também, significa pessoas submetidas a 
sistemas injustos de avaliação de desempenho, bem como a injustiças ligadas ao 
exercício do poder. 
A vivência moderada de valorização e reconhecimento indica que os funcionários 
não estabelecem, de forma satisfatória, relações significativas com sua atividade, 
colegas e chefias, implicando que o contexto oferecido não apresenta condições 
necessárias para o trabalho ser fonte de prazer, predominando o sofrimento. 
 
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Não sentir valorização no trabalho significa que o sujeito não considera seu trabalho 
importante por si mesmo, para a empresa e para a sociedade, indicando assim, um 
reforço negativo na auto-imagem, que está relacionada ao orgulho pela atividade 
desempenhada, à realização profissional, ao sentir-se útil e produtivo, tendo espaço 
mais vivências de sofrimento do que de prazer. 
O fato do reconhecimento aparecer um pouco abaixo da média pode significar que 
as relações socioprofissionais precisam ser melhoradas. Parecem existir problemas 
em relação à boa convivênciacom as chefias e os colegas, bem como relacionados 
ao espaço para construir um coletivo de trabalho no qual estão presentes as 
margens de liberdade para ajustar suas necessidades à tarefa. 
Os resultados demonstram que o sofrimento se articula às imposições das 
condições externas às situações de trabalho impostas aos funcionários, expressas 
nos modos de organização do trabalho em termos das características da atividade. 
Isso significa que, para esse grupo, que vivencia pouco prazer, o trabalho não é 
lugar de realização, de identidade, valorização e reconhecimento, sendo necessário 
o desenvolvimento de determinadas condições que favoreçam a busca do prazer na 
direção de manter o seu equilíbrio psíquico. 
A partir desses resultados, pode-se inferir que as situações de trabalho do grupo 
pesquisado são críticas e geradoras de vivências de sofrimento. Por essa razão, 
deve haver uma preocupação com os aspectos medidos pelo fator desgate 
(exemplos, sobrecarga, cansaço, repetitividade das tarefas, tédio e injustiças na 
gestão de pessoal), para que o prazer possa ser maximizado com a implantação de 
transformações que visem oportunizar a valorização e o reconhecimento no 
trabalho. 
De um ponto de vista dinâmico, pode-se hipotetizar que o sofrimento vivenciado está 
sendo enfrentado com estratégias defensivas e criativas. As estratégias defensivas 
pressupõem a negação do sofrimento e a ausência de prazer. Como existe uma 
vivência moderada de prazer e o sofrimento está sendo revelado, é possível que 
esses trabalhadores estejam utilizando mais estratégias criativas, as quais visam 
transformar a realidade que gera o sofrimento, o que se reflete na não negação de 
algum tipo de sofrimento. 
 
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Essas hipóteses sugerem que esse grupo está submetido a modos de organização 
do trabalho que favorecem mais o sofrimento do que o prazer, ou ainda, a modos 
que não permitem a negociação entre sujeito e realidade de trabalho, o que oferece 
espaço para o sofrimento, mesmo que possa ser enfrentado, considerando-se a 
vivência moderada de prazer, que pode estar indicando o uso de estratégias 
criativas. 
Em relação à análise da atividade levanta-se a hipótese de que o predomínio do 
sofrimento está relacionado com: a) as condições físicas, materiais e instrumentais 
de trabalho (setting de atendimento) como fatores dificultadores do processo; b) a 
carga de trabalho, que predominantemente é cognitiva, implicando um custo maior 
tendo em vista os elementos de complexidade que levam os atendentes a construir 
estratégias para garantir a eficiência e a eficácia do trabalho e assegurar o bem-
estar. 
A construção dessa estratégia articula-se ao uso da criatividade para enfrentar o 
sofrimento, significando assim, que apesar da predominância do sofrimento na 
função de atendimento ao público, os sujeitos buscam a redução do custo psíquico 
no trabalho, não convivendo com o sofrimento e, possivelmente, buscando 
estratégias para desenvolver o prazer, tendo em vista ser este um dos elementos 
para a sua estruturação psíquica. Isso não desconsidera as transformações que 
devem ser realizadas no contexto de trabalho para minimizar ou eliminar o sofrer, 
ajudando o trabalhador a restabelecer sua economia psíquica e alcançar maiores 
oportunidades para o seu bem-estar e saúde. 
 
Conclusão 
Os resultados do estudo evidenciam que a inter-relação entre a atividade de 
atendimento ao público e o bem-estar psíquico dos sujeitos são faces de uma 
mesma moeda. Os dados empíricos, provenientes das abordagens em ergonomia e 
em psicodinâmica, apontam um cenário inquietante na instituição estudada. 
O enfoque da ergonomia mostra que a atividade de atendimento ao público se 
caracteriza por três aspectos interdependentes: (a) a execução dos serviços é 
centrada em um ritual quotidiano de tratamento rotineiro de informações, exigindo 
dos atendentes um trabalho mental intenso (identificação da demanda do usuário, 
 
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busca, registro e transmissão de informações); (b) as condições ambientais, 
materiais e instrumentais de trabalho, disponibilizadas pela instituição no setting de 
atendimento, constituem variáveis limitadoras que dificultam as atividades dos 
sujeitos e reduzem a sua margem de manobra para que possam gerir as exigências 
do serviço; (c) a multiplicidade e a interação dos fatores de complexidade, 
constatados no trabalho, aumentam, sobretudo, as exigências cognitivas e psíquicas 
da atividade de atendimento, agregando dificuldades aos atendentes para a 
construção de suas estratégias de regulação. 
O enfoque da psicodinâmica do trabalho mostra que a predominância das vivências 
de sofrimento estão associadas tanto às condições nas quais as atividades são 
realizadas, quanto às relações socioprofissionais. Esse resultado indica um alerta no 
sentido de serem desenvolvidas mudanças organizacionais para redução ou 
minimização dos fatores que causam cansaço, desânimo e descontentamento com o 
trabalho. Vale ressaltar, ainda, que a vivência moderada de prazer pode indicar um 
ponto positivo para a neutralização do sofrimento, sendo necessário para isso 
identificar os fatores geradores de prazer. 
A escala de prazer-sofrimento teve papel epidemiológico. Permitiu uma descrição da 
situação geral do setor sob o ponto de vista da maioria dos seus membros. São 
importantes no sentido de mostrar a direção em que o fenômeno acontece no setor 
estudado, naquele momento e contexto organizacional, tendo sido de grande valia 
seus resultados para subsidiar e corroborar os dados provenientes das entrevistas e 
das observações. 
O uso da escala justifica-se no nosso interesse de ter uma descrição da situação 
dos trabalhadores em dado momento. É saudável para o campo de investigação 
científica nas organizações e trabalho o uso de técnicas mistas de coleta de dados. 
Consideramos que do ponto de vista epistemológico, o fato de se usarem escalas de 
atitude para medir conceitos ditos subjetivos - até porque qualquer fenômeno 
estudado a partir da percepção é por si só subjetivo - não significa necessariamente 
uma visão positivista do conhecimento. O que define o aspecto epistemológico é a 
construção do conhecimento a partir do dado empírico e não o dado em si. Nesse 
sentido, o uso de escalas para medir o prazer-sofrimento fornece indicadores para 
se ter acesso a uma situação que extrapola o dado, que se configura num conjunto 
 
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de relações, na maioria das vezes dialética, que permite a interpretação e o avanço 
do conhecimento ao confrontar dados quantitativos e qualitativos, não sendo 
negligenciados para isso, os pressupostos da psicodinâmica do trabalho, e 
possibilitando o diálogo com outras disciplinas, no caso a ergonomia. 
O exame da inter-relação da ergonomia e da psicodinâmica nesse estudo 
possibilitou estabelecer um diálogo enriquecedor entre as duas disciplinas, 
permitindo identificar, ao mesmo tempo, as contribuições e os limites da abordagem 
interdisciplinar no estudo da temática. 
Os dados da análise ergonômica mostram o contexto sociotécnico e a interação das 
principais variáveis que marcam as atividades dos sujeitos no serviço de 
atendimento ao público, em particular, os elementos críticos das situações que 
aumentam a carga de trabalho dos atendentes e dificultam a estruturação de suas 
estratégias de regulação. Nesse sentido, os dados constróem um cenário 
característicopara o setor pesquisado no qual se inscrevem os resultados das 
vivências de prazer-sofrimento, obtidos pela abordagem da psicodinâmica. Tal 
cenário apresenta, sobretudo, elementos empíricos das situações de atendimento 
para se compreender a predominância das vivências de sofrimento entre os sujeitos, 
conforme constatado com a aplicação da EPST. 
Todavia, essa investigação interdisciplinar exploratória não autoriza construir um 
quadro explicativo mais conclusivo, em termos de se estabelecer uma correlação 
inequívoca entre o trabalho real e as vivências de sofrimento constatadas. 
Globalmente, os dados da ergonomia agregam sentido aos resultados da 
psicodinâmica, tornam mais compreensíveis os achados da EPST, mas não 
permitem afirmações categóricas sobre a inter-relação atividade de atendimento e 
sofrimento no trabalho. Pontualmente, um dos limites do estudo é a carência de 
dados específicos e mais aprofundados relativos à interação social com os usuários, 
que possibilitariam mapear melhor essa importante dimensão da carga psíquica de 
trabalho. 
Os resultados abrem novas perspectivas para intensificar o diálogo interdisciplinar, 
esboçado no presente estudo. Ele possibilitou, principalmente, propor novas 
questões: (a) Qual é a importância das situações críticas de trabalho, que conduzem 
às "falências" de estratégias de regulação, na gênese das vivências de sofrimento 
 
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psíquico dos sujeitos? (b) Como construir um design metodológico que incorpore de 
forma interativa os pressupostos teóricos das duas disciplinas no processo de 
investigação? Fica, portanto, o desafio de futuras investigações empíricas sob as 
diferentes perspectivas teóricas, de forma a avançar no entendimento tanto dos 
processos de adoecimento, quanto do desenvolvimento da saúde no contexto de 
trabalho. 
 
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Nota 
1
 Este artigo tem origem em um projeto de intervenção intitulado "Bem-estar dos 
funcionários e satisfação dos usuários no serviço de atendimento ao público: 
diagnóstico e recomendações", desenvolvido pelo Laboratório de Ergonomia da 
Universidade de Brasília - UnB. 
 
 
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Mário César Ferreira, doutor em Ergonomia pela Ecole Pratique des Hautes Etudes 
(EPHE), Paris, França, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professor 
do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília. 
Ana Magnólia Mendes, doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília, DF, 
bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professora do Departamento de 
Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília. 
Endereço para correspondência: Universidade de Brasília (UnB), Dep. de Psicologia 
Social e do Trabalho, Instituto de Psicologia, Asa Norte, Campus Darci Ribeiro, 
70.910 ¾ 900, Brasília, DF. Tel.: (61) 307.26 25, ramal 224; Fax: (61) 347.77 46. E- 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE OS ACIDENTES DE TRABALHO COM 
MATERIAL PERFUROCORTANTE ENTRE TRABALHADORES DE 
ENFERMAGEM 
 
 
Maria Helena Palucci Marziale1 
Christiane Mariani Rodrigues2 
 
A investigação ora apresentada teve por objetivos identificar as abordagens 
metodológicas das pesquisas publicadas em periódicos indexados nas bases de 
dados Lilacs e Medline, nos últimos 16 anos, referentes, ao estudo dos acidentes de 
trabalho com material perfurocortante e a identificação dos fatores predisponentes à 
ocorrência de tais acidentes entre trabalhadores da enfermagem. Foram analisados 
55 artigos, sendo 39 internacionais, e 16 nacionais. As abordagens metodológicas 
mais utilizadas foram descritiva de campo, pesquisa-ação e bibliográfica. Dentre os 
fatores predisponentes a ocorrência dos acidentes em vários países, destaca-se a 
prática inadequada de re-encape de agulhas e o inadequado descarte do material. 
DESCRITORES: acidentes de trabalho, trabalhadores, enfermagem 
 
 
INTRODUÇÃO 
Os trabalhadores de enfermagem, durante a assistência ao paciente, estão expostos 
a inúmeros riscos ocupacionais causados por fatores químicos, físicos, mecânicos, 
biológicos, ergonômicos e psicossociais, que podem ocasionar doenças 
ocupacionais e acidentes de trabalho. 
O contingente de trabalhadores de enfermagem, particularmente o que está inserido 
no contexto hospitalar, permanece 24 horas junto ao paciente, em sua grande 
maioria executa o "cuidar" dentro da perspectiva do "fazer" e, conseqüente, expõe-
se a vários riscos, podendo adquirir doenças ocupacionais e do trabalho, além de 
lesões em decorrência dos acidentes de trabalho(1). 
 
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Os riscos químicos referem-se ao manuseio de gases e vapores anestésicos, 
antissépticos e esterelizantes, drogas citostáticas, entre outros. A exposição aos 
riscos químicos está relacionada com a área de atuação do trabalhador, com o tipo 
de produto químico e tempo de contato, além da concentração do produto. Isso pode 
ocasionar sensibilização alérgica, aumento da atividade mutagênica e até 
esterilidade(2). 
Os riscos do ambiente de trabalho são classificados em real (de responsabilidade do 
empregador), suposto (quando se supõe que o trabalhador conhece as causas que 
o favorecem) e residual (de responsabilidade do trabalhador). 
Os riscos físicos referem-se à temperatura ambiental (elevada nas áreas de 
esterelização e baixa em centro cirúrgico), radiação ionizante, ruídos e iluminação 
em níveis inadequados e exposição do trabalhador a incêndios e choques 
elétricos(3). 
Dentre os riscos psicossociais, está a sobrecarga advinda do contato com o 
sofrimento de pacientes, com a dor e a morte, o trabalho noturno, rodízios de turno, 
ritmo de trabalho, realização de tarefas múltiplas, fragmentadas e repetitivas, o que 
pode levar à depressão, insônia, suicídio, tabagismo, consumo de álcool e drogas e 
fadiga mental(4). 
Dentre os riscos mecânicos, estão as lesões causadas pela manipulação de objetos 
cortantes e penetrantes e as quedas(5). 
O freqüente levantamento de peso para movimentação e transporte de pacientes e 
equipamentos, a postura inadequada e flexões de coluna vertebral em atividades de 
organização e assistência podem causar problemas à saúde do trabalhador, tais 
como fraturas, lombalgias e varizes. Tais fatores causais estão relacionados a 
agentes ergonômicos(3,5). Os fatores ergonômicos são aqueles que incidem na 
adaptação entre o trabalho-trabalhador. São eles o desenho dos equipamentos, do 
posto de trabalho, a maneira como a atividade laboral é executada, a comunicação e 
o meio ambiente. 
Quanto aos riscos biológicos, eles se referem ao contato do trabalhador com 
microorganismos (principalmente vírus e bactérias) ou material infectocontagiante, 
os quais podem causar doenças como: tuberculose, hepatite, rubéola, herpes, 
escabiose e AIDS(2). 
 
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O contato com microorganismos patológicos oriundo de acidentes ocasionados pela 
manipulação de material perfurocortante, ocorre, com grande freqüência, na 
execução do trabalho de enfermagem. A exposição ocupacional por material 
biológico é entendida(6) como a possibilidade de contato com sangue e fluidos 
orgânicos no ambiente de trabalho, e as formas de exposição incluem inoculação 
percutânea, por intermédio de agulhas ou objetos cortantes, e o contato direto com 
pele e/ou mucosas. 
O maior risco para os trabalhadores da área da saúde é o acidente com material 
perfurocortante, que expõe os profissionais a microorganismos patogênicos, sendo a 
hepatite B a doença de maior incidência entre esses trabalhadores(7). 
Com o surgimento da AIDS, maior ênfase passou a ser dada à exposição desses 
trabalhadores ao sangue. A prevenção ocupacional do HIV tornou-se um grande 
desafio aos profissionais de Controle de Infecção Hospitalar e Saúde Ocupacional, 
depois de uma enfermeira ter desenvolvido AIDS, em conseqüência de picada 
acidental com uma agulha que continha sangue de um paciente infectado pelo HIV, 
internado em um hospital da Inglaterra(8). O Centers for Disease Control ¾ CDC, 
preocupado com a questão da transmissão de HIV e outros patógenos veiculados 
pelo sangue, organiza um sistema informatizado de coleta de informações (EPINet), 
a partir do qual propõe estratégias para minimizar o problema dos profissionais 
expostos ao risco ocupacional de contaminação(9). 
Segundo dados do CDC, a estimativa anual de acidentes percutâneos com 
trabalhadores da saúde nos hospitais é de 384.325 casos, e o risco de 
contaminação com o vírus HIV (AIDS) é de 0,3%, vírus HBV (Hepatite B) é de 6% a 
30%, e o riscode contaminação é de 0,5% a 2% para o HCV (Hepatite C)(9). 
Segundo a referida instituição, as conseqüências da exposição ocupacional aos 
patógenos veiculados pelo sangue não são só os referentes às infecções, mas 
também os relativos ao trauma psicológico ocasionado pela espera do resultado de 
uma possível soroconversão e mudanças nas práticas sexuais, no relacionamento 
social e familiar, efeito das drogas profiláticas, entre outros. 
Em estudo realizado no Brasil, com trabalhadores da saúde, visando à identificação 
do risco ocupacional de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana(10), foi 
 
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constatado que 88,8% dos acidentes de trabalho notificados acometeram o pessoal 
da enfermagem. 
Dentre os fatores predisponentes a ocorrência de acidentes de trabalho dessa 
natureza, está a freqüente manipulação de agulhas pelos trabalhadores de 
enfermagem(11). 
A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, por meio do programa de 
DST/AIDS(12) recomenda que os acidentes que envolvam exposição à material 
biológico sejam analisados quanto ao material biológico envolvido, ao tipo de 
acidente e à situação sorológica do paciente fonte em relação ao HIV. Se for 
indicado quimioprofilaxia, ela deverá ser iniciada nas primeiras 2 horas após o 
acidente, tendo duração de 4 semanas ou até que se tenha o resultado da sorologia 
do paciente fonte. 
Embora considerável progresso tenha sido observado sobre o entendimento do risco 
ocupacional e HIV(13), os trabalhadores da saúde e, principalmente, os da 
enfermagem têm se mostrado resistentes à utilização de equipamentos de proteção 
individual, à subestimação do risco de se infectar e à notificação do acidente de 
trabalho. 
O acidente de trabalho em nosso país deve ser comunicado imediatamente após 
sua ocorrência, por meio da emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho 
(CAT), que deve ser encaminhada à Previdência Social, ao acidentado, ao sindicato 
da categoria correspondente, ao hospital, ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao 
Ministério do Trabalho(14). 
Apesar de, legalmente, ser obrigatória a emissão da CAT, observa-se, na prática, a 
subnotificação dos acidentes de trabalho. O sistema de informação utilizado 
apresenta falhas devido à concepção fragmentada das relações de saúde e 
trabalho, marcada por uma divisão e alienação das tarefas dos profissionais 
responsáveis pelo registro da CAT, os quais privilegiam o cumprimento de normas 
burocráticas, mas não o envolvimento profissional com a questão acidentária(15). 
As causas da subnotificação de acidentes de trabalho(16), na visão de trabalhadores 
de enfermagem de uma cidade do interior paulista, foram atribuídas à falta de 
importância dada às pequenas lesões, tal como picada de agulha, e o 
desconhecimento sobre a importância da emissão da CAT. 
 
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Diante da freqüente ocorrência de acidentes do trabalho ocasionados por material 
perfurocortante, observada em nossa atuação profissional, e por acreditarmos que o 
trabalhador de enfermagem deva se preocupar com a implementação de práticas 
que lhe ofereçam condições seguras para o desempenho de suas atividades 
laborais, propusemos-nos realizar a pesquisa ora apresentada cujos resultados 
contribuirão para divulgação do conhecimento produzido sobre a referida temática. 
 
OBJETIVOS 
- Identificar as abordagens metodológicas dos estudos que se relacionam com a 
questão dos acidentes do trabalho com material perfurocortante; 
- Levantar os fatores predisponentes aos acidentes do trabalho, ocasionados por 
material perfurocortante, na equipe de enfermagem, descritos na literatura. 
 
MATERIAL E MÉTODO 
Foi realizado um levantamento bibliográfico retrospectivo, dos últimos 16 anos 
(2000-1985), por meio dos bancos de dados Lilacs (Literatura Latino Americana e do 
Caribe em Ciências da Saúde), Medline (National Library of Medicine), utilizando os 
unitermos "accidents occupational", "needlestick injuries", "nursing staff", "sharps", 
"percutaneous injuries", acidentes do trabalho, perfurocortante, trabalho de 
enfermagem, risco ocupacional, metodologia de pesquisa. 
Os artigos foram catalogados e analisados buscando-se uma síntese dos fatores 
predisponentes aos acidentes do trabalho com material perfurocortante e as 
abordagens metodológicas utilizadas. 
Foi utilizado, para coleta de dados, um protocolo contendo informações sobre o 
periódico, tipo de metodologia usada (descritiva de campo, descritiva bibliográfica, 
pesquisa ação, exploratória, experimental, reflexão teórica e relato de experiência) e 
os fatores predisponentes à ocorrência dos acidentes. O referido instrumento foi 
submetido à apreciação de três enfermeiros pesquisadores, quanto à clareza, 
objetividade e conteúdo, sendo considerado adequado para o objeto estudado. 
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO 
 
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Foram analisados 55 artigos, sendo 39 internacionais e 16 nacionais. As pesquisas 
analisadas foram publicadas nos seguintes periódicos internacionais: "Pediatric 
Nursing", "Infection Control", "AAOHN Journal", "Arch Surgery", "American Journal of 
Preventive Medicine", "Rev. Investigação Clinica", "AJIC", "American Journal of 
Public Health", "AORN Journal", "AIDS Care" e "The New England Journal of 
Medicine" e periódicos nacionais: Rev. Escola Enfermagem USP, Rev. Brasileira 
Enfermagem, Rev. Enfermagem UERJ, Rev. Brasileira de Saúde Ocupacional, Rev. 
Saúde Pública. 
Através da Tabela 1, pode-se observar o número de publicações nacionais e 
internacionais, segundo o ano de publicação. 
 
 
 
O aumento no número de publicações, no início da década de 90, pode estar 
relacionado às descobertas da transmissão dos vírus HIV e HBV, no contato com 
sangue, via acidente perfurocortante. 
Em três dos artigos (5,50%), foi utilizada a análise qualitativa dos dados, cujo 
objetivo era compreender as causas dos acidentes perfurocortantes. Nos outros 52 
(94,50%), foi utilizada a análise quantitativa para tratamento dos dados. 
Os dados relativos às abordagens metodológicas utilizadas nas pesquisas 
analisadas são apresentados na Tabela 2. 
 
 
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Foi observado que as metodologias mais freqüentemente empregadas nas 
pesquisas foram a descritiva de campo (40,00%), descritiva bibliográfica (14,50%), 
pesquisa-ação (16,40%), exploratória (14,50%). 
A pesquisa descritiva baseia-se na descrição de fenômenos relativos à profissão, 
baseados em observação, descrição e classificação dos fenômenos observados. É 
uma modalidade de pesquisa muito utilizada na enfermagem. Ela se subdivide em 
pesquisa de campo, que busca a descrição dos fenômenos em cenários naturais, 
examinando profundamente as práticas, comportamentos e atitudes das pessoas ou 
grupos em ação na vida real; e pesquisa bibliográfica, que é uma modalidade da 
pesquisa descritiva, sendo feita leitura, seleção e registro de tópicos de interesse 
para pesquisa(17). 
Pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social, com base empírica, que é concebida e 
realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um 
problema coletivo, sendo que os pesquisadores e os participantes representativos 
da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou 
participativo(17). 
A pesquisa exploratória inicia-sepor algum fenômeno de interesse e, além de 
observar e registrar a incidência do fenômeno, busca explorar as dimensões deste, a 
maneira pela qual ele se manifesta e os outros fatores com os quais ele se 
relaciona(17). 
Na pesquisa experimental, o pesquisador manipula a variável independente. Ele 
possui o controle sobre a variável independente, ou, conscientemente, manipula 
 
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essa variável, observando, posteriormente, seu efeito sobre a variável dependente 
que lhe interessa(17). 
Relato de experiência consiste em analisar e compreender variáveis importantes ao 
desenvolvimento do cuidado dispensado ao indivíduo ou a seus problemas, sendo o 
pesquisador um observador passivo ou ativo, e relatar, de forma clara e objetiva, 
suas observações(17). 
Em relação aos fatores predisponentes à ocorrência de acidente de trabalho com 
material perfurocortante, foi constatada por meio das pesquisas analisadas, que a 
categoria profissional mais acometida por esse tipo de infortúnio é a dos auxiliares 
de enfermagem, que são profissionais que estão em contato direto com o paciente, 
na maior parte do tempo, administrando medicamentos, realizando curativos e 
outros procedimentos que os mantêm em constante contato com material perfurante 
e cortante. 
Pode-se abstrair, da análise dos resultados deste estudo, quanto à ocorrência de 
acidentes de trabalho e os dados apresentados em outros estudos(7,11,18-19), que a 
ocorrência desse tipo de acidentes não está relacionada apenas ao nível de 
formação, mas também ao treinamento, capacitação, recursos materiais disponíveis 
e cultura local. 
A análise dos artigos permitiu a identificação de que o principal fator associado a 
ocorrência do acidente percutâneo é o reencape de agulhas, o qual infringe as 
precauções-padrão, antigamente denominadas universais, e que os auxiliares e 
técnicos de enfermagem são os que mais comumente realizam esse procedimento 
inadequado. 
As informações descritas nas pesquisas apontam que os enfermeiros atribuem, 
como causas dos acidentes, a sobrecarga de trabalho e negligência médica, e os 
atendentes de enfermagem os relacionam à fatalidade. 
Em relação aos fatores predisponentes aos acidentes com material perfurocortante, 
por meio da Figura 1, são apresentados os fatores mais incidentes. 
 
 
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A orientação para somente reencapar as agulhas usando-se um anteparo ou pinça, 
conforme consta das precauções padrão, não tem demonstrado ser eficaz na 
prevenção de acidentes, e o seu uso pode reduzir, mas não eliminar, o risco de 
exposição ocupacional(19). A disponibilidade das caixas coletoras, utilizadas para 
descarte de material, pode ser considerada inadequada, na maioria dos casos. 
Recomenda-se que deve haver caixas para descarte disponíveis para pronta 
substituição e que deve ser evitado o seu enchimento excessivo, sendo que a tarefa 
de substituição deve ser realizada por funcionários treinados dos serviços gerais, e 
não pelo pessoal da enfermagem. 
Os fatores predisponentes à ocorrência de acidentes com material perfurocortante 
identificados por meio das pesquisas estão apresentados na Tabela 3. 
 
 
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Por meio dos dados descritos na Tabela 3 pode-se perceber que uma série de 
fatores podem estar associados à ocorrência de acidentes de trabalho, dentre os 
quais existe relação com a peculiaridade das atividades laborais da enfermagem, da 
manipulação de materiais de design que não oferecem segurança, da forma de 
organização do trabalho, do comportamento dos próprios profissionais e das 
condições de trabalho oferecidas. 
Os dados da literatura analisada indicam que a falta de sensibilização e 
conscientização, a inadequada supervisão contínua e sistemática da prática, a não 
percepção individual sobre o risco e a falta de educação continuada são fatores 
associados à ocorrência de acidentes de trabalho com material perfurocortante. 
 
 
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CONCLUSÕES 
Os resultados obtidos através desta pesquisa permitem as seguintes conclusões: 
Durante o período de 1985 a 2000, foram encontrados 55 artigos indexados cuja 
temática abordava a questão dos acidentes de trabalho com material 
perfurocortante. Na grande maioria das pesquisas, foi utilizada a análise quantitativa 
dos dados, e as abordagens metodológicas para estudar o objeto foram variadas, 
havendo predominância do tipo de pesquisa descritiva (54,50%). Alguns autores 
(16,40%) utilizaram a pesquisa-ação, (14,50%) a pesquisa exploratória, (9,10%) 
pesquisa experimental, (1,80%) o relato de experiência e (1,80%) a reflexão teórica. 
Em relação aos fatores predisponentes, pode-se concluir que o reencape de 
agulhas, a inadequação dos dispositivos utilizados para descarte e o manuseio de 
agulhas foram os principais fatores identificados nas pesquisas analisadas. Uma 
série de outros fatores, no entanto, são atribuídos pelos autores como 
predisponentes à ocorrência de acidentes de trabalho dessa natureza tais como: 
situações de urgência, a falta de capacitação dos profissionais, sobrecarga de 
trabalho, fadiga, transporte de material perfurocortante, má qualidade dos materiais, 
desconhecimento dos profissionais sobre os riscos de infecção e desconsideração 
das precauções padrão recomendadas, desatenção. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Verificou-se que o interesse em relação aos acidentes do trabalho com material 
perfurocortante vem aumentando, principalmente após a década de 90, devido aos 
danos causados à saúde dos trabalhadores e às instituições e o aumento no número 
de casos de AIDS. 
Sabe-se que os maiores riscos dos acidentes perfurocortantes não são as lesões, 
mas os agentes biológicos veiculados pelo sangue e secreções corporais, 
principalmente o HIV e HBV, que estão presentes nos objetos causadores. 
No Brasil, a escassez de dados sistematizados sobre esses acidentes não nos 
permite conhecer a magnitude global do problema, dificultando, assim, a avaliação 
das medidas preventivas utilizadas atualmente. 
A análise dos resultados sugere que todas as categorias de profissionais de 
enfermagem estão sujeitas a acidentes com material perfurocortante, o que faz 
 
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necessária a realização de estudos aprofundados que detectem as causas mais 
comuns e as conseqüências para os profissionais, para possibilitar a elaboração de 
programas de educação, treinamento dos profissionais, supervisão contínua e 
sistemática e modificações nas rotinas de trabalho, tornando um hábito a prática das 
precauções de segurança. 
Além da utilização das precauções padrão como medida preventiva, encontram-se 
disponíveis, no mercado, dispositivos considerados seguros, como os sistemas sem 
agulhas, os de agulhas retráteis e os sistemas protetores de agulhas. 
Apesar de a literatura americana demonstrar o impacto positivo desses dispositivos 
na redução do número de acidentes perfurocortantes, a maioria das instituições de 
saúde no Brasil não tem perspectivas de implantá-los a curto prazo, devido a seu 
elevado custo. 
É importante que se elabore e implemente um programa de educação continuada 
que abordea questão dos acidentes e exposição a material biológico, esclarecendo 
os trabalhadores de enfermagem sobre a importância da notificação, busca de 
atendimento médico nas 2 horas que seguem o acidente, sensibilizá-los sobre a 
eficácia da vacina para prevenção da hepatite B, esclarecer sobre a utilização de 
EPI e precauções padrão. 
O sucesso de qualquer programa educativo está diretamente ligado à participação e 
reconhecimento por parte dos trabalhadores e apoio da instituição. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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TRABALHO: a categoria-chave da sociologia? 
 
 
Claus Offe 
 
As tradições clássicas da Sociologia burguesa e da Sociologia marxista 
compartilham a visão de que o trabalho constitui o fato sociológico fundamental; 
constroem a sociedade moderna e sua dinâmica central como uma "sociedade do 
trabalho" (Dahrendorf, 1980; Guggenberger, 1982). Certamente, todas as 
sociedades são compelidas a entrar em um "metabolismo com a natureza", através 
do "trabalho", e a organizar e estabilizar este metabolismo de forma tal que seu 
produto garanta a sobrevivência física de seus membros. 
Por conseguinte, pode-se desprezar o conceito de uma "sociedade do trabalho", 
como uma trivialidade sociológica, na medida em que o conceito se refere a uma 
"eterna necessidade natural da vida social" (Marx). Antes disto, entretanto, é 
importante explicitar o papel específico representado pelo trabalho, pela divisão do 
trabalho, pelas classes trabalhadoras, pelas regras de trabalho, pela organização do 
trabalho e seu conceito correspondente de racionalidade na Sociologia clássica. 
A finalidade da teoria sociológica pode ser resumida, em geral, como o exame dos 
princípios que moldam a estrutura da sociedade, programam sua integração ou seus 
conflitos e regulam seu desenvolvimento objetivo, sua auto-imagem e seu futuro. 
Se considerarmos as respostas fornecidas entre o final do século XVIII e o final da I 
Guerra Mundial às questões relativas aos princípios organizativos da dinâmica das 
 
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estruturas sociais, certamente chegaremos à conclusão de que ao trabalho foi 
atribuída uma posição-chave na teoria sociológica. 
O modelo de uma sociedade burguesa gananciosa, preocupada com o trabalho, 
movida por sua racionalidade e abalada pelos conflitos trabalhistas constitui - não 
obstante suas diferentes abordagens metodológicas e conclusões teóricas - o ponto 
focal das contribuições teóricas de Marx, Weber e Durkheim. Hoje, a questão central 
é: ainda podemos preservar esta preocupação "materialista" dos clássicos da 
Sociologia? 
Antes de examinar criticamente este problema, gostaria de mencionar brevemente 
três pontos que levaram cientistas sociais e teóricos políticos clássicos a considerar 
o trabalho como a pedra-de-toque da teoria social. 
 
1. A extraordinária experiência sociológica do século XIX consolidou o 
estabelecimento e rápido crescimento quantitativo do trabalho em sua forma pura, 
isto é, o trabalho separado de outrasatividades e esferas sociais (1). 
Este processo de diferenciação e purificação tomou possível, pela primeira vez na 
história, "personificar" o trabalho na categoria social do "trabalhador". Isto significa a 
separação entre a esfera doméstica e a esfera da produção, a divisão entre 
propriedade privada e trabalho assalariado, assim como a neutralização gradual das 
obrigações normativas em que o trabalho tinha sido anteriormente encerrado. 
Trabalho "livre", desvinculado dos laços feudais, regulado pelo mercado e não mais 
orientado imediatamente para o uso concreto, mas dirigido pela "tortura da fome" 
(Max Weber), da coação estrutural para ganhar a vida é, por assim dizer, a matéria-
prima das construções teóricas dos clássicos da Sociologia. 
 
2. A antiga hierarquia entre atividades "nobres" e "vulgares", entre aquelas 
meramente úteis ou necessárias e as significativamente auto-expressivas (uma 
hierarquia cristalizada na maioria dos idiomas europeus, em pares conceituais como 
ponos/ergon, labor/opus, labour/work, Mühe/Werk) (Conze, 1972; Arendt, 1958), foi 
promovida, e depois rebaixada, na maré da vitória da Reforma religiosa, do 
desenvolvimento da teoria da Economia Política e da revolução burguesa. Já na 
utopia saint-simoniana de uma sociedade diligente e industrial, não somente a 
 
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riqueza deveria ser aumentada, mas sobretudo a dominação das classes 
improdutivas deveria ser abolida e, desse modo, a sociedade seria ao mesmo tempo 
pacificada. 
A esfera do ganho mediado pelo mercado foi teologicamente sancionada e 
contemplada com um status ético (como afirmou Weber), ou ganhou o status 
imperativo de "Moisés e os profetas" (Marx), através da "compulsão à acumulação", 
estimulada pelo próprio modo de produção capitalista. Apenas Durkheim tentou 
provar que a contrapressão deste processo conduz à emergência de uma 
solidariedade orgânica, a uma sociedade burguesa ordenada em termos 
corporativos, na qual a divisão de trabalho funcionava como uma nova fonte de 
solidariedade social (orgânica) e integração social. (2) 
A proletarização da força de trabalho e a degradação moral da ganância, induzidas 
pela utilização industrial desta força de trabalho, conduzem à dominação da 
racionalidade intencional, e seus dois componentes são mais claramente 
distinguíveis em Marx que em Weber. Estes componentes incluem a racionalidade 
técnica da busca de objetivos na interação entre humanidade e natureza, e a busca 
calculada e economicamente racional de objetivos, realizada pela interação de 
atores econômicos (analisada por Weber através do exemplo da contabilidade 
racional). 
Em Marx há uma óbvia razão teórico-estratégica para contrastar estes elementos 
por meio da distinção conceitual entre os processos de "produção" e de 
"valorização". Esta distinção permite a construção de um cenário evolutivo, no qual 
cada processo é incompatível com o outro; a racionalidade econômica das unidades 
concorrentes de capital transforma-se em uma "peia" para as forças produtivas 
"técnicas". Este antagonismo dissolve-se na luta por uma formação social na qual 
prevalece a racionalidade técnica (mas não mais a racionalidade econômica) do 
capital. 
Para o marxismo clássico, sistemas e relações sociais, políticas e culturais são 
produtos (não obstante a disposição teórica para levar em consideração os "efeitos 
recíprocos") e, em última instância, apêndices dependentes da produção material e 
suas duas faces - os processos de "produção" e de "valorização". 
 
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Marx e Weber concordam que a racionalidade estratégica da contabilidade do 
capital e a separação do trabalho em relação às unidades domésticas imediatas, aos 
critérios de valor de uso, ao ritmo da fome e da satisfação, constituem a principal 
força-motriz subjacente à racionalização formal das sociedades capitalistas. Os 
processos imediatos de trabalho e produção são organizados e regulados de acordo 
com os ditames desta racionalidade, cujos funcionários são o staff burocrático do 
capital. 
Separado das famílias e das formas tradicionais de associação, e privado de 
proteção política, o trabalho assalariado foi vinculado à organização e à divisão 
capitalista do trabalho, assim como aos processos de pauperização, alienação, 
racionalização e a formas organizadas e desorganizadas de resistência (econômica, 
política, e cultural) intrínseca a estes processos. 
Todas essas questões transformaram-se, conseqüentemente, no pivô em torno do 
qual giram a pesquisa e a formação teórica das ciências sociais, e do qual 
emanaram todas as subseqüentes preocupações teóricas com política social, 
sistemas familiares e morais, urbanização e religião. E é precisamente este 
abrangente poder de determinação do fato social do trabalho (assalariado), e suas 
contradições, que hoje se tornou sociologicamente questionável. 
 
O declínio do modelo de pesquisa social “centrado no trabalho” 
Esta tese pode ser confirmada por uma rápida olhada nas preocupações temáticas, 
nos pressupostos mais ou menos tácitos e nas opiniões relevantes que governam a 
ciência social contemporânea. Deste ponto de vista, encontra-se ampla evidência 
para a conclusão de que o trabalho - e a posição dos trabalhadores no processo de 
produção - não é tratado como o mais importante princípio organizador das 
estruturas sociais, de que a dinâmica do desenvolvimento social não é concebida 
como nascendo dos conflitos a respeito de quem controla o empreendimento 
industrial; e de que a otimização das relações entre meios e fins técnico-
organizacionais ou econômicos não é considerada a forma de racionalidade que 
prenuncia um desenvolvimento social posterior. 
Para ilustrar esta conclusão negativa, serão fornecidos alguns indicadores 
preliminares. Enquanto estudos sociológicos sobre a indústria e o trabalho, 
 
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elaborados na Alemanha Ocidental na década de 50, ainda enfatizavam a situação 
industrial dos trabalhadores, na esperança de que isto pudesse indicar o futuro 
desenvolvimento da organização do trabalho e da orientação sócio-política dos 
trabalhadores, em inúmeros estudos contemporâneos essa situação aparece mais 
como uma variável dependente da "humanização" do trabalho, iniciada pelo Estado, 
e das políticas sociais e trabalhistas. Desde o início (e de forma inteiramente 
plausível), a esfera do trabalho é tratada como "externamente constituída", enquanto 
a Sociologia Industrial é confinada na maioria das vezes a um ramo especial da 
pesquisa aplicada sobre políticas (3). 
Pesquisas sociológicas sobre a vida cotidiana também representam uma ruptura 
com a idéia de que a esfera do trabalho tem um poder relativamente privilegiado 
para determinar a consciência e a ação social. Muitas vezes a abordagem oposta é 
que é adotada, e por meio dela as experiências e os conflitos engendrados pelo 
trabalho são encarados como uma conseqüência de interpretações obtidas fora do 
trabalho (Mahnkopf, 1982). 
A limitação do paradigma "centrado no trabalho" é também enfatizada por análises 
sociológicas de comportamento eleitoral e da atividade política em geral. Estas 
conduzem, por exemplo, à conclusão de que variáveis de status sócio-econômico 
são indicadores menos adequados de comportamento eleitoral do que, digamos, 
confissão religiosa. Da mesma forma, os conflitos e ideologias nacionais e 
internacionais do Segundo e do Terceiro Mundo parecem escaparcada vez mais às 
categorias da "teoria da modernização", como produção, crescimento, racionalidade 
econômica e técnico-intencional, escassez e distribuição. 
Também nas sociedades capitalistas industriais do Ocidente os conflitos sociais e 
políticos predominantes freqüentemente atravessam o conflito distributivo entre 
trabalho e capital, enfatizado pelo conceito de trabalho social. Além disso, a 
pesquisa orientada para políticas em sociedades capitalistas industriais parece estar 
preponderantemente voltada para estruturas sociais e esferas de atividade que se 
situam nas margens, ou completamente fora, do domínio do trabalho - como família, 
papéis sexuais, saúde, comportamento "desviante", interação entre a administração 
pública e sua clientela etc. É interessante notar o declínio das tentativas de 
compreender a realidade social através das categorias de trabalho assalalariado e 
 
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de escassez, dentro da tradição do materialismo histórico, onde predominam agora 
esforços para rever e complementar modelos de realidade social "centrados no 
trabalho" (4). 
Estudos tradicionais sobre estratificação e mobilidade, que procuram compreender o 
parâmetro estrutural "crucial" da realidade social através de variáveis como status 
ocupacional e prestígio (inclusive status educacional e níveis de consumo baseados 
na renda), também tiveram que sofrer uma revisão, no sentido de uma atenção 
maior a variáveis como sexo, idade, status familiar, saúde, identidade étnica, direitos 
coletivos e reivindicações legais. 
Diante destas observações sobre o estado atual da pesquisa sociológica, talvez não 
seja muito arriscado sustentar que a defesa rígida (analítica e político-normativa) de 
modelos sociais e critérios de racionalidade centrados no trabalho e na renda 
constitui hoje um tema preferencial de cientistas sociais conservadores, enquanto 
aqueles atrelados à tradição do materialismo histórico ou da teoria crítica tendem a 
rejeitar, hoje, estes modelos e categorias ainda mais decididamente do que o 
fizeram os trabalhos teóricos e empíricos clássicos da escola de Frankfurt, em favor 
de um "mundo-da-vida cotidiana" a ser defendido contra abusos econômicos e/ou 
políticos. 
De outro lado, estas impressões e observações sugerem ainda a necessidade de se 
considerar a objeção de que os temas e as preferências conceituais da ciência 
social, em qualquer conjuntura particular, não precisam necessariamente nos contar 
algo confiável sobre mudanças na própria vida social. 
Estas opiniões podem simplesmente refletir as confusões de uma Sociologia que 
fracassa ou desiste prematuramente, quando confrontada com a tarefa sociológica 
clássica de localizar o ponto de origem da estrutura e da dinâmica da sociedade no 
trabalho, na produção, nas relações de propriedade e no cálculo econômico racional. 
Sendo este o caso, seria necessário uma teoria sociológica da transformação de seu 
objeto - e não apenas a classificação empírica de temas e perspectivas que se 
alteram - que assim poderia fornecer uma explicação mais sólida a respeito da 
reorientação dos interesses de pesquisa, ao longo das linhas discutidas acima. 
Por sua vez, isto estimularia as seguintes indagações: há indicações de um declínio 
no poder objetivo de determinação do trabalho, da produção e do consumo sobre as 
 
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condições e o desenvolvimento social como um todo? A sociedade está 
objetivamente menos moldada pelo fato do trabalho? A esfera da produção e do 
trabalho está perdendo sua capacidade de determinar a estrutura e o 
desenvolvimento da sociedade mais ampla? Pode-se afirmar que, não obstante o 
fato de uma esmagadora parcela da população depender de salário, o trabalho se 
tornou menos central para os indivíduos e para a coletividade? Pode-se portanto 
falar de uma "implosão" da categoria trabalho? A próxima seção irá concentrar-se 
em três pontos que poderiam justificar uma resposta positiva a todas estas 
questões. 
 
Subdivisões na esfera do trabalho 
O primeiro conjunto de dúvidas com relação à centralidade do trabalho emerge 
assim que se leva seriamente em conta sua vasta heterogeneidade empírica. O fato 
de uma pessoa "trabalhar", no sentido formal de estar "empregada", tem sido 
aplicado a um segmento sempre crescente da população. Não obstante, este fato 
tem cada vez menor relevância para o conteúdo da atividade social, a percepção de 
interesses, o estilo de vida etc. Descobrir que alguém é um "empregado" é muito 
pouco surpreendente e não muito informativo, uma vez que a expansão relativa do 
trabalho assalariado coincide com sua diferenciação interna. Esta não pode mais ser 
adequadamente compreendida pelo conceito tradicional da "divisão de trabalho", 
pois também abrange a distinção entre aqueles que estão submetidos à divisão de 
trabalho e aqueles que não estão, ou estão em escala muito menor. 
Apesar desta diferenciação e da diversidade da realidade social, a suposição de sua 
unidade e coerência internas é normalmente adotada por referência a cinco 
argumentos sociológicos: (a) o critério comum da dependência da força de trabalho 
em relação ao salário; (b) a subordinação desta força de trabalho ao controle 
organizado da administração; (c) o persistente risco de interrupções na capacidade 
dos trabalhadores de ganhar dinheiro, em virtude de fatores subjetivos (doença, 
acidentes) ou objetivos, como mudanças técnicas e econômicas; (d) a 
homogeneização indireta do trabalho, que resulta da presença e do monopólio da 
representação exercidos por grandes sindicatos (Heinze, 1980); (e) o orgulho 
coletivo dos produtores, uma consciência que expressa reflexivamente a teoria do 
 
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valor-trabalho (nas palavras da Crítica ao programa de Gotha) como "a fonte de toda 
a riqueza e de toda a cultura". 
 
Se, e até que ponto, estes atributos supostamente homogeneizantes podem ser 
preservados contra a diversificação objetiva do trabalho social, é uma pergunta que 
permanece sem resposta. Todavia, isto parece mais duvidoso quanto mais as 
situações particulares de trabalho são marcadas por uma ampla variação em termos 
de renda, qualificações, manutenção do emprego, reconhecimento e visibilidade 
sociais, fadiga, oportunidades de carreira, possibilidades e autonomia de 
comunicação. 
Sintomas de crescente heterogeneidade despertam dúvidas sobre se o trabalho 
assalariado ainda pode, nesta qualidade, ter uma significação precisa e partilhada, 
para toda a população que trabalha e seus interesses e atitudes sociais e políticos. 
Estes sintomas abrem a possibilidade de o trabalho se ter tornado "abstrato”, num 
certo sentido, de modo a ser considerado apenas uma categoria estatística 
descritiva, e não uma categoria analítica para se explicar estruturas, conflitos e 
ações sociais. 
Qualquer que seja o caso, fica claro que os processos muldimensionais de 
diferenciação, que têm sido convincentemente demonstrados em inúmeros estudos 
da segmentação do mercado de trabalho, da polarização das qualificações dos 
trabalhadores e das transformações econômicas, organizacionais e técnicas das 
condições de trabalho, tornam o fato de ser um "empregado" menos significativo, e 
não mais um ponto de partida para associações culturais, organizacionais e políticas 
ou para identidades coletivas. 
Nas fases iniciais do desenvolvimento capitalista industrial, é claro que a formação 
de uma identidade coletivabaseada no trabalho como fonte de toda a riqueza, nada 
tinha de óbvia. Pode ser que a contribuição involuntária do capital à solidariedade, a 
saber, a maciça concentração de uma força de trabalho, homogeneizada e 
padronizada na forma organizacional da produção industrial em larga escala (tal 
como analisado por Marx), tenha ajudado a unir os trabalhadores, tanto objetiva 
como subjetivamente. 
 
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Não obstante, as condições do mercado de trabalho e, portanto, a mobilidade 
vertical e horizontal do trabalho sempre confrontaram os trabalhadores, no âmbito 
dos interesses, com o "triângulo mágico" - as metas sempre parcialmente 
incompatíveis de salários crescentes, manutenção dos níveis de emprego e 
melhores condições de trabalho - e com o dilema, situado no nível dos meios, entre 
a busca individual ou coletiva de interesses, entre a "luta no interior do sistema de 
salários" e a "luta contra o sistema de salários". 
A contínua diferenciação interna do conjunto dos trabalhadores assalariados, assim 
como a erosão das fundações políticas e culturais de uma identidade coletiva 
centrada no trabalho, ampliaram estes dilemas das formas contemporâneas do 
trabalho assalariado a tal ponto, que o fato social do trabalho assalariado, ou a 
dependência em relação ao salário, não constitui mais o foco da identidade coletiva 
e da divisão social e política. Com relação a seus conteúdos objetivos e subjetivos 
de experiência, muitas atividades remuneradas pelo salário têm pouca coisa em 
comum além da palavra "trabalho". 
Pode-se ficar tentado a criticar esta conclusão como prematura e subjetiva, e objetar 
que é a lógica essencialmente idêntica da valorização do capital que, ao mesmo 
tempo, domina as formas de trabalho e fomenta sua variação crescente. 
A capacidade de persuasão destas objeções parece-me limitada. Pois as inúmeras 
fraturas no trabalho assalariado supostamente unificado e "formalizado" (assim 
como seu impacto sobre indivíduos, organizações e ação política) são tão evidentes 
que não podem ser teoricamente banalizadas. 
Durante os anos 70, quatro dentre estas fraturas ocuparam o centro das atenções 
da sociologia da indústria, do trabalho, da estratificação e da teoria de classes. A 
primeira é a distinção entre mercado de trabalho primário e secundário, assim como 
entre mercado de trabalho interno e externo. Segundo, ficou claro que, numa larga e 
crescente medida, a produção de bens e serviços ocorre fora do modelo institucional 
do trabalho assalariado formal e contratual, isto é, em áreas onde os trabalhadores 
não são "empregados", mas membros de famílias e unidades domésticas, de 
instituições compulsórias como exércitos e prisões, ou de uma economia 
subterrânea, semilegal ou criminosa. 
 
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Terceiro, sociólogos marxistas, especialmente, concentram-se na cisão vertical no 
interior das fileiras dos trabalhadores assalariados e no crescimento de posições de 
classe intermediárias ou "heterogêneas" (E. O. Wright), em que a dependência em 
relação ao salário coincide com a participação na autoridade formal. Finalmente, 
sociólogos do trabalho enfatizaram as diferenças entre formas de trabalho 
"produtivas" e "de serviços". 
Este último ponto, sobre o qual me concentrarei, tornou-se a base das explicações 
macrossociológicas da emergente "sociedade de serviços pós-industrial" (Bell). 
Enquanto se pode subordinar a maior parte do trabalho exercido no setor 
"secundário" (isto é, a produção de bens industrializados) a um denominador comum 
abstrato - o da produtividade técnico-organizacional e da lucratividade econômica -, 
estes critérios perdem sua clareza (relativa) quando o trabalho se torna "reflexivo", 
como acontece na maior parte do setor "terciário" (de serviços). 
Nas sociedades capitalistas industriais, o contínuo e rápido aumento na proporção 
de trabalho social empregado na produção de serviços indica que problemas de 
escassez e de eficiência, que determinam a racionalidade na produção dos bens 
industrializados, são suplementados com problemas de ordem e normalização, que 
não podem ser adequadamente tratados através da supremacia técnica e 
econômica da escassez, mas que requerem uma racionalidade específica do 
trabalho em serviços. 
Um aspecto essencial de todo o trabalho "reflexivo" em serviços é que ele processa 
e mantém o próprio trabalho; (5) no âmbito do setor de serviços a produção é 
conceitual e organizacionalmente fundamentada. Tanto em empresas privadas como 
em públicas, atividades como ensino, saúde, planejamento, organização, controle, 
administração e aconselhamento -isto é, atividades de prevenção, absorção e 
processamento dos riscos e desvios da normalidade - são majoritariamente 
dependentes de salário, exatamente como ocorre com a produção industrial de 
mercadorias. 
Entretanto, estas atividades de serviços são diferentes em dois aspectos. Primeiro, 
em razão da heterogeneidade dos "casos" que são processados no trabalho de 
serviços, e devido aos altos graus de incerteza a respeito de onde e quando eles 
ocorrem, uma função de produção técnica que correlacione inputs a outputs, 
 
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freqüentemente não pode ser fixada e utilizada como critério de controle do 
desempenho adequado do trabalho. 
Segundo, o trabalho em serviços difere do trabalho produtivo pela falta de um 
"critério de eficiência econômica", claro e incontroverso, do qual possam ser 
estrategicamente derivados o tipo e a quantidade, o lugar e o ritmo de trabalho 
"aconselháveis". Este critério está ausente porque o resultado de inúmeros serviços 
públicos, assim como aqueles desempenhados por "empregados" em firmas do 
setor privado, não é "lucro" monetário, mas são "utilidades" concretas; os serviços 
freqüentemente contribuem para evitar perdas, cujo volume quantitativo não pode 
ser facilmente determinado, precisamente porque as perdas são evitadas. 
No que diz respeito à nacionalidade técnica do trabalho em serviços, sua não-
padronização deve ser aceita e substituída por qualidades como competência 
interativa, consciência da responsabilidade, empatia e experiência prática adquirida. 
No lugar dos inseguros critérios econômico-estratégicos de racionalidade, 
encontram-se cálculos baseados em convenção, vontade política ou consenso 
profissional. 
Os critérios de racionalidade desenvolvidos para a utilização e o controle da força de 
trabalho na produção capitalista de mercadorias podem ser transferidos para a 
"produção" de ordem e normalidade, pelo trabalho em serviços, apenas dentro de 
limites estreitos e, mesmo assim, apenas através de uma redução no grau de 
racionalidade "formal". Isto significa, "inversamente", que embora a esfera do 
trabalho em serviços (públicos e privados) não esteja absolutamente "liberada" do 
regime de racionalidade formal econômica, baseada no salário, ela se tornou um 
"corpo estranho" separado, mas funcionalmente necessário, que é limitado 
externamente (mas não estruturado internamente) por aquela racionalidade 
econômica. É esta diferenciação no interior do conceito de trabalho que me parece 
constituir o ponto mais crucial de sustentação ao argumento de que não se pode 
mais falar de um tipo basicamente unificado de racionalidade, que organizaria e 
governaria o conjunto da esfera do trabalho. 
O crescimento de um trabalho em serviços mediador, regulador, ordenador e 
normalizador não pode, portanto, ser interpretadoatravés do modelo de uma 
"totalização" da racionalidade do trabalho, baseada na produção técnico-
 
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organizacional e economicamente eficiente de mercadorias por trabalhadores 
assalariados. 
Ao contrário, pode ser interpretado através do modelo do "retorno do reprimido", no 
sentido de um aumento de "problemas de segunda ordem" e "custos de 
complexidade", que se acumularam como resultado da mobilização do trabalho 
assalariado; deste ponto de vista, estes problemas e custos requerem agora um 
controle, através de vários tipos de trabalho em serviços (por exemplo, educação, 
saúde, seguros, comunicações), para que seja preservada a "ordem" numa 
sociedade baseada na ganância formal-racional. 
A racionalidade "substantiva" de base normativa, que tinha sido vitoriosamente 
reprimida no trabalho produtivo e na transformação da força de trabalho numa 
mercadoria comercializável, está, por assim dizer, reemergindo. Denunciando a 
repressão da racionalidade "substantiva" na esfera do trabalho assalariado, ela toma 
a forma de números crescentes de trabalhadores e profissionais em serviços, cuja 
tarefa especial é a de garantir institucionalmente uma existência social através de 
um tipo especial de trabalho. 
A ambivalência e a independência deste tipo de trabalho social derivam do fato de 
que se trata de um "indispensável corpo estranho", que garante e padroniza as 
precondições e as fronteiras de um tipo de trabalho ao qual ele próprio não pertence. 
Ao mesmo tempo que funciona como um "vigia e regulador" (Marx) do trabalho e do 
processo de valorização, ele está também parcialmente livre da disciplina imediata 
de uma racionalidade social ambiciosa, e de suas correspondentes restrições de 
realização e produtividade. Como um agente da sintetização consciente de sistemas 
e processos sociais, o trabalho em serviços da "nova classe" desafia e questiona a 
sociedade do trabalho e seus critérios de racionalidade (realização, produtividade, 
crescimento) em favor de medidas de valor substantivas, qualitativas e "humanas" 
(Bruce-Briggs, 1979; Schelsky, 1975). 
Nas sociedades "pós-industriais", a subdivisão do "conjunto dos trabalhadores" em 
"produtores" e "produtores de produção" não apenas enfraquece a unidade 
estrutural do trabalho social e a racionalidade que o governa, mas também desafia 
os padrões de racionalidade que conduzem (e possivelmente limitam) a troca 
socialmente mediada com a natureza. 
 
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Hoje, esta linha de conflito fica evidente em inúmeras tensões culturais e políticas 
entre os trabalhadores do setor público (assim como parte das equipes de serviços 
do setor privado) e os protagonistas do modelo da sociedade do trabalho dentro da 
velha classe média e da classe operária industrial. 
Do ponto de vista sociológico, parece-me altamente inconsistente denunciar 
simplesmente a "nova classe" e seu "novo hedonismo" como um corpo estranho, 
sem refletir ao mesmo tempo sobre sua indispensabilidade funcional. Atualmente, 
esta atitude polêmica obscurece e equipara questões concernentes à gênese e ao 
crescimento da influência estrutural e cultural da "nova classe média" produtora de 
serviços, no meio de uma sociedade do trabalho ambiciosa, que gera hiatos 
funcionais e sofre de falta de ordem, segurança e normalidade. 
A vigilância, a regulação, a garantia e a programação dos processos sociais 
proporcionados pela nova classe média constituem requisitos gerados por esses 
hiatos funcionais. Estes serviços (que certamente não estão limitados ao setor 
público) só poderão se tornar completamente funcionais quando forem relativamente 
autônomos e mobilizados contra os imperativos e as restrições do trabalho 
assalariado. É, então, absurdo denunciar, em nome da racionalidade e do ethos de 
uma "sociedade do trabalho intacta", aqueles grupos funcionais que só podem 
prestar serviços a esta sociedade do trabalho, assumindo uma postura "reflexiva", 
que está estrutural e culturalmennte em tensão com a sociedade. 
Visto desta forma, confrontamo-nos hoje com uma ambigüidade sociologicamente 
explicável no conceito de trabalho. Esta ambigüidade tem grandes conseqüências 
para as bases conceituais da Sociologia, assim como para a consideração dos 
ambíguos e contraditórios critérios de racionalidade, cristalizadas na relação entre a 
"produção eficiente" e a "manutenção efetiva da ordem". 
 
O declínio da ética do trabalho 
Um segundo conjunto de dúvidas sobre a centralidade do trabalho relaciona-se com 
a avaliação subjetiva do trabalho entre a população trabalhadora. Qual a significação 
do trabalho assalariado para o modo de vida e a consciência dos assalariados em 
geral? Que orientação e motivos eles desenvolvem a respeito das esferas do 
trabalho e da atividade econômica? 
 
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O que é paradoxal a este respeito é que, ao mesmo tempo que uma parcela sempre 
maior da população participa do trabalho assalariado, há um declínio na extensão 
em que o trabalho assalariado "participa", por assim dizer, da vida dos indivíduos, 
envolvendo-os e moldando-os de formas distintas. Esta descentralização do trabalho 
com relação a outras esferas da vida e seu confinamento nas margens das 
biografias são confirmados por muitos diagnósticos contemporâneos. Dahrendorf 
(1980, p. 756), por exemplo, descreve o fim de uma era na qual o "trabalho 
constituía o poder irradiador da vida, aglutinando todos os aspectos de sua 
construção social". 
Sociologicamente falando, há dois mecanismos principais que podem assegurar que 
o trabalho desempenha um papel principal na organização de uma existência 
pessoal: (a) no nível da integração social, o trabalho pode ser normativamente 
sancionado como um dever, ou (b) no nível da integração sistêmica, pode ser 
colocado como uma necessidade. 
No primeiro caso o trabalho é o ponto fundamental de uma vida correta e 
moralmente boa; no segundo, é a simples condição da sobrevivência física (6). 
A perda da centralidade, freqüentemente alegada, e da relevância subjetiva do 
trabalho - a proposta que está sendo aqui considerada - teria que ser 
conseqüentemente demonstrada e explicada através de fatores e evoluções que 
tornassem inoperante um dos mecanismos (ou os dois). 
Para começar, o poder de convencimento da idéia do trabalho como um dever 
humano ético está provavelmente se desintegrando, não apenas por causa da 
erosão das tradições culturais religiosas ou leigas. Tampouco a idéia se enfraqueceu 
unicamente em virtude do crescimento de um hedonismo centrado no consumo, cuja 
propagação mina a infraestrutura moral das sociedades capitalistas industriais (7). 
O poder coercitivo da ética do trabalho pode ter sido adicionalmente enfraquecido 
pelo fato de que ela geralmente só pode funcionar sob condições que (pelo menos 
até certo ponto) permitam aos trabalhadores participar em seu trabalho como 
pessoas reconhecidas e moralmente atuantes. É bastante incerto se, e em que 
áreas do trabalho social, esta precondição está sendo hoje satisfeita (8). 
Na medida em que são moldados no padrão de "taylorização", processos de 
racionalização organizacional e técnica parecem resultar, ao contrário, na eliminação 
 
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do "fator humano", e de suas qualidades morais, do processo de produçãoindustrial 
(Kumar, 1979, p. 15). 
Do ponto de vista da estratégia empresarial, é inteiramente racional tornar o 
processo de produção tão independente quanto possível deste "fator humano", 
especialmente quando ele pode produzir incerteza e perturbação. Entretanto, na 
medida em que as precondições estruturais e o espaço autônomo para as 
orientações "morais" ao trabalho são "racionalizadas", não se pode esperar nem 
reivindicar estas orientações. Junto com a degradação e a desqualificação do 
trabalho (Crusius & Wilke, 1982), freqüentemente observadas, a dimensão subjetiva 
do trabalho - o feixe de obrigações e demandas associadas ao "orgulho do produtor" 
e seu reconhecimento social - também se enfraquece. 
Max Weber considerava a vocação para o trabalho uma precondição do trabalho 
assalariado e do "espírito do capitalismo". Atualmente, este prognóstico de que "uma 
conduta de vida racional baseada na idéia de vocação” irá definir nossas vidas "até 
que a última tonelada de carvão fossilizado seja queimada", pode ser considerado 
discutível (9). 
Uma razão adicional para a depreciação moral e o declínio da significação subjetiva 
da esfera do trabalho é a desintegração dos millieux de vida que estão organizados 
de acordo com as categorias do trabalho e da ocupação e complementados por 
tradição familiar, filiação organizacional, consumo de lazer e instituições 
educacionais. 
Atualmente, como observa Michael Schumann, a "localização (sócio-cultural) do 
contexto da vida proletária está radicalmente em declínio" (10). A tentativa de 
interpretar o contexto da vida como um todo, em termos de centralidade da esfera 
do trabalho, é também cada vez mais implausível, por causa da estrutura temporal 
do trabalho e sua alocação na biografia das pessoas. Uma continuidade biográfica 
entre aquilo em que alguém é treinado e aquilo em que esta pessoa está realmente 
empregada, assim como uma continuidade ocupacional ao longo de uma vida 
profissional, pode já ser hoje bastante excepcional. 
Mais ainda, a proporção de tempo dedicado ao trabalho vem declinando 
consideravelmente na vida das pessoas; o tempo livre também aumentou e parece 
que vai continuar aumentando. Isto significa que experiências, orientações e 
 
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necessidades paralelas estão se tornando mais proeminentes que aquelas 
baseadas no trabalho (11). Descontinuidade na biografia profissional e uma parcela 
crescente de tempo dedicado ao trabalho na vida de uma pessoa podem reforçar a 
visão do trabalho como uma preocupação "entre outras", e relativizar sua função 
como pedra-de-toque da identidade pessoal e social (12). 
Na medida em que aumenta a experiência (ou a antecipação) do desemprego (13), 
ou a aposentadoria involuntária (14), mais se enfraquece o efeito do estigma e da 
auto-estigmatização gerados pelo desemprego porque, além de um certo ponto (e 
especialmente se o desemprego estiver concentrado em certas regiões ou 
indústrias), uma pessoa não pode mais ser responsabilizada em termos de fracasso 
ou culpa individual. 
À luz dos dados e prognósticos econômicos atuais, não parece de todo irrealista 
esperar um drástico declínio no potencial de absorção do mercado de trabalho num 
futuro próximo; provavelmente, estas condições reduzirão ainda mais os períodos 
médios de trabalho como proporção do tempo de vida ou, ao contrário, fomentarão o 
crescimento de um amplo setor "marginalizado" da população, fora da esfera do 
emprego "vantajoso" (15). 
Tomadas em conjunto, estas circunstâncias fazem parecer improvável que o 
trabalho, a realização e a ambição continuem a desempenhar um papel central, 
como norma que integra e conduz a existência pessoal. Tampouco parece provável 
que esta norma de referência possa ser politicamente reativada ou reabilitada. 
Recentes tentativas de "remoralizar" o trabalho e tratá-lo como a categoria central da 
existência humana devem, por conseguinte, ser consideradas um sintoma da crise, 
mais do que uma cura. 
Significação maior pode, portanto, ser atribuída ao segundo dos mecanismos 
destacados acima para condicionar as atitudes das pessoas em relação ao trabalho 
- regulação através de incentivos positivos das recompensas obtidas por meio do 
trabalho e/ou incentivo negativo da penúria, que deve ser evitada pelo trabalho. 
Estes mecanismos correspondem à relação "instrumental" com o trabalho, 
moralmente neutralizada, descrita por Goldthorpe. Entretanto, tal como acima, 
gostaria de especificar alguns dos obstáculos que também parecem bloquear a 
eficácia deste mecanismo. 
 
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Em primeiro lugar, estudos recentes em psicologia econômica indicam que o efeito 
motivador do salário opera assimetricamente (Scitovsky, 1976; Hirsch, 1977). O 
crescimento individual e (mais ainda) o coletivo da renda não aumentam (ou 
aumentam muito pouco) o sentido do bem-estar ou da satisfação coletiva, e podem 
muito bem conduzir até mesmo à sua diminuição. "A utilidade marginal do dinheiro é 
diferente para a redução da insatisfação e a produção da satisfação" (Lane, 1978; p. 
803). Em outras palavras, o efeito motivador das alterações na renda, pelo menos 
em um nível relativamente alto de renda, aparece apenas negativamente, como um 
efeito punitivo. "Bens de consumo, e a renda, para comprá-los, têm uma relação 
bastante fraca com as coisas que fazem a felicidade das pessoas: autonomia, auto-
estima, felicidade familiar, lazer livre de tensões, amizades" (Lane, 1978, p. 815), 
enquanto "a satisfação com atividades não relacionadas com o trabalho contribui 
mais do que qualquer outro fator para a satisfação existencial" (Lane, 1978, p. ,817). 
Portanto, especulações sobre os efeitos motivadores positivos do crescimento da 
renda podem perder muito de sua plausibilidade, pelo menos nos níveis de salário e 
de saturação com bens de consumo atingidos na Europa Ocidental. 
Se as mudanças positivas e negativas na renda incentivam apenas limitadamente na 
quantidade e na qualidade dos esforços no trabalho, isto se aplica ainda mais 
quando se compara a renda com a "não-utilidade", subjetivamente experimentada, 
ligada ao trabalho. 
Na Sociologia Industrial uma série de conclusões sugere a noção de um hiato 
crescente entre os aumentos percebidos da não-utilidade do trabalho, de um lado, e 
o declínio da satisfação intrínseca, de outro. 
Durante a década de 70, a força de trabalho tornou-se mais sensível (e crítica ) às 
fadigas físicas e psicológicas do trabalho e seus conseqüentes riscos de saúde e de 
desqualificação. Isto resultou no aumento da reivindicação sindical sobre condições 
de trabalho e estimulou, mesmo ocasionalmente fora dos sindicatos, debates sobre 
o abandono da luta por melhores condições de trabalho, como inviável, e sua 
substituição por uma luta contra o trabalho e sua forma industrial. Acima de tudo, 
esta sensibilidade ganhou "reconhecimento diplomático", na forma de programas 
estatais para a "humanização" do trabalho. 
 
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Tudo isto foi reforçado por uma sensibilidade crescente para os custos sociais e 
ecológicos da produção, inclusive aqueles não necessariamente concentrados no 
local de trabalho e em empresas específicas. Permanece questão aberta se esta 
evolução pode ser melhor explicada pela crescente violação das demandas 
permanentes relativas à qualidade do trabalho ou pelo aumento destas demandas 
(isto é, com referência à "defesa das necessidades" ou a "demandas

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