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Livro Plantas Forrageiras

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CAPÍTULO 1 
 
IMPORTÂNCIA DAS FORRAGEIRAS NO SISTEMA DE PRODUÇÃO 
Dilermando Miranda da Fonseca 
Manoel Eduardo Rozalino Santos 
Janaina Azevedo Martuscello 
 
1 - INTRODUÇÃO 
 Em um sistema de exploração pecuária com base na utilização de pastagens, a 
planta forrageira assume papel primordial, uma vez que tanto a rentabilidade quanto 
a sustentabilidade do sistema depende da escolha correta da forrageira. 
 O Brasil, país de dimensão continental, contém uma série de biomas 
diferenciados, o que torna imprescindível a existência de grande número de espécies 
forrageiras, gramíneas ou leguminosas, para que todos esses ecossistemas sejam 
contemplados quando o objetivo for o estabelecimento de pastagens. O grande 
número de espécies forrageiras disponíveis aos pecuaristas realça a necessidade e 
esforços dos pesquisadores no sentido de distinguir suas principais características; e 
também aumenta a responsabilidade dos pecuaristas quanto à sua escolha, já que as 
opções são diversas. 
Estima-se que no Brasil exista cerca de 170 milhões de hectares de pastagens, 
sendo que 100 milhões são de pastagens cultivadas e 70 milhões de pastagens 
naturais (IBGE, 2005). A produção de carne e leite no país é baseada quase que 
exclusivamente em pastagens de gramíneas e leguminosas forrageiras. Devido à 
importância da pecuária nacional para a economia do país, o cultivo de plantas 
forrageiras assume papel relevante para a cadeia produtiva de carne e leite. 
Nos últimos anos, a produção de carne aumentou no Brasil e esse 
agronegócio movimenta aproximadamente 24 bilhões de dólares ao ano (FAO, 
2005). Também no agronegócio leite, a partir da década de 1990, notou-se grande 
transformação da atividade no país, resultante de mudanças institucionais, onde os 
produtores incorporaram novas tecnologias ao sistema de produção (Martins, 2005). 
Assim, o aumento na produtividade de carne e leite no Brasil se deve, 
principalmente, à adoção de novas tecnologias pelos pecuaristas, incluindo a 
utilização de novas forrageiras mais responsivas em sistemas intensivos de produção, 
lançadas pelos centros de pesquisa (Martuscello et al., 2007). 
A produção animal em pastagens apresenta vantagens em relação aos outros 
sistemas de produção. Geralmente, o pasto é o alimento mais viável economicamente 
para a alimentação de ruminantes. Estima-se que o custo de produção da forragem 
oriunda da pastagem, na mesma unidade de medida, corresponde a um terço daquele 
originado a partir de outras fontes de alimento, como silagem, feno e alimentos 
concentrados. Neste contexto, o Brasil encontra-se em situação privilegiada, uma vez 
que estimativas são de que 96,5% do plantel de bovinos é manejado exclusivamente 
em pastagens, sendo que dos 3,5% restantes, a maioria é criada em pastagens por 
algum período do ciclo de produção (ANUALPEC, 2002). De acordo com dados 
oficiais do IBGE (2002), as pastagens brasileiras suportam um rebanho que 
ultrapassa 200 milhões de cabeças, das quais mais de 171 milhões só de bovinos, 
colocando o Brasil na condição de país com o segundo maior rebanho bovino do 
mundo. 
 Entretanto, quando se analisa criteriosamente os índices zootécnicos do 
rebanho brasileiro sob pastejo, nota-se ineficiência nos sistemas de produção, já que 
o desfrute brasileiro é 23,4% menor do que o da vizinha Argentina, 47,5% menor do 
que o da Austrália, que também explora o sistema de produção em pastagens, e 
64,1% menor do que o dos Estados Unidos (FAO, 2002). Evidentemente, esses 
dados refletem, dentre outros fatores, não só o manejo inadequado das pastagens e 
dos animais no Brasil, mas também, em alguns casos, a inadequação da planta 
forrageira ao sistema de produção. 
 Culturalmente o produtor brasileiro tende a buscar a “forrageira milagrosa” 
como forma de aumento de produtividade, facilidade de manejo e sustentabilidade do 
sistema de exploração. Porém, na maioria dos casos, as subestimativas de exigências 
nutricionais e o desconhecimento do manejo da forrageira utilizada, somado à 
inadequação desta ao ecossistema, resulta em diminuição da produtividade e, 
posteriormente, degradação da pastagem. Ademais, a simples substituição da planta 
forrageira tem pouco efeito no sistema de produção como um todo, haja vista que 
esta é somente parte integrante do ecossistema. Ainda assim, é de extrema 
importância o conhecimento das características agronômicas, morfológicas e 
fisiológicas da forrageira a ser utilizada, pois este é a base que norteia a adequada 
escolha e o eficiente manejo das forrageiras. 
 
 
2 - HISTÓRICO DAS FORRAGEIRAS NO BRASIL 
 O Brasil, quando à época do descobrimento, possuía cerca de 89% de 
florestas e o restante de sua área era de formações campestres. Os campos de 
pastagens nativas mais representativos no Brasil eram os campos naturais do Sul do 
país, os campos inundáveis da Amazônia e do Pantanal e o Cerrado, com suas 
vegetações características. As demais áreas de pastagens no Brasil, já no início do 
século 20, foram surgindo por ação antrópica a partir do desmatamento de áreas 
florestais. 
 Na época da escravatura, no Brasil colônia, algumas forrageiras de origem 
africana foram trazidas para o País em navios negreiros. De acordo com Mitidieri 
(1988), houve a introdução casual das primeiras gramíneas africanas na América 
através dos navios que traziam escravos de Guiné. O capim-colonião e outros 
serviam de cama para os escravos e, depois, eram jogados em áreas da costa 
brasileira. Devido principalmente as semelhanças edafoclimáticas entre algumas 
regiões do Brasil e algumas regiões da África, essas forrageiras se adaptaram bem e 
se disseminaram por várias localidades brasileiras. Ademais, essas forrageiras, 
mostraram-se bastante resistentes ao pisoteio e ao pastejo, como conseqüência, 
dentre outros fatores, da co-evolução durante milhares de anos com os grandes 
herbívoros africanos. Nesse grupo de gramíneas africanas estão incluídos o capim-
colonião (Panicum maximum), o capim-braquiária (Brachiaria decumbens), o capim-
jaraguá (Hyparrhenia rufa), o capim-gordura (Melinis minutiflora), entre outros, os 
quais serão abordados detalhadamente nos capítulos subseqüentes. 
Desde o início da colonização do território brasileiro e mesmo na atualidade 
em regiões em que ocorre expansão da agropecuária, os bovinos exerceram papel 
desbravador na ocupação de áreas. No início, o estabelecimento das pastagens 
ocorreu de forma lenta devido sua implantação por mudas e, a partir da década de 
1960, o processo de estabelecimento das pastagens passou a ocupar maiores áreas, 
em menor tempo, devido à importação, produção e utilização de sementes de 
forrageiras. Entretanto, em razão do pouco conhecimento das exigências nutricionais 
e de manejo das forrageiras, o declínio de produtividade foi evidente, iniciando-se 
assim o denominado “ciclo dos capins” (Tabela 1), onde os produtores substituíam as 
forrageiras já estabelecidas na tentativa de restabelecer a produção, porém em solos 
cada vez mais improdutivos e degradados. Dessa forma, aumentava-se o número de 
degraus da “escada descendente feliz” ou “escada da ilusão” (Figura 1), quando se 
procurava, a cada reforma da pastagem, um “capim novo”, com baixa exigência em 
fertilidade de solo, resistente ao fogo, ao pastejo, produtivo no período seco do ano, 
etc. (Corsi, 1988). 
 
 
 
 
 
 
Tabela 1 - Evolução do uso e substituição de plantas forrageiras no Brasil (ciclo dos 
capins) 
Década Gênero, espécie e, ou cultivar de forrageira 
1960 Cynodon e Digitaria 
1970 Panicum maxium (Green Panic, Sempre Verde e 
Makueni) 
Setaria anceps (Nandi, Kazungula) 
Brachiaria decumbens 
1980 (Áreas tropicais) Panicum maxium (Centenário) 
Andropogon gayanus 
1980 (Áreas não tropicais) Festuca, Lolium, Phalaris, Trifolium, Medicago, 
Lotus 
1980 (Introdução de