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Fichamento Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado

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mão de obra na indústria do açúcar diminuiu significativamente. E quanto à economia cafeeira, justamente quando essa buscava novas terras para se expandir e criava estradas de ferro, vieram contingentes de imigrantes europeus, sendo que houve preferência do trabalho estrangeiro ao ex-escravo.
O ex escravo, inapto ao convívio social e desestimulado economicamente, tendia a preferir o ócio. “Cabe tão somente lembrar que o reduzido desenvolvimento mental da população submetida à escravidão provocará a segregação parcial desta após a abolição, retardando sua assimilação e entorpecendo o desenvolvimento econômico do país”.
A abolição da escravidão visava apenas eliminar uma das vigas do colonialismo que entorpecia o desenvolvimento econômico do país.
25. Nível de renda e ritmo de crescimento na segunda metade do século XIX
“Considerada em conjunto, a economia brasileira parece ter encontrado uma taxa relativamente alta de crescimento na segunda metade do século XIX”. Entre 1940 e 1890 o quantum das exportações brasileiras aumentaram 214%, nesse número crescendo também o preço médio dos produtos. No nordeste, no entanto, os produtos exportados não tiveram grande valorização, o que depreende que a prosperidade não se deu em todo o país.
Divide a economia brasileira em três setores principais:
O primeiro, a economia do açúcar e algodão e a economia de subsistência a eles ligada; é formado pela faixa que se estende de Sergipe até o Maranhão, cuja população na época era um terço do total nacional, cujo crescimento era superior à renda. Havia um sistema litorâneo de exportações e mediterrâneo de subsistência.
O segundo, formado pela economia de subsistência do sul, e se beneficiou indiretamente da expansão das exportações. Alguns setores da economia de subsistência puderam expandir a faixa monetária de suas atividades produtivas. 
“Na região paranaense, p. ex., a grande expansão da produção de erva-mate para exportação trouxe um duplo benefício à economia de subsistência, em grande parte constituída de populações transplantadas da Europa (...). Os colonos que se encontravam mais no interior puderam dividir seu tempo entre a agricultura de subsistência e a extração de folhas de erva mate, aumentando substancialmente a sua renda. Os colonos mais próximos ao litoral se beneficiaram da expansão do mercado urbano, expansão essa que tinha seu impulso primário no desenvolvimento das exportações”.
“No RS, coube o impulso dinâmico ao setor pecuário, através de suas exportações para o mercado interno do país. Essas exportações passaram a constituir a metade das vendas totais do estado para os mercados internos e externos, em fins do século XIX”.
E o terceiro, tendo como centro a economia cafeeira. Compreende o Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Teve um crescimento de cerca de 2,2% e uma grande movimentação demográfica.
Duas regiões demográficas permaneceram fora desse sistema: a região da Bahia, que possuía 13% da população do país, que sobrevivia da economia do cacau e do fumo, e a Amazônia, que correspondia a 3% da população e se valia da economia da borracha.
O nordeste parece ser a única região cuja renda per capta diminuiu.
26. O fluxo de renda da economia de trabalho assalariado
“O fator de maior relevância ocorrido na economia brasileira do último quartel do século XIX foi o aumento da importância relativa do setor assalariado”. A expansão anterior se fizera seja através do crescimento do setor escravista, seja pela multiplicação dos núcleos de subsistência. A nova expansão tem lugar no setor que se baseia no trabalho assalariado (economia cafeeira). Dentro dessa economia, se destacam-se dois grupos: os assalariados, que revertem sua renda em gastos de consumo, e os proprietários, cujo nível de consumo é muito superior, retém parte de sua renda para aumentar seu capital. Os gastos de consumo constituem a renda dos pequenos produtores e comerciantes (que também transformam parte de sua própria renda em gastos de consumo). A soma de todos esses gastos excede necessariamente a renda monetária criada pela atividade exportadora. Isso quer dizer que com o trabalho assalariado surgiu um mercado interno. “A massa de salários pagos no setor exportador vem a ser, por conseguinte, o núcleo de uma economia em condições de crescer mais intensamente que a economia de exportação”.
“A estabilidade do salário real médio no setor exportador não significava que o mesmo ocorresse no conjunto da economia”. “Como a população crescia muito mais intensamente no setor monetário que no conjunto da economia, a massa de salários monetários – base da economia – aumentava mais rapidamente que o produto global”.
27. A tendência ao desequilíbrio externo
Problemas do novo sistema econômico: 
Impossibilidade de adaptar-se às regras do padrão-ouro, base da economia internacional que radicava que cada país devia valer-se de uma reserva metálica suficientemente grande para cobrir os déficits ocasionais de sua balança de pagamentos. Uma reserva metálica constituía uma inversão improdutiva, que era na verdade a contribuição de cada país para o financiamento a curto prazo das trocas internacionais.
As exportações representavam grande parte da economia nacional, sendo que as oscilações no mercado mundial podiam traumatizar o sistema interno. No momento em que se deflagrava a crise nas economias industriais, os preços dos produtos primários caiam bruscamente, reduzindo-se de imediato a entrada de divisas nos países de economia dependente.
28. A defesa do nível de emprego e a concentração da renda
A reserva de uma mão de obra dentro do país permitiu que a economia cafeeira se expandisse durante um longo período sem que os salários tendessem para a alta. Assim, uma vez que os lucros eram constantes (de acordo com as oscilações do mercado externo) e não havia reivindicações para o aumento do salário dos trabalhadores, os proprietários da indústria cafeeira optavam por expandir as plantações de café, dada a abundância de terras disponíveis, em vez de investir em melhoria das técnicas de cultivo e produção, não havendo preocupação com a sustentabilidade do solo.
O desequilíbrio externo decorria de uma série de fatores ligados à própria natureza do sistema econômico. A contração do sistema exportador traduzia-se em redução da margem de lucro. “A contração da renda global resultante da crise se manifestaria numa redução da remuneração das classes não assalariadas”. Para corrigir o desequilíbrio externo recorria-se ao encarecimento de produtos importados, já que os produtos nacionais tinham baixa nos preços e consequentemente a moeda sofria desvalorização no exterior, e tributava-se a inversão de capitais ao exterior.
“O processo de correção do desequilíbrio externo significava uma transferência de renda daqueles que pagavam as exportações para aqueles que vendiam as exportações”.
Quando havia alta cíclica nos lucros, a renda tendia a concentrar-se nas mãos dos empresários, uma vez que os lucros aumentavam e os salários permaneciam estáveis; na depressão os prejuízos da baixa de preços tendiam a concentrar-se nos lucros do empresário do setor exportador.
29. A descentralização republicana e a reforma de novos grupos de pressão
Os núcleos mais prejudicados no processo de depreciação cambial eram as populações urbanas. “Ao depreciar-se a moeda reduzia-se a importância ad valorem do imposto, acarretando dois efeitos de caráter regressivo: por um lado, a redução real do gravame era maior para os produtos que pagavam maior imposto – artigos de consumo das classes de alta renda; por outro, a redução relativa das receitas públicas obrigava o governo a emitir para financiar o déficit, e as emissões operavam como um imposto altamente regressivo, pois incidiam particularmente sobre as classes assalariadas urbanas”. Para defender o câmbio o governo contraía excessivos e onerosos empréstimos externos, cujo exercício acarretava uma sobrecarga fiscal imcompressível. O fato de que se reduzisse a carga fiscal ao depreciar-se