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CAPÍTULO 1
IMPORTÂNCIA DAS FORRAGEIRAS NO SISTEMA DE PRODUÇÃO
Dilermando Miranda da Fonseca
Manoel Eduardo Rozalino Santos
Janaina Azevedo Martuscello
1 - INTRODUÇÃO
Em um sistema de exploração pecuária com base na utilização de pastagens, a
planta forrageira assume papel primordial, uma vez que tanto a rentabilidade quanto
a sustentabilidade do sistema depende da escolha correta da forrageira.
O Brasil, país de dimensão continental, contém uma série de biomas
diferenciados, o que torna imprescindível a existência de grande número de espécies
forrageiras, gramíneas ou leguminosas, para que todos esses ecossistemas sejam
contemplados quando o objetivo for o estabelecimento de pastagens. O grande
número de espécies forrageiras disponíveis aos pecuaristas realça a necessidade e
esforços dos pesquisadores no sentido de distinguir suas principais características; e
também aumenta a responsabilidade dos pecuaristas quanto à sua escolha, já que as
opções são diversas.
Estima-se que no Brasil exista cerca de 170 milhões de hectares de pastagens,
sendo que 100 milhões são de pastagens cultivadas e 70 milhões de pastagens
naturais (IBGE, 2005). A produção de carne e leite no país é baseada quase que
exclusivamente em pastagens de gramíneas e leguminosas forrageiras. Devido à
importância da pecuária nacional para a economia do país, o cultivo de plantas
forrageiras assume papel relevante para a cadeia produtiva de carne e leite.
Nos últimos anos, a produção de carne aumentou no Brasil e esse
agronegócio movimenta aproximadamente 24 bilhões de dólares ao ano (FAO,
2005). Também no agronegócio leite, a partir da década de 1990, notou-se grande
transformação da atividade no país, resultante de mudanças institucionais, onde os
produtores incorporaram novas tecnologias ao sistema de produção (Martins, 2005).
Assim, o aumento na produtividade de carne e leite no Brasil se deve,
principalmente, à adoção de novas tecnologias pelos pecuaristas, incluindo a
utilização de novas forrageiras mais responsivas em sistemas intensivos de produção,
lançadas pelos centros de pesquisa (Martuscello et al., 2007).
A produção animal em pastagens apresenta vantagens em relação aos outros
sistemas de produção. Geralmente, o pasto é o alimento mais viável economicamente
para a alimentação de ruminantes. Estima-se que o custo de produção da forragem
oriunda da pastagem, na mesma unidade de medida, corresponde a um terço daquele
originado a partir de outras fontes de alimento, como silagem, feno e alimentos
concentrados. Neste contexto, o Brasil encontra-se em situação privilegiada, uma vez
que estimativas são de que 96,5% do plantel de bovinos é manejado exclusivamente
em pastagens, sendo que dos 3,5% restantes, a maioria é criada em pastagens por
algum período do ciclo de produção (ANUALPEC, 2002). De acordo com dados
oficiais do IBGE (2002), as pastagens brasileiras suportam um rebanho que
ultrapassa 200 milhões de cabeças, das quais mais de 171 milhões só de bovinos,
colocando o Brasil na condição de país com o segundo maior rebanho bovino do
mundo.
Entretanto, quando se analisa criteriosamente os índices zootécnicos do
rebanho brasileiro sob pastejo, nota-se ineficiência nos sistemas de produção, já que
o desfrute brasileiro é 23,4% menor do que o da vizinha Argentina, 47,5% menor do
que o da Austrália, que também explora o sistema de produção em pastagens, e
64,1% menor do que o dos Estados Unidos (FAO, 2002). Evidentemente, esses
dados refletem, dentre outros fatores, não só o manejo inadequado das pastagens e
dos animais no Brasil, mas também, em alguns casos, a inadequação da planta
forrageira ao sistema de produção.
Culturalmente o produtor brasileiro tende a buscar a “forrageira milagrosa”
como forma de aumento de produtividade, facilidade de manejo e sustentabilidade do
sistema de exploração. Porém, na maioria dos casos, as subestimativas de exigências
nutricionais e o desconhecimento do manejo da forrageira utilizada, somado à
inadequação desta ao ecossistema, resulta em diminuição da produtividade e,
posteriormente, degradação da pastagem. Ademais, a simples substituição da planta
forrageira tem pouco efeito no sistema de produção como um todo, haja vista que
esta é somente parte integrante do ecossistema. Ainda assim, é de extrema
importância o conhecimento das características agronômicas, morfológicas e
fisiológicas da forrageira a ser utilizada, pois este é a base que norteia a adequada
escolha e o eficiente manejo das forrageiras.
2 - HISTÓRICO DAS FORRAGEIRAS NO BRASIL
O Brasil, quando à época do descobrimento, possuía cerca de 89% de
florestas e o restante de sua área era de formações campestres. Os campos de
pastagens nativas mais representativos no Brasil eram os campos naturais do Sul do
país, os campos inundáveis da Amazônia e do Pantanal e o Cerrado, com suas
vegetações características. As demais áreas de pastagens no Brasil, já no início do
século 20, foram surgindo por ação antrópica a partir do desmatamento de áreas
florestais.
Na época da escravatura, no Brasil colônia, algumas forrageiras de origem
africana foram trazidas para o País em navios negreiros. De acordo com Mitidieri
(1988), houve a introdução casual das primeiras gramíneas africanas na América
através dos navios que traziam escravos de Guiné. O capim-colonião e outros
serviam de cama para os escravos e, depois, eram jogados em áreas da costa
brasileira. Devido principalmente as semelhanças edafoclimáticas entre algumas
regiões do Brasil e algumas regiões da África, essas forrageiras se adaptaram bem e
se disseminaram por várias localidades brasileiras. Ademais, essas forrageiras,
mostraram-se bastante resistentes ao pisoteio e ao pastejo, como conseqüência,
dentre outros fatores, da co-evolução durante milhares de anos com os grandes
herbívoros africanos. Nesse grupo de gramíneas africanas estão incluídos o capim-
colonião (Panicum maximum), o capim-braquiária (Brachiaria decumbens), o capim-
jaraguá (Hyparrhenia rufa), o capim-gordura (Melinis minutiflora), entre outros, os
quais serão abordados detalhadamente nos capítulos subseqüentes.
Desde o início da colonização do território brasileiro e mesmo na atualidade
em regiões em que ocorre expansão da agropecuária, os bovinos exerceram papel
desbravador na ocupação de áreas. No início, o estabelecimento das pastagens
ocorreu de forma lenta devido sua implantação por mudas e, a partir da década de
1960, o processo de estabelecimento das pastagens passou a ocupar maiores áreas,
em menor tempo, devido à importação, produção e utilização de sementes de
forrageiras. Entretanto, em razão do pouco conhecimento das exigências nutricionais
e de manejo das forrageiras, o declínio de produtividade foi evidente, iniciando-se
assim o denominado “ciclo dos capins” (Tabela 1), onde os produtores substituíam as
forrageiras já estabelecidas na tentativa de restabelecer a produção, porém em solos
cada vez mais improdutivos e degradados. Dessa forma, aumentava-se o número de
degraus da “escada descendente feliz” ou “escada da ilusão” (Figura 1), quando se
procurava, a cada reforma da pastagem, um “capim novo”, com baixa exigência em
fertilidade de solo, resistente ao fogo, ao pastejo, produtivo no período seco do ano,
etc. (Corsi, 1988).
Tabela 1 - Evolução do uso e substituição de plantas forrageiras no Brasil (ciclo dos
capins)
Década Gênero, espécie e, ou cultivar de forrageira
1960 Cynodon e Digitaria
1970 Panicum maxium (Green Panic, Sempre Verde e
Makueni)
Setaria anceps (Nandi, Kazungula)
Brachiaria decumbens
1980 (Áreas tropicais) Panicum maxium (Centenário)
Andropogon gayanus
1980 (Áreas não tropicais) Festuca, Lolium, Phalaris, Trifolium, Medicago,
Lotus
1980 (Introdução degermoplasma)
Brachiaria
Panicum
1980 (Lançamento de
cultivar)
Brachiaria brizantha cv. Marandu
1990 (Lançamento de
cultivar)
Panicum maximum cv. Vencedor, Tanzânia e
Mombaça
2000 (Lançamento de
cultivar)
Brachiaria brizantha cvs. Xaraés e Piatã,
Panicum maximum cv. Massai, Paspalum atratum
cv. Pojuca
Figura 1- Escada descendente feliz ou escada da ilusão (Adaptado de Corsi, 1988).
Na atualidade, assim como no passado, verifica-se um grande interesse por
parte dos pecuaristas no tocante à substituição de gramíneas forrageiras. Há especial
interesse no estabelecimento de forrageiras lançadas recentemente e que ocupam
maior espaço nos meios de divulgação. Vale salientar que a simples substituição da
forrageira no sistema de produção não garante a lucratividade final, caso outras ações
de manejo não sejam empregadas concomitantemente. Muitas “forrageiras atuais”
são utilizadas sem o devido embasamento teórico (conhecimento de suas
características) necessário para o seu adequado manejo. Dessa forma, parece que o
“ciclo dos capins” ainda não acabou.
3. CONHECIMENTO DAS CARACTERÍSTICAS DAS PLANTAS
FORRAGEIRAS
O conhecimento das diversas características de cada forrageira é de suma
importância para sua correta utilização, para garantir produtividade e perenidade das
espécies, bem como lucratividade dos sistemas produtivos que as utilizam. Cada
forrageira possui características particulares, resultado dos distintos meios nos quais
evoluíram durante milhares de anos. Isso faz com que exista grande diversidade de
CAPIM-COLONIÃO,
CAPIM-NAPIER
CAPIM-PANGOLA
CAPIM-BRAQUIÁRIA
CAPIM-KIKUIO-DA-AMAZÔNIA
CAPIM-ANDROPÓGON
CAPIM-MARANDU
GRAMA BATATAIS (GRAMÃO)
REBROTA DE BARBA DE BODE
RABO DE BURRO, SAPÉ
forrageiras no que diz respeito às características morfológicas e fisiológicas, às
exigências edáficas e climáticas, que determinam aptidões variáveis tais como
resistência à intensidade de pastejo, exigência em fertilidade e textura do solo,
condições de clima e manejo, dentre outras. A consideração destas diversas
características é essencial quando da idealização e condução de sistemas de produção
baseados na utilização das pastagens.
Embora exista muitas opções de recursos forrageiros disponíveis aos
pecuaristas, para cada ecossistema e perfil de sistema produtivo, há um número
restrito de forrageiras mais propícias. Ademais, em um mesmo ecossistema ou
sistema de produção, existem microclimas em que as características do ambiente são
diferenciadas ou áreas utilizadas com objetivos distintos. Essa realidade torna ainda
mais importante o conhecimento das forrageiras para sua adequada escolha e
utilização.
Há forrageiras com diferentes formas de crescimento e essa característica é
importante, por exemplo, quando da escolha da espécie para áreas de relevos
distintos. Em áreas declivosas torna-se mais adequado a utilização de gramíneas
estoloníferas e, ou decumbentes. Em contrapartida, áreas planas podem ser utilizadas
com gramíneas cespitosas e de crescimento mais ereto. Esse simples conhecimento
pode garantir a sustentabilidade da pastagem por prevenir possíveis problemas de
erosão e, consequentemente, degradação.
Pela caracterização morfológica de uma forrageira também se pode inferir
sobre sua mais adequada forma de utilização. Assim, gramíneas com alta relação
folha:colmo e de colmos finos são as mais indicadas para produção de feno por
propiciarem mais rápida desidratação e melhor qualidade do produto; plantas de
crescimento ereto com meristema apical mais facilmente eliminado pelo pastejo
exigem freqüência de corte menor ou altura de corte mais elevada, ao contrário de
plantas mais prostradas; e forrageiras de maior porte são menos indicadas para o
pastejo de pequenos ruminantes e equídeos.
As características agronômicas também devem ser consideradas. O maior
potencial produtivo de uma forrageira a torna mais recomendada aos sistemas de
produção mais intensivos, onde se utiliza maior quantidade de adubo com o objetivo
de incrementar a produção animal por área. Normalmente, estas forrageiras são mais
exigentes em fertilidade de solo, o que restringe e, ou limita sua utilização.
Forrageiras com elevado potencial de produção de sementes garantem maior
recuperação natural das plantas, o que pode contribuir para sustentabilidade do pasto
em condições de manejo menos adequadas ou após ocorrências climáticas
desfavoráveis. A variação fenológica das espécies e, ou cultivares de forrageiras tem
influência na oferta e na distribuição, bem como no valor nutritivo da forragem e
pode alterar o consumo e desempenho animal, o que faz com que ações de manejo
sejam, teoricamente, diferenciadas em função do estádio de crescimento da planta.
A adaptação da forrageira às condições de clima, bem como suas respostas ao
clima, é fundamental para o sucesso na produção de forragem durante o ano. Essas
informações, somadas ao conhecimento da condição climática da região onde se
pretende implantar ou já existe a pastagem, permite a adequada escolha da espécie
forrageira e melhor planejamento para utilização do recurso forrageiro. A maioria
das gramíneas tropicais possui exigência de temperatura ótima para a fotossíntese em
torno de 35°C (Magalhães, 1979). Isso é um dos fatores que explicam a sazonalidade
da produção de forragem em condições tropicais. De outra forma, as forrageiras de
inverno têm capacidade de crescer em ambientes mais frios, pois sua fotossíntese
ótima ocorre numa temperatura em torno de 25°C (Magalhães, 1979). Destarte, o uso
destas últimas pode constituir uma das estratégias para reduzir a estacionalidade da
produção de forragem no sistema.
A qualidade da forragem também é um dos determinantes do consumo e
desempenho animal e, sendo assim, seu conhecimento permite adequar os diferentes
tipos de pasto às distintas categorias e, ou espécies animais de forma coerente. Por
exemplo, as leguminosas, em geral, possuem melhor valor nutritivo do que as
gramíneas e, por isso, a sua utilização deve ser recomendada para ocasiões em que o
maior desempenho animal é almejado, tais como em criatórios de animais de alto
valor genético. Existem ainda plantas forrageiras que possuem fatores
antinutricionais, tais como tanino, mimosina, ácido cianídrico, oxalato, dentre outros.
Esse conhecimento pode limitar ou restringir sua utilização e, mais importante, evitar
prejuízos ao pecuarista devido aos danos aos animais.
Finalmente, é importante considerar que as demandas por tecnologias não são
estáticas. Assim, na medida que novas tendências, diferentes formas de manejo ou
distintos sistemas de produção vão sendo desenvolvidos e implementados, torna-se
imprescindível novos conhecimentos sobre recursos vegetais mais aptos para serem
utilizados nestas novas condições. Como exemplo, temos a crescente demanda de
informações sobre implantação e condução de sistemas agrossilvipastoris, que
integram conjuntamente a agricultura, a pecuária e a atividade florestal numa mesma
área. Nesses sistemas, a introdução da forrageira deve ser baseada, dentre outros
fatores, no conhecimento do seu nível de tolerância ao sombreamento para garantir
boa produtividade. Outro exemplo são os sistemas que utilizam a integração
agricultura e pecuária com o uso da técnica de plantio direto. Nesse caso,
características da planta forrageira, tais como sistema radicular vigoroso capaz de
melhorar as propriedades físicas do solo, facilidade de erradicação e, ou dessecação
com o uso de herbicidas e elevada produção de biomassa que permita oferta de
forragem e boa cobertura do solo, são requeridas para obtenção de êxito na
exploração e, portanto, devem ser conhecidas.
Várias outras características e finalidades de uso das forrageiras aindapoderiam
ser descritas, as quais juntamente com as citadas, quando devidamente conhecidas,
auxiliam sua escolha e adequada utilização. Todavia ressalta-se que, possivelmente,
não existe uma única forrageira que reúna todas as características agronômicas e
zootécnicas desejáveis para uma determinada condição. Essa realidade faz com que a
caracterização das forrageiras seja necessária, como forma de nortear seus usuários e
antecipar possíveis padrões de resposta produtiva quando do seu estabelecimento e
utilização.
4 - FORRAGEIRA COMO COMPONENTE DO SISTEMA DE PRODUÇÃO EM
PASTAGEM
O conhecimento dos componentes do sistema de produção animal em pastagem
é um dos pressupostos para o entendimento das relações de causa e efeito que
determinam seu funcionamento. Segundo Sheath & Clark (1990), esses componentes
são os recursos físicos, vegetais e animais, os quais são arranjados e organizados em
uma seqüência hierárquica e interativa (Figura 2).
Os recursos vegetais correspondem à espécie ou conjunto de espécies
forrageiras que são exploradas no sistema produtivo. Para a utilização adequada
desses recursos vegetais, deve-se conhecer suas características, bem como a base
produtiva do sistema, denominada de recurso físico. Este compreende as condições
edafoclimáticas, a infra-estrutura, a localização geográfica, quantidade e qualidade
da mão-de-obra disponível, dentre outros, do sistema produtivo. Esses
conhecimentos, se devidamente considerados, irão impor restrições às diversas
possibilidades de escolha dos recursos vegetais, definindo um universo mais estreito
de combinações em um sistema de produção (Da Silva & Corsi, 2003).
Figura 2 - Representação da estrutura hierárquica entre os componentes do sistema
de produção animal em pastagens (Adaptado de Sheath & Clark, 1990).
A interação entre os recursos físicos e vegetais deve ser otimizada e
harmonizada, respeitando-se as exigências e particularidades de ambos, para que o
sistema seja produtivo e sustentável. Infelizmente, essa premissa básica e
fundamental para o bom funcionamento do sistema de produção animal baseado no
uso da pastagem não tem sido respeitada. É comum tentativas de estabelecimento de
espécies forrageiras em condições impróprias, tais como o plantio de capim-elefante
em áreas de solo com deficiência de drenagem; a semeadura de cultivares de
Panicum, exigentes em fertilidade, em solos ácidos e pobres em nutrientes; ou a
utilização de forrageiras com limitado potencial de resposta produtiva, como a
Brachiaria ruziziensis, em sistemas de produção de alto nível tecnológico.
A inadequação dos recursos vegetais aos recursos físicos resulta em baixa
produtividade e lucratividade do sistema e, o que é mais preocupante, na degradação
dos ecossistemas pastagens. Segundo Barcellos et al. (2001), cerca de 80% das
pastagens cultivadas nos Cerrados apresenta-se em estádio de degradação, sendo este
apontado como um dos principais problemas sociais, econômicos e ambientais
Recursos físicos
Recursos vegetais
Recursos animais
vividos pela pecuária nacional. Contudo vale salientar que ações de manejo podem e,
muitas vezes, devem ser implementadas com o objetivo de corrigir possíveis
limitações nos recursos físicos e, assim, tornar apropriada a utilização dos recursos
vegetais específicos e de interesse.
Filosoficamente, somente após o estabelecimento da interação estável entre os
recursos físicos e vegetais é que o terceiro componente do sistema de produção
animal em pastagens deve ser considerado, ou seja, o recurso animal. Este pode ser
caracterizado pela(s) espécie(s), categoria(s) e mérito genético dos animais que serão
criados.
Nesse contexto, ainda é corriqueira a observação do emprego de recursos
animais inadequados aos recursos vegetais disponíveis. Situações como a
manutenção de animais com produtividades distintas e, portanto, com exigências
nutricionais diferentes num mesmo pasto são comuns. Neste caso, a simples divisão
do rebanho em lotes mais homogêneos e sua alocação em pastos específicos,
considerando o valor nutritivo da forragem e a demanda de nutrientes do animal,
consiste em ação de manejo mais eficiente. Mas, para isso, torna-se necessário
conhecer a qualidade da forragem possível de ser produzida pela planta forrageira.
Assim, diferentes recursos animais exigem distintos recursos vegetais. Em
condições de pastagem, onde existe uma oferta abundante de forragem de baixa
qualidade, animais de menor porte ficam em desvantagem para atingir seus
requerimentos em função de sua alta demanda energética (Demment & Van Soest,
1985). Os animais de grande porte têm a vantagem de poder utilizar a estratégia de
aumentar o tempo de retenção do alimento, explorando mais eficientemente a
forragem de baixa qualidade. Os bovinos teriam, portanto, uma considerável
vantagem em relação a ovinos, e principalmente em relação a caprinos, nesta
situação.
Diante do exposto, fica evidente a existência de interdependência entre os
recursos físicos, vegetais e animais no sistema de produção em pastagem. Nesse
contexto, os recursos vegetais devem ser escolhidos em função da natureza e da
possibilidade de alteração nos recursos físicos. Ademais, o recurso vegetal é um dos
determinantes do desempenho do recurso animal em pastagens e, dessa forma, deve
ser escolhido tendo como um dos critérios o tipo de animal que será criado.
5 - ETAPAS DE PRODUÇÃO ANIMAL EM PASTAGEM
A produção animal em pastagens pode ser entendida, do ponto de vista do
funcionamento, como resultado de três etapas interdependentes: crescimento,
utilização e conversão (Hodgson, 1990) (Figura 3). A fixação de energia proveniente
do sol e sua transformação em tecido vegetal são processos responsáveis pela
produção de forragem e correspondem à etapa de crescimento. Essa forragem,
quando colhida pelo animal por meio do pastejo, caracteriza a etapa de utilização. A
conversão, última etapa do processo produtivo, é a transformação da forragem
consumida em tecidos e produtos de origem animal.
Figura 3 - Representação das etapas da produção animal em pastagens (Adaptado de
Hodgson, 1990).
A escolha da espécie ou cultivar de forrageira a ser utilizada influencia
diretamente a etapa de crescimento, porque cada planta possui um potencial de
Forragem
produzida
Recursos:
Solo, Clima,
Plantas
CRESCIMENTO
Forragem
consumida
UTILIZAÇÃO
Produto
Animal
CONVERSÃO
PRODUÇÃO ANIMAL
produção determinado geneticamente e que, em função das condições do meio, pode
ser expresso em escalas variáveis. Em razão disso, ambientes que permitam a
expressão do mérito genético da planta forrageira devem ser utilizados com plantas
com alto potencial de resposta, como as cultivares de Pennisetum purpureum e
algumas de Panicum maximum. Contrariamente, os capins Brachiaria ruziziensis,
Paspalum notatum e Melinis minutiflora, que são exemplos de espécies com menor
capacidade de produção, devem ser alocadas em áreas cujas características sejam
mais limitantes à produção de forragem.
A morfologia da forrageira também condiciona as ações de manejo do pastejo
empregadas durante a etapa de utilização. Parece haver um consenso de que plantas
eretas, de porte alto e com ritmo de crescimento acelerado, como os capins Tanzânia,
Mombaça e Elefante, são mais indicadas para a utilização sob pastejo em lotação
intermitente, enquanto que as forrageiras de porte mais baixo, para uso em lotação
contínua (Rodrigues & Reis, 1999).
Acresce-se ainda que cada forrageira possui um valor nutritivo inerente, reflexo
de suas características químicas e anatômicas que, embora possam ser modificadas
pelo manejo, também influenciam a conversãoda forragem em produto animal,
afetando, assim, a última etapa da produção animal em pastagem (conversão).
Assim, a escolha da planta forrageira tem conseqüências significativas em
todas as etapas do processo de produção animal em pastagem (crescimento,
utilização e conversão). Ademais, a etapa de utilização também afeta o crescimento
da planta forrageira, porque diferentes intensidades e freqüências de pastejo resultam
em respostas diferenciadas da planta num determinado ambiente. Nesse contexto, o
conhecimento do padrão de crescimento das diferentes forrageiras em condições de
pastejo é importante para a escolha da espécie, tendo em vista as estratégias de
manejo que são e, ou serão adotadas na propriedade.
6 - OBJETIVO COM O SISTEMA DE PRODUÇÃO EM PASTAGEM
Embora exista um grande número de forrageiras de que se pode dispor, a
simples consideração do(s) objetivo(s) e do perfil que se pretende com um sistema de
produção animal já restringe, sobremaneira, as espécies mais convenientes e
adequadas àquela condição. Dessa forma, o uso de determinado recurso forrageiro
deve ser norteado pela consideração conjunta e criteriosa das características da planta
e do sistema de produção.
Existe uma grande diversidade de sistemas de produção animal no Brasil, o
que demanda, teoricamente, forrageiras específicas para cada condição. Por exemplo,
nos sistemas de produção em que o produto final é a forragem, como naqueles cujo
produto é o feno ou a silagem, a planta forrageira não está sobre influência direta do
animal. Assim, os efeitos do pisoteio, do pastejo e das dejeções dos animais não
ocorrem e, portanto, adaptações a estes efeitos são menos relevantes quando da
escolha da planta forrageia. Por outro lado, em praticamente todos os sistemas
produtivos, a planta tem que ser adaptada a cortes frequentes (corte ou pastejo), ter
boa capacidade produtiva e potencial de produzir uma forragem de boa qualidade.
Os sistemas de produção onde animais permanecem confinados utilizam a
planta forrageira para produção de volumoso, que é fornecido no cocho, seja na
forma de feno, silagem ou forragem fresca e picada. Novamente, nessas condições a
planta forrageira não é afetada pelo pastejo animal, mas deve ser escolhida com base
no seu potencial de produção e qualidade. Os animais criados nestes sistemas são, via
de regra, mais produtivos e, logo, demandam a ingestão de forragem “concentrada”
em nutrientes. Isso faz necessário o uso de espécies forrageiras que, quando
corretamente manejadas, produzam uma forragem de boa qualidade.
Os sistemas de produção animal em pastagens são mais flexíveis quanto ao(s)
objetivo(s) e às interações entre os componentes solo, planta, animal e meio. Nestes
sistemas deve-se, como premissa básica, utilizar plantas adaptadas às condições de
pastejo. Para esse fim, várias características da planta são desejáveis, tais como:
localização do meristema apical mais próximo ao nível do solo, alta capacidade de
renovação de tecido foliar, plasticidade fenotípica, etc.
De acordo com alguns autores (Da Silva & Pedreira, 1997; Lupinacci, 2003),
os sistemas de produção animal baseados no uso de pastagens podem ser agrupados,
simplificadamente, em dois grupos básicos: (1) aqueles que objetivam elevado
desempenho animal, praticados às expensas de taxas de lotação modestas, e (2)
aqueles que visam a manutenção de elevadas taxas de lotação (elevada produção por
área), com valores somente satisfatórios de desempenho animal. Para cada um desses
sistemas produtivos, há forrageiras mais apropriadas e coerentes com os objetivos
específicos.
Para obtenção de elevado desempenho animal é indispensável, dentre outros,
que a forragem tenha um bom valor nutritivo. Nesse sentido, dentre todas as opções
de plantas forrageiras disponíveis para utilização em sistemas pastoris que explorem
o mérito genético do animal, apenas algumas possuem características desejáveis. De
outra forma, para que altas taxas de lotação sejam praticadas, é fundamental uma alta
produção de forragem por unidade de área. Para isso, devem-se escolher plantas
forrageiras com potencial de expressar sua característica genética de alta produção,
desde de que as restrições do meio sejam corrigidas.
É importante mencionar ainda que existem plantas forrageiras que, se bem
manejadas, podem produzir forragem de boa qualidade e em quantidade satisfatória,
como algumas forrageiras do gênero Panicum. Estas forrageiras podem, então, ser
utilizadas tantos em sistemas que explorem o mérito genético do animal, quanto
naqueles em que a expressão do mérito genético da planta forrageira é almejada.
7- PLANTA FORRAGEIRA E O ANIMAL
As plantas e os animais co-evoluíram ao longo de milhares de anos,
desenvolvendo estratégias de resistência (planta) e de forrageamento (animais) que
lhes permitiram sucesso adaptativo (Carvalho et al., 2006). Esse princípio deve ser
considerado na idealização de sistemas de produção pastoris, porque os herbívoros
domésticos que criamos e as plantas forrageiras que cultivamos são produtos desse
processo evolutivo.
O tamanho corporal do animal é uma característica de adaptação evolutiva,
resultado da especialização do animal a determinados tipos de alimentos. Animais
maiores, por exemplo, são mais aptos em tolerar alimentos de pior qualidade, porque
a relação requerimento:capacidade digestiva diminui com o aumento do tamanho do
animal (Carvalho et al., 2006). Contrariamente, herbívoros pequenos possuem alto
gasto de energia por unidade de peso corporal e, portanto, demandam uma dieta mais
digestiva e “concentrada” em nutrientes (Lechner-Doll et al., 1995).
Dessa forma, existe uma estreita relação entre as características do pasto e as
características dos animais que teriam capacidade de utilizá-lo. Pastos de forrageiras
com pior valor nutritivo seriam mais bem aproveitados por espécies animais de
maior peso corporal, como bovinos e equinos. No entanto, pastos de forrageiras de
elevada qualidade são mais adequados aos animais menores, como caprinos, ovinos
ou, até mesmo, animais jovens de espécies maiores (por exemplo, bezerros).
Além dos aspectos qualitativos, as características morfológicas das forrageiras
também devem ser analisadas para sua correta adequação ao tipo de animal que será
criado no sistema produtivo. Como exemplo, gramíneas de porte médio ou baixo são
preferidas pelos ovinos. Estes realizam pastejo mais baixo e, por isso, espécies com
estolões de maior resistência ao pastejo ou espécies cespitosas de menor porte com
meristema apical próximo ao nível do solo, tais como os capins Coastcross, Tifton,
Estrela, Pensacola e Quicuio, são mais recomendadas para a criação de ovinos
(Evangelista et al., 2003). Os ovinos não aproveitam bem a forragem produzida
quando a pastagem é formada por espécies cespitosas de porte elevado, como os
capins Colonião, Elefante e Jaraguá. Isso ocorre, simplesmente, devido à
incompatibilidade entre as dimensões contrastantes do animal (pequeno) e do pasto
(alto).
Outro aspecto interessante na escolha da forrageira para ovinos diz respeito à
relação entre a forma de crescimento da planta e o manejo sanitário de helmintos.
Silva Sobrinho (2001) verificou que em pastos de espécies cespitosas, normalmente
eretas e que não recobrem bem a superfície do solo, há a vantagem da maior
penetração dos raios solares até a superfície do solo, tornando o ambiente menos
favorável às larvas e ovos de helmintos. Por outro lado, espécies estoloníferas, com
crescimento prostrado, propiciam a manutenção de um microclima mais favorável ao
desenvolvimento de larvas de helmintos, dificultando o manejo sanitário.
Com relação aos caprinos, sua maior mobilidade dos lábios superiores permite
um pastejo tão próximo ao solo quanto os ovinos (Lu, 1988). Assim,as espécies
forrageiras recomendadas para ovinos, normalmente, também se adequam bem aos
caprinos. Além disso, os caprinos podem pastejar em posição bipedal, o que confere
a esta espécie uma maior possibilidade de aproveitamento dos estratos arbóreo e de
gramíneas mais altas (Ribeiro, 2003).
Os equídeos realizam a preensão da planta utilizando o lábio superior,
colocando o alimento entre os dentes incisivos, os quais, por sua vez, executam o
corte, auxiliado pela movimentação da cabeça (Haddad & Plalatzeck, 1986). Assim,
estes animais têm maior aptidão ao corte mais baixo e intenso, comparativamente aos
ovinos, e espécies forrageiras de crescimento estolonífero, em geral, são mais
adequadas para os equídeos. Ademais, os equídeos corriqueiramente empreendem
corridas no pasto e, para respeitar este comportamento animal, é recomendado evitar
o uso de forrageiras com crescimento cespitoso, que constituiriam obstáculo à
movimentação destes animais.
Com base nos exemplos citados anteriormente, torna-se necessário conciliar
características da planta forrageira às características dos animais que irão utilizá-la.
Normalmente, o tamanho e a anatomia dos órgãos de apreensão de alimento são
características importantes nos animais. Nas plantas forrageiras, atenção deve ser
devotada, principalmente, ao seu valor nutritivo, à sua forma de crescimento e ao seu
porte.
8 - PLANTA FORRAGEIRA E MANEJO DO PASTEJO
Uma das causas de insucesso na utilização dos recursos forrageiros consiste
na ausência de informação e conhecimento sobre o manejo do pastejo mais adequado
para cada forrageira. Analogamente a qualquer produto que é lançado no mercado,
que tem seu manual de instrução e utilização, toda nova forrageira recém liberada
para comercialização deveria vir acompanhada de diretrizes eficientes para nortear o
seu manejo, seja sob lotação contínua ou lotação intermitente, os dois principais
métodos de pastejo empregados no Brasil.
Na falta de informações mais detalhadas e específicas sobre o manejo do
pastejo para cada forrageira com potencial de utilização nos sistemas de produção,
podemos lançar mão de outras características para, com base nelas, inferir sobre as
formas mais adequadas de manejo. Dentre essas características, a sua morfologia,
caracterizada pela forma de crescimento ou altura da planta, por exemplo, pode ser
analisada para esse fim.
O pastejo ou corte das forrageiras, como forma de manejo conservativo,
varia com a morfologia, altura, forma de propagação e rebrotação das espécies
(Blaser, 1994). A recuperação das plantas após a desfolhação pode ser influenciada
pelas suas características morfológicas, como o número de pontos de crescimento
pelos quais a rebrotação pode ocorrer. A preservação dos pontos de crescimento
permite uma rápida formação de folhas, de forma que taxas de crescimento elevadas
são atingidas num menor período após pastejo.
Cada espécie e, ou cultivar de forrageira possui características morfológicas
próprias, que podem ser modificadas pelo clima e manejo, até certo limite, resultado
da sua plasticidade fenotípica. Esta plasticidade fenotípica pode ser definida como a
mudança gradual e reversível nas características morfogênicas e estruturais da planta
forrageira em razão de alterações no ambiente (Da Silva & Nascimento Júnior,
2006). Por exemplo, é sabido que gramíneas sob condições de pastejo intenso,
normalmente, possuem menor altura, maior taxa de aparecimento de folhas, sendo
estas de menor comprimento, e elevada capacidade de originar novos perfilhos.
Contrariamente, numa situação de pastejo mais leniente, constata-se uma redução do
número de perfilhos no pasto, além da ocorrência de plantas maiores, com o
aparecimento de longas folhas de forma menos freqüente.
Além disso, essas características morfológicas muitas vezes são um dos
determinantes do tipo de manejo a ser adotado. Como exemplo, ressalta-se gramíneas
de crescimento cespitoso, de porte alto, que elevam precocemente o meristema apical
e, por isso, são mais indicadas para método de pastejo em lotação intermitente
(Rodrigues & Reis, 1997). Ao contrário, gramíneas estoloníferas são recomendadas
para o método de pastejo em lotação contínua, pelo fato de formarem um baixo e
denso relvado, permitindo maior tolerância ao pastejo e pisoteio mais freqüente.
Entretanto, salienta-se que gramíneas estoloníferas também podem ser utilizadas sob
pastejo em lotação intermitente.
Normalmente, forrageiras de porte mais alto são mais exigentes em manejo do
pastejo, ou seja, são menos flexíveis quanto à forma de utilização e mais propensas
aos erros durante sua utilização sob pastejo. Em geral, forrageiras com essas
características são de maior potencial produtivo e perdem mais rapidamente o seu
valor nutritivo com o tempo de crescimento (Figura 4). Como exemplo, tem-se o
capim-elefante, espécie mais propensa aos erros de manejo, razão pela qual seu uso é
restrito, geralmente, à formação de capineiras e sua utilização sob pastejo gerou
muitos insucessos. Outro exemplo é o capim-tobiatã, uma cultivar de Panicum
maximum de porte alto, com intensa diferenciação morfológica durante seu
crescimento e, por conseguinte, muito exigente em manejo.
As forrageiras de porte mais baixo permitem maior flexibilidade de manejo do
pastejo, sendo mais tolerantes a erros na sua utilização e, portanto, de uso mais fácil
e generalizado. Normalmente, estas forrageiras também possuem menor potencial
produtivo e perdem mais lentamente o seu valor nutritivo durante o período de
crescimento quando comparadas àquelas forrageiras de porte mais alto (Figura 4).
Como exemplo, pode-se citar a B. decumbens, uma espécie presente em grandes
áreas de pastagens no Brasil e manejada sob distintas formas, como em lotação
contínua, intermitente, no diferimento de pastagem, etc, demonstrando a sua
flexibilidade e facilidade de manejo do pastejo.
Figura 4 - Representação esquemática das relações entre aspectos produtivos,
qualitativos e de manejo do pastejo e a altura da planta forrageira.
Atualmente, estudos de estratégias de manejo do pastejo para gramíneas
utilizadas no Brasil, tem sido intensificado, razão do reconhecimento de que a etapa
de utilização da forragem produzida é a que possui maior potencial para alterar a
eficiência do sistema de exploração em pastagem e, portanto, constitui o ponto de
partida para qualquer intervenção no sistema produtivo (Da Silva & Corsi, 2003).
Nesses estudos, têm-se contemplado aspectos relacionados à morfologia, fisiologia e
ecologia da planta forrageira para que, com base nestes, possa se fazer
recomendações de manejo mais racionais e eficientes.
Em lotação intermitente, por exemplo, têm-se recomendado a entrada e a saída
dos animais dos piquetes com base na altura do pasto. A altura do pasto preconizada
na condição de pré-pastejo é aquela em que o dossel intercepta 95% da luz incidente
(Da Silva, 2004). Nessa condição, em pastagens bem estabelecidas e com adequada
cobertura do solo, tem se mostrado, de forma consistente para todas as gramíneas
forrageiras tropicais estudadas, ser possível colher mais forragem de melhor
composição morfológica e valor nutritivo, com menos perdas durante o pastejo
(Carnevalli, 2003; Barbosa, 2004; Pedreira, 2006; Voltolini, 2006; Souza Júnior,
2007).
Com base nesses resultados, tem sido possível relacionar a altura do pasto de
algumas gramíneas tropicais com o momento em que o mesmo intercepta 95 % da
luz incidente (Tabela 2). Contudo, ainda há poucas informações e estudos sobre estes
referenciais de manejo do pastejo para o grande número de gramíneas tropicais
manejados em lotação intermitente. Nesse sentido, uma forma de obter referenciais
de manejo do pastejo mais coerentes para gramíneas que não foram devidamente
avaliadaspela ciência seria basear na comparação morfológica destas gramíneas com
aquelas que já foram estudadas. Nesta comparação, aspectos relacionados à altura da
planta e à arquitetura foliar (tamanho, número, forma e ângulo foliar) seriam
relevantes.
Tabela 2 – Altura do pasto na condição de pré-pastejo associada à interceptação
luminosa de 95% pelo dossel de gramíneas forrageiras tropicais
Gramínea Altura do pasto (cm) Fonte
Capim-mombaça 90 Carnevalli (2003)
Capim-tanzânia 70 Barbosa (2004)
Capim-marandu 25 Zeferino (2006)
Capim-xaraés 30 Pedreira (2006)
Capim-cameroon 100 Voltolini (2006)
Como cada forrageira possui características morfológicas específicas, as
estratégias de manejo devem variar em função da espécie em questão. A comparação
entre a morfologia do colmo entre gramíneas, por si só, permite inferências sobre o
objetivo com o manejo do pastejo das espécies. Gramíneas de colmo mais
desenvolvido e lignificado, como o capim-elefante e algumas cultivares de P.
maximum, são mais adequadamente manejadas sob lotação intermitente, pelo fato
deste método de pastejo permitir um maior rigor no controle da intensidade e
freqüência do pastejo, quanto comparado ao método de pastejo em lotação contínua.
O controle do desenvolvimento do colmo é importante, pois este componente
morfológico tem influencia negativa no comportamento ingestivo e consumo animal
e também possui pior valor nutritivo do que as folhas. Já em gramíneas de colmos
mais tenros, como as cultivares de Cynodon, o objetivo com o manejo do pastejo
pode ser outro em função do efeito menos acentuado do colmo destas forrageiras
sobre o consumo e desempenho animal.
O conhecimento das características morfológicas das forrageiras é de suma
importância para o desenvolvimento de estratégias de manejo do pastejo mais
eficientes. A morfologia da planta, unicamente, consiste em indicativo da forma
como a mesma deve ser utilizada sob pastejo. Portanto, as associações entre algumas
características morfológicas da planta forrageira, especialmente a sua altura, e os
seus aspectos produtivos, qualitativos e de manejo são importantes para auxiliar na
definição de referenciais de manejo do pastejo mais adequados, principalmente
quando estes referenciais, até então, não foram gerados de forma objetiva pela
pesquisa. Assim, para que a exploração da pecuária seja produtiva, rentável e
sustentável, o tipo de forrageira deve ser adequado, dentre outros fatores, ao(s)
objetivo(s) que se pretende com o sistema de produção, às características dos animais
que a utilizarão e às estratégias de manejo do pastejo adotadas. Essa adequação
apenas será possível pelo conhecimento detalhado das características das forrageiras
com potencial de utilização em nossas condições.
Com relação à busca e, ou procura da chamada “forrageira milagrosa”, duas
considerações são possíveis. Primeiramente, pode-se assumir que a “forrageira
milagrosa” não existe e nem existirá, porque parece ser incompatível,
biologicamente, a reunião de todas as características desejáveis em uma única
espécie e, ou cultivar de planta. Essa tem sido a opinião mais difundida e aceita pelos
técnicos e pesquisadores que trabalham na área de forragicultura e pastagens. Por
outro lado, uma proposição diferente pode ser assumida: existem diversas
“forrageiras milagrosas”, cada qual apropriada aos distintos ambientes de produção.
A forrageira mais adequada às condições e aos objetivos do sistema de produção
consiste na “forrageira milagrosa”. Nessa perspectiva, provavelmente, as “forrageiras
milagrosas” já existem e estão à disposição dos pecuaristas, porém a falta de
conhecimento sobre as diversas características inerentes a cada forrageira impede a
sua escolha e o seu uso.
Por isto, neste capítulo, procurou-se enfatizar a importância do conhecimento
das características das plantas forrageiras, as quais serão descritas detalhadamente
para um grande número de espécies e, ou cultivares de forrageiras nos demais
capítulos. Na verdade, a busca por estes conhecimentos deveria consistir numa das
primeiras ações de manejo da pastagem a ser praticada pelo manejador a fim de
garantir sua produtividade e sustentabilidade.
9 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CAPÍTULO 2
Gênero Brachiaria
Cacilda Borges do Valle
Manuel Cláudio Motta Macedo
Valéria Pacheco Batista Euclides
Liana Jank
Rosangela Maria Simeão Resende
1 - INTRODUÇÃO - HISTÓRICO
O gênero Brachiaria foi primeiramente descrito por Trinius (1834) como
uma subdivisão de Panicum e depois elevado a gênero por Grisebach (1853). A
taxonomia do gênero é até hoje controversa devido a ampla e contínua variação em
características diferenciadoras utilizadas para delimitar espécies do gênero e mesmo
entre gêneros afins como Urochloa, Eriochloa e Panicum.
Brachiaria inclui cerca de 100 espécies, de origem principalmente tropical e
subtropical africana. Sete dessas espécies - B. arrecta, B. brizantha, B. decumbens,
B. dictyoneura, B. humidicola, B. mutica e B. ruziziensis - são muito utilizadas como
plantas forrageiras na América Tropical (Keller-Grein et al., 1996). Umas poucas
espécies africanas como, B. plantaginea e provavelmente B. mutica, foram
introduzidas durante o período colonial, como cama para os escravos em navios
negreiros (Parsons, 1972; Sendulsky, 1978).
A B. decumbens foi introduzida oficialmente no Brasil em 1952, no Instituto
de Pesquisa Agropecuária do Norte (IPEAN), em Belém (Serrão e Simão Neto,
1971) com o nome de B. brizantha. A partir de 1965, ocorreram novas introduções
dessa B. decumbens, que ficou conhecida como cv. IPEAN, juntamente com as
primeiras introduções de B. brizantha e B. ruziziensis. Houve distribuição e
multiplicação desta forrageira por estolões para outros estados brasileiros, uma vez
que a produção de sementes na região Norte era reduzida (Pizarro et al., 1996). Um
outro ecotipo de B. decumbens, originário de Uganda, mas levado para a Austrália
em 1930 e lá registrado como cv. Basilisk (Mackay, 1982), foi introduzido pelo
Instituto de Pesquisas Internacionais (IRI) em Matão, São Paulo no início da década
de 1960. Entre 1968 e 1972 houve intensa importação de sementes da Austrália dessa
cultivar, estimulada por programas governamentais de incentivo a formação de
pastagens. Estabeleceu-se assim um extenso monocultivo nos cerrados brasileiros. A
boa adaptação aos solos ácidos e pobres, fácil multiplicação por sementes, associada
à grande vantagem competitiva com invasoras e bom desempenho animal comparada
às pastagens nativas, explicam a rápida expansão desta braquiária nos trópicos.
Com o monocultivo de milhões de hectares de B. decumbens, uma cultivar
rústica e apomítica (o embrião é clonal, i.e., uma cópia exata da planta-mãe),
começaram a aparecer problemas como a cigarrinha-das-pastagens, que dizimou
essas pastagens na Amazônia; a fotossensibilização, especialmente em bezerros
desmamados em pasto de capim-braquiária; e extensas áreas de pastagens
degradadas, associadas ao manejo indevido (superpastejo, não realização de
adubações de manutenção ou subsolagem). Neste contexto, a liberação da B.
brizantha cv. Marandu em 1984 (Nunes et al., 1984), resistente às cigarrinhas,
promoveu gradual substituição das áreas de B. decumbens, e por sua vez constituiu
novo monocultivo a partir de meados da década de 1980 e que perdura até hoje.
Segundo um estudo realizado pela Scot Consultoria relatado pelo Jornal dos
Criadores (Anônimo, 2004), em 2003 havia 174 milhões de hectares de pastagens
cultivadas no Brasil, dos quais cerca de 100 milhões em áreas de cerrados. As poucas
cultivares comerciais disponíveis de braquiária respondem por 85% das sementes de
forrageiras comercializadas anualmente no Brasil Central (Macedo, 2006) e por isso
geram grande vulnerabilidade nos mais de 50 milhões de hectares cultivados com
essas variedades.
A capacidade de suporte das pastagens nos Cerrados foi praticamente
triplicada com a introdução da braquiária: se as pastagens nativas eram utilizadas na
base de 3 a 4 hectares por cabeça, e pastagens de capins Gordura ou Jaraguá nos
cerrados com 0,3 a 0,6 cabeças por hectare, as braquiárias suportam em média 1 a 1,5
cabeça por hectare durante o ano. Fala-se mesmo que a braquiária foi um "divisor de
águas" no Brasil central pecuário: pecuária antes e após sua utilização.
O pequeno número de cultivares disponíveis e a baixa diversidade genética
dessas cultivares em uso representam um grande risco a esse patrimônio. Daí a
grande demanda e urgência em desenvolver e selecionar novos genótipos visando a
diversificação das áreas de pastagens nos trópicos.
Fontes de informações específicas e importantes sobre o gênero Brachiaria
estão publicadas nos Anais do 11o Simpósio sobre Manejo da Pastagem (Peixoto et
al., (eds.), 1994); no livro: "Brachiaria: Biology, Agronomy, and Improvement"
(Miles et al., 1996); no capítulo sobre Brachiaria em “Recursos Genéticos &
Melhoramento - Plantas (Pereira et al., 2001); no capítulo “Brachiariagrasses” em
“Warm-Season (C4) Grasses” (Miles et al., 2004), e no capítulo“Breeding of
apomictic grasses” (Valle e Miles, 2001), em “The flowering of apomixis: from
mechanisms to genetic engineering” (CIMMYT; IRD; Commission European
(Org.)). Informações sobre forrageiras tropicais com fotos e características
agronômicas podem ser consultadas on line em www.tropicalforages.info.
Informações mais antigas foram publicadas nos “Encontro para discussão sobre
capins do gênero Brachiaria” (Encontro ..., 1986 e 1991).
Para facilidade de abordagem, os itens origem e caracterização botânica serão
apresentados a seguir para o conjunto de espécies do gênero seguidos de descrições e
ilustrações específicas de cada cultivar.
2 - ORIGEM, DISTRIBUIÇÃO E ADAPTAÇÃO
Espécies do gênero Brachiaria ocorrem nas regiões tropicais e subtropicais
de ambos os hemisférios. Já o centro de origem das principais espécies de valor
agronômico concentra-se na África Oriental (Figura 1).
A adaptação dessas espécies é ampla, abrangendo várzeas inundáveis,
margens de florestas pouco densas e até regiões semi-desérticas, mas a ocorrência
mais comum é em vegetação de savana. Keller-Grein et al., (1996) compilaram a
distribuição geográfica, climática e edáfica apresentadas no Quadro 1. Segundo
Bogdan (1977), há espécies reconhecidamente adaptadas a solos de baixa fertilidade
e mal drenados.
Dentre as espécies de maior utilização como forrageiras, a B. brizantha é sem
dúvida mais amplamente distribuída, ocorrendo em campos limpos ou com arbustos,
e margem de matas. Segundo Boonman (1993), espécies de Brachiaria são
componentes comuns e de grande valor na vegetação natural do Leste Africano.
Porém, pastagens cultivadas são, essencialmente, inexistentes nos sistemas de
produção animal da África. Fora do continente africano, no entanto, B. brizantha é a
forrageira tropical de maior utilização para produção animal em termos de área
cultivada (Miles e Valle, 1996), totalizando, só nos cerrados brasileiros, cerca de
quarenta milhões de hectares (Jank et al., 2005).
Figura 1 – Mapa da África mostrando região de origem das espécies de Brachiaria de maior
importância agronômica (Linha vermelha). No mapa, cor laranja = desertos;
verde escuro = floresta tropical; verdes claros = savanas de gramíneas e arbustos
(Fonte: http://fathom.lib.uchicago.edu/1/777777122619/3604_africaveg.html ).
Há espécimes em herbário e, ou, acessos nas coleções provenientes da
Etiópia, Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue, Malawi,
Swazilândia e Norte da África do Sul. Aparece ainda nos países do Golfo da Guiné,
como Nigéria - onde foi amplamente coletada - e em Camarões (mapa 1 em Keller-
Grein et al., 1996). Segundo este autor, citando S. A. Renvoize, especialista em
Brachiaria do “Royal Botanical Garden” em Kew, na Inglaterra, há locais de origem
desta espécie que nunca foram coletados na África Ocidental, e no sul da África
Tropical, especialmente Zaire e Zâmbia. A excelente base de dados “Tropical
Forages” (2005) (www.tropicalforages.info) cita B. brizantha como nativa de
Botswana, Camarões, Costa do Marfim, Etiópia, Ghana, Guiné, Quênia, Malawi,
Moçambique, Namibia, Nigéria, Serra Leoa, África do Sul, Tanzânia, Uganda, Zaire,
Zâmbia, Zimbábue e todo o Sub-Saara Africano de 25ºS até 12ºN, e de 100 a 2.300
metros sobre o nível do mar. Depois de sua introdução em outros países tornou-se
naturalizada em todo o trópico úmido e sub-úmido.
Quadro 1 – Características geográficas, climáticas e edáficas de sítios de coleta de
cinco espécies mais importantes de Brachiaria
Espécie Latitude Altitude
(m)
Precipitação
anual (mm)
Meses
sem chuva
(nº)
pH do
solo
B. brizantha 25º05´S-12°36N 80-2310 590-2770 0-7 4,0-8,0
B. decumbens 4°21´S-1°09´N 840-2290 870-1900 0-5 4,9-7,0
B. dictyoneura 25°23´S-5°58´N 200-2000 680-1320 2-8 5,5-7,0
B. humidicola 20°17´S-11°21´N 560-2375 600-2800 2-7 4,0-7,0
B. ruziziensis 4°05´S-2°54´S 590-1940 890-1710 3-4 5,0-6,8
Fonte: Adaptado de Keller-Grein et al., (1996).
A segunda espécie em abrangência de distribuição é B. humidicola,
encontrada na Etiópia, Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia, Zâmbia,
Zimbábue, Malawi, e Swazilândia, mas pouco coletada na Nigéria, Sudão e África
do Sul onde é comum (mapa 4 em Keller-Grein et al., 1996). Ocorre normalmente
nos locais mais úmidos ou de drenagem deficiente, ou com inundação sazonal.
Segundo “Tropical Forages” (2005), B. humidicola é nativa desde o Sul do Sudão e
Etiópia até o Norte da África do Sul e Namíbia. Hoje cultivada nos países de clima
tropical úmido da América Latina, ilhas do Pacífico e Sudeste Asiático, bem como
nas regiões costeiras do Norte da Austrália.
B. decumbens e B. ruziziensis apresentam distribuição muito mais restrita que
as primeiras, tendo sido coletadas no Oeste do Quênia, Ruanda e Burundi. Faltam
exemplares de Uganda, local de origem da cv. Basilisk, além da Tanzânia e Zaire nas
coleções mundiais de braquiária. Estas espécies ocorrem em campos e margens de
matas caducifólias. B. ruziziensis é mais exigente em fertilidade e ocorre em áreas de
campos e áreas antropisadas.
B. decumbens foi coletada em pradarias do planalto de “Great Lakes” em
Uganda. Foi introduzida na Austrália em 1930 e selecionada pela alta produtividade
em testes em “South Johnstone” entre 1956 e 1966. Segundo o banco de dados
“Tropical Forages” (2005) (www.tropicalforages.info) é nativa da África Central e
Oriental entre 500 e 2.300 m de altitude. Hoje é cultivada por toda a América
Tropical, Sudeste Asiático e Pacífico. A cultivar Basilisk continua sendo a gramínea
mais utilizada na América do Sul.
A B. dictyoneura também está restrita a países do extremo Leste, como
Tanzânia e Quênia, porém faltam exemplares do Sudão, Uganda, Tanzânia, Zâmbia e
Moçambique nas coleções mundiais de braquiária. Esta espécie está pouco
representada nas coleções de germoplasma e mereceria maior atenção dos programas
de seleção e melhoramento pelo potencial forrageiro que exibe.
Outras duas forrageiras de uso mais restrito e específico, B. mutica e B.
arrecta são originárias do Oeste Africano e são forrageiras de grande aceitabilidade
pelos animais e extremamente bem adaptadas a solos alagados e férteis,
características essas de grande interesse aos programas de melhoramento de
forrageiras. Por não haver diversidade genética disponível não possuem cultivares
desenvolvidas e a baixa produção de sementes limita sua ampla utilização. Estas duas
espécies não serão discutidas neste capítulo devido à menor importância frente às
demais.
3 - CLASSIFICAÇÃO BOTÂNICA
Brachiaria, pertence a um grupo de gêneros com limites ainda indefinidos
incluindo Urochloa, Eriochloa e Panicum. As principais características que
identificam o gênero, dentro da tribo Paniceae, são as espiguetas ovais a oblongas,
arranjadas em racemos unilaterais, com a gluma inferior adjacente à ráquis, i.e., em
posição adaxial (Royal Botanical Gardens, não publicado, citado por Renvoize et al.
(1996) (Figura 2).
Gramíneas do gênero Brachiaria realizam fotossíntese do tipo C4 pelo ciclo
PEP-CK (Fosfoenolpiruvato carboxilase), característica esta particular a um pequeno
grupo de gêneros, que incluem Urochola e Panicum (Clayton e Renvoize, 1986).
Renvoize et al. (1996) realizaram uma revisão taxonômica envolvendo 97
espécies distribuídas por todo o táxon e identificaram nove grupos, considerando a
associação de características morfológicas mais significativas. Estes autores
descreveram cada um dos grupos e as espécies que os compõe, subdivididas por
continente de origem. As espécies de maior importância agronômica para o Brasil
estão em dois grupos, sendo o primeiro constituído por B. decumbens, B. brizantha e
B. ruziziensis, espécies próximas e passíveis de cruzamento. AB. humidicola situou-
se em outro grupo que inclui B. dictyoneura e B. jubata, com características
morfológicas semelhantes. Estes autores discutiram ainda, os argumentos
apresentados por Webster (1987) e Morrone e Zuloaga (1992) para reclassificar
Brachiaria como Urochloa.
Figura 2 - Inflorescências das principais espécies forrageiras de Brachiaria: A) B.
brizantha com espiguetas unisseriadas; B) B. decumbens com espiguetas
bisseriadas; C) B. humidicola com espiguetas alternas; D) B. ruziziensis
com espiguetas bisseriadas e densamente pilosas; E) rácemos de B.
humidicola cv. Tupi (esquerda) com pêlos longos e claros e comum
(direita) glabra; F) B. dictyoneura típica, com espiguetas bisseriadas em
rácemos curto e numerosos.
A B C D
E F
Estes gêneros sempre foram diferenciados pela posição reversa (adaxial) da
espigueta em Brachiaria, porém quando estas são pediceladas ou bisseriadas como
em algumas espécies de Urochloa, não é tão fácil reconhecer este posicionamento.
Assim, Webster (1987) considerou a espécie-tipo, B. eruciformis, e usou a
desarticulação do flósculo superior acima das glumas, separando-o do restante da
espigueta, como o argumento para colocar todas as outras espécies de Brachiaria que
desarticulam abaixo da gluma inferior como Urochloa. Além disso considerou a
presença de mucro (protuberância) na espigueta superior, que ocorre na espécie tipo
de Urochloa e em algumas poucas espécies de menor relevância de Brachiaria,
como argumento para reunir estes gêneros. Morrone e Zuloaga (1992) seguiram a
orientação de Webster, e passaram todas as espécies sul-americanas de Brachiaria a
Urochloa, mesmo quando as espécies de maior expressão não exibem o mucro.
Recentemente, Torres-Gonzalez e Morton (2005) realizaram um estudo filogenético
com base em polimorfismo de seqüências básicas de nucleotídeos na região
espaçadora interna transcrita de RNA nuclear ribossomal mas não lograram separar
Brachiaria de Urochloa. A análise cladística sugeriu que esses dois gêneros formam
um complexo parafilético com Eriochloa e Melinis e concluíram que espécies de
todos esses gêneros pertencem aos mesmos grupos monofiléticos.
Morrone e Zuloaga (1992) consideraram a importância comercial de P.
maximum e a necessidade de mais evidências, para não reclassificá-lo, mas não
usaram o mesmo argumento para Brachiaria – de volume e área de pastagem bem
mais expressiva e transferiram a maioria das espécies para Urochloa. Em resumo,
todos esses relatos sugerem a necessidade de novos estudos sistemáticos a fim de
elucidar a relação e os limites entre estes gêneros, já que a taxonomia atual não
oferece uma solução satisfatória para o problema de identidade genérica e das
espécies componentes.
Veldkamp (1996), S. Renvoize (comunicação pessoal, 2006) e J. F. M. Valls
(comunicação pessoal, 2006) sugerem que o uso corrente do nome genérico
Brachiaria seja conservado, pois as evidências até aqui apresentadas para transferir
algumas espécies de Brachiaria para outros gêneros não são conclusivas. No
interesse da comunidade diretamente envolvida com forrageiras e pelas implicações
sobre toda uma legislação de sementes a ser afetada por tais mudanças, há consenso
em aguardar mais dados, quem sabe até com auxílio da biotecnologia e citogenética,
antes de precipitadamente transferir espécies ou criar novos gêneros.
4 - CULTIVARES DE Brachiaria
4.1- B. brizantha cv. Marandu
4.1.1 - Origem
O capim-marandu (IRI 822; BRA000591 (registro no SCPA- Sistema
Cooperativo de Pesquisa Agropecuária); CIAT 6294; CPI 81408; ILCA 16550)
também conhecido como braquiarão ou brizantão descende diretamente de acesso
introduzido em 1967 na região de Ibirarema no estado de São Paulo, proveniente da
Estação Experimental de Pastagens em Marandellas, hoje Marondera, da antiga
Rodésia, hoje Zimbábue (Nunes et al., 1984). Em 1976 esse acesso passou a
integrar a coleção de forrageiras do Instituto de Pesquisas IRI em Matão, SP que em
1978 o repassou ao Centro de Pesquisas Agropecuárias dos Cerrado – Embrapa
Cerrados – em Planaltina, DF e ao Centro Nacional de Pesquisas de Gado de Corte
– Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, MS. Nestes centros recebeu
respectivamente os registros CPAC 3099 e G-127/78. Nesta mesma época foi
enviada ainda ao Centro de Pesquisas do Tropico Úmido – Embrapa Amazônia
Oriental (CPATU 20) e ao Centro Internacional de Agricultura Tropical sob o
código BRA000591. Esse acesso foi novamente introduzido em coleções sob
números distintos (CPAC 3132 e CNPGC 142/80) e no CIAT sob três registros:
CIAT 6294 = IRI 822, CIAT 6297 = G 127/78 e 6378 = CPATU 78071 (J. F.
M.Valls – documento preparado para o lançamento da cv. Marandu, 1983). A
cultivar foi lançada no Brasil em 1984, pela Embrapa Gado de Corte e Embrapa
Cerrados, e segundo Macedo (2006) responde por cerca de 80% das pastagens em
alguns estados da região norte como Acre, Rondônia e Pará, e por cerca de 50% das
pastagens cultivadas no Brasil.
4.1.2 - Caracterização morfológica
Planta cespitosa, muito robusta, de 1,5 a 2,5 m de altura, com colmos
iniciais prostrados, mas produzindo perfilhos que surgem cada vez mais eretos ao
longo do crescimento da touceira (Figura 3). Rizomas muito curtos e encurvados,
cobertos por catáfilos. Colmos floríferos eretos, freqüentemente com perfilhamento
nos nós superiores. Nós salientes, de cor verde-amarelada, glabrescentes. Bainhas
pilosas, densamente pilosas na base e com cílios nas margens, geralmente mais
longas que os entrenós, escondendo os nós. Lígulas inicialmente membranosas e
ciliadas da metade para cima. Lâminas linear-lanceoladas, com ápice agudo,
arredondadas e carenadas na base, até 2 cm de largura e 50 cm de comprimento,
esparsamente pubescentes na face ventral e glabras na face dorsal, com margens
levemente engrossadas e pouco ásperas, numerosas nervuras finas bem definidas e
nervura central muito evidente. Inflorescência com até 40 cm de comprimento, com
4 a 6 ramos, mas de apenas 1 ou 2 ramos nas inflorescências surgidas de perfilhos
emergentes dos nós superiores dos colmos floríferos. Eixo da inflorescência
pubescente, com pêlos mais longos abaixo dos pontos de inserção dos ramos. Ao
longo do eixo os ramos são eqüidistantes, sésseis, secundifloros, retos e firmes,
passando a encurvados por ocasião da maturação e queda das espiguetas, de 7 a 10
cm de comprimento, e até 20 cm em plantas muito vigorosas. Raque dos ramos
estreita, em torno de 1 mm de largura, côncava, verde, passando a estramínea
(amarelada) na maturidade, papiloso-ciliada nas margens. Espiguetas oblongas a
elíptico-oblongas, obtusas ou sub agudas, túrgidas, com 5 a 5,5 mm de
comprimento por 2 a 2,5 mm de largura, esparsamente pilosas no ápice. Primeira
gluma envolvendo a base da espigueta e alcançando quase a metade do seu
comprimento. 13-nervada, glabra, em geral com as extremidades das nervuras
anastomosadas. Segunda gluma um pouco mais curta que o lema estéril,
esparsamente pilosa no terço apical, 7-nervada, arroxeada, junto ao ápice. Flósculo
basal com flor masculina, com três anteras alaranjadas bem desenvolvidas. Flósculo
apical com flor hermafrodita, elíptico-oblongo, verde pálido passando a estramíneo.
Anteras alaranjadas e estigmas roxos. Cariopse elíptico-oblonga, comprimida
dorsiventralmente, com embrião ocupando dois terços de seu comprimento. O
florescimento é intenso e concentrado no final do verão (fevereiro-março).
Características diferenciadoras: plantas robustas com tendência ao intenso
perfilhamento nos nós superiores dos colmos floríferos; presença de pêlos na
porção apical dos entrenós, bainhas pilosas e lâminas largas e longas com
pubescência apenas na face ventral, glabras na face dorsal e com margens não
cortantes; raque sem pigmentaçãoarroxeadas e espiguetas ciliadas no ápice. (Valls,
J. F. M. e Sendulski, T. – documento para lançamento, 1983).
Figura 3 - B. brizantha cv. Marandu em franco florescimento; detalhe das espiguetas
e cariopses com glumas e deglumadas.
4.2 - B. brizantha cv. La Libertad
4.2.1 - Origem
A cultivar La Libertad (CIAT 26646, MG-4) é derivada de um ecótipo de
origem desconhecida da África Tropical e foi introduzido na Colômbia em 1955
procedente de Trinidad pelo então Instituto Colombiano Agropecuário (ICA) hoje
CORPOICA (Cuesta Muñoz e Pérez Bonna, 1987). Já em 1966 este acesso foi
selecionado por sua adaptação e boa produtividade em dois centros experimentais
(ICA Palmira e ICA La Libertad). Nesta mesma época B. brizantha e B. decumbens
se destacaram pela adaptação, precocidade, cobertura do solo, produção de forragem
e resistência à seca em ensaios conduzidos na Estação Experimental Llano Grande e
partir de 1970 foram intensificadas as avaliações em diferentes localidades dos
Piedmontes Llanero e Amazônico, visando o lançamento da cv. La Libertad, que
ocorreu em 1987 na Colômbia. Não houve grande expansão na época devido à falta
de promoção e pela baixa produção de sementes. O capim-la libertad ganhou maior
espaço quando começou a ser multiplicado no Brasil e liberada com o nome de
“MG-4”, conquistando um sucesso moderado na última década.
4.2.2 - Caracterização morfológica
Gramínea cespitosa de touceira vigorosa, com altura entre 0,8 e 1,5 m, com
rizomas horizontais curtos, duros e curvos, cobertos por escamas glabras, de cor
amarelada ou roxa (Figura 4). Os colmos são vigorosos, eretos ou semi-eretos, com
escassa ramificação e de cor verde intenso. Os nós são proeminentes, glabros, de cor
verde ou amarelo claro, e pouco radicantes. A bainha das folhas são glabras, mais
curtas que os entrenós, de cor verde intenso e arroxeadas na base. A lígula apresenta
um bordo ciliado de cor branca, e de aproximadamente 2 mm de altura. As folhas são
linear-lanceoladas, arredondadas na base e em forma de quilha na extremidade
superior, de 16 a 40 cm de comprimento e 10 a 20 mm de largura, cor verde intensa a
clara, glabras com margens denteadas, mais áspera de um lado do que do outro. As
nervuras são numerosas e finas, e a nervura central é de cor clara. Os entrenós são
planos, de cor verde intenso e roxos no ápice. A inflorescência é uma panícula
racemosa de 10 a 20 cm de comprimento, com 2 a 8 racemos unilaterais, retos, em
forma de racemo. Os ramos laterais são de 3 a 10 cm de comprimento. A raque é
estriada, de cor roxa e verde, com cílios laterais de 2 a 4 mm de comprimento.
Espiguetas oblongas a elíptico-oblongas com aproximadamente 6 mm de
comprimento e 2 a 2,5 mm de largura, de cor roxa no ápice e pilosidade branca no
ápice (Cuesta Muñuz e Pérez Bonna, 1987). O florescimento ocorre no verão
(fevereiro a março). Algumas características dessa cultivar a diferenciam da cv.
Marandu, como ausência de pelos na porção apical dos entrenós, as bainhas glabras
com margens denticuladas e a raque estriada de cor arroxeada e verde.
Figura 4 - B. brizantha cv. La libertad. Detalhe mostra espiguetas e cariopses com
glumas e deglumadas.
4.3 - B. brizantha cv. Xaraés
4.3.1 - Origem
O capim-xaraés (CIAT 26110, BRA004308) deriva de acesso coletado na
região de Cibitoke, no Burundi, África, entre 1984 e 1985. O acesso original foi
importado pelo CIAT na Colômbia, entre 1985 e 1986 junto com uma grande
coleção de ecótipos, na forma de plântulas por cultivo de meristemas, com vistas a
evitar a entrada de patógenos africanos. No Brasil, o acesso foi recebido novamente
como plântulas em tubos de ensaio, juntamente com uma grande coleção de
genótipos, conforme acordo firmado entre Embrapa e CIAT. A quarentena foi
realizada na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (CENARGEN) onde
recebeu o código BRA 004308 e códigos de campo B178 (Embrapa Gado de Corte)
e CPAC 3555 (Embrapa Cerrados). Introduzido pela Embrapa em 1986, chegou a
Embrapa Gado de Corte em 1987, e foi avaliado pelos pesquisadores de
forragicultura e pastagem em Campo Grande e da Embrapa Cerrados por mais de 10
anos. Foi registrado no Serviço Nacional de Proteção de Cultivares do Ministério de
Agricultura Pecuária e Abastecimento (http://www.agricultura.gov.br/snpc) e
lançado comercialmente em 2003 sob o nome de origem tupi-guarani cv. Xaraés em
homenagem ao conjunto formado por ecossistemas pantaneiros do Mato Grosso do
Sul e Mato Grosso e os povos que o habitavam (Valle et al., 2004a). No Brasil, há
dois outros registros de cultivares semelhantes, feitos for firmas particulares, sob
nomes de “MG-5 Vitória” e cv. Toledo, mas a Embrapa garante a identidade e
origem e mantém sementes genéticas apenas da cv. Xaraés.
4.3.2 - Caracterização morfológica
O capim-xaraés é uma planta cespitosa podendo enraizar nos nós basais;
altura média de 1,5 m; colmos verdes de 6 mm de diâmetro, pouco ramificados;
brácteas arroxeadas na brotação basal. Bainhas com pêlos claros, rijos, ralos, densos
apenas nas bordas; lâmina com até 64 cm de comprimento e 3 cm de largura, com
pilosidade curta na face superior, bordos hialinos ou arroxeados, ásperos (cortantes).
Inflorescência racemosa, com 40 a 50 cm de comprimento e eixo de 14 cm de
comprimento, com 7 ramos (racemos) quase horizontais, com pêlos junto às
ramificações; ramo basal de 12 cm de comprimento. Espiguetas unisseriadas em
número médio de 44, com pêlos longos, claros, translúcidos na parte apical,
arroxeadas no ápice (Figura 5). O florescimento é tardio, ocorrendo em meados do
outono (maio).
Figura 5 - B. brizantha cv. Xaraés: inflorescências, área de pastagem e detalhe das
espiguetas e cariopses com glumas e deglumadas.
4.4 - B. brizantha cv. Piatã
4.4.1- Origem
O capim-piatã deriva de uma planta coletada na região de Welega na Etiópia
em colaboração com o International Livestock Center for Africa”- ILCA (número de
registro no ILCA-13372). O acesso foi recebido juntamente com uma grande coleção
de genótipos, importada do CIAT (Cali, Colômbia) sob número CIAT 16125,
conforme acordo firmado com a Embrapa. A quarentena foi realizada na Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia, onde recebeu o código BRA002844 (registro no
SCPA) e códigos de campo GC930/87 - B112 (Embrapa Gado de Corte) e CPAC
3341 (Embrapa Cerrados). Este ecótipo vem sendo avaliado nestes dois centros
desde 1988, em rede nacional de ensaios, e sob pastejo em dois locais distintos desde
2001. A liberação desta cultivar ocorreu em 2007.
4.4.2- Caracterização morfológica
O capim-piatã é uma planta cespitosa; altura de 0,85 a 1,1 m; colmos verdes
de 4 mm de diâmetro, ramificados. Bainhas com pêlos claros, pouco densos;
articulação clara; lâmina com até 45 cm de comprimento e 1,8 cm de largura, áspera
na face superior, sem pêlos, bordas hialinas muito ásperos (cortantes). Inflorescência
com eixo de 19 cm de comprimento, com 12 ramos (racemos) quase horizontais, com
pêlos longos claros; ramo basal de 12 cm de comprimento. Espiguetas em número
médio de 48 no racemo basal, sem pêlos, arroxeadas no ápice (Figura 6). O
florescimento é precoce e ocorre no início do verão (janeiro-fevereiro).
Figura 6 - B. brizantha cv. Piatã em franco florescimento; detalhe das espiguetas e
cariopses com glumas e deglumadas.
4.5 - B. decumbens cv. Basilisk
4.5.1 - Origem
A cultivar Basilisk é provavelmente a gramínea mais conhecida e cultivada
em toda a região tropical. É derivada de sementes trazidas de Uganda para a
Austrália, onde recebeu o registro CPI 1694 em 1930 (Keller-Grein et al., 1996).
Inicialmente foi propagada por mudas na Autrália até que se determinouque a
dormência das sementes podia ser quebrada por escarificação com ácido sulfúrico
(Grof, 1968). A partir de então iniciaram-se os cultivos comerciais e a cultivar teve
grande expansão, inclusive no Brasil no final da década de 1960.
Foi aprovada para liberação na Austrália em 1966 e registrada em 1973
(Oram, 1990; Stür et al., 1996). Recebeu registros em várias instituições: CIAT 606;
ILCA 10871; BRA001058; GC 141/79. A primeira introdução oficial dessa
forrageira no Brasil foi no início da década de 1960, em Matão, SP, conforme
relatado na introdução. A grande expansão ocorreu entre 1968 e 1975 com a abertura
dos cerrados subsidiados por programas governamentais de formação de pastagens
como o PROPASTO e o CONDEPE.
4.5.2 - Caracterização morfológica
A cultivar Basilisk é uma planta semi-ereta; altura de 0,3 a 1 m; colmos
geniculados, ramificados, radicantes nos nós. Rizomas pequenos e duros. Colmos
glabros a hirsutos. Nós glabros e escuros. Entrenós inferiores geralmente muito
curtos (1 a 2 cm), angulosos, tornando-se mais compridos em direção ao ápice da
planta. Bainhas estriadas, densamente papilosa-pilosa entre as nervuras, mais longas
que os entrenós, margem superior papilosa-ciliada inferior membranosa; lígula de
bordo densamente ciliado, 1mm de comprimento; lâmina linear lanceolada, de base
arredondada e ponta acuminada, 10 a 25 cm de comprimento, 1,5 cm de largura
papilosa-pilosa nas duas faces. Inflorescência em panícula racemosa com eixo de 4 a
20 cm de comprimento, com 2 a 5 racemos sésseis, eretos e solitários. Raque
principal estriada, finamente denticulada nos ângulos, com pêlos longos dispersos,
mais densos perto dos ramos; eixo principal geralmente terminando em ponta estéril
além da inserção do último ramo. Os ramos com 2 a 12 cm de comprimento,
densamente pilosos na base, raque de 2 mm, plana, papilosa-ciliada nas margens,
hirsuta na face ventral ao longo da inserção das espiguetas e glabra na face dorsal.
Espiguetas bisseriadas, oblongo-elípticas, acuminadas, túrgidas, 4 a 5 mm de
comprimento e 2 mm de largura, esparsamente pilosas no ápice. Primeira gluma
envolvendo a base da espigueta, ovalada, aguda, alcançando mais de um terço do
comprimento da espigueta, 9-11 nervada. Segunda gluma ovalada, pouco mais curta
do que o lema inferior, 7-nervada, glabra a esparsamente pilosa no ápice. Flósculo
inferior masculino com anteras bem desenvolvidas. Flósculo superior hermafrodita
com 4 mm de comprimento e 2 mm de largura, plano-convexo. Lema crustáceo,
ovalado, acuminado, amarelado, finamente estriado. Pálea semelhante em textura e
coloração ao lema, plana, engrossada nos bordos, com margens brilhosas, curvadas,
convexas. Cariopses ovaladas, 3 mm de comprimento e 1,7 mm de largura, pálidas
(Sendulski, 1978) (Figura 7). O florescimento ocorre em dias longos de verão
(janeiro-fevereiro) com maturação e colheita no cacho a partir de fevereiro-março.
Figura 7 - B. decumbens cv. Basilisk em florescimento e detalhe das espiguetas e
cariopses com glumas e deglumadas.
4.6 - B. humidicola cv. Tully ou Comum
4.6.1-Origem
A seleção desta cultivar registrada sob número CPI 16707 foi feita a partir do
germoplasma introduzido na Austrália em 1952 (Oram, 1990 citado por Miles et al.,
2004) proveniente da Estação Experimental Rietondale, em Pretoria África do Sul.
Foi inicialmente avaliada em solos bem drenados e não ofereceu vantagem sobre B.
decumbens cv. Basilisk. Este acesso foi depois enviado a Fiji e Papua Nova Guiné e
acabou sendo re-introduzido na região chamada Tully, no norte de Queensland na
Austrália em 1973. Foi lançada comercialmente na Austrália em 1980 como cv.
Tully e ficou também conhecida como coronivia ou Koronivia. O acesso foi
intercambiado entre diversas instituições de pesquisa no mundo tropical e recebeu
registros em várias instituições: CIAT 679 e 6705; BRA002208. Na Colômbia foi
introduzido em 1973 e avaliado em diferentes ecossistemas (Perez e Lascano, 1992).
No Brasil é conhecida apenas como B. humidicola comum e tem grande utilização
nos solos mal drenados e em várzeas. Substituiu a B. decumbens em grandes áreas na
Amazônia, que desapareceu em conseqüência de severos ataques por cigarrinhas-
das-pastagens na década de 1980.
4.6.2 - Caracterização morfológica
A B. humidicola comum é uma planta perene, com estolões longos, duros,
roxos, fortemente radicantes nos nós e ramificando em novas plantas; rizomas de
dois tipos: curtos, firmes, com catáfilos glabros e coriáceos, e longos, finos e com
nós originando novas plantas. Colmos decumbentes, radicante nos nós, basais e logo
erguidos até 1 m de altura, com nós escuros e glabros; entrenós de 8 a 10 cm de
comprimento, glabros, verde claro, cilíndricos e ocos; bainhas de 5 a 9 cm de
comprimento, estriadas, mais curtas que os entrenós, glabras; lígula densamente
ciliada, 0,5 mm de comprimento; lâminas lineares, semicoriáceas, com ápice
acuminado, 10 a 30 cm de comprimento e 0,5 a 1,0 cm de largura, margens claras,
grossas, as vezes com pêlos denticulados; lâminas dos estolões lanceoladas, 2 a 12
cm de comprimento e 0,8 a 1,2 de largura; inflorescência terminal, racemosa, 8-10
cm de comprimento; eixo estriado, glabro, finamente pubescente na base dos ramos;
a base do último ramo coberta com bráctea curta, grossa, 1 mm de comprimento,
acuminada; 1 a 4 ramos solitários, de 3 a 5 cm de comprimento; raque de menos de 1
mm de largura, finamente denticulada e glabra; espiguetas oblongo-elípticas, 5 mm
de comprimento e 2 mm de largura, bisseriadas e alternas na raque, verde pálido com
manchas arroxeadas; gluma inferior do comprimento da espigueta, oblonga, adaxial,
glabra, 9-11-nervada, ápice obtuso; gluma superior do comprimento da espigueta,
ovada, menos larga que a gluma inferior, 7-9-nervada, membranácea. Flósculo
inferior masculino, com anteras bem desenvolvidas, lema ovóide, semelhante à
gluma superior, pálea hialina, do comprimento da lema e bordos rijos. Flósculo
superior hermafrodita, com 3,5 mm de comprimento e 2 mm de largura, plano-
convexo, rugoso. Lema crustáceo, ovalado, acuminado, esbranquiçado, finamente
rugoso. Pálea semelhante em textura e coloração ao lema, dorso plano,
proeminentemente engrossada nas bordas, com bordos involutos, lustrosos, lisos,
curvados, convexos. Cariopses ovóides, 2/3 do comprimento da espigueta, 2 mm de
comprimento e 1,5 mm de largura, pálidas (Figura 8) (Sendulski, 1978; Morrone e
Zuloaga, 1992; Pérez e Lascano, 1992). O florescimento é concentrado e ocorre no
início do verão (dezembro-janeiro).
Figura 8 - B. humidicola cv. Tully ou Comum. Detalhe mostra espiguetas e cariopses
com glumas e deglumadas.
4.7 - B. humidicola cv. Llanero
4.7.1 - Origem
A cultivar Llanero deriva de sementes originalmente coletadas de um ecótipo
na Zâmbia em 1971, levado à Austrália e registrado como CPI 59610 (Keller-Grein
et al., 1996). Foi introduzida na Colômbia pelo CIAT em 1978, recebeu o registro
CIAT 6133, e após múltiplas e extensas avaliações em ensaios regionais foi liberada
como B. dictyoneura cv. Llanero pelo Instituto Colombiano Agropecuário (hoje
CORPOICA) em 1987 (Instituto Colombiano Agropecuário, 1987). Este ecótipo foi
reclassificado como B. humidicola (Renvoize et al., 1996). No Brasil recebeu o
registro BRA001449.
4.7.2 - Caracterização morfológica
Planta perene, estolonífera, de 0,40 a 0,90 cm de altura; estolões longos,
duros, de cor arroxeada, com bainhas das folhas nos estolões mais curtas que os
entrenós e pilosidade curta de cor branca, tanto nas bainhas como nos nós dos
estolões; as lâminas nos estolões são lanceoladas, de 4 a 6 cm de comprimento e 0,8
de largura. Lâminas nos colmos eretos linear-lanceoladas, eretas, glabras, de cor
arroxeada e umdos bordos denticulado, 20 a 40 cm de comprimento e 8 mm de
largura. As nervuras são numerosas e finas, com nervura central proeminente. Os
colmos e bainhas das folhas são de cor verde com manchas arroxeadas. Os colmos
florais são eretos e lisos, a inflorescência é uma panícula racemosa com 3 a 4
rácemos de 4 a 6 cm de comprimento, com 10 a 22 espiguetas alternadas sobre uma
raque de cor roxo e verde, ciliado e em forma de zig-zag. As espiguetas oblongo-
elípticas, de cor roxo escuro ou verde opaco, 6-7 mm de comprimento e 2,5 mm de
largura. Gluma inferior com nervuras longitudinais paralelas e gluma superior
membranosa e de cor verde claro, com intensa pilosidade, orientada ao ápice (Figura
9) (Instituto Colombiano Agropecuário, 1987). O florescimento ocorre no início do
verão (dezembro-janeiro).
Figura 9 - B. humidicola cv. Llanero. Detalhe mostra espiguetas e cariopses com
glumas e deglumadas.
4.8- B. humidicola cv. Tupi
4.8.1-Origem
O capim-tupi é derivado de plantas coletadas na região de Makamba no
Burundi pelo CIAT em colaboração com o International Livestock Center for
Africa”- ILCA (número de registro no ILCA-13079). A forrageira original foi
recebida juntamente com uma grande coleção de genótipos, importada do CIAT
(Cali, Colômbia) sob número CIAT 26149, conforme acordo firmado com a
Embrapa. A quarentena foi realizada na Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia, onde recebeu o código BRA005118 (registro no SCPA) e códigos de
campo GC 824/87 – H16 (Embrapa Gado de Corte) e CPAC 3341 (Embrapa
Cerrados). Este ecótipo vem sendo avaliado nestes dois centros desde 1988, em rede
nacional de ensaios, e sob pastejo em dois locais distintos desde 2004. O lançamento
desta cultivar está previsto para 2008.
4.8.2 - Caracterização morfológica
A cultivar Tupi é tetraplóide (2n=4x=36 cromossomos) em contraste com a
B. humidicola comum que é hexaplóide (2n=6x=54). O modo de reprodução é por
apomixia com apenas 13% de sexualidade. O capim-tupi é uma planta perene,
estolonífera, altura média de 21 cm, até 100 cm em população densa; estolões
geniculados, com nós castanhos ou arroxeados ou esverdeados, entrenós de 4-15 cm;
subcilíndricos (levemente achatados), com 1-2 mm de diâmetro; colmos ascendentes
verdes, com 2 mm de diâmetro, pouco ramificados; bainha com bordos denso-
pilosos; lígula densamente pilosa, com pêlos claros translúcidos 0,7 mm de
comprimento; lâminas lanceoladas com 14 cm (4 a 16 cm) de comprimento, e 1,0 cm
de largura (média), ou lineares (as verticais) de até 40 cm comprimento e 0,5 a 0,8
cm largura, com ápice agudo enrijecido, glabras em ambas as faces, com fina
rugosidade nas nervuras na face dorsal, bordas hialinas ou arroxeados, geralmente
serrilhados (ásperos do ápice para a base). Inflorescência com eixo de 7,0 a 16 cm de
comprimento, 0,3 a 0,5 mm de diâmetro e secção trianguloso-acanalada, com pêlos
muito curtos claros, com 3 ou 4 ramos, geralmente em posição unilateral, em ângulo
decrescente em direção ao ápice, de 45o a 10o em relação ao eixo, o racemo apical é
quase vertical, no segmento apical semi-arqueado; racemo basal de 5 a 7 cm de
comprimento. Espiguetas em 2 fileiras alternadas unilaterais, em número médio de
17 (11 a 27) no racemo basal, elípticas, com 5 cm de comprimento e 1,8 a 2,0 mm de
diâmetro maior, de cor arroxeado-púrpura (imatura) no 1/3 a 2/3 apical; com tufo de
pêlos de 3 a 5 de mm comprimento, hialinos (claros translúcidos), com base
subtuberculada, ao redor da base da espigueta e atingindo ¾ da mesma, saindo do
pedicelo e da raque; gluma-I glabra, gluma-II e lema-I com densos pêlos hialinos na
faixa marginal. Anteras amarelado-esbranquiçadas em ambos os flósculos, estigmas
arroxeados. A conspícua pilosidade das espiguetas, macia ao tato, e a coloração
amarelada das anteras a distingue facilmente da B. humidicola comum (Figura 10).
Florescimento intenso e concentrado no início do verão.
Figura 10 - B. humidicola cv. Tupi em franco florescimento; detalhe das espiguetas
e cariopses com glumas e deglumadas.
4.9 - B. ruziziensis cv. Kennedy
4.9.1 Origem
Essa forrageira é amplamente cultivada nos países tropicais. A espécie é
indígena do vale Ruzi no Zaire e Burundi e ficou conhecida como ruziziensis, capim-
congo ou capim-ruzi, e em inglês “Congo signalgrass”, “Kennedy ruzigrass” (Maass,
1996). Sementes obtidas do “Institut national pour l’étude agronomique du Congo
Belge” (INEAC) em Rubona, Ruanda, foram multiplicadas na Estação Experimental
Kitale, no Quênia, no início da década de 1960 (Barnard, 1969; Boonman, 1993) e
depois distribuídas a vários locais na África Continental e Madagascar. Essa
forrageira oriunda da estação agronômica de Lac Alastra em Madagascar, em 1961
recebeu na Austrália o registro CPI 30623. Foi liberada na Austrália em 1966 como
“ruzigrass” comum (Barnard, 1969) e ficou conhecida como cv. Kennedy (Skerman
e Riveros, 1990) apesar deste nome não constar no documento de liberação (Keller-
Grein et al., 1996). No Brasil recebeu registro BRA000281 e CIAT 605 na
Colômbia.
4.9.2 - Caracterização morfológica
B. ruziziensis é uma planta perene, 1 m de altura, com rizomas curtos,
robustos, globosos. Colmos geniculados, decumbentes, radicante nos nós inferiores.
Nós comprimidos, de cor escura e glabros. Entrenós de 7-13 cm de comprimento,
glabros a pilosos na porção apical. Lígula densamente ciliada, de 1 mm de altura.
Bainha mais longa que os nós, estriada, densamente papilosa-pubescente. Lâmina
linear-lanceolada, de 10-30 cm de comprimento, 10-15 mm de largura, esparsamente
pilosa a densamente pubescente em ambas as faces de base sub ereta e ápice
largamente atenuado, bordas cartilaginosas, suavemente onduladas, numerosas
nervuras e nervura central evidente. Inflorescência em panícula racemosa, com
ramos bilaterais, terminais, de 15 a 25 cm de comprimento com 3 a 7 (podendo
chegar a 9) ramificações primárias, ascendentes, arqueadas, alternas distantes entre
si, terminando em uma espigueta rudimentar. Eixo da inflorescência anguloso
(triquetrous), densamente piloso entre os ângulos e perto da inserção dos ramos. Os
ramos são de 4-10 cm de comprimento com raque alada, de 5 mm de largura,
envolvendo a base da espigueta, glabra, ocasionalmente com pêlos no dorso, e
densamente papilosa-ciliada nas margens; pelos longos de até 2 mm, brancos e
lustrosos. Espiguetas solitárias, bisseriadas ao longo da raque, oblongas, de ápice
agudo e base atenuada, túrgidas, de 5 mm de comprimento e 2 mm de largura, com
longos pêlos brancos no ápice e nas laterais. Gluma inferior ovalada, adaxial,
subaguda, metade do tamanho da espigueta, glabra, 11-nervada, reticulada. Gluma
superior membranácea, ovalada, ápice agudo, pilosa no ápice e nas laterais, 7-
nervada. Segmento de ráquila alongado entre a gluma inferior e superior. Flósculo
inferior masculino, lema semelhante a gluma superior em forma, tamanho e textura,
pálea hialina, elíptica, do tamanho do lema. Flósculo superior hermafrodita, oblongo,
plano-convexo, 3,6 a 4 mm de comprimento e 1,6 a 1,9 mm de largura, endurecido,
finamente rugoso, lema finamente estriado, convexo, rugoso; pálea semelhante ao
lema em textura e cor, bordos involutos, lisos e lustrosos. Cariopses de contorno
oblongo, 3,5 mm de comprimento e 1,6 mm de largura, embrião ¾ do tamanho da
cariopse (Sendulski, 1978; Morrone e Zuloaga, 1992). Florescimento sincronizado e
concentrado no final do verão (Figura 11).
Figura 11 - B. ruziziensis cv. Kennedy. Detalhe mostra espiguetas e cariopses com
glumas e deglumadas.
5. CARACTERIZAÇÃO CITOGENÉTICA E MODO DE REPRODUÇÃO
O número básico de cromossomos para o gênero foi estabelecido por
Darlington e Wylie (1955) como x = 7 ou 9.Apesar da predominância de plantas
tetraplóides, foi observada uma grande variação no nível de ploidia (penta, hexa e
heptaplóides) entre espécies e entre acessos da mesma espécie (Valle e Savidan,
1996; Mendes-Bonato, 2002). Um novo número básico de cromossomos para o
gênero foi recentemente descrito, x = 6 (Risso-Pascotto et al., 2006) e foi observado
em cinco acessos de B. dictyoneura (2n = 4x = 24 cromossomos) e três de B.
humidicola (2n = 7x = 42 cromossomos - Boldrini et al., 2006; Adamowski et al.,
2007). A poliploidia acarreta alguns problemas comuns na divisão meiótica como a
ocorrência de cromossomos retardatários, assincronia nas divisões intermediárias,
formação de micronúcleos e de políades ao invés de tétrades ao final da divisão.
Essas irregularidades podem afetar, em maior ou menor intensidade, a viabilidade
polínica e a capacidade de formação de sementes. Daí a grande importância dos
estudos de citogenética neste gênero com vistas a identificar potenciais genitores e
antecipar problemas nos híbridos.
Associado à poliploidia, em Brachiaria, observa-se a prevalência da
reprodução assexuada por apomixia – formação da semente sem que ocorra a fusão
de gameta masculino e feminino na constituição do embrião. A seqüência de
eventos na formação do saco embrionário de uma planta - megagametogênese -
determinará o modo de reprodução e, conseqüentemente, a natureza da progênie
resultante. Na parte masculina, a microsporogênese determinará a fertilidade do
pólen e, assim, sua contribuição na constituição genética da progênie.
A megagametogênese em Brachiaria pode ocorrer de duas maneiras. A
primeira é por via sexual, onde uma meiose regular da célula-mãe da megáspora
(CMM) resulta numa tétrade de células reduzidas. Apenas uma destas, na região
micropilar do ovário, sofre três mitoses, resultando num saco embrionário meiótico
do tipo Polygonum. Os núcleos se diferenciam em uma célula-ovo; duas células
sinérgidas, de vida efêmera; dois núcleos polares e três células antípodas. A célula-
ovo, uma vez fecundada, se transforma em embrião, e os núcleos polares,
fecundados, formarão o endosperma da semente.
A segunda é por via assexual, na qual o saco embrionário apospórico se
desenvolve a partir de uma célula somática (2n) no nucelo (tecido que circunda a
CMM) por duas mitoses sucessivas e após a degeneração das quatro células
reduzidas da meiose. Os quatro núcleos resultantes se diferenciam em uma célula-
ovo, duas sinérgidas e um núcleo polar. Apenas o núcleo polar é fecundado e a
célula-ovo, não reduzida, dará origem ao embrião por partenogênese. Mais de uma
célula somática pode iniciar desenvolvimento e resultar em sacos múltiplos dentro do
ovário.
Além do exame microscópico dos ovários é possível inferir sobre o modo de
reprodução pelo teste de progênies. Sementes distribuídas em linhas exibindo
homogeneidade fenotípica indicam a presença de apomixia, enquanto a sexualidade
produz fenótipos segregantes. Valle e Savidan (1996) relataram um estudo
comparando teste de progênie e o exame microscópico de sacos embrionários e
encontraram boa concordância entre determinações para plantas sexuais e para as
apomíticas de baixa sexualidade. O teste de progênie apresentou problemas na
determinação de plantas apomíticas facultativas com alta sexualidade, cujas
progênies segregaram fenotipicamente quase como uma planta sexual. Para uma
determinação mais precoce do modo de reprodução, estão sendo buscados
marcadores moleculares para a apomixia. Em Panicum maximum, Ebina et al. (2005)
encontraram marcadores AFLP e RAPD que co-segregam com aposporia. Estes
marcadores podem ser de grande valia na seleção assistida por marcadores e também
na clonagem do gene da aposporia.
A apomixia em Brachiaria é, portanto do tipo Panicum e normalmente
facultativa, isto é, sacos embrionários meióticos são encontrados em freqüências
variáveis entre os sacos apospóricos simples e múltiplos. Acessos classificados
como sexuais apresentam apenas sacos meióticos ou estéreis. Outros tipos de sacos,
como anormais ou não identificáveis completam a classificação dos ovários
estudados. No Quadro 2 é apresentada a análise citogenética e do modo de
reprodução das cultivares de braquiária discutidas neste capítulo.
Quadro 2 - Níveis de ploidia e modo de reprodução das cultivares de Brachiaria
Espécie Cultivar
Ploidia
(x = 9)
Modo de reprodução
% de SE1
meióticos
% de SE
apospóricos
Classificação
B. brizantha
B. brizantha Marandu 4x 9 82 apomítica2
La Libertad 4x 3 97 apomítica
Xaraés 5x 21 52 apomítica
Piatã 4x 11 78 apomítica
B. decumbens
Basilisk 4x 22 71 apomítica
B. humidicola
Tully 6x 24 53 apomítica
Llanero 6x 44 50 apomítica
Tupi 4x 13 74 apomítica
B. ruziziensis
Kennedy 2x 100 0 sexual
1SE = sacos embrionários; 2 apomíticos facultativos pois SE meióticos ≠ 0.
6. CARACTERIZAÇÃO AGRONÔMICA
Entre as cultivares de B. brizantha a Marandu é ainda a mais utilizada no
estabelecimento de pastagens e sobre a qual se têm mais informações. Fonseca et al.
(2006) após avaliação de 348 trabalhos publicados na Seção Forragicultura de três
periódicos brasileiros atestaram que essa forrageira foi aquela que recebeu maior
número de pontos, ou seja, a B. brizantha cv. Marandu, é de fato, uma das plantas
mais estudas no Brasil.
A cultivar Marandu apresenta elevada produção de massa seca e boa
distribuição da produção ao longo do ano. Em canteiros sob cortes produziu de 10 a
12 t.ha.-1ano de massa seca (MS) sem adubação de manutenção. Valle et al.
(2001b) obtiveram dados comparativos entre Piatã, Xaraés, Marandu, Basilisk, B.
humidicola comum e cv. Tupi num ensaio em parcelas, sob cortes, por dois anos,
em Latossolo Vermelho, e em Neossolos Quartzarenicos (Tabela 1).
Tabela 1 - Produtividade média (kg.ha-1), de cultivares de Brachiaria por corte em
dois tipos de solo de cerrados. (MST = massa seca total; MSF = Massa
seca foliar; MSV = massa seca de folhas + colmos verdes; %F =
porcentagem de folhas; L:C = relação lâmina:colmo, e REB = rebrota 7
dias após o corte)
Forrageiras MST MSF MSV %F L:C REB
cv. Xaraés 1.506 987 1.368 66.8 3.8:1 4.0
cv. Piatã
cv. Marandu*
1.399
1.199
821
608
1.274
987
59.8
50.5
2.8:1
2.9:1
3.1
2.9
B. decumbens* 1.321 558 1.086 45.5 2.0:1 2.6
Humidicola comum* 881 328 645 38.4 3.6:1 2.6
cv. Tupi 1.248 487 1.009 39.5 2.1:1 2.9
DMS** 176 99 153 1.1 0.7 0.2
*cultivares testemunhas; ** DMS = diferença mínima significativa pelo teste de Tukey.
Fonte: Valle et al. (2001b).
Os autores observaram diferenças significativas (P<0,05) entre as novas
cultivares de B. brizantha e a cv. Marandu para todas as características avaliadas
com exceção da relação lâmina:colmo entre cv. Piatã e cv. Marandu, e entre a cv.
Tupi e Humidicola comum. A porcentagem de folhas entre as B. humidicola
também não diferiu significativamente. As duas novas cultivares de B. brizantha
foram superiores a cultivar Marandu e a cultivar Tupi também foi mais produtiva
do que a comum, justificando-se a liberação desses genótipos com vista a
diversificar as pastagens cultivadas com Brachiaria.
Outras informações sobre as cultivares de braquiária sob cortes foram
apresentadas por Valle et al. (2001a) e estão no Quadro 3. A variação nos valores
obtidos diz respeito a regime de cortes, fertilidade natural ou corrigida do solo,
reposta a clima e outros fatores bióticos e abióticos.
Quadro 3 - Produtividade de massa seca (t.ha-1) das cultivares comerciais de
braquiárias sob cortes, em diversos locais
Local
Espécie
Produtividade
t.ha-1.ano
Observações Referência
Nova Odessa,
SP
B.decumbens
cv. IPEAN9,3 83% no verão e
17% no inverno
Pedreira e Mattos
(1981)
B. ruziziensis 10,8 88% no verão e
12% no inverno B.decumbens
cv. Basilisk
14,5
Belém, PA
B.decumbens
cv. Basilisk
11 – 25 média 18 t com
estacionalidade
acentuada
Simão Neto e
Serrão (1974)
B. humidicola 17 – 19
B. ruziziensis 14 – 22
B. humidicola 2 a 28 ≠ níveis de
fertilidade
Dias Filho (1983)
Planaltina, DF
cv. Basilisk 3 a 17 variação em 4
anos sob
pastejo
Relatório..., (1985)
B. ruziziensis 4 a 17 média de 3 anos Thomas e Andrade
(1984) B. ruziziensis 5 a 3
queda do 1°
para o 3° ano
B. humidicola 4 a 2
cv. Basilisk 5 a 3
Quadro 3: Continuação...
Local
Espécie
Produtividade
t.ha-1.ano
Observações Referência
Campo
Grande, MS
cv. Marandu 8 até 20 boa resposta a
adubação
Nunes et al. (1984)
Florestas
tropicais
sazonais da
América
Central
cv. Marandu Max: 2,3 -4,1
Min: 1,0 - 2,9
12 semanas de
crescimento,
Max =Chuvas
Min =Seca
Citado em:
Argel e Keller-
Grein (1996)
cv. La Libertad Max: 2,4 -4,1
Min: 2,0 - 2,7
cv. Basilisk Max: 2,4 -4,1
Min: 2,0 - 2,7
B. humidicola Max:3,5 -5,0
Min: 2,4 - 3,0
cv. Llanero Max:4,3 -4,5
Min: 2,3 - 3,3
Savanas
Colombianas
cv. Marandu Max: 2,0 -4,0
Min: 0,5 - 0,9
12 semanas de
crescimento,
Max =Chuvas
Min =Seca
Citado em:
Pizarro et al., 1996
cv. La Libertad Max: 1,7 - 1,9
Min: 0,7 - 1,2
cv. Basilisk Max: 1,2 -3,2
Min: 0,2 - 1,4
cv. Llanero Max: 0,7 -4,0
Min: 0,4 - 2,3
B. humidicola Max: 2,4 -5,3
Min: 0,3 - 1,0
cv. La Libertad Max: 5,6
Min: 3,2
cv. Basilisk Max: 8,6
Min: 3,8
cv. Llanero Max: 6,8
Min: 3,0
Quadro 3: continuação...
Local
Espécie
Produtividade
t.ha-1.ano
Observações Referência
Savanas
Africanas
cv. Marandu Max: 8,6
Min: 4,1
12 semanas de
crescimento,
Max =Chuvas
Min =Seca
Citado em:
Ndikumana e
Leeuw (1996)
cv. La Libertad Max: 5,6
Min: 3,2
cv. Basilisk Max: 8,6
Min: 3,8
cv. Llanero Max: 6,8
Min: 3,0
B. humidicola Max: 4,1
Min: 1,6
Reunindo as informações disponíveis em folders, folhetos e publicações,
apresenta-se no Quadro 4 um resumo relativo das características das diferentes
cultivares considerando-se as variações de ecossistemas e metodologias de avaliação.
Quadro 4 – Resumo das características agronômicas de maior relevância das
cultivares de Brachiaria
Espécie Atributos positivos Atributos negativos
B. brizantha
cv. Marandu
Fácil estabelecimento, resistência
às cigarrinhas mais comuns em
pastagens, alta resposta à aplicação
de fertilizantes, boa cobertura do
solo com domínio sobre invasoras,
boa performance sob sombra, boa
qualidade forrageira, alta produção
de raízes e de sementes.
Baixa adaptação a solos mal
drenados e de baixa fertilidade,
rebrotação lenta, necessidade
de reposição de nutrientes para
persistência a longo prazo,
suscetibilidade à mancha foliar
fúngica (Rhizoctonia) e
podridão de raízes.
Quadro 4: continuação...
Espécie Atributos positivos Atributos negativos
Brachiaria brizantha
cv. La Libertad
Facilidade de
estabelecimento, boa
adaptação a solos arenosos
e de média fertilidade,
rebrotação rápida, boa
compatibilidade com
leguminosas por ser
menos competitiva que cv.
Marandu.
Menor produtividade do
que a cv. Marandu e
menor resistência às
cigarrinhas mais comuns
em pastagens, baixa
produção de sementes,
valor nutritivo médio.
Brachiaria brizantha
cv. Xaraés
Fácil estabelecimento, alta
produtividade
especialmente de folhas,
alta capacidade de suporte,
enraíza nos nós
proporcionando boa
cobertura do solo com
domínio sobre invasoras,
rebrotação rápida, boa
resposta à aplicação de
fertilizantes, florescimento
tardio prolongando
qualidade da forragem até
o outono, boa qualidade
forrageira.
Tolerância às cigarrinhas
mais comuns em
pastagens, média
adaptação a solos mal
drenados e de baixa
fertilidade, por ter
florescimento tardio é
susceptível à mela-das-
sementes (Claviceps
sucata).
Brachiaria brizantha
cv. Piatã
Fácil estabelecimento, alta
produtividade
especialmente de folhas no
período seco,
florescimento precoce e
concentrado, alta taxa de
crescimento e acúmulo de
forragem sob pastejo,
resistência às cigarrinhas
mais comuns em
pastagens, alta resposta à
aplicação de fertilizantes,
boa qualidade forrageira.
Susceptibilidade ao carvão
das sementes (Ustilago
operta), moderadamente
resistente à ferrugem
causada por Puccinia levis
var. panici-sanguinalis,
média adaptação a solos
mal drenados.
Quadro 4: continuação...
Espécies Atributos positivos Atributos negativos
B. decumbens
cv. Basilisk
Fácil estabelecimento,
adaptada a solos ácidos e
pobres, alta produtividade
sobre uso intensivo, boa
performance sob sombra,
boa qualidade forrageira.
Suscetibilidade às
cigarrinha- das-pastagens,
baixa adaptação a solos
mal drenados,
suscetibilidade à podridão
foliar fúngica, pode
provocar
fotossensibilização
hepatógena, difícil
erradicação pelo acúmulo
de sementes viáveis no
solo.
B. humidicola
cv. comum
Crescimento estolonífero
com grande capacidade de
enraizamento nos entrenós
proporcionando boa
cobertura do solo e
domínio sobre invasoras,
adaptação a solos de baixa
fertilidade, adaptação a
solos mal drenados, baixo
requerimento em P e Ca,
tolerância à cigarrinha-
das- pastagens, boa
capacidade de consórcio
com Arachis pintoi
(amendoim forrageiro).
Estabelecimento lento,
baixa digestibilidade da
massa seca, baixa
concentração de N e Ca na
forragem, hospedeira de
cigarrinhas,
suscetibilidade à ferrugem
foliar (Puccinia levis var.
panici-sanguinalis),
dormência das sementes
por cerca de oito meses,
ocorrência de "cara
inchada" em eqüinos em
suplementação com
fósforo.
B. humidicola
cv. Llanero
Boa adaptação a solos de
baixa fertilidade, boa
adaptação a solos mal
drenados, melhor valor
nutritivo do que B.
humidicola comum, boa
capacidade de consórcio
com Arachis pintoi
(amendoim forrageiro) e
Pueraria phaseoloides
(kudzu).
Estabelecimento lento,
ocorrência de dormência
nas sementes por cerca de
oito meses, menor
enraizamento dos estolões
do que B. humidicola
comum e menor produção
de sementes.
Quadro 4: continuação...
Espécies Atributos positivos Atributos negativos
B. humidicola
cv. Tupi
Estabelecimento mais
rápido e maior
produtividade do que a
comum e cv. Llanero, boa
cobertura do solo e
domínio sobre invasoras,
adaptação a solos de baixa
fertilidade e mal drenados,
boa resposta a Ca e P até
45% de saturação por
bases, valor nutritivo
superior ao da comum,
boa capacidade de
consórcio com Arachis
pintoi.
Hospedeira de cigarrinhas-
das- pastagens apesar de
não mostrar danos
severos, ocorrência de
dormência nas sementes
por cerca de oito meses.
B. ruziziensis
cv. Kennedy
Estabelecimento rápido e
grande crescimento no
início da estação chuvosa,
compatibilidade com
leguminosas, forragem de
alta qualidade,
florescimento concentrado
e alta produção de
sementes, boa alternativa
para plantio direto pela
rapidez de
estabelecimento,
qualidade da massa seca e
facilidade de dessecação
por herbicidas.
Baixa adaptação a solos
mal drenados, ácidos e de
baixa fertilidade, alta
suscetibilidade às
cigarrinhas-das-pastgens
comuns em pastagense à
mancha foliar fúngica,
baixa competição com
invasoras e baixa
tolerância à seca.
Fonte: Adaptado de Valle et al. (2001a), complementado por Cuesta Muñoz e Pérez Bonna (1987).
ICA (1987).
7 . RESULTADOS DE PESQUISA
A liberação de uma cultivar é um processo demorado, que exige a
participação de equipe multidisciplinar e pluri-institucionalidade, para que o produto
final contenha as recomendações de uso e possa ser adotado em larga escala, como
normalmente tem acontecido com as novas cultivares de forrageiras tropicais no
Brasil. O esquema de desenvolvimento de uma nova cultivar segue etapas com
diferentes objetivos.
Inicialmente é preciso reunir diversidade de tipos numa coleção de
germoplasma a fim de avaliar características básicas de interesse. Depois de realizar
estudos básicos é possível planejar as atividades de cruzamentos, com genitores
selecionados visando solucionar problemas específicos nas cultivares existentes.
Avaliações com cortes em parcelas pequenas auxiliam na comparação agronômica
quando o número de exemplares em estudo é grande. Para um ensaio regional de
adaptação ou fase 2, quando se estuda o efeito do animal sobre o pasto, já é
necessário trabalhar com sub-coleções de acessos, entre 20 para o primeiro ou 10
para a fase 2. Na fase final pré-lançamento, quando se avalia o efeito do pasto sobre
o desempenho animal, não se trabalha com mais de 3 ou 4 acessos, seja pelo custo da
experimentação como pela quantidade de trabalho e amostragem envolvidos.
Considerando-se dois anos por etapa e a necessidade de multiplicação de sementes
entre cada fase, o prazo de avaliação de uma nova cultivar dura entre seis e dez anos,
e envolve toda uma gama de ensaios de apoio para verificar a resposta a fatores
bióticos e abióticos.
Como pode se observar, é necessário um investimento de médio a longo
prazo, envolvendo equipe diversificada, mas os resultados e recomendações tem
alcançado grande impacto na produção animal tropical.
7.1 - Estabelecimento e adaptação edáfica
Em geral as cultivares de B. brizantha são recomendadas para solos de média
fertilidade e respondem muito bem a adubações com fósforo. Em ensaio realizado na
Embrapa Gado de Corte em latossolo vermelho comparando-se a resposta de
cultivares e acessos promissores de Brachiaria spp. à calagem e a adubação
fosfatada, testaram-se dois níveis de saturação por bases V1= 35-40% e V2= 50-
60% e três níveis de fósforo no solo: P0 = fertilidade natural; P1 = 3 a 5 mg dm-3; P2 =
5 a 10 mg.dm-3 (Mehlich-1). Foram realizados seis cortes para avaliação entre 2003
e 2005 e os resultados preliminares (Figura 12) demonstram grande diversidade de
resposta entre os genótipos.
Todas as cultivares no gráfico foram altamente responsivas ao P, e as cv.
Xaraés e Piatã possuem alta taxa de crescimento em fertilidade do solo mais elevada,
quando comparadas a outras cultivares de B. brizantha (Valle et al., 2004). Até a B.
humidicola cv. Tupi mostrou-se responsiva ao P nos níveis menores de saturação por
bases, com produtividade inclusive superiores a da cultivar Marandu. Recomenda-se,
portanto, a aplicação de calcário suficiente para elevar a saturação por bases do solo
ao mínimo de 40%. Adaptam-se bem em solos arenosos. Para sistemas de recria e
engorda, recomenda-se aplicações de 75 kg.ha-1.ano de nitrogênio e que na fórmula
de adubação, ou em aplicação isolada, sejam incluídos 30 kg.ha-1.ano de enxofre.
Figura 12 - Avaliação de massa seca total de acessos promissores de Brachiaria, na
fase de manutenção (fevereiro de 2005) sob dois níveis de saturação por
bases. Fonte: Macedo (dados não publicados, 2006).
A adubação fosfatada deverá elevar os teores de fósforo no solo em
Mehlich-1 para os seguintes níveis:
a) em solos muito argilosos (>60%), para acima de 4 mg.dm-3;
b) em solos argilosos (35% a 60%), para acima de 6 mg.dm-3;
c) em solos textura média (15% a 35%), para acima de 12 mg.dm-3;
d) em solos arenosos (<15%), para acima de 15 mg.dm-3.
O potássio deve estar na faixa de 50 a 60 mg.dm-3. Com relação a
micronutrientes, recomenda-se a aplicação de 40 a 50 kg.ha-1.ano de uma fórmula de
FTE que contenha zinco, cobre, boro e molibdênio, para um período residual de 3 a 4
anos.
7.2 - Semeadura
0
1000
2000
3000
4000
5000
6000
7000
8000
9000
10000
Marandu Piatã Arapoty B6 Capiporã Xaraés Tupi Média
35-40% 50-60% SB
Em climas com estação chuvosa no verão, como a região Centro-Oeste, a
semeadura deverá ser realizada de meados de outubro até fevereiro, sendo a época
ideal o período de 15 de novembro a 15 de janeiro. Em regiões onde a estação de
chuvas se prolonga, a semeadura pode ser feita até o final de março.
O preparo de solo é o mesmo utilizado para a formação de outras pastagens,
isto é, aração e gradagem, quando necessário.
A recomendação de semeadura é de 2,5 a 4 kg.ha-1 de sementes puras viáveis
(SPV), dependendo do tamanho da semente, para ótimas condições de preparo de
solo, temperatura, umidade, época, além de baixa infestação por plantas daninhas e
semeadura com técnica e equipamentos adequados. Na falta de qualquer das
condições acima citadas, deve-se aumentar a quantidade de sementes para 5 a 6
kg.ha-1 de SPV.
A semeadura pode ser a lanço seguida de incorporação com uma grade
niveladora ou em linha, recomendando-se o máximo de 20 cm de espaçamento e a
profundidade de 2 a 6 cm. Em ambos os casos é recomendável passar um rolo
compactador para favorecer a germinação, principalmente em solos de textura meio
arenosa.
7.3 - Adaptação a estresse hídrico
Nos últimos 10 anos tem-se notícias cada vez mais freqüentes sobre a
síndrome da morte do capim-marandu, especialmente em áreas da Amazônia Legal.
Um zoneamento de risco edáfico e potencial de morte foi realizado para o estado do
Acre (Valentin et al., 2000), onde a ocorrência de solos com impedimento de
drenagem são comuns e os relatos mais sérios.
O capim-marandu mostrou-se pouco adaptado a solos mal drenados,
condições essas que favorecem a podridão de raízes causadas por fungos oportunistas
e redução de crescimento. Grandes áreas de pastagens de ‘Marandu’ na região Norte
e Centro-Oeste já foram perdidas e os diagnósticos indicam problemas de estresse
hídrico (especialmente excesso de água em solos com má drenagem), mau manejo
das pastagens e ocorrência de pragas e, ou doenças associadas. Em recente workshop
realizado em Cuiabá – “Morte do capim-marandu”- as diversas causas do problema e
suas inter-relações foram abordadas (Barbosa, 2006; Dias Filho, 2006) e as
características da síndrome sugerem claramente que a solução está na substituição
por outras gramíneas adaptadas ao encharcamento e resistentes aos patógenos
envolvidos.
A tolerância relativa ao alagamento do solo de vários ecótipos de Brachiaria
spp. foi comparada à cultivar Marandu em ensaios conduzidos em ambiente
semicontrolado (Dias Filho, 2002; Dias Filho e Queiroz, 2003). Foram avaliados 15
acessos de Brachiaria spp., dentre os quais apenas um, o capim-capiporã, mostrou-se
menos tolerante ao excesso de água no solo do que o capim-marandu. Três acessos
de B. brizantha: cv. Arapoty, outra B. brizantha e uma B. ruziziensis, foram
selecionados como os mais promissores. As plantas foram cultivadas em vasos, sob
condições de solo alagado (lâmina d'água a 3 cm acima do nível do solo) e bem
drenado, durante 15 dias, em delineamento inteiramente casualizado com cinco
repetições. O alagamento reduziu significativamente a produção de massa seca total
e a taxa de crescimento relativo em todos acessos, principalmente nas cultivares
Marandu e Xaraés. Todos os acessos tiveram alocação relativa de biomassa paraas
raízes bem como taxa de alongamento foliar reduzida pelo alagamento. As duas
cultivares produziram raízes adventícias em resposta ao alagamento. A fotossíntese
líquida e a condutância estomática foram mais intensamente reduzidas pelo
alagamento do solo na cultivar Xaraés. Os acessos diferiram quanto à tolerância
relativa ao alagamento do solo e as cvs. Xaraés e Piatã foram classificadas como
intermediárias em tolerância ao alagamento comparativamente à cv. Marandu que é
muito sensível (Dias Filho, 2002).
Outro estudo (Mattos et al., 2005) também mostrou que o capim-marandu foi
o mais prejudicado quanto ao crescimento aéreo e desenvolvimento da planta quando
comparado à B. decumbens e B. humidicola, sob condições de excesso de água no
solo. Os resultados obtidos até aqui demonstram haver variabilidade para a tolerância
a esse estresse entre e dentro de espécies de braquiária. Dias Filho (2006) comenta
que embora variações na tolerância ao alagamento normalmente se devem a
adaptações anatômicas e bioquímicas complexas, no caso dos acessos testados, a
variação na intensidade de tolerância poderia estar relacionada a adaptações
metabólicas, uma vez que os acessos são morfológicamente semelhantes. Em todos
os acessos testados a produção de raízes foi excessivamente afetada, o que poderia
intensificar os efeitos nocivos do alagamento, causando perda de vigor e atraso ou
falha na recuperação quando a situação crônica de anoxia já não existisse. Com o
desenvolvimento das pesquisas nesta área, espera-se num futuro próximo, identificar
genótipos que além das qualidades que consolidaram as cultivares hoje disponíveis,
também apresentem maior tolerância ao estresse hídrico, pois existe variabilidade
para esta característica no germoplasma desse gênero.
7.4 - Pragas e doenças
Uma revisão compreensiva dos principais problemas fitossanitários das
braquiárias foi apresentada por Valério et al. (1996) e mais recentemente das doenças
por Fernandes et al. (2004). Algumas informações mais relevantes e atuais,
especialmente em referência às novas cultivares serão apresentadas a seguir.
O capim-marandu é resistente às principais espécies de cigarrinhas-das-
pastagens pertencentes aos gêneros Notozulia, Deois e Aeneolamia. Com exceção da
região Norte do Brasil, este capim se constitui na melhor alternativa de gramínea
forrageira resistente às cigarrinhas-das-pastagens. Naquela região, onde foram
estabelecidas extensas monoculturas com essa forrageira, têm-se registrado altos
níveis populacionais e danos ocasionados por espécie de cigarrinha típica da cana-de-
açúcar, pertencente ao gênero Mahanarva. Acredita-se que ao longo destes mais de
vinte anos, desde o lançamento dessa gramínea, as monoculturas estabelecidas com o
capim-marandu tenham desalojado as espécies de cigarrinhas típicas de pastagens,
favorecendo as do gênero Mahanarva. Espécies desse gênero são maiores e
apresentam maior capacidade de dano. Valério (2006) alerta para a necessidade
premente em avaliar gramíneas forrageiras alternativas ao capim-marandu visando à
resistência a esse gênero a fim de re-estabelecer o equilíbrio nas pastagens. Este
autor não descarta a possibilidade de quebra de resistência da cv. Marandu a Deois
flavopicta, mas estudos confirmando essa possibilidade ainda estão pendentes.
Já a cv. Xaraés foi avaliada, em várias ocasiões, quanto à resistência às
cigarrinhas-das-pastagens Notozulia entreriana e Deois flavopicta por meio de
características, como percentual de sobrevivência de ninfas e duração do período
ninfal, mostrando consistentemente, altos níveis de sobrevivência e curtos períodos
ninfais, caracterizando-o, portanto, como adequado ao desenvolvimento do inseto.
Com a espécie D. flavopicta, conduziram-se testes complementares, comparando-se
preferência de alimentação, taxa de excreção e intensidade de danos. O percentual
médio de sobrevivência na cultivar Xaraés foi de 68%, superior aquele constatado
para a cultivar Marandu (45%), porém, inferior aos 76%, para a cultivar B.
decumbens cv. Basilisk. Adicionalmente, foram monitorados os níveis populacionais
em parcelas estabelecidas no campo.
Nos testes complementares como o de preferência de alimentação conduzidos
com a cigarrinha D. flavopicta, verificou-se que a cv. Xaraés não se caracterizou
como menos ou mais preferida do que outros 11 acessos (Valle et al., 2004). Quanto
à taxa de excreção, considerando os mesmos 11 acessos avaliados anteriormente, a
taxa média do grupo, considerando-se 15 repetições, foi de 1,436 ± 0,346 mg. A taxa
média para a cv. Xaraés foi de 1,722 mg, portanto, acima da média do grupo,
sugerindo não possuir compostos que limitem a alimentação do inseto. Conclui-se
que na falta de hospedeiro mais adequado, a cigarrinha se alimentará normalmente
nessa cultivar.
Na avaliação dos danos causados por adultos dessa cigarrinha, a redução
média na produção de massa seca para o grupo de gramíneas avaliadas foi de 96,55±
2,49%. A redução observada para a cv. Xaraés foi de 94,6%, ou seja, esteve próxima
da média do grupo; não se caracterizando, portanto, como mais tolerante.
Apesar desse comportamento em condições controladas, as observações
quanto aos níveis populacionais conduzidas em diversos locais, avaliando-se massas
de espumas (contendo ninfas), constataram níveis populacionais consistentemente
baixos na cultivar Xaraés. Também o monitoramento de níveis populacionais de
adultos de cigarrinhas, entre 1996 e 1999, em ensaios com animais, resultou em
níveis consistentemente mais baixos na cv. Xaraés. Nos levantamentos de número de
massas de espuma conduzidos durante quatro períodos de infestação, de 1992 a
1996, nas parcelas de avaliação com cortes, o número de massas de espuma
constatado na cv. Xaraés, sempre esteve no terço inferior dentre os observados para
os 138 acessos avaliados neste campo (Valério et al., 2001).
Apesar das baixas populações de cigarrinhas, consistentemente observadas na
cv. Xaraés nas áreas experimentais, esta cultivar não apresentou nível de resistência
desejável às cigarrinhas, no que se refere a quaisquer dos mecanismos de resistência
avaliados (antibiose, não-preferência e tolerância). Tal fato limita sua utilização
extensiva em áreas com histórico de problemas com cigarrinhas.
O capim-xaraés é especialmente susceptível à mela-das-sementes causada por
Claviceps sulcata, por ter florescimento tardio e esse fungo manifestar-se em épocas
de noites frias. A cv. Marandu também pode apresentar contaminação por mela, mais
comum em latitudes maiores, quando as noites ficam mais longas e frias.
A cultivar Piatã apresentou resistência às cigarrinhas-das-pastagens por
determinar menor sobrevivência de ninfas das espécies Notozulia entreriana e Deois
flavopicta em ensaios sob condições controladas em casa de vegetação. Teste com
Mahanarva estão sendo iniciados mas a princípio não parece haver fonte de
resistência a esse gênero entre os acessos testados. Em observações quanto aos níveis
populacionais em condições de campo, constatou-se, nesta cultivar, baixa infestação
e danos moderados ao ataque do adulto das cigarrinhas mais comuns em pastagens.
As cultivares de B. humidicola e B. ruziziensis mostraram-se sempre boas
hospedeiras para as espécies de cigarrinhas comuns em pastagens. B. ruziziensis com
maior dano, enquanto as B. humidicola geralmente mostram danos apenas quando as
populações de adultos são muito elevadas. A cv. Tupi apresentou baixa resistência
(antibiose) às cigarrinhas-das-pastagens por propiciar alta sobrevivência de ninfas
das espécies Notozulia entreriana e Deois flavopicta, em ensaios sob condições
controladas em casa de vegetação. Nesta cultivar constatou-se, em condições de
campo, infestações moderadas e danos leves.
As cultivares Piatã e Tupi mostraram-semoderadamente resistente à
ferrugem causada por Puccinia levis var. panici-sanguinalis. A cultivar Piatã
apresentou suscetibilidade a uma doença fúngica nas sementes, causadas por
Ustilago operta, um fungo causador de carvão (Verzignassi et al., 2001). A
ocorrência está estreitamente relacionada às condições climáticas favoráveis ao
desenvolvimento do fungo (alta pluviosidade e umidade relativa durante o
florescimento). O capim-piatã mostrou-se, também, tolerante a fungos foliares e de
raiz.
7.5 - Produção Animal
Pastagens de braquiária são mais freqüentemente utilizadas como pastagens
permanentes sob lotação contínua. A boa adaptação a solos ácidos e pouco férteis e
alta produtividade da cv. Basilisk fomentou a produção animal extensiva em todo o
trópico desde a década de 1980. Com a expansão das cigarrinhas-das-pastagens, a B.
decumbens foi sendo substituída pelo capim-marandu e também pela B. humidicola.
A pouca tradição em recuperar pastagens e realizar adubações de manutenção
resultou depois de mais de 20 anos, em grandes áreas de pastagens degradadas e em
degradação hoje no Brasil Central Pecuário e mais recentemente na síndrome da
morte do capim-marandu na Amazônia Legal (Macedo, 2006).
A cultivar Marandu e mais recentemente a cultivar Xaraés são também
usadas em sistemas mais intensivos visando a engorda de animais, seja em pastos
utilizados em lotação intermitente, com reposição de nutrientes, ou ainda em
sistemas de engorda no pasto com suplementação no cocho (Euclides e Medeiros,
2005).
Conforme relatado por Valle et al. (2001a), o desempenho animal em
pastagens de Brachiaria spp. foi amplamente discutido por Zimmer et al. (1988),
Vieira e Vieira (1991), Leite e Euclides (1994) e Lascano e Euclides (1996). De
maneira geral e sem adubações de reposição, essas pastagens implantadas em solos
fracos, suportam de 0,7 a 1,2 UA.ha-1 e apresentam baixa produtividade, em torno de
300 kg.ha-1de peso corporal, e dificilmente expressarão seus potenciais produtivos.
Em contraste, o capim-marandu em pastagem implantada em Dourados, MS, em um
Latossolo Roxo após lavoura de soja produziu 485 kg.ha-1.ano de peso corporal, e em
pastagem implantada num Inceptisolo, em Guápiles, Costa Rica alcançou 700 kg.ha-
1
.ano de peso corporal (Hernández et al., 1995).
Além da queda na fertilidade do solo, que é um dos fatores mais importantes
para a não sustentabilidade da produção, há problemas de manejo inadequado e esses
fatores juntos fazem com que o complexo solo-planta entre em processo de
degradação, já a partir do segundo ano. Pastos recém-formados de B. decumbens, em
cerrados, sem o uso de adubações, podem suportar de 1,0 a 1,5 UA.ha-1.ano, sob
lotação contínua, mas esta taxa sofre sensíveis decréscimos com o tempo.
Bianchin (1991) observou que pastagem de B. brizantha cv. Marandu,
implantadas em um latossolo vermelho escuro, sem nenhuma correção, apresentou
problemas de rebrotação após quatro anos de uso, principalmente, na taxa de lotação
mais alta. A redução na produção.ha-1.ano, do primeiro para o sexto ano de pastejo
foi de 415 para 225 kg de peso corporal. Portanto, em solos pobres, o capim-marandu
não persiste, e a degradação da pastagem pode ser muito rápida.
A saturação por bases trocáveis e os teores de fósforo como já mencionados
anteriormente são as principais variáveis diretamente relacionadas com a
produtividade (Macedo, 1995). Assim, uma das opções disponíveis para a
recuperação de pastagens degradadas é o uso da calagem e adubação. Dentro desse
enfoque, foi estabelecido um experimento onde as pastagens receberam duas doses
de calcário e adubo: 1,5 e 3,0 t de calcário dolomítico e 400 e 800 kg.ha-1 da fórmula
0-16-18mais 50 kg.ha-1 de micronutrientes, respectivamente, para as doses de
fertilizante 1 (DF1) e 2 (DF2). Os acréscimos nas taxas de lotação observados para
todas as gramíneas, do DF1 para o DF2, refletiram aumentos nas disponibilidades de
forragem (Tabela 2). Os incrementos nos ganhos de peso individuais observados
foram provavelmente, resultado da melhoria na qualidade desses pastos.
Independentemente da dose de adubo, o capim-tanzânia apresentou maior ganho de
peso por área do que as pastagens de braquiárias, reflexo do seu maior valor
alimentício, uma vez que as taxas de lotação foram semelhantes entre as três
gramíneas (Euclides et al., 1997).
Independentemente da gramínea, houve decréscimo nas taxas de lotação, do
primeiro para o terceiro ciclo de pastejo, tanto na dose DF1 como em DF2 (Tabela 3).
Os teores de P no solo decresceram de 5,3 e 7,2 mg.dm-3 para 3,5 e 4,6 mg.dm-3, nos
piquetes adubados com DF1 e DF2, respectivamente, do primeiro para o terceiro ano
após a fertilização. Isto pode explicar o declínio gradual da disponibilidade de
forragem neste período e a conseqüente redução na taxa de lotação ao longo do
tempo (Euclides et al., 1997).
Tabela 2 - Médias dos ganhos de peso por animal por dia (g.nov.-1dia - GP) e por
área (kg.ha-1 – G/A) e taxas de lotação (nº de nov.ha-1 - TL), em
pastagens de P. maximum cv. Tanzânia, B. brizantha cv. Marandu e B.
decumbens cv. Basilisk, de acordo com as doses de adubo (Média de três
anos)
Gramíneas Dose 1 Dose 2
GP G/A TL GP G/A TL
Tanzânia 430 2,99 490 515 3,61 660
Marandu 340 2,97 400 435 3,63 600
cv. Basilisk 330 2,88 380 420 3,60 600
Dose 1 (kg.ha-1) – 1.500 de calcário dolomítico, 400 da fórmula 0-16-18 e 50 de microelementos.
Dose 2 (kg.ha-1) - 3.000 de calcário dolomítico, 800 da fórmula 0-16-18 e 50 de microelementos.
Fontes: Euclides et al. (1997; 1998).
Tabela 3 - Médias das taxas de lotação (nº de novilhos de 250 kg.ha-1 de peso
corporal) em P. maximum cv. Tanzânia, B. brizantha cv. Marandu e B.
decumbens cv. Basilisk, de acordo com as doses de adubo.
Cultivares Ano 1 Ano 2 Ano 3
Dose 1 Dose 2 Dose 1 Dose 2 Dose 1 Dose 2
Tanzânia 3,89 4,72 3,35 3,74 2,16 2,69
Marandu 3,65 4,68 3,15 3,71 2,12 2,89
Basilisk* 3,81 4,69 3,32 3,71 2,17 2,81
*Novilho de 200 kg de peso corporal.
Dose 1 (kg.ha-1): 1.500 de calcário dolomítico, 400 da fórmula 0-16-18 e 50 de microelementos.
Dose 2 kg.ha-1): 3.000 de calcário dolomítico, 800 da fórmula 0-16-18 e 50 de microelementos.
Fonte: Euclides et al. (1997).
Considerando-se esses resultados como conseqüência de uma queda de
fertilidade do solo e uma compactação superficial, procedeu-se uma recuperação das
pastagens, envolvendo uma subsolagen e adubação de manutenção (Euclides et al.,
2001), com N, P K e microelementos. Em resposta aos tratamentos e
independentemente da gramínea, as taxas de lotação e os ganhos de peso por animal
e por área foram maiores nos piquetes adubados com DF2. Observou-se a mesma
tendência do ciclo anterior, ou seja, taxas de lotação semelhantes entre as gramíneas
e maiores produções por animal e por área na pastagem de Tanzânia quando
comparada com as de braquiárias (Tabela 4). A menor produção de segundo ano,
também foi conseqüência de chuvas abaixo do normal em Campo Grande.
Apesar da sensível melhoria na saturação por bases no terceiro ano, após a
aplicação de calcário e gesso em julho do segundo ano, a correção de P e aplicação
anual de 50 kg.ha-1 de N não foram suficientes, para manter os teores de saturação
por bases que atingiram valores inferiores a 30%, muito baixos para essas gramíneas,
exceto para B. decumbens. Consequentemente houve queda na produção de forragem
e na capacidade de suporte dessas pastagens (Euclides et al., 2001).
Tabela 4 - Médias de produtividade (kg.ha-1.ano de peso corporal) em pastagens
recuperadas de P. maximum cv. Tanzânia, B. brizantha cv. Marandu e
B. decumbens cv. Basilisk, de acordo com as doses de adubo
Cultivares
Dose 1 Dose 2
1º ano 2º ano* 3º ano 1º ano 2º ano* 3º ano
Tanzânia439 433 490 546 496 594
Marandu 354 309 338 570 391 463
Basilisk 444 379 339 496 412 493
Nível 1 (kg.ha-1) - 400 da fórmula 0-20-20 e 50 de microelementos, e anualmente 50 de N.
Nível 2 (kg.ha-1) - 800 da fórmula 0-20-20 e 50 de microelementos, e anualmente 50 de N
*
aplicação de 2 t.ha-1 de calcário e 500 kg.ha-1 de gesso
Fonte: Euclides et al., 2001.
Corroborando estudos realizados em solos da região dos Cerrados, este
trabalho demonstrou que a saturação por bases trocáveis e os teores de fósforo são
fatores diretamente relacionados à produtividade das pastagens e à sua
sustentabilidade. Uma vez feitas estas correções, a produtividade é altamente
dependente da adubação nitrogenada (Macedo, 1995).
Em termos de valor nutritivo, análises realizadas para verificar a
digestibilidade da massa seca in vitro ou in vivo das plantas jovens e maduras
constataram pouca diferença entre as braquiárias e apresentaram valores iguais, ou
mesmo superiores, aos observados em outras espécies de gramíneas tropicais como
Panicum maximum. Os valores de digestibilidade entre as braquiárias têm variado de
60% a 70% nas plantas jovens e de 50% a 60% em plantas maduras. Esses valores
são superiores à média de 55% encontrado por Minson (1990), em uma revisão na
literatura mundial, para gramíneas tropicais.
O Quadro 5, compilado e apresentado por Valle et al., (2001a), reúne
informações de valor nutritivo de diferentes cultivares e ecótipos de Brachiaria,
cultivadas em regiões tropicais diversas e mostra a faixa de valores encontrados de
proteína bruta e digestibilidade nas folhas.
Resultados do desempenho animal em pastagens de B. brizantha cv. La
Libertad e B. humidicola cv. Llanero foram obtidas na Colômbia pelo CORPOICA
(antigo Instituto Colombiano Agropecuário). O valor nutritivo da La Libertad foi
considerado de médio a bom e do capim-llanero apenas médio.
Quadro 5 - Teores de proteína bruta (PB) e digestibilidade in vitro da massa seca
(DIVMS) em diferentes espécies de Brachiaria
Espécies Acessos
(n)
Folhas1 Tipo de
forragem
Referências
PB DIVMS
B. brizantha
B. decumbens
B. humidicola
B. ruziziensis
52
26
21
8
13 (10-16)
14 (9-20)
13 (9-17)
14 (10-20)
66 (56-75)
71 (59-82)
68 (54-75)
71 (67-75)
Folhas
avaliadas a
cada 6
semanas.
(Costa Rica)
Vallejos,
1988
B. brizantha
B. decumbens
B. ruziziensis
150
32
14
-
-
-
60 (46-68)
66 (59-70)
64 (55-69)
Última folha
expandida
(Colômbia)
M.J.Fisher,
dados não
publicados2
B. brizantha
B. decumbens
B. ruziziensis
260
44
12
-
-
-
65 (51-70)
65 (61-69)
67 (64-72)
Folhas
avaliadas a
cada 6
semanas.
(Colômbia)
M.J. Miles e
C.E.Lascano,
dados não
publicados2
B. humidicola 55 6 (5-8) 66 (60-70) Folhas
avaliadas a
cada 6
semanas.
(Colômbia)
G. Keller-
Grein e
C.E.Lascano
dados não
publicados2
B. brizantha
B. decumbens
B. ruziziensis
B. humidicola
3
3
3
3
12 (11-13)
13 (12-15)
15 (14-15)
10 ( 8-12)
55 (53-57)3
63 (61-66)3
66 (64-67)3
56 (54-57)3
Folhas com 4
e 6 semanas
(Brasil)
Hughes et
al., 2000
1Amplitude de variação entre parênteses; 2 citados em Lascano e Euclides (1996); Fonte: Valle et al.,
2001a; 3Digestibilidade in vitro de Matéria Orgânica (DIVMO)
Cuesta Muñoz e Pérez Bonna (1987) relataram variações de 7 a 15% de
proteína bruta e digestibilidade entre 65 e 72% em rebrotação de 15 a 60 dias na
cultivar La Libertad cultivada nas savanas colombianas. Em lotação contínua com
taxa de lotação de 1,5 animais.ha-1 na seca e 2,5 nas águas permitiu ganhos diários de
100 a 650 g.animal-1, respectivamente. Pastos consorciados com kudzu tropical, em
pastejo alternado e taxa de lotação fixa de 3 animais.ha-1, produziram ganhos diários
de 472 e 518 g.animal-1 na seca e chuva respectivamente, o que resultaria em
produções de 184 kg de peso por animal e 552 kg.ha-1.
Já pastos da cutivar Llanero apresentaram teores de proteína entre 6 e 8% e
digestibilidade entre 55 e 60% no período das águas, mas atingiu níveis muito baixos
de PB (3 a 4%) e de digestibilidade (45 a 50%) no período da seca. Quando
associado à leguminosa Centrosema acutifolium foram obtidos ganhos de peso de
400 a 600 g.animal-1.dia e sob lotação intermitente, e taxa de lotação de 3 a 6
animais.ha-1, os ganhos variaram entre 400 e 500 g.animal-1.dia. Nas savanas
colombianas, pastos consorciados de Llanero com kudzu tropical e taxa de lotação
fixa de 3 animais.ha-1 alcançaram 179 kg de peso por animal e 538 kg.ha-1 de peso
corporal.
Mais recentemente, avaliações conduzidas na Embrapa Gado de Corte
visando identificar cultivares de B. brizantha com comprovado desempenho animal,
para os diferentes ecossistemas e variados sistemas de produção resultaram na
liberação da cv. Xaraés e no lançamento da cv. Piatã. Resultados preliminares com a
B. humidicola cv. Tupi sob pastejo também demonstram sua superioridade em
relação a comum, apesar dos altos níveis populacionais de cigarrinhas-das-pastagens
observados em 2005-2006, em Campo Grande, MS.
Euclides et al. (2005) compararam as cultivares Xaraés, Piatã e Marandu em
Latossolo Vermelho Distrófico, de textura argilosa, pH ácido, baixa saturação por
bases e alta concentração de alumínio. Após o preparo do solo, foram aplicadas 5
t.ha-1 de calcário dolomítico (PRNT = 75%), 400 kg.ha-1 de adubo da fórmula 0-20-
20 e 36 kg.ha-1 de micronutrientes. Foram feitas capinas manuais para controle de
invasoras e adubações de manutenção anuais com 200 kg.ha-1 da fórmula 0-20-20 e
110 kg.ha-1 de uréia. O método de pastejo utilizado foi o alternado, com 28 dias de
utilização e 28 dias de descanso, onde cada piquete foi pastejado por quatro novilhos
de sobreano. Animais reguladores foram colocados e removidos de cada piquete de
acordo com a quantidade de forragem disponível, assegurando um mesmo resíduo
após o pastejo de 2,5 t.ha-1 de massa seca entre os tratamentos e possibilitando a
determinação da capacidade de suporte e a estimativa da produção por área (Euclides
et al., 2005). Em três anos de avaliação, foram observadas diferenças significativas
(P<0,05) entre as três cultivares testadas. Durante o período das águas, os animais em
pasto de capins marandu e piatã apresentaram ganhos de peso médios diários
superiores aos dos animais em pastagem de capim-xaraés. Já no período seco do ano
a produção animal foi semelhante entre as cultivares (Tabela 5), no entanto, o capim-
xaraés suportou maior número de animais quando comparado aos capins marandu e
piatã, tanto no período das águas quanto no período seco.
Tabela 5 - Médias dos ganhos de peso por animal (g.nov.-1dia - GP) e por área
(kg.ha-1 – G/A) e taxas de lotação (nº de nov.ha-1 - TL), durante os
períodos seco e das águas, de três cultivares de B. brizantha, média de três
ciclos de pastejo
Período Seco Período das Águas Produtividade
Cultivares GP TL GP TL G/A
Xaraés 0,286b 2,25a 0,718b 6,85a 795a
Piatã 0,349b 1,82b 0,782a 5,19b 715b
Marandu 0,312b 1,97b 0,770a 5,07b 670b
Médias, na mesma coluna e dentro de período do ano, seguidas de letras diferentes são diferentes
(P<0,01) pelo teste de Tukey;
*Novilhos de 300 kg de Peso;
Fonte: Valle et al. (2004); Euclides et al. (2005).
Apesar de menor ganho individual no capim-xaraés houve uma compensação
na capacidade de suporte desse pasto, resultando em maior produtividade anual. As
disponibilidades de massa seca total e de matéria verde seca podem explicar essas
diferenças, uma vez que os valores nutritivos foram semelhantes (P>0,05) entre as
cultivares (Tabela 6). Mesmo durante o período crítico, a disponibilidadede massa
seca foi sempre superior a 3 t.ha-1, e as quantidades de MVS foram altas, sugerindo
que a quantidade de forragem disponível foi suficiente para não limitar o consumo
pelo animal.
Tabela 6 – Disponibilidade de massa seca total (MST), de massa verde seca (MVS),
porcentagens de lâmina foliar (LF), proteína bruta (PB), digestibilidade
in vitro da matéria orgânica (DVIMO), fibra em detergente neutro (FDN)
e lignina em ácido sulfúrico (Lig-S), nos capins xaraés, piatã e marandu,
nos períodos seco e das águas
Período das Águas Período Seco
Xaraés Piatã Marandu Xaraés Piatã Marandu
MST (t.ha-1) 4,6a 4,1b 4,1b 3,8a 3,7a 3,6a
MVS (t.ha-1) 3,5a 3,3a 3,0b 2,1a 1,9ab 1,7b
LF (%) 51a 52a 48a 25a 26a 20b
PB (%) 10,4a 9,9a 10,5a 8,1a 7,3a 7,9a
DIVMO (%) 59,3a 59,9a 61,0a 53,0a 51,9a 53,5a
FDN (%) 72,2a 73,8a 70,7b 74,5a 75,8a 73,4a
Lignina (%) 2,5b 2,8a 2,5b 2,9b 3,1a 3,0ab
Médias, na mesma linha e dentro de período do ano, seguidas da mesma letra não diferem entre si
(P<0,01) pelo teste de Tukey;
Fonte: Euclides et al. (2005).
Independentemente da cultivar, durante o período das águas, as características
que refletem o valor nutritivo foram maiores (P< 0,05) do que os observados durante
o período seco (Tabela 6), e ainda, observou-se que a variabilidade dos valores
nutritivos foram pequenas entre as cultivares, nos dois períodos. Estes resultados
evidenciaram que tanto a proteína bruta como a digestibilidade dessas cultivares são
altas para gramíneas do gênero Brachiaria cultivadas nos cerrados. Houve um
decréscimo na qualidade dessas gramíneas durante o período seco, mas a proteína
bruta, que é o maior fator limitante das espécies de Brachiaria, permaneceu acima do
limite crítico de 7%, considerado mínimo para a manutenção das atividade
microbiana ruminal.
A cultivar Xaraés lançada pela Embrapa em 2002 e a cultivar Piatã lançada
em 2007, representam novas opções para a diversificação de pastagens no Brasil
tropical. A cv. Xaraés, a despeito de sua moderada resistência à cigarrinha-das-
pastagens, proporciona desempenho animal semelhante ao da cultivar Marandu,
porém possui vantagens importantes como maior produção de forragem e mais
rápida rebrotação após o pastejo, garantindo maior capacidade de suporte durante o
período chuvoso e conseqüentemente maior produtividade anual (Valle et al., 2004).
Além disso, o florescimento tardio (outono) resulta em maior valor nutritivo por mais
tempo durante o período chuvoso e sua boa adaptação a solos de cerrados de
fertilidade média somada a boa resposta a adubação, a tornam uma excelente
alternativa aos extensos monocultivos da cv. Marandu hoje existentes. Já a cv. Piatã,
nos dois anos de avaliação destacou-se pela elevada taxa de crescimento foliar, maior
disponibilidade de folhas sob pastejo e bom valor nutritivo. Apesar dos ganhos de
peso diários semelhantes entre as cultivares Marandu e Piatã, esta última produziu,
em média, 45 kg.ha-1ano de peso corporal a mais do que a cv. Marandu.
Um outro ensaio em andamento na Embrapa Gado de Corte avalia a B.
humidicola cv. Tupi comparada à comum, em uma área de 15 ha, com solo
classificado como Laterita Hidromórfica e caracterizado por apresentar textura
argilosa, pH ácido, baixa saturação de bases e alta concentração de alumínio.
A área experimental para avaliação da B. humidicola cv. Tupi sob pastejo foi
implantada em out/03. A entrada dos animais experimentais ocorreu em meados de
maio/04 e a partir de 03/06/04 tiveram início as pesagens e amostragem nos pastos a
cada 28 dias. Na implantação, foi realizada a calagem e adubação de semeadura com
400 kg.ha-1 da fórmula NPK 15-15-15.
A cultivar Tupi apresentou tempo de estabelecimento inferior e cobertura do
solo superior à comum, resultando em uma menor incidência de invasoras. Foi
observada a presença de cigarrinha-das-pastagens em ambas as cultivares avaliadas,
porém sem danos significativos até o momento. Os níveis de infestação e de danos
nas pastagens estão sendo monitorados mensalmente. Durante o primeiro período
avaliado (junho 2004 a maio de 2005) a cultivar Tupi apresentou maior
disponibilidade de forragem e de folhas, repercutindo em maior capacidade de
suporte e desempenho animal (Tabela 7) (M. Gontijo e R. Barbosa, dados não
publicados).
O valor dessa nova cultivar necessita ser comprovado durante o segundo ano
em pastejo, bem como avaliar seu desempenho em outras regiões do país. Essa
forrageira foi utilizada na implantação de um ensaio no Acre e em outro na região da
mata Atlântica no Sul da Bahia em 2007.
Tabela 7 – Taxa de lotação (TL, UA.ha-1), ganho médio diário (GMD, g.animal-1.dia)
e ganho por área (G/A) (kg.ha-1) do primeiro ano de avaliação das
cultivares de B. humidicola em Campo Grande, MS
Cultivares TL
(UA.ha-1)
GMD
(g.an-1dia)
G/A
(Kg.ha-1)
Tupi 2,15 0,462 725,0
Comum 1,79 0,418 530,0
Prob.(F)1 0,0025 0,3273 0,0240
CV (%)2 3,35 10,99 10,74
1Probabilidade de significância pelo teste F; 2Coeficiente de variação
Fonte: M. Gontijo e R. Barbosa, dados não publicados.
7.6 – Melhoramento genético
O cenário da agropecuária moderna diante de pressões ecológicas, fundiárias e
até mercadológicas, é de utilização sustentável dos recursos naturais, com otimização
dos insumos e retornos financeiros. Neste contexto, as pastagens, que sempre foram
relegadas a um plano secundário e normalmente ocupando solos de menor
fertilidade, vêm merecendo crescente interesse e competindo com a agricultura por
insumos e tecnologias. A intensificação desta atividade pressupõe o desenvolvimento
de cultivares de forrageiras com melhor desenvolvimento e eficiência na utilização
dos insumos, daí a grande demanda por variedades e, ou, cultivares melhoradas e
adaptadas aos diversos ecossistemas pastoris do País.
A seleção a partir da variabilidade natural em coleções tem sido o principal
método de melhoramento utilizado para forrageiras tropicais no Brasil. Para muitas
espécies nativas e exóticas, este processo continua válido e deverá ser responsável
pela obtenção, a curto prazo, de cultivares superiores (Savidan e Valle, 1999). Este
método, apesar de simples e rápido, é finito, visto que se baseia apenas na avaliação
da capacidade adaptativa de plantas coletados na natureza. Problemas como a
acelerada destruição dos habitats das plantas forrageiras, especialmente das
gramíneas africanas de grande impacto na produção animal brasileira como as
forrageiras dos gêneros Panicum e Brachiaria, com conseqüente perda de
variabilidade natural, ou restrições ao livre acesso ao germoplasma pelas leis de
proteção de cultivares, indicam que o melhoramento de forrageiras via recombinação
genética passará a se constituir na melhor opção na geração de novas cultivares.
Os critérios de mérito para plantas forrageiras são complexos e demorados em
serem determinados pois é necessário considerar a intricada relação solo-planta-
animal, da pressão de seleção sob pastejo depende a identificação de características
forrageiras importantes, como o perfilhamento, a capacidade de competição e
ressemeadura natural, a rebrotação e a persistência da planta, bem como o consumo e
transformação da forrageira em produto animal para consumo humano. Dessa forma,
o objetivo com o melhoramento não se restringe em obter uma planta mais produtiva,
mas em conseguir maior eficiência na transformação da mesma em produção animal.
Apenas a partir da década de 1980, é que foram iniciados no Brasil, os
primeiros programas de melhoramento per se: Brachiaria e Panicum na Embrapa
Gado de Corte; capim-elefante na Embrapa Gado de Leite e Instituto Pernambucano
de Agropecuária, e Paspalum e Andropogon na Embrapa Pecuária Sudeste.
As principais limitações inerentesao melhoramento de forrageiras tropicais
sào apresentadas em Pereira et al., (2001) são: 1) Dificuldade de acesso ao
germoplasma, visto que a maioria das espécies de gramíneas importantes é exótica,
com exceção do Paspalum; 2) Pequeno conhecimento sobre a variabilidade da
maioria das espécies leguminosas nativas que apresentam bom potencial forrageiro;
3) Elevado número de espécies apresentando alta complexidade de estrutura
reprodutiva (alogamia, autogamia, propagação vegetativa, apomixia) e níveis de
ploidia (diplóides, triplóides, tetraplóides e hexaplóides); 4) Pequeno estoque de
informações básicas sobre a biologia e a genética de forrageiras a serem melhoradas
(modo de reprodução, localização de genes, estudos sobre herança das principais
características de interesse, etc.); 5) Necessidade de adaptação das metodologias de
melhoramento e técnicas experimentais para muitas das espécies; 6) Baixo nível de
domesticação das espécies, dificultando os procedimentos de melhoramento e a
adaptação aos agrossistemas; 7) Presença de auto-esterilidade, impossibilitando a
autofecundação em muitas espécies; 8) Sensibilidade ao fotoperíodo e isolamento
reprodutivo temporal, dificultando a recombinação de muitos genótipos; 9)
Deficiência na produção de sementes (deiscência, baixa viabilidade, florescimento
indeterminado); 10) Demora na obtenção de novas cultivares decorrente da
necessidade de avaliação com animais e persistência.
A estratégia para o melhoramento de forrageiras deve conter as seguintes
fases: identificação das características importantes a serem melhoradas; escolha da
metodologia adequada para avaliação da forrageira; identificação de fontes de
variação genética dentro do germoplasma disponível; escolha e recombinação dos
progenitores; seleção dos segregantes superiores; comparação das forrageiras
melhoradas com um padrão existente; avaliação do comportamento animal e
desenvolvimento da planta e distribuição de novas cultivares.
No programa de melhoramento de Brachiaria algumas deficiências das
cultivares hoje utilizadas comercialmente são reconhecidas: B. decumbens cv.
Basilisk é susceptível à cigarrinhas-das-pastagens; B. brizantha cv. Marandu é
resistente ao inseto, mas susceptível a Rhizoctonia e menos persistente em solos
ácidos, pobres, e mal drenados; a cv. La Libertad é menos produtiva e susceptível às
cigarrinhas comuns em pastagens além de baixa produção de sementes; B.
humidicola comum é bem adaptada a condições de solos mal drenados, mas
apresenta menor valor nutritivo e é apenas tolerante a cigarrinhas-das-pastagens; B.
ruziziensis, a única espécie sexual mas diplóide entre essas, apresenta o melhor valor
nutritivo, porém é susceptível a cigarrinhas-das-pastagens e não persiste em solos
ácidos nem tolera longos períodos secos (Miles e Valle, 1996; Miles et al., 2004).
A avaliação agronômica de acessos do banco de germoplasma descortinou
uma variabilidade significativa permitindo a seleção de ecótipos promissores e
potenciais parentais apomíticos tanto no Brasil como na Colômbia (Valle e Miles,
2001; Miles et al., 2004). O programa de melhoramento da Embrapa Gado de Corte
foi iniciado, com o objetivo de obter híbridos persistentes, por intermédio de
cruzamentos interespecíficos, que reúnam características desejáveis de dois ou mais
progenitores agronomicamente promissores, tais como adaptação a solos ácidos, alta
produtividade, bom valor nutritivo e, principalmente, resistência à cigarrinhas-das-
pastagens. Para tanto tem sido usado o cruzamento interespecífico cruzando-se
plantas sexuais com outras apomíticas e estudando-se o modo de reprodução nas
progênies (Valle e Savidan, 1996; Savidan e Valle, 1999).
Híbridos sexuais promissores podem ser reaproveitados em novos cruzamentos
enquanto híbridos apomíticos podem ser imediatamente incorporados a avaliações
agronômicas para identificação de novas cultivares. Os cruzamentos são feitos em
casa de vegetação com plantas sexuais em vasos e o pólen apomítico trazido de
inflorescências colhidas no campo. As sementes obtidas são germinadas
individualmente e quando as plantas florescem, o modo de reprodução é determinado
por intermédio de análises dos ovários clarificados e microscopia com contraste de
interferência. Este é um processo moroso, que requer infra-estrutura e pessoal
capacitado por isso o interesse em identificar marcadores moleculares para a
detecção precoce e segura desta característica no melhoramento de gramíneas
apomíticas.
Ao explorar a apomixia existente no complexo B. brizantha/B. decumbens por
meio de B. ruziziensis sexual, tetraploidizada artificialmente, viabilizou-se a
produção de híbridos interespecíficos para avaliação de desempenho agronômico, ao
mesmo tempo em que se estudou a herança da apomixia que em Brachiaria é
simples e dominante sobre a sexualidade (Valle e Savidan, 1996; Savidan e Valle,
1999). Num estudo envolvendo híbridos pré-selecionados utilizou-se um índice
visando facilitar a seleção de genótipos superiores com base em diversos caracteres
de importância agronômica (Valle et al, 2004b). O experimento em campo foi
instalado num desenho em látice com duas repetições e sete blocos, envolvendo 45
híbridos e duas testemunhas, cv. Marandu e cv. Basilisk. Caraterísticas quantitativas
e qualitativas foram utilizadas e coeficientes atribuídos dependendo da importância
relativa da característica para a produção animal. As características herdabilidade
individual no sentido amplo, repetibilidade individual e valores médios de produção
para os 47 genótipos e para cada característica mostraram valores altos refletindo a
boa sensibilidade para seleção de genótipos superiores, bem como o potencial de
vários desses genótipos como futuras cultivares. A combinação de caracteres num
índice de seleção mostrou-se viável e importante por permitir uma ponderação
conjunta de fatores de seleção. Com base nos valores obtidos foi possível identificar
híbridos sexuais superiores para integrarem novos cruzamentos no programa de
seleção recorrente recíproca, bem como híbridos apomíticos para alocação em
ensaios regionais visando avaliar a interação genótipos-ambientes.
No programa de melhoramento de braquiária no CIAT (Colômbia), seis ciclos
de seleção recorrente para resistência à cigarrinhas-das-pastagens típicas do país, em
populações sintéticas mostraram progressos significativos (Miles et el, 2006). A
seleção foi baseada na sobrevivência de ninfas em plantas infestadas artificialmente
em casa de vegetação. A sobrevivência de ninfas de Aeneolamia varia em genótipos
selecionados tendo constatado queda de 55,6 para 7%, do segundo ao sexto ciclo de
recombinação respectivamente. Parentais sexuais com altos níveis de resistência as
três principais espécies de cigarrinhas-das-pastagens colombianas foram obtidos, mas
segundo os autores, resta avaliar se essa resistência será expressa em cruzamentos
com genitores apomíticos susceptíveis e se haverá algum tipo de reação cruzada com
outros gêneros de cigarrinha-das-pastagens.
Dentro do melhoramento tradicional como no exemplo citado anteriormente,
um dos objetivos centrais consiste em corrigir deficiências nas cultivares existentes
quanto à características de interesse agronômico. Rotineiramente este aprimoramento
é feito por meio de cruzamentos das cultivares comerciais com linhagens que
possuem as características desejadas. Esse processo que envolve a introgressão de
genes de interesse, embora efetivo, é relativamente lento, uma vez que envolve várias
gerações de cruzamentos e uma seleção fenotípica altamente criteriosa para a
identificação de genótipo elite. Ao realizar os cruzamentos, genes indesejáveis
ligados às características de interesse podem ser também introduzidos e necessitam
ser eliminados através de gerações de seleção.
Emboraa base genética de algumas características de interesse em forrageiras
seja conhecida, pode-se dizer que para a maioria dos caracteres de maior
importância, a herança genética é complexa, pouco conhecida e freqüentemente
poligênica. Apesar disso, o melhoramento tem proporcionado um aumento contínuo
da produtividade das plantas cultivadas. Entretanto, ganhos adicionais exigirão, cada
vez mais, um melhor conhecimento da biologia das espécies, bem como da resposta à
seleção ao nível genotípico (Souza, 2001).
Uma série de exemplos ilustra o uso da biotecnologia para amplificar e tornar
mais eficientes os programas de melhoramento. Metodologias de biologia molecular
e celular têm sido amplamente utilizadas em grandes culturas seja para a conservação
in situ e ex situ de recursos genéticos; no estudo da organização e da evolução de
genomas; no isolamento e na caracterização de genes que codificam características
específicas e na comparação da variabilidade inter e intra específicas, para citar
somente algumas vantagens. Programas de melhoramento de forrageiras de clima
temperado como alfafa e azevém na Europa e Estados Unidos já utilizam essas
estratégias na obtenção de variedades, enquanto forrageiras tropicais ainda carecem
de estudos básicos que vão desde a definição do tamanho de genoma até
estabelecimento de protocolos de extração de DNA e escolha de marcadores
moleculares eficientes.
No caso das braquiárias, estudos com marcadores moleculares foram iniciados,
primeiramente utilizando marcadores RAPD com o objetivo de determinar tanto a
natureza híbrida das progênies, uma vez que a emasculação não é praticada nos
cruzamentos, como de identificar marcadores para a apomixia (Bonato et al., 2002a e
b). Como marcadores dominantes, RAPD não foram robustos suficientes no estudo
da apomixia, mas são muito interessantes para o estudo de diversidade e na
identificação de genótipos (fingerprinting). Estudou-se ainda a transferibilidade de
marcadores microssatélites (SSR) de gramíneas como arroz, trigo e milho, para
braquiária na esperança de poupar trabalho em desenvolver os próprios para
Brachiaria (Arruda et al., 2006). Foram testados 60 pares de primers, sendo 50 de
milho, cinco de arroz e cinco de trigo, em seis acessos de B. brizantha, B.
decumbens, B. humidicola, e dois de B. ruziziensis e um acesso de Panicum
maximum, pertencentes ao banco de germoplasma da Embrapa Gado de Corte. Os
resultados corroboraram a hipótese de transferibilidade, pois 13 pares de primers de
milho, quatro de trigo e quatro de arroz amplificaram possíveis regiões
microssatélites para pelo menos um genótipo de Brachiaria e oito pares de primers
de milho, cinco de trigo e dois de arroz amplificaram no acesso de P. maximum. Dos
pares de primers transferidos apenas um, desenvolvido originalmente para trigo,
gerou bandas polimórficas entre acessos de B. brizantha e B. decumbens. Os demais
foram monomórficos tanto dentro como entre as espécies estudadas, talvez devido à
metodologia utilizada para separação das bandas. Uma vez que novas análises
necessitariam ser realizadas para que esses microssatélites pudessem ser utilizados
em análises genéticas, decidiu-se por construir banco de microssatélites para
Brachiaria, já visando seu mapeamento e aproveitando a oportunidade de
colaboração em projeto Unicamp-Embrapa (Jungmann et al., 2005). O objetivo
principal é desenvolver e caracterizar marcadores microssatélites em cinco espécies
de Brachiaria, visando primeiramente o germoplasma de B. brizantha para realizar
estudos de divergência genética, mapeamento de características de importância
agronômica, e seleção assistida por marcadores moleculares. Além disso, este projeto
deverá promover avanços em direção a estudos de variabilidade genética,
mapeamento genético, identificação de híbridos obtidos por cruzamentos inter e
intraespecíficos e caracterização individual de acessos (DNA fingerprinting), visando
aplicação no controle de pureza varietal para comercialização de sementes
forrageiras. Bibliotecas enriquecidas com microssatélites foram construídas para as
cinco espécies: B. brizantha, B. decumbens, B. dictyoneura, B. humidicola e B.
ruziziensis, a partir de DNAs genômicos e no momento os microssatélites estão
sendo caracterizados (Jungmann et al., 2005).
Recentemente iniciaram-se os estudos envolvendo o germoplasma de B.
humidicola na Embrapa Gado de Corte, com vistas a estimar a variabilidade genética
da coleção morfologicamente bastante semelhante. Marcadores RAPD foram
utilizados em 58 acessos do Banco de Germoplasma, originários de diferentes
localidades da África (Rippel et al., 2006). Dentre estes, apenas um acesso apresenta
modo de reprodução sexuada e é tetraplóide. Os demais acessos são apomíticos e
apresentam diferentes níveis de ploidia, principalmente tetra e hexaplóides. Um total
de 100 bandas foi obtido com o uso de 10 primers previamente selecionados e 99%
das bandas foram polimórficas. A similaridade genética variou de 0,14 a 0,97,
evidenciando uma alta variabilidade genética neste grupo de acessos, diferentemente
do que foi encontrado por análises morfológicas. Os resultados das análises de
agrupamento pelos métodos de Tocher e UPGMA foram muito similares e não
mostraram relação com o local de origem dos acessos na África ou com o nível de
ploidia dos mesmos.
Estes resultados associados aos conhecimentos já existentes sobre a
citogenética, e caracterizações morfológica e agronômica de B. humidicola serão de
suma importância no programa de melhoramento recém iniciado com essa espécie.
Cruzamentos artificiais intraespecíficos resultaram numa população segregante tanto
para modo de reprodução como para caracteres agronômicos. Marcadores RAPD
serão utilizados inicialmente na identificação dos híbridos e das plantas resultado de
autopolinização, mas poderão auxiliar ainda na escolha dos genitores divergentes
para hibridações futuras. Esta população será utilizada ainda para estudos sobre o
mecanismo da apomixia em projeto em colaboração com a Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia que visa identificar os mecanismos de regulação temporal
e espacial e determinação da função de algumas seqüências expressas já isoladas, na
formação do gametófito feminino (Rodrigues et al., 2003). Além disso pretende-se
desenvolver marcadores citológicos (FISH e GISH) e moleculares para determinação
precoce do modo de reprodução em plantas, além de aperfeiçoar as técnicas de
cultura de tecidos para análise direta da expressão da apomixia, haplóides,
transgênicos e híbridos intraespecíficos. Os resultados previstos para os próximos
três anos são essenciais para se estabelecer estratégias de regulação da expressão da
apomixia em Brachiaria.
8 - REFERÊNCIAS
Anônimo. Agricultura avança sobre pastagens, mas pecuária continua crescendo. Jornal dos
Criadores, 4 (44):5. 2004.
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lowlands. In: Miles, J.W.; Maass, B.L.; Valle C.B., ed. Brachiaria: Biology, Agronomy, and
Improvement. Cali: CIAT/Brasília:EMBRAPA-CNPGC, 1996. p.205-224.
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Desenvolvimento).
Barbosa, R.A. (ed). Morte de pastos de Braquiárias. Campo Grande, MS: Embrapa Gado de Corte,
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CAPÍTULO 3
GÊNERO Cynodon
Carlos Guilherme Silveira Pedreira
1 – INTRODUÇÃO
Os nomes comuns "capim-bermuda", "grama-bermuda", "capim-estrela", e
"grama- estrela", compreendem um amplo grupo de genótipos do gênero Cynodon
L.C. Rich. (Taliaferro et al., 2004). Dentro da família das Poaceas, esse gênero,
apesar de relativamente pequeno, abrange espécies de importância econômica
amplamente reconhecidas pelo seu valor forrageiro além de poderem ser utilizadas
para conservação do solo. As gramas-bermuda [Cynodon dactylon (L.) Pers.], são
também bastante usadas em gramados ornamentais e esportivos em várias partes do
globo.
Os nomes comuns bermuda e estrela (dentre as quais se destaca C.
nlemfuënsis Vanderyst), são freqüentemente usados de maneira inconsistente na
literatura técnico-científica. Enquanto que "estrela" refere-se, em geral, aos taxa não
rizomatosos nativos do leste do continente africano, qualquer taxa rizomatoso é
normalmente classificado como grama-bermuda (Harlan, 1970). Para efeito de
padronização, este capítulo seguirá a classificação proposta por Taliaferro et al.
(2004), que propuseram o nome vulgar grama-estrela para as três principais espécies
não-rizomatosas, com centro de origem no leste da África, C. aethiopicus Clayton et
Harlan, C. plectostachyus (K. Schum.) Pilg., e C. nlemfuënsis Vanderyst. Outras
espécies de grama-estrela são, no entanto, apresentadas no transcorrer do texto. O
nome comum "grama-bermuda" ou "capim-bermuda" será usado para outras
espécies.
Na literatura técnico-científica antes de 1970 parece não haver consenso
sobre a classificação taxonômica dos ecótipos Cynodon do Leste Africano (Harlan,
1970). Por exemplo, espécies que na literatura pré 1970 eram classificadas como C.
plectostachyus ou C. dactylon, passaram a ser classificadas como C. aethiopicus ou
C. nlemfuënsis pelo sistema revisado, proposto por Harlan (1970). Há evidências de
que as espécies de Cynodon avaliadas sob corte e pastejo em estudos anglo-africanos
na segunda metade da década de 1960 e identificadas como C. dactylon, eram
provavelmente C. nlemfuënsis ou, em alguns casos, C. aethiopicus (Bogdan, 1977).
2- TAXONOMIA, CENTROS DE ORIGEM, VARIABILIDADE E
MELHORAMENTO GENÉTICO EM CYNODON
O gênero Cynodon representa, portanto, um grupo pequeno e
sistematicamente distinto dentro da subfamília Chloridoideae, família Gramineae
(sin. Poaceae) (Clayton e Renvioze, 1992). Harlan et al. (1970b) agruparam oito
espécies de Cynodon de acordo com sua distribuição geográfica. A maioria das
espécies estudadas, incluindo C. dactylon (L.) Pers. (Figura 1), C. nlemfuënsis
Vanderyst (Figura 2), C. plectostachyus (K. Schum.) Pilg. (Figura 3), e C.
aethiopicus Clayton et Harlan (Figura 4), encontram-se distribuídas por grande parte
da porção tropical e, às vezes subtropical do leste da África. Cynodon incompletus
Nees. (Figura 5) e C. transvaalensis Burtt-Davy (Figura 6) são encontradas na África
do Sul enquanto que C. arcuatus J. S. Presl ex C. B. Presl e C. barbieri Rang et Tad
(as últimas duas estando completamente isoladas geneticamente uma da outra e de
outras espécies de Cynodon) ocorrem predominantemente no Sul da Ásia e ilhas do
Pacífico Sul (Figura 7).
Figura 1. Distribuição de Cynodon dactylon (exceto var. dactylon) no continente
africano (adaptado de Harlan e de Wet, 1969).
Figura 2- Distribuição de C. nlemfuënsis var. nlemfuënsis (A) e var. Robustus (B) no
leste do continente africano (adaptado de Harlan et al.,1970b).
A
B
Figura 3- Distribuição de C. plectostachyus no leste do continente africano (adaptado
de Harlan et al.,1970b).
Figura 4- Distribuição de C. aethiopicus no leste do continente africano (adaptado de
Harlan et al.,1970b).
Figura 5- Distribuição de C. incompletus var. Incompletus e C. incompletus var.
Hirsutus na África do Sul (adaptado de Harlan et al.,1970b).
Figura 6- Distribuição de C. transvaalensis na África do Sul (adaptado de Harlan et
al.,1970b).
Figura 7- Distribuição de C. arcuatus e C. barbieri no Sul da Ásia e ilhas do
Pacífico Sul (adaptado de Harlan et al.,1970b).
Clayton e Harlan (1970) elaboraram uma chave para a identificação das
espécies africanas tropicais de Cynodon usando a presença de rizomas como
principal característica de diferenciação entre C. dactylon (as gramas ou capins
bermuda, com rizomas) e C. plectostachyus, C. aethiopicus, e C. nlemfuënsis (estas
três, gramas ou capins estrela, sem rizomas), enfatizando, entretanto, que dentro de
C. dactylon existe ainda grande variabilidade. Harlan e de Wet (1969) identificaram
seis variedades botânicas dentro da espécie e as agruparam de acordo com sua
distribuição geográfica (Figura 1). As variedades elegans e polevansii sãorazoavelmente abundantes no Sudeste da África, ao sul do paralelo 10º S. A
variedade coursii é a que predomina na Ilha de Madagascar, também sudeste do
continente Africano. A variedade aridus é encontrada entre as latitudes 15º S e 35º
N, desde o Sudeste Africano até a região que inclui o Nordeste do Egito e Sul de
Israel, além das regiões Norte e Centro-norte da Índia. A variedade polevansii foi
observada em apenas uma localidade na África do Sul enquanto que os acessos da
variedade afghanicus são todos provenientes do Afeganistão.
Em contraste com as variedades descritas anteriormente, a variedade dactylon
tem uma distribuição geográfica "notável" (Harlan e de Wet, 1969), não apenas na
África e na Ásia, mas em todos os continentes com exceção da Antártica. Foram
encontrados espécimes em latitudes tão ao norte como a Sibéria (53º N). Entretanto,
apesar de ser uma espécie "cosmopolita" os autores enfatizaram que não se deve
imaginar grandes áreas e estandes puros da variedade dactylon, exceto sob condições
artificiais, uma vez que essa variedade só prevalece em condições de perturbação
extrema do ecossistema e não é capaz de invadir áreas de pastagens nativas ou de
florestas.
Em um trabalho clássico, Harlan (1970) relatou que embora não haja registro
formal da introdução de gramíneas Cynodon no continente americano, sua entrada na
América do Norte deve ter ocorrido no início ou meados do século XVIII. Em
levantamento bibliográfico usando documentos históricos, Burton e Hanna (1995)
encontraram o que parece ser os primeiros registros a respeito das gramas-bermuda
no continente americano. Segundo levantamento desses autores há registros
históricos que suportam que "as gramas-bermuda foram trazidas para Savannah
(cidade do estado da Georgia, EUA) pelo governador Henry Ellis em 1751". O
mesmo registro histórico comentava que se áreas de pastagens cultivadas fossem
implantadas e expandissem no sudeste dos EUA, essa gramínea teria certamente um
papel importante nesse processo de expansão. Apesar disso, Harlan (1970) afirmou
que, não obstante o grande número inicial de entusiastas, a grama-bermuda
(referindo-se provavelmente à variedade comum, ou grama-seda) adquiriu
rapidamente a fama de invasora altamente problemática para os agricultores do sul
dos EUA, uma vez que a maioria deles (produtores de algodão e milho,
principalmente) tinham como principal meta erradicar a gramínea ao invés de
multiplicá-la (Burton e Hanna, 1995). Seus rizomas vigorosos e numerosos eram
facilmente disseminados com o uso dos implementos cultivadores movidos à tração
animal e um estande estabelecido era praticamente impossível de ser destruído com
os mesmos equipamentos (Harlan, 1970). Em contraste com as bermudas, a
introdução das gramas-estrela na América do Norte parece ter ocorrido bem mais
tarde, com o início dos trabalhos de G.W. Burton em 1937 (Taliaferro et al., 2004), a
partir dos quais as coleções de germoplasma foram se ampliando via intercâmbio e
viagens de coleta.
Não parece haver registro formal ou oficial de Cynodon no território brasileiro e
o mais provável é que, ao menos as primeiras introduções tenham ocorrido de forma
semelhante ao que se sucedeu nas Américas Central e do Norte, por navios
provenientes da África, fazendo o comércio de escravos, bastante intenso entre os
séculos XVII e XVIII. A evolução do uso dos capins Cynodon no território
brasileiro também é pobremente documentada, e a maioria dos trabalhos de pesquisa
reporta sobre avaliações de acessos importados das Américas Central e do Norte.
De maneira geral, a atitude dos agricultores do Sul dos EUA com relação à
grama-bermuda (i.e., a cultivar "comum", ou grama-seda) permaneceu a mesma até o
desenvolvimento e lançamento da cv. Coastal (Burton, 1943; citado por Harlan,
1970). Coastal é o resultado do cruzamento entre uma linhagem local encontrada em
campos de algodão na Georgia e uma introduzida da África. Não se tem mais registro
da introdução africana utilizada sendo, portanto, impossível a sua identificação, mas
os rizomas proeminentes e bem desenvolvidos da cv. Coastal sugerem que deve ter
sido alguma "raça" ou variedade botânica de C. dactylon (Harlan, 1970). Além disso,
o fato de que Coastal é “tetraplóide, formando um estande aberto, plantas delgadas,
meio eretas, folhas azuladas, rizomas esparsos e tolerância moderada às baixas
temperaturas, sugere que a outra linhagem parental era um acesso de C. dactylon var.
elegans" (Harlan, 1970). Em ensaios com pequenas parcelas, Coastal produziu duas
vezes mais (kg.ha-1 de MS) do que a variedade Bermuda Comum (grama-seda) e foi
superior a ambas as linhagens parentais, embora não tenha produzido sementes
viáveis (Burton, 1989).
O desenvolvimento da cv. Coastal pode ser visto como um marco, não apenas
no contexto de desenvolvimento da pecuária do sudeste dos EUA, mas também (e,
talvez, principalmente) no campo do melhoramento genético de plantas. Ao contrário
da variedade de grama-bermuda comum, a cv. Coastal não é uma "planta invasora",
embora sua aceitação tenha acontecido de maneira lenta e relutante devido à sua "má
fama" e à necessidade de propagação vegetativa (Harlan, 1970; Burton, 1989).
Todavia, a não-produção de sementes, aliada ao fato de que seus rizomas não eram
particularmente “perniciosos”, foram justamente as características que fizeram com
que a Coastal deixasse de ser considerada uma planta daninha, uma vez que podia,
agora, ser mais facilmente controlada e até mesmo erradicada.
Além das técnicas de melhoramento e de seleção para características
agronômicas desejáveis (produtividade, persistência, etc.), outras características
controladas geneticamente (e.g., digestibilidade) foram usadas no passado como
critérios de seleção em programas de melhoramento. A cultivar Coastcross, um
híbrido interespecífico F1 entre Coastal e uma introdução C. nlemfuënsis com alta
digestibilidade proveniente do Quênia, é um exemplo.
Segundo Harlan (1970), essa combinação de eventos relacionados com o
desenvolvimento de novos genótipos a partir de melhoramento e, ou seleção, resultou
numa verdadeira revolução na atividade pecuária do Sudeste dos EUA a partir de
meados do século XX. Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, a ocasião era
particularmente oportuna, uma vez que a economia baseada na monocultura do
algodão começava a experimentar um rápido declínio. Pesquisas sobre o potencial
forrageiro das gramas-bermuda foram se tornando mais numerosas, à medida que era
preciso avaliar as novas forrageiras resultantes de programas de melhoramento
genético, fossem essas híbridos ou seleções de acessos introduzido. Harlan (1970)
afirmou ainda que "mais importante, talvez, foi a revolução na atitude dos
agricultores diante das gramas-bermuda e a revelação para os melhoristas de plantas
do potencial para melhoramento genético. Ambos, postulou o autor, viriam a ter
importantes conseqüências”.
A cultivar Coastal foi largamente distribuída e áreas comerciais consideráveis
foram plantadas pelo Sudeste Norte-americano. Em pouco tempo, novos híbridos
foram desenvolvidos, especialmente no programa de melhoramento de G.W. Burton,
em Tifton. Por todo o Sudeste Subtropical do país novos híbridos e, ou cultivares de
Cynodon foram lançados por Universidades e centros de pesquisa com o objetivo de
atender especificidades edafo-climáticas regionais. As cultivares Suwannee (Burton,
1962), Coastcross-1 (Burton, 1972), e Tifton 44 (Burton e Monson, 1978), são alguns
exemplos oriundos do programa de melhoramento da estação de Tifton. Para áreas
mais frias do sudeste e para o meio-oeste dos EUA, a cultivar Midland foi lançada,
estendendo a adaptação da espécie para latitudes acima de 40ºN, como o sul do
estado do Kansas, além dos estados de Kentucky e Maryland (Decker, 1959). As
cultivares Greenfield(Elder, 1955), Hardie (Taliaferro e Richardson, 1980a), e Oklan
(Taliaferro e Richardson, 1980b) foram desenvolvidas para as condições de
Oklahoma (33 a 37ºN, nas planícies centrais da América do Norte). No estado da
Louisiana (30 a 32ºN, no Golfo do México) foram lançadas as cultivares Grazer
(Eichhorn et al., 1985a) e Brazos (Eichhorn et al., 1985b), sendo a Grazer
recomendada para pastejo e não para fenação, e Brazos servindo bem a ambos os
propósitos. O germoplasma Brazos-R3 (Crougham et al., 1994) foi desenvolvido
utilizando-se técnicas de cultura de tecidos, a partir de tecido de estolões da cultivar
Brazos, e lançada no mercado norte-americano como resistente a Spodoptera
frugiperda (J. E. Smith) e ao metabólito ativo produzido pelo fungo Bipolaris
cynodontis [Maringoni (Shoemaker)]. Adicionalmente, Brazos-R3 possui elevado
potencial produtivo e bom valor nutritivo. Outras cultivares como Callie (uma
seleção de C. dactylon var. aridus) e Alicia (selecionada de C. dactylon var.
elegans), ambas suscetíveis a baixas temperaturas e à ferrugem (Puccinia cynodontis
Lac. ex Desmaz) são também usadas em áreas do sudeste subtropical dos EUA
(Burton e Hanna, 1995).
Alguns genótipos de Cynodon disponíveis comercialmente tiveram seu
desenvolvimento associado a aspectos interessantes e, às vezes, curiosos. O caso da
cultivar Coastcross é um exemplo. Originalmente lançada com o nome comercial
Coastcross-1, essa forrageira apresentou boas características agronômicas e de valor
nutritivo, embora sua tolerância às baixas temperaturas do inverno do sul dos EUA
fossem motivo de alguma preocupação, no tocante à sua persistência no caso de
invernos um pouco mais severos. Em 1971, através de programa de pesquisa
financiado pela Comissão de Energia Atômica (Burton et al., 1980), mudas de
Coastcross-1 foram transportadas de Tifton, no Estado da Georgia, para o
Comparative Animal Research Laboratory em Oak Ridge, leste do Estado do
Tennessee. As mudas foram expostas a uma fonte de radiação gama (60Co),
transportadas para a Georgia Mountain Experiment Station em Blairsville, Norte do
estado da Georgia, onde invernos relativamente rigorosos ocorrem com frequência, e
plantadas. Na primavera de 1972 apenas quatro plantas sobreviviam e, transportadas
de volta para Tifton, uma delas desenvolveu um rizoma tendo sido subsequentemente
multiplicada. Esse material foi denominado Coastcross 1-M3 e, posteriormente
Coastcross-2. Em avaliações subsequentes, notou-se que a nova Coastcross-2 era
realmente mais tolerante ao frio do que Coastcross-1, tendo mantido as outras
características agronômicas e de qualidade, passando então a ser a nova forrageira
distribuída pela Coastal Plain Experiment Station em Tifton. Essa continua sendo,
atualmente, a forrageira distribuída a produtores e demais interessados, por aquele
centro de pesquisa, e denominado simplesmente Coastcross (Dr. R. N. Gates, CPES,
Univ. of Georgia; comunicação pessoal). Em condições experimentais, Coastcross
foi cerca de 12 a 13% mais digestível e até 160% mais produtiva que Coastal
(Burton, 1947; Burton et al., 1967).
Mais recentemente, um renovado interesse por forrageiras do gênero
Cynodon tem sido observado, de certa forma motivado por uma sequência de novos
lançamentos de cultivares comerciais nos EUA, que foram rapidamente introduzidas
e disseminadas no nosso meio, aparentemente de maneira mais rápida que as
informações a elas pertinentes. Tifton 68, apesar de ser classificada como C.
nlemfuënsis, é considerada uma grama-bermuda por Burton e Monson (1984), e
constitui-se num híbrido F1 vigoroso, não-rizomatoso, que produz forragem
altamente digestível, resultado do cruzamento entre as duas linhagens de maior
digestibilidade de toda a coleção da estação experimental de Tifton, nos EUA. Tifton
78, o melhor híbrido F1 resultante do cruzamento de Tifton 44 (extremamente
tolerante às baixas temperaturas e usada como linhagem paterna) com Callie (usada
como linhagem materna), foi lançada pelo seu vigor, estabelecimento fácil e rápido, e
boa produtividade já no início da estação de crescimento (primavera) em Tifton (sul
do estado da Georgia, EUA, aproximadamente 32º N) (Burton e Monson, 1988).
Mais recentemente, algumas novas cultivares de Cynodon têm sido objeto de
renovado interesse pelo gênero, com destaque para Tifton 85. Trata-se de um híbrido
F1 interespecífico entre Tifton 68 (C. nlemfuënsis) e uma introdução, aparentemente
C. dactylon, proveniente da África do Sul, denominada PI 290884. Foi descrita por
Burton et al. (1993) como sendo mais alta, com colmos maiores, folhas mais largas, e
com coloração verde mais escura que outras gramas-bermuda híbridas.
Curiosamente, essa descrição gerou, a princípio, grande confusão em nosso meio,
uma vez que muitos pecuaristas e produtores de mudas associaram a descrição à
Tifton 68, e algumas áreas inicialmente estabelecidas no Brasil com mudas de Tifton
85 eram, na verdade, pastagens de Tifton 68. Em ensaios realizados nos EUA, Tifton
85 produziu 26% mais massa seca que Coastal, foi 11% mais digestível, e também
mais "suculenta" (i.e., com menor teor de massa seca quando colhida com a mesma
idade, sob as mesmas condições) (Burton et al., 1993). A Tifton 85 também superou
a Tifton 68 em produtividade (em cerca de 20%), embora a digestibilidade in vitro da
massa seca (DIVMS) tenha sido geralmente superior na Tifton 68 do que na Tifton
85 (até 5 unidades percentuais).
Nas áreas mais quentes e úmidas da América do Norte (latitudes menores que
30º N, que correspondem ao extremo Sul-sudeste do estado do Texas, junto ao Golfo
do México) e, principalmente, a maior parte do estado da Flórida, dois grupos de
gramíneas Cynodon são comumente utilizadas, tanto para pastejo como na produção
de feno. Nas latitudes maiores (até ~32º N) as gramas-bermuda (C. dactylon) são
melhor adaptadas e sobrevivem bem aos invernos moderadamente frios. Conforme se
caminha em direção ao sul, passando pelas latitudes 29 e 28ºN ocorre uma transição
climática associada com aumento na proporção das gramas-estrela (C. nlemfuënsis
var. Nlemfuënsis e C. aethiopicus) entre as áreas de pastagens de Cynodon. Ao sul
dessa "zona de transição", os invernos são notadamente menos severos permitindo
boa sobrevivência dessas plantas não-rizomatosas às frentes frias que atingem a
região já com menor intensidade.
Harlan (1970) descreveu duas variedades de grama-estrela. A variedade robustus
é caracterizada por plantas robustas, com rácemos longos e delgados. Plantas da
variedade nlemfuënsis tendem a ser mais delgadas, menos robustas, com rácemos
mais curtos, e geralmente melhor adaptadas às temperaturas mais altas e ao estresse
hídrico do que as da variedade robustus. Além das diferenças morfológicas, as duas
variedades também diferem geneticamente entre si (Harlan et al., 1970d), embora
"tipos" intermediários que se cruzam com ambas variedades botânicas tenham sido
encontrados (Harlan, 1970). O principal centro de origem e distribuição das gramas-
estrela, parece corresponder à faixa tropical do Leste da África (principalmente
Quênia, Tanzânia, e Uganda) e Angola, na África Ocidental.
Dentre as diversas cultivares comerciais existentes, quatro têm sido utilizadas
na região subtropical da América do Norte. A cultivar McCaleb (C. aethiopicus) é
uma seleção dentre 39 introduções da África do Sul, escolhida por seu vigor e taxa
de crescimento de estolões (Hodges et al., 1975). A cultivar Ona é a seleção mais
vigorosa e competitiva dentre 39 introduções provenientes do Zimbábue (Hodges et
al., 1984; Alderson e Sharp, 1994). Ambas as cultivares encontram-se ainda em uso
na América do Norte, embora não sejam mais recomendadas pela Florida
Agricultural Experiment Station para o estabelecimento de novas áreas (Dr. P.
Mislevy, RCREC, Univ. of Florida;comunicação pessoal).
Os dois mais recentes lançamentos comerciais de grama-estrela nos EUA são as
cultivares Florico e Florona (Mislevy et al., 1989a, 1989b). A cultivar Florico foi
introduzida em Porto Rico em 1957, trazida do Quênia, e de Porto Rico para a
Flórida em 1972. Recebeu o registro de cultivar em 1993 (Mislevy et al., 1993a). A
cultivar Florona, mais persistente que Ona e Florico, foi observada pela primeira vez
em uma pastagem de capim-pensacola (Paspalum notatum var. saurae) na Range
Cattle Research and Education Center, estação experimental da Universidade da
Flórida, em 1974 (Mislevy et al., 1989b). Esse acesso foi coletado, multiplicado, e
submetido a ensaios de avaliação a partir de 1975, tendo sido posteriormente lançado
e recebendo o registro de cultivar em 1993 (Mislevy et al., 1993b). Embora bem
adaptadas às baixas latitudes da América do Norte, nenhuma das gramas-estrela
mencionadas é recomendada para áreas ao norte do paralelo 28ºN, por serem não-
rizomatosas e extremamente suscetíveis às baixas temperaturas, não sobrevivendo
mesmo aos invernos moderadamente rigorosos.
Diversas variações de C. dactylon são comercialmente usadas no sul da
América do Norte, incluindo Suwannee, Callie e Coastal. Uma das cultivares mais
recentemente lançadas, Florakirk surgiu comercialmente em 1995 (Mislevy et al.,
1995). Como a Tifton 78, a Florakirk também é um híbrido F1 entre Tifton 44 e
Callie mas de maneira recíproca (i.e., na Florakirk, Callie é linhagem paterna e
Tifton 44 a materna). A Florakirk vem sendo avaliada na Flórida desde 1978, na
condição experimental, tendo sido denominada Tifton 35-3, Callie hybrid 35-3, ou
simplesmente 35-3. Em Tifton (~800 km ao norte dos EUA), todavia, o híbrido
experimental 35-4 (resultante do mesmo cruzamento) apresentou melhores
características agronômicas e foi lançado como Tifton 78 (Burton e Monson, 1988).
Na Flórida, o híbrido 35-3 mostrou ter mais persistência, produtividade, e qualidade,
além de tolerância acima do normal (para C. dactylon) a solos mal-drenados. Dados
de avaliações sob corte ou pastejo intermitente apontam características agronômicas
e qualidade similares ou ligeiramente superiores as da Florakirk, quando comparada
às demais gramíneas Cynodon em uso na Flórida subtropical. Avaliação sob pastejo
em regime de lotação contínua indicou, entretanto, que a Florakirk é possivelmente
prejudicada por algum fator biótico ou de meio, tendo sido observada uma queda
drástica na persistência sob esse tipo de manejo (Pedreira, 1996). Nas condições
edafo-climáticas em que foi testada (com possível interação de um fator biótico
como Helminthosporium spp.) a Florakirk pode se beneficiar de um método de
utilização que inclua a desfolhação intermitente, tal como o pastejo rotativo ou
produção de feno.
Periodicamente aparecem no mercado novas forrageiras comerciais de
Cynodon oriundos de programas de melhoramento dirigidos para fins específicos ou
de obtenção casual de novas plantas que, após seleção e avaliação sob corte e
pastejo, são colocadas à disposição de produtores e pecuaristas. Como exemplos
recentes têm-se as cultivares Russell (Ball et al., 1996), lançada em 1994 e registrada
como cultivar em 1996, e Quickstand (Phillips et al., 1997), lançada em 1993 e
registrada como cultivar em 1997. Isso pode ser atribuído à grande variabilidade
genética dentro do gênero, o que está provavelmente relacionado com a diversidade
geográfica dos centros de origem e dispersão, e conferindo às plantas de Cynodon
spp. elevada flexibilidade de adaptação edafo-climática e, consequentemente,
considerável potencial de utilização nos trópicos e subtrópicos.
3 - CARACTERIZAÇÃO MORFOLÓGICA
A ampla distribuição geográfica de Cynodon está relacionada com grande
variabilidade genotípica e fenotípica, resultado do processo de evolução de raças
adaptadas a condições edafo-climáticas específicas. As gramas-bermuda variam
desde os tipos de pequeno porte que atingem no máximo 15-20 cm (Figura 8),
produzindo quantidades relativamente pequenas de fitomassa, até os tipos de grande
porte, que em crescimento livre podem formar dosséis de 1 m de altura ou mais
(Taliaferro et al., 2004).
Figura 8. Pastagem de grama-bermuda cv. Tifton 85 com dossel de cerca de 20 cm
de altura, embora para essa cultivar possa ficar mais alto.
Plantas da variedade dactylon, compõem o taxon de maior importância
econômica, dada a sua variabilidade morfológica, distribuição geográfica e potencial
de utilização. O desenvolvimento de raças contrastantes é atribuído à pressão
ambiental durante o processo evolutivo, cujos fatores compreendem, entre outros,
fertilidade e acidez do solo, doenças, regimes térmico e hídrico, e presença de
herbívoros pastejadores. Isso explica a ampla gama de variação entre a adaptação de
raças a ambientes que vão desde tropical úmido até árido e temperado. Há registros
de ocorência do taxon dactylon em latitudes próximas de 53° N e altitudes de 3.000
m (Harlan e de Wet, 1969), embora nunca formando estandes de grandes dimensões,
exceto em condições artificiais.
Plantas da variedade dactylon (Figura 9) são tipicamente rizomatosas,
variando das com colmos finos e folhas delgadas até as de colmos mais grossos e
folhas mais largas, embora raramente tanto quanto as estrelas. O Cynodon dactylon
var. dactylon é gramínea cosmopolita, invasora, forrageira, ou ornamental (do tipo
"turfgrass", usada em gramados, inclusive os esportivos), conhecida como grama-
seda entre outros nomes vulgares, largamente distribuída pelas regiões quentes do
globo (Harlan, 1970; Harlan et al., 1970c). Além da "raça" Tropical existem as
"raças" Temperada e Selêucida, ambas muito bem adaptadas à latitudes elevadas no
hemisfério norte (Harlan e de Wet, 1969).
Figura 9- Planta típica de Cynodon dactylon (L.) Pers., com detalhe da espigueta, em
escala diferente, no canto inferior direito. Adaptado de Bogdan (1977).
A raça Selêucida recebeu esse nome pelo fato de ser o seu centro de origem a
região do antigo império Selêucida (atualmente Paquistão e Turquia) (Harlan et al.,
1970b). Harlan e de Wet (1969) apontaram que espécimes típicos, bem-
desenvolvidos de Selêucida se destacam dos espécimes típicos de Tropical e
Temperada. Plantas de Selêucida são ásperas, vigorosas, de coloração azulada, com
alguma pilosidade, e extremamente tolerantes às baixas temperaturas. Essas plantas
são particularmente competitivas em solos férteis e seus colmos prostrados parecem
"galopar", emergindo do solo como estolões para logo adiante voltar para o subsolo
como rizomas (Harlan e de Wet, 1969; Harlan et al., 1970b). Os melhores exemplos
da raça Selêucida são provenientes do Afeganistão, Irã, Iraque, e Turquia. O vigor,
tolerância ao frio e produtividade dessas plantas lhes conferem melhores qualidades
agronômicas (pastejo e produção de feno) quando comparadas às raças Tropical e
Temperada, as quais são de menor porte (< 20 cm).
Plantas do grupo das gramas-estrela são geralmente mais robustas e com
folhas maiores do que as das bermudas. Na média são plantas maiores e em
crescimento livre podem chegar a 2 m de altura em condições extremas (Taliaferro et
al., 2004). As gramas -estrela normalmente produzem estolões vigorosos que podem
atingir mais de 10 m de comprimento (Harlan, 1970), os quais enraizam e podem
emitir perfilhos na região dos nós. A principal característica morfológica que
distingue os taxa bermuda dos de estrela, é a ausência de rizomas nessas últimas
(Clayton e Harlan, 1970). Isso parece conferir às gramas-estrela menor aptidão para
a sobrevivência em condições de estresse como por exemplo, invernos
moderadamente rigorosos, fazendo com que, enquanto as bermudas se adaptem
razoavelmente bem às latitudessubtropicais (~ 30° ao norte e ao sul da linha do
Equador), as gramas estrela sejam tidas como espécies essencialmente tropicais.
Apesar de melhor adaptadas a regiões com pluviosidade anual ao redor de 800 mm,
as gramas-estrela apresentam boa resistência sob déficit hídrico estacional, ainda que
severo (Mislevy et al., 1989a, 1989b).
Diversas cultivares comerciais de grama-estrela têm sido descritas na
literatura. Não raramente, mesma planta é descrita sob denominações diversas, o
fenômeno que pode ser atribuído, entre outras causas, à coordenação menos que
perfeita dos esforços de pesquisa de grupos diferentes atuando em localidades
diferentes, além da aparentemente frequente incerteza sobre qual o genótipo que
realmente se tem no campo ou na estação experimental. Esta situação,
frequentemente, faz com que um novo nome comercial seja atribuído a uma
forrageira previamente "batizada" (e já sendo até comercializada) com outro nome.
Analogamente ao que acontece entre os taxa das bermudas, existe grande
variabilidade morfológica entre as gramas estrela. Plantas de C. aethiopicus (Figura
10) são excepcionalmente vigorosas, podendo atingir 2 m de altura. Folhas, colmos
e estolões são rígidos e resistentes, e as inflorescências vermelho-escuro (Clayton e
Harlan, 1970; Harlan et al., 1970b). C. nlemfuënsis var. robustus lembra C.
aethiopicus em vigor e robustez, embora tenha porte um pouco menor. Em ambas,
os estolões são longos e vigorosos mas crescem rente à superfície do solo. Já C.
nlemfuënsis var. nlemfuënsis é caracterizada por plantas um pouco menores e menos
rígidas, mas com os estolões também crescendo rentes à superfície do solo (Harlan et
al., 1970a). Plantas de C. plectostachyus são as mais facilmente identificadas dentre
os taxa de grama-estrela, com seus estolões moderadamente rígidos cujos entrenós
fazem arcos ao longo da superfície do solo.
Figura 10- Planta típica de Cynodon aethiopicus Clayton et Harlan, com detalhe da
espigueta, em escala diferente, à esquerda. Adaptado de Bogdan
(1977).
4 - CARACTERIZAÇÃO AGRONÔMICA
Gramíneas do gênero Cynodon são tipicamente estabelecidas
vegetativamente, usando-se parte aérea da planta (colhida manual ou
mecanicamente) ou plantas inteiras incluindo parte do sistema radicular (colhidas
manual ou mecanicamente). Pode-se ainda fazer uso exclusivo de estolões e
rizomas, embora isso não seja prática comum em escala comercial. A quantidade de
mudas necessária para um bom estabelecimento é variável, sendo que para mudas
maduras (~100 dias de idade) e bem nutridas, Rodrigues et al. (1998) recomendaram
4 a 5 t.ha-1 para plantio a lanço, 2,5 t.ha-1 para plantio em sulcos (linhas) e 3 t para
plantio em covas. Um exemplo de recomendação (Taliaferro et al, 2004) é o uso de
plantio em linhas espaçadas de 0,9 m depositando o propágulo a 5 cm de
profundidade.
As recomendações básicas para o plantio de áreas com Cynodon são há muito
conhecidas e não têm sido mudadas significativamente ao longo dos anos (Burton,
1954; Harris e Roark, 1954). Em linhas gerais, os procedimentos para o
estabelecimento bem sucedido de estandes de Cynodon incluem o preparo esmerado
do solo, com boa fertilidade, na época correta (início das águas) atentando para
aspectos operacionais que são fundamentais para a garantia da formação rápida de
um bom estande, a saber:
1) Plantio em solo úmido (melhor que plantio em solo demasiadamente seco seguido
de irrigação);
2) Uso de mudas recém-colhidas (o armazenamento de mudas, ainda que por curtos
períodos de tempo, diminui drasticamente a sua viabilidade e seu vigor);
3) Deixar pontas de mudas "aparecendo" acima da superfície do solo (cerca de 20-
25% da massa de mudas aparecendo acima da superfície após o término do
plantio);
4) Necessidade de compactação, logo após o plantio (maior quando mais arenosa a
textura do solo, com o objetivo principal de garantir o suprimento de água por
capilaridade);
5) Controle de plantas invasoras, principalmente dicotiledôneas com herbicida 2,4-D
(outras invasoras, como ciperáceas requererão controle químico específico);
6) Adubação nitrogenada em cobertura para estímulo ao perfilhamento e produção de
estolões, de maneira a garantir colonização rápida e eficiente da área.
Apesar das temperaturas de solo ideais para a germinação de gemas de
plantas do gênero Cynodon estarem aparentemente ao redor de 30 °C (Keeley e
Thullen, 1989), algumas cultivares dormentes (e.g. Tifton 44) podem ser estabelecida
com sucesso no outono ou no inverno (Chamblee et al., 1989). As recomendações
para a propagação vegetativa das gramas-estrela são, em linhas gerais, as mesmas
para as gramas-bermuda. Apesar de existirem exceções, a propagação é vegetativa,
através de mudas, colmos, estolões ou rizomas. O propágulo deve ser sadio
originário de bancos de mudas ou produtores livres de doenças e invasoras e com um
bom manejo, mudas maduras (com aproximadamente 100 dias de desenvolvimento)
já que a brotação inicial depende de reservas orgânicas só encontradas em quantidade
adequada em plantas bem desenvolvidas. A propagação vegetativa é mais arriscada
em função de as mudas serem mais sensíveis e por tanto mais susceptível a perda
(desidratação) do que as sementes, e do estabelecimento inicial ser mais lento, já que
a densidade de plantas por área é menor do que a obtida em semeadura.
O estabelecimento deve ser feito em época adequada (outubro a março), em
que a temperatura e disponibilidade de água são favoráveis e maximizam a
competitividade entre espécie forrageira e plantas invasoras. O plantio pode ser feito
a lanço ou em sulcos, abrindo covas ou sulcos de 5 a 10 cm de profundidade em
solos mais estruturados (argilosos) ou de aproximadamente 15 cm em solos arenoso,
espaçando-se as linhas de plantio em aproximadamente 50 a 60 cm, depositando-se
as mudas nos sulcos de forma que ¾ das mesmas sejam enterrados e ¼ fique na
superfície. Utiliza-se de 4 a 5 toneladas de mudas por hectare em plantio a lanço e
cerca de 3 toneladas em plantio em sulco.
No Brasil, não há registro da existência de grandes áreas estabelecidas com
cultivares de Cynodon propagadas por sementes, uma vez que a principal é a cultivar
comum, ou grama-seda, geralmente uma invasora de outras culturas, inclusive de
forrageiras. Cultivares híbridas não produzem sementes viáveis, pelo menos não em
níveis que permitam exploração comercial. Algumas cultivares comerciais usadas em
gramados (não-forrageiras) são propagadas via semente em taxas que variam de 5,6 a
12 kg de sementes puras viáveis (SPV) por hectare. Sementes de Cynodon são
geralmente muito pequenas e exigem semeadura em reduzida profundidade para boa
germinação, boa emergência e boa formação do estande. Para as cultivares de
grama-seda Giant e Arizona, Baltensperger e Bernhard (1963) reportou 3,1 e 4,4
milhões de sementes por kg, respectivamente, o que é consistente com a
recomendação de profundidade média de semeadura frequentemente menor que 1 cm
em solo previamente compactado, seguida de nova compactação após a semeadura
(Taliaferro et al., 2004). Não há registro de produção ou de propagação por sementes
em cultivares de grama-estrela.
Capins do gênero Cynodon são, em geral, exigentes e responsivos à
fertilidade do solo (Monteiro, 1996; Monteiro, 1998), mas a adequação das
características químicas do solo às necessidades das plantas só pode ser otimizada
com o diagnóstico analítico antes do estabelecimento (principalmente para reação do
solo, saturação por bases e suprimento de nutrientes menos móveis como P, Ca e
Mg) e a intervalos regulares durante a exploração da área (no caso de se estabelecer
níveis de reposição, principalmente de N e K, condizentes com os patamares de
produtividadede forragem pretendidos ou praticados). A literatura é rica em relatos
sobre as respostas de espécies forrageiras tropicais aos diversos nutrientes minerais
(e. g., Mathews et al., 2004) e, as concentrações médias dos nutrientes encontrados
nos tecidos vegetais dão uma idéia do potencial de extração e exportação dos
mesmos e sua necessidade de reposição para a manutenção de níveis elevados de
produtividade. Em grama-estrela (C. nlemfuënsis var. nlemfuënsis) cv. Florico,
Castro (1997) observou 2,41% de N, 0,38% de P, 3,80% de K, 0,64% de Ca, 0,37%
de Mg, e 0,23% de S na massa seca, para plantas colhidas com 30 dias de idade
(produção de 3,1 t ha-1 de MS). Para grama-bermuda cv. Coastal, Pratt e Darst
(1987) citados por Maraschin (1988) quantificaram a exportação de alguns macro-
nutrientes em função dos níveis de produção de forragem (Tabela 1). Nota-se, em
todos os casos reportados na literatura, que produções elevadas exigem alto nível de
reposição de nutrientes, principalmente os mais solúveis como o N e o K, justamente
os que têm maior impacto sobre a produção. Ainda assim, nutrientes menos móveis
como o Ca devem ser constantemente monitorados, com a saturação por bases (V%)
mantida entre 50 e 60% e micronutrientes em suprimento adequado, para que a
fertilidade não seja fator limitante em situações de exploração intensiva.
Tabela 1- Produção de massa seca (MS) e exportação de alguns macro-nutrientes do
solo por grama-bermuda cv. Coastal em função da produtividade de
forragem
MS (t ha-1 ano-1 ) N P2O5 K2O S Mg
- - - - - - - - - - Exportação (kg ha-1 ano-1) - - - - - -
6 270 72 300 30 48
8 360 96 400 40 64
10 450 120 500 40 80
12 540 144 600 60 96
Fonte: Pratt e Darst (1987) citados por Maraschin (1988).
A frequência e a intensidade de desfolhação em pastagens de Cynodon sofre
o impacto marcante das interações entre o ambiente (clima) e a fertilidade do solo,
resultando numa gama de variações no que diz respeito à quantidade e qualidade da
forragem produzida. Tanto no caso de desfolhação mecânica (corte para produção de
feno, pré-secado, mudas, ou fornecimento de forragem fresca no cocho) como no de
pastejo, diversas variáveis podem ser manipuladas de modo a tentar otimizar (ou
então maximizar) os aspectos quantitativos (produção) ou qualitativos (valor
nutritivo, digestibilidade) da forragem produzida. Pode-se ainda priorizar a
eficiência de pastejo ou de utilização, com reflexos em quantidade e qualidade da
forragem colhida.
A maior parte das informações sobre manejo de áreas de Cynodon disponíveis
na literatura é oriunda de ensaios realizados na região sudeste dos EUA. Esses
trabalhos são, predominantemente, com a exploração da forrageira sob condições de
pastejo e para a produção de feno, visando, basicamente, a alimentação de bovinos
de corte em sistemas semi-intensivos, num ambiente onde essas gramíneas
encontram excelente adaptação edafoclimática, e onde se tornaram um importante
sustentáculo da indústria pecuária (Pedreira e Mello, 2001). Com o lançamento de
novas cultivares híbridas e linhagens experimentais nas décadas de 1960 e 1970,
iniciou-se uma tendência para a comparação da produtividade desses novos
genótipos com o melhor padrão conhecido, a cv. Coastal (Taliaferro et al., 2004),
principalmente no que dizia respeito a produtividade, valor nutritivo e persistência
(Monson e Burton, 1982; Holt e Conrad, 1986). Logo ficou evidente que havia
variação entre e dentro de anos ou estações para produtividade e características
qualitativas e que, dentro da amplitude de intervalos entre desfolhações normalmente
usados nos protocolos experimentais, as frequências menores (intervalos de 6 a 8
semanas entre desfolhações) proporcionavam maiores produtividades anuais do que
as frequências maiores (intervalos de 4 semanas). Evidências também apareceram de
que, após o estabelecimento, estandes das espécies ou cultivares pouco ou não-
rizomatosas eram mais densos, e produziam mais no primeiro ano, enquanto que
estandes de tipos rizomatosos (e. g., Coastal) tornavam-se os mais produtivos a partir
do segundo ano.
De maneira análoga às bermudas, as gramas-estrela variam quanto à
capacidade de persistir sob desfolhação, em função do agente desfolhador (corte
mecânico versus pastejo). Dentre as cultivares comerciais mais modernas lançadas
nos EUA, Florona tem melhor produtividade e melhor persistência sob lotação
contínua ou sob desfolhação intermitente a intensidades altas (resíduo de 7 a 8 cm)
sem que haja sinais de comprometimento de persistência ao longo de anos (Mislevy
et al., 1989d), enquanto as cultivares Florico e Ona exigem resíduos pós-pastejo mais
altos (~20 cm) para garantir a estabilidade do estande.
Sob colheita mecanizada, os intervalos entre cortes geralmente recomendados
para os capins do gênero Cynodon situam-se na faixa de 4 a 6 semanas, dependendo
do ambiente edafoclimático e do nível de intensificação (principalmente no que diz
respeito à adubação) utilizada. Intervalos entre cortes estão diretamente associados
às variações de maturidade da forragem, o que afeta composição morfológica
(relação folha:colmo) e bromatológica (teores de componentes indigestíveis da
parede celular como a lignina) da forragem colhida (Tabela 2) e, em última análise, o
seu potencial para gerar desempenho animal (Mandebvu et al., 1998a; 1998b; 1999).
Tabela 2 - Composição e digestibilidade “in vitro” da massa seca (DIVMS) de
forragem de capim-bermuda cvs.Tifton 85 e Coastal colhidas com
diferentes estádios de maturidade
Composição
(% MS)
Cultivar Maturidade (semanas)
Tifton 85 Coastal 3 5 7
- - - - - - - - - - - - - - - - % - - - - - - - - - - - - - - -
MO 93,7a 93,8a 93,5c 93,7b 94,0a
PB 14,3a 14,5a 15,3a 15,1a 12,8b
FDN 75,1a 70,9a 72,9b 75,2a 71,0c
FDA 32,8a 30,6a 31,7a 31,9a 31,5a
LDA 4,0b 4,6a 3,9b 4,5a 4,5a
DIVMS 63,2b 59,4b 62,7a 65b 67b
Médias com letras iguais na mesma linha, dentro de "cultivar" ou de "maturidade", não diferem entre
si (P=0,05). Adaptado de Mandebvu et al. (1998) citados por Hill et al. (1998).
As características produtivas e qualitativas da forragem colhida de capim-
bermuda cv. Coastal foram estudadas por Hart e Burton (1967), em função da
adubação nitrogenada, intervalos entre desfolhações, e as variações estacionais das
condições climáticas, ao longo do tempo em um experimento no campo. Os autores
concluíram que o tempo de secagem está sob a influência de um grande número de
interações envolvendo o teor inicial de massa seca, déficit de pressão de vapor do ar,
radiação solar e biomassa a ser curada. Colheitas (cortes) frequentes produziram
menos forragem por corte, o que facilitou a secagem e altas taxas de adubação
nitrogenada resultaram em aumento no teor de umidade da forragem fresca (o qual é
inversamente proporcional ao tempo de secagem). Nesse mesmo trabalho foram
medidas perdas de caroteno da forragem durante a cura, como resultado da exposição
à radiação solar (até 67% do caroteno total perdido em um dia de alta insolação e até
90% ao final de dois dias). As perdas de proteína bruta (PB) foram geralmente
pequenas sob condições adequadas de desidratação, mas aumentaram rapidamente
conforme a umidade relativa do ar aumentou. Apesar disso perdas protéicas não
estiveram bem correlacionadas com lixiviação oriunda de precipitação, o que sugere
outros fatores atuando na determinação do teor de PB da forragem no campo.
Precipitação e a consequente lixiviação foram, no entanto, determinantes de altas
perdas de massa seca digestível e de perdas de biomassa durante a desidratação.
Pedreira (1996), em revisão sobre a importância do gênero Cynodon para a
pecuária do Sudeste dos EUA, discutiu as características agronômicas das cultivares
Tifton 85 e Florakirksob pastejo. Um ensaio conduzido em Tifton (EUA),
comparando o Tifton 85 com o Coastal, Tifton 44 e Tifton 68, sob um regime de
corte a cada quatro semanas, em parcelas adubadas com 200 kg.ha-1ano-1 de N
(Tabela 3) contrastou as cultivares, no que diz respeito à produtividade e
digestibilidade. Em experimento mob-grazing (pequenas parcelas desfolhadas por
pastejos rápidos sem avaliação de desempenho animal), Adjei et al. (1989) avaliaram
diversas gramíneas (dentre elas Tifton 78 e Florakirk), pastejadas a cada 2, 4, 6 ou 8
semanas, até uma altura de aproximadamente 6 cm e recebendo 150 kg.ha-1 de N. Os
autores observaram baixa produtividade da Tifton 78 e concluíram que seu lento
estabelecimento foi um dos fatores relacionados com a produção anual (8,7 t.ha-1)
relativamente baixa. Nesse mesmo estudo, Florakirk (então denominada linha
experimental 35-3) produziu 11,9 t.ha-1, produtividade essa que foi similar à da
Pensacola Bahia (Paspalum notatum Flügge) e menor que a da Floralta limpograss
(Hemarthria altíssima (Poir.) Stapf et C.E. Hubb.). A produtividade da Florakirk
aumentou com o intervalo de pastejo de 2 até 6 semanas, porém não aumentando
mais com o intervalo de 8 semanas. A concentração de PB e a digestibilidade da
Florakirk foram tão ou mais altas que as de Tifton 78 para os níveis de maturidade
estudados (Tabela 4).
Tabela 3 - Produção de massa seca e digestibilidade “in vitro” da massa seca
(DIVMS) de quatro cultivares de Cynodon (média de 3 anos)
Característica
Cultivares
Tifton 85 Tifton 68 Tifton 44 Coastal
Produção (t.ha-1) 18,6 15,2 15,7 15,5
DIVMS (%) 60,3 63,6 55,0 54,3
Adaptado de Hill et al. (1993).
Também empregando a técnica de mob-grazing, Pedreira et al. (1999)
estudaram respostas de Florakirk pastejada a cada 7, 21 ou 35 dias, a uma altura pós-
pastejo de 8, 16 ou 24 cm, durante duas estações de pastejo (126 dias em 1993 e 161
dias em 1994), adubando com 213 kg.ha-1 de N. Períodos de descanso mais longos e
resíduo pós-pastejo mais alto resultaram em maior acúmulo de forragem na estação.
A concentração de PB foi maior para os períodos de descanso mais curtos (11% em
1993 e 13% em 1994). A digestibilidade alcançou valores máximos (59%) quando o
período de descanso foi ao redor de 21 dias, sem que se observasse o efeito da altura.
A concentrações de fibra em detergente neutro (FDN) não foram afetadas pelos
tratamentos em 1993 (média de 81%) ou 1994 (média de 76%). Esses autores
também estudaram respostas relacionadas à persistência e ao vigor de rebrotação
(Pedreira et al., 2000). Ao final do primeiro ano de pastejo, as concentrações de
carboidratos não estruturais totais (CNE) nos rizomas se elevaram com a altura do
resíduo, mas não responderam à variação do comprimento do período de descanso.
Ao final da estação de pastejo de 1994, os teores de CNE nos rizomas estavam
acentuadamente reduzidos e responderam aos fatores de tratamento de maneira
inversa a 1993, indicando menores potenciais de rebrotação no segundo ano do
experimento.
Tabela 4. Concentração de proteína bruta (PB) e digestibilidade in vitro (DIVMS)
de gramíneas pastejadas de junho a novembro (média de dois anos) em
Ona, Florida, EUA.
Gramínea Freqüência de pastejo (semanas)
2 4 6 8
PB DIV PB DIV PB DIV PB DIV
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - % - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Pensacola 13,0 56 9,4 53 8,6 50 7,3 46
Floralta 11,5 57 7,9 57 7,2 57 4,4 54
Florakirk 15,2 63 10,0 56 9,1 52 6,9 44
Tifton 78 13,1 56 11,2 56 9,8 53 6,3 46
Adaptado de Adjei et al. (1989).
Avaliando cultivares de bermuda e estrela em intervalos de pastejo de 2, 4, 5
e 7 semanas, Mislevy et al. (1995) constataram boas produções em Florakirk e
Florico. Por outro lado, Florico e Tifton 68 foram os que apresentaram maiores
teores de PB e digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO) (Tabela 5).
Tabela 5. Produção de massa seca, teores de proteína bruta (PB) e digestibilidade "in
vitro" da matéria orgânica (DIVMO) em gramíneas do gênero Cynodon
Frequência de pastejo (semanas) Média
Grupo Cultivar 2 4 5 7
Produção (t ha-1 ano-1)
Bermuda Florakirk 12,1a 16,5a 16,5a 16,5b 15,4
Tifton 44 5,5c 11,4bc 8,8b 11,2cd 9,2
Tifton 72-81 7,3bc 14,5ab 17,2a 18,5ab 14,3
Grazer 5,3c 6,8d 7,9b 10,1d 7,5
Tifton 68 6,6bc 10,1cd 15,6a 16,1b 12,1
Estrela Florico 11,0a 13,0ac 16,3a 20,5a 15,2
Ona 10,1a 10,1cd 14,1a 15,0c 12,3
PB (%)
Bermuda Florakirk 11,7b 8,1b 9,5a 7,7b 9,2
Tifton 44 13,5a 10,2a 9,5a 9,5ab 10,5
Tifton 72-81' 11,3b 7,8b 10,1a 7,8b 9,1
Grazer 9,5c 9,0ab 9,3a 9,7a 9,4
Tifton 68 12,7ab 8,2b 10,9a 8,5ab 10,1
Estrela Florico 12,3ab 8,1b 9,2a 8,4ab 9,5
Ona 13,6a 8,7ab 10,2a 8,5ab 10,2
DIVMO (%)
Bermuda Florakirk 58,5ab 55,0ab 54,8bc 51,3b 54,9
Tifton 44 58,3ab 52,9bc 51,5c 50,4b 53,4
Tifton 72-81 55,7b 49,7c 54,2bc 49,0b 52,1
Tabela 5: continuação...
Frequência de pastejo (semanas) Média
Grupo Cultivar 2 4 5 7
Grazer 55,8b 57,8ab 56,3bc 58,8a 57,2
Tifton 68 63,1a 57,6ab 62,6a 59,5a 60,7
Estrela Florico 58,6ab 58,0a 58,5ab 58,2a 58,3
Ona 59,9ab 54,8ab 57,0b 51,1b 55,7
Letras iguais nas colunas, dentro da mesma variável-resposta, não diferem entre si (P =0,05);
Adaptado de Mislevy et al. (1995)
5 - OPÇÕES DE USO, FLEXIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO E POTENCIAL DE
PRODUÇÃO ANIMAL DE PASTAGENS DE Cynodon
5.1 - Pastejo
Segundo Mathews et al. (1994), embora existam informações sobre os efeitos
dos métodos de pastejo sobre respostas quantitativas (e. g., produção de MS) em
áreas de Cynodon, há pouca informação quanto aos efeitos do manejo sobre algumas
características qualitativas dessas forrageiras sob pastejo. Esses autores realizaram
experimento comparando três métodos de pastejo com C. dactylon cv. Callie, em
relação à DIVMS e à concentração de nutrientes na forragem: 1) rotativo com
período de ocupação curto (1,5 a 2,5 dias); 2) rotativo com período de ocupação
longo (10 a 14 dias) e 3) lotação contínua. Apesar da maior percentagem de lâminas
foliares encontradas nos pastejos rotativos, foi demonstrado que o valor nutritivo da
forragem variou relativamente pouco entre os tratamentos. Os autores concluíram
que, outras variáveis de manejo, que não métodos de desfolhação, têm,
provavelmente, maior impacto no desempenho animal. Isso foi evidenciado em
trabalho de Carnevalli et al. (2001), que conseguiram melhor desempenho de ovinos
em pastos de Tifton 85 manejados mais altos e com maior disponibilidade de
foragem, comparados a pastos mantidos a menores alturas, todos sob lotação
contínua com taxa de lotação variável.
5.1.1 - Produção de carne
Em ensaio com pastejo, Hill et al. (1993) avaliaram o desempenho (ganho
médio diário - GMD e ganho por ha) de novilhos com peso médio inicial de 270 kg,
em pastagens de Tifton 85 e Tifton 78. O manejo adotado foi de lotação contínua
("pastejo contínuo") com taxa de lotação variável (put and take), tentando-se manter
2.500 kg.ha-1 de MS de forragem em oferta, com três doses de adubo nitrogenado,
totalizando 252 kg.ha-1 de N. Em 169 dias de pastejo, não houve diferença entre os
valores de GMD nas pastagens de Tifton 85 (0,67 kg.cabeça-1.dia-1) e nas de Tifton
78 (0,65 kg.cabeça-1.dia-1). A maior produtividade do Tifton 85, no entanto,
observada em ensaios com cortes concomitantes, em pequenas parcelas, traduziu-se
em uma maior capacidade de suporte da pastagem, proporcionando uma taxa de
lotação média de 10,8 cabeça. ha-1 (1 cabeça = 325 kg de peso corporal), enquanto a
lotação média nas pastagens de Tifton 78 foi de 7,8 cabeças ha-1. Em função da
maior taxa de lotação e ganhos médios similares, o ganho de peso por unidade de
área também foi maior para o Tifton 85 (1.156 kg ha-1) do que parao Tifton 78 (789
kg ha-1).
Larbi et al. (1989) avaliaram o desempenho de novilhos de sobreano em
pastagens de Florakirk e das estrelas Florico e Florona, sob pastejo rotativo (quatro
semanas de descanso) com taxa de lotação variável. O peso médio dos animais no
início do experimento foi de 250 kg e os pastos receberam aproximadamente 200 kg
N.ha-1, em duas estações de pastejo (1986 e 1987). A grama-estrela Florico
proporcionou o maior GMD (Tabela 6) e o maior ganho de peso corporal por hectare,
embora houvesse tendência para uma maior taxa média de lotação em pastagens de
Florona. Nas condições desse estudo, a Florakirk mostrou-se inferior às estrelas,
com uma capacidade de suporte de 1.330 kg ha-1.dia-1 de peso corporal. As médias
das duas estrelas para essa mesma resposta foi 1.510 kg ha-1 dia-1 de peso corporal.
Tabela 6 - Desempenho animal em pastagens de Florakirk, Florico e Florona em
Ona, Florida, EUA
Gramínea
Características Florakirk Florico Florona
GMD (kg.cabeça-1) 0,39b 0,55a 0,43b
TL (cabeças.ha-1) 6,4a 7,1a 7,5a
Ganho (kg.ha-1) 541c 812a 667b
Valores seguidos de letras iguais na mesma linha não diferem entre si (P>0,05);
Adaptado de Larbi et al. (1989).
Burton (1970) apontou que uma fertilização de 225 kg.ha-1 de N ano-1 na cv.
Coastal sob pastejo, proporcionou um ganho de peso corporal de 765 kg.ha-1 em cada
estação de pastejo, com um ganho médio diário de 0,55 kg e uma taxa de lotação (no
sistema put and take) de 11 novilhos.ha-1. Comparando duas cultivares do gênero
Cynodon (Coastcross-1 e Coastal) com Paspalum notatum var. saurae Parodi
(Pensacola Bahiagrass), Utley et al. (1974) constataram alto potencial do Coastcross-
1. Em um período de quatro anos, esta cultivar apresentou ganhos médios diários
(0,68 kg.cabeça-1) e produção total de carne (527 kg.ha-1) superiores aos das outras
gramíneas estudadas (0,49 e 0,43 kg.cabeça-1, 372 e 249 kg.ha-1, de ganhos médios
diários e produção total de carne, respectivamente para Coastal e Pensacola).
Outro experimento comparando cinco cultivares de Cynodon, avaliando taxa
de lotação, disponibilidade de forragem e ganho médio diário em relação a diferentes
"pressões de pastejo" (leve, média-leve, média-pesada, e pesada - que, pela
terminologia moderna corresponderiam a níveis de diponibilidade de forragem alto,
médio-alto, médio baixo, e baixo, respectivamente), foi conduzido por Conrad et al.
(1981). O ganho de peso total por novilho foi menor para a cultivar Coastal mas, em
função das diferenças nas capacidades de suporte, apenas a cultivar Callie
proporcionou maior ganho de peso por hectare do que a Coastal (Tabela 7). A taxa
de lotação média foi em torno de 33% maior para Coastal e Callie do que para a S-16
e S-54. Os maiores ganhos médios diários foram obtidos com o S-16, S-54 e Callie,
na pressão de pastejo leve. Em média, a cultivar Callie suportou lotações 5 e 18%
maiores do que a Coastal, nas pressões de pastejo média-pesada e pesada,
respectivamente. Como era de se esperar, os ganhos médios diários foram reduzindo
a medida que aumentava a pressão de pastejo.
Tabela 7 - Taxa de lotação (TL), disponibilidade de forragem (DF) e ganho médio
diário (GMD) em cinco cultivares de Cynodon, sob quatro pressões de
pastejo
Pressão de pastejo
Híbrido Leve Média-leve Média-
pesada
Pesada Média
TL(1) (cabeças.ha-1)
Callie 5,8 8,9 11,3 12,7 9,7
Coastal 5,2 7,8 9,6 12,1 8,7
SS-16 4,3 6,2 8,5 11,2 7,5
S-16 3,6 5,3 6,9 8,9 6,2
S-54 3,9 5,9 7,6 10,0 6,9
DF(2) (kg.100 –1de pesos animal)
Callie 7,5 2,5 0,7 0,2 2,7
Coastal 7,4 3,4 2,3 0,4 3,4
SS-16 8,9 3,4 0,9 0,7 3,5
S-16 13,8 2,8 1,0 0,1 4,4
S-54 11,5 4,9 0,6 0,3 4,3
(
Tabela 7 - continuação...
Pressão de pastejo
Híbrido Leve Média-leve Média-
pesada
Pesada Média
GMD(1) (kg.cabeça-1)
Callie 0,90 0,64 0,45 0,40 0,60
Coastal 0,63 0,61 0,47 0,30 0,50
SS-16 0,80 0,79 0,44 0,37 0,60
S-16 0,94 0,78 0,62 0,49 0,71
S-54 0,91 0,68 0,43 0,36 0,59
Média 0,83 0,70 0,48 0,38
1) Valores médios de 3 anos;
(2) Estimativas de forragem na estação baseada na média de forragem ofertada a cada 28 dias.
Adaptado de Conrad et al. (1981)
Os trabalhos de pesquisa com produção de carne em pastagens de Cynodon
demonstram claramente o potencial dessa gramínea para essa finalidade. Nesse
contexto, o manejo adotado assume papel fundamental no sistema de produção, que
deverá sempre buscar o equilíbrio entre a produção de massa seca e o valor nutritivo
da forragem, visto que a produção de massa seca é o principal fator determinante da
produtividade anual (ganho de peso por área) e que, o desempenho é mais afetado
pela oferta de forragem (kg MS por kg de peso corporal).
5.1.6 - Produção de leite
A produção de leite em pastagens tropicais tendo a planta forrageira como
alimento exclusivo, é limitada, basicamente, em função de sua composição químico-
bromatológica e digestibilidade, que, via de regra, afetam o consumo voluntário,
sabidamente o principal determinante do desempenho animal. As gramíneas do
gênero Cynodon estão entre as espécies tropicais com alto potencial de produção de
leite, podendo gerar, segundo Vilela (1998), produtividades de mais de 40 kg.ha-
1
.dia-1de leite.
Dentre as cultivares de Cynodon, o capim-coastcross tem recebido maior
atenção das pesquisas relacionadas à produção de leite em pastagens no Brasil. Essa
gramínea, quando bem manejada, produz forragem com nutrientes que podem
proporcionar produções individuais de 13 kg.vaca-1.dia-1 de leite ou 15.000 kg.ha-
1.ano-1 de leite (Garcia Trujillo, 1983, citado por Vilela, 1998). Em Cuba, pastagens
de Coastcross, comumente suportam de duas a quatro vacas.ha-1, sendo esta espécie
considerada uma forrageira de interesse econômico. Nesse país, essas pastagens, ao
receberem 250 kg.ha-1 de N, têm capacidade de suporte de 2,7 vacas.ha-1, enquanto,
que com aplicações de 400 kg.ha-1 de N, a capacidade de suporte passa para 3,7
vacas.ha-1.
Pesquisas no Brasil têm sido realizadas pela Embrapa Gado de Leite com
Coastcross sob pastejo rotativo. Foram conduzidos ensaios (no período de abril de
1992 a janeiro de 1993) objetivando encontrar o manejo ideal em pastagens de
Coastcross para a produção de leite de vacas com potencial para produzir entre 4.500
e 7.500 kg de leite.lactação-1 (Vilela e Alvim, 1996; Vilela et al, 1993). Dois
sistemas de produção de leite foram comparados, um pasto de Coastcross (pastejo
rotativo) e em confinamento (free-stall, com dieta completa à base de silagem de
milho, fornecida à vontade). No sistema de pastejo rotativo, o manejo adotado foi de
um dia de ocupação e, em média, 32 dias de descanso no período seco e 25 dias no
período das chuvas. As vacas apenas saíam da pastagem para as ordenhas (duas por
dia), onde recebiam 3 kg do mesmo concentrado fornecido às vacas confinadas. A
pastagem recebeu uma adubação com 360 kg.ha-1 de N, 80 kg.ha-1 de P2O5 e 280
kg.ha-1 de K2O. Nos meses de menor precipitação (< 50 mm) ou após as adubações,
a pastagem era irrigada com o objetivo de veicular os nutrientes da adubação. A
produção de leite de vacas mantidas na pastagem, adubada e irrigada
estrategicamente, quando suplementada com 3 kg de concentrado.dia-1, foi de 20,8
kg.dia-1, em média, nas primeiras doze semanas de avaliação e, de 16,6 kg.dia-1, na
média de 40 semanas (Tabela 8).
Tabela 8 - Consumo de massa seca (MS) de alimentos e produção de leite de vacas
em confinamento e em pasto de Coastcross
Período de
avaliação
(semanas)
MS(kg.vaca-1.dia-1) Produção de leite
(kg.vaca-1.dia-1)
Confinamento Pasto
Confinamento
Pasto Silagem Concentrado Silagem Concentrado
1 a 12 7,8 9,5 11,0 2,6 25,0 20,8
13 a 26 8,1 6,6 11,3 2,6 20,6 17,1
27 a 4012,4 3,9 13,4 2,6 16,6 12,1
Média 9,4 6,7 11,9 2,6 20,6 16,6
Adaptado de Vilela et al. (1993).
A taxa de lotação média no sistema de pastejo foi de 5,8 UA.ha-1, com a
produção média diária de leite de 74 kg.ha-1. A produção média de leite das vacas
mantidas em confinamento foi, durante 40 semanas, 20,6 kg.vaca-1.dia-1. Apesar de a
receita bruta do sistema em pasto ter sido inferior à do sistema em confinamento, a
margem bruta foi 32% superior (Tabela 9), indicando que o sistema de pastejo em
Coastcross, para vacas com potencial de produção de leite de 5.000 kg.lactação-1,
constitui-se em alternativa viável para a intensificação da produção de leite em
pastagens tropicais.
Chopping et al. (1976) citados por Cowan (1995), reportaram produções de
leite acima de 19.000 kg.ha-1.ano-1, com uma taxa de lotação de 7,9 vacas.ha-1, em
pastagens de C. dactylon. A produção individual, entretanto, não ultrapassou os 9
L.vaca-1.dia-1. Os autores indicaram que a alta produção de massa seca dos pastos
tropicais permitem altas taxas de lotação, entretanto, o alto conteúdo de parede
celular e, consequentemente, baixa digestibilidade, limitam em 7 a 12 L vaca-1 dia-1 a
produção de leite.
Tabela 9- Custos operacionais, receita bruta e margem bruta em 40 semanas,
relativos a uma vaca em confinamento ou em pastagem de Coastcross
Sistema
Componentes Confinamento Pasto
A) Custos operacionais US$ vaca-1 .40 semanas
Pastagem de Coastcross - 167,32
Silagem de milho 222,24 -
Concentrado 474,32 184,80
Instalações (free-stall) 41,30 -
Outros1 70,84 -
Total 809,30 352,12
B) Receita bruta
Leite vendido2 1.379,04 1.106,16
C) Margem bruta (B – A) 569,74 754,04
1
Custos relativos a distribuição de alimentos, mão-de-obra e taxas;
2
Preço de mercado do leite em Juiz de Fora-MG, no mês de abril de 1994, foi de US$ 24 kg-1
Adaptado de Vilela et al. (1993).
Os dados de produção de leite em pastagens de Cynodon indicam um alto
potencial dessa espécie, principalmente, quando tecnologias podem ser empregadas
de forma estratégica, tais como irrigação, adubação e suplementação. Entretanto,
esses dados ainda são muito escassos. Comparativamente às espécies de gramíneas
de clima temperado, o principal aspecto relativo ao potencial produtivo parece residir
na possibilidade de se praticar taxas de lotação mais altas (chegando a 10-12 UA.ha-
1) refletindo na produtividade por área. Há, no entanto, a necessidade de mais
pesquisas que forneçam resultados de produção de leite em pastagens de Cynodon
submetidas a diferentes manejos, como níveis e tipos de adubo, sistemas de pastejo,
consorciação com leguminosas, entre outros. Estudos de viabilidade econômica
deverão, sempre que possível, ser parte integrante dessas pesquisas, visando avaliar o
sistema como um todo.
5.2 - Fenação
Os capins bermuda são amplamente utilizados na forma de feno tanto em
regiões de clima tropical como em regiões de clima temperado. Diversos
experimentos têm sido conduzidos com a finalidade de determinar os efeitos da
maturidade da planta e da cultivar sobre o consumo e digestibilidade da massa seca
de fenos de gramíneas do gênero Cynodon (Hill et al., 1998).
Os melhores fenos de gramíneas do gênero Cynodon são obtidos das
cultivares que têm mais folhas do que colmos, como a Florakirk, Tifton 85,
Coastcross e Florona. Independente da cultivar, o corte deve ser efetuado quando a
planta alcançar o equilíbrio entre alto teor de nutrientes e elevada produção de massa
seca por unidade de área. Segundo Vilela (1998), isso ocorre, no Brasil Central,
entre 25 e 28 dias no período de primavera/verão e no outono/inverno com 42 a 63
dias, dependendo da região e da fertilização recebida pela planta forrageira.
A "qualidade" do feno pode ser avaliada visualmente, examinando o estádio
de maturação, a quantidade de folhas, a presença de material estranho, o odor e a
presença de mofo. Os teores de PB e de fibra em detergente neutro (FDN) também
fornecem indicações da qualidade do feno. A Embrapa Gado de Leite adota a
classificação de feno nos tipos A, B e C, em função do teor de umidade, PB e FDN
(Tabela 10).
Tabela 10 - Classificação de feno em função da qualidade (EMBRAPA Gado de
Leite)
Tipo Umidade (%) PB (% MS) FDN (% MS)
A 15 - 12 > 13 < 65
B 18 – 15 9 – 13 65 – 69
C 18 – 15 < 9 > 69
Objetivando avaliar o efeito da maturidade da planta de duas cultivares de
Cynodon (Tifton 85 e Coastal) na composição, consumo e digestão do feno,
Mandebvu et al. (1998a) e Mandebvu et al. (1998b), conduziram experimento no
qual os tratamentos consistiam de três idades ao corte (3, 5 e 7 semanas de
rebrotação), sendo fornecidos a novilhos de corte estabulados com 243,8 kg em
média. A composição química dos fenos revelou concentrações iguais de matéria
orgânica (MO) e PB para as duas cultivares, mas FDN, FDA e DIVMS mais altos em
Tifton 85 do que em Coastal. O consumo de MO foi similar para os fenos das duas
cultivares. Em razão dos valores relativamente altos de FDN, especialmente no feno
de Tifton 85, valores mais reduzidos de consumo seriam esperados. Entretanto, isso
não ocorreu e os consumos de MO foram similares para as duas cultivares (Tabelas
11 e 12). Esses autores compararam a digestibilidade do feno de Tifton 85 colhido
com 3,5 semanas, com a da silagem de milho e, verificaram mesmo teor de DIVMS.
Com o capim colhido com sete semanas de idade, foi observado digestibilidade in
vitro da FDN maior do que a da silagem de milho, com 48 horas de incubação.
Mandebvu et al. (1998a) também demonstraram uma maior digestibilidade "in vitro"
da MS e da FDN para o Tifton 85, quando comparado ao Coastal, tendo as duas
cultivares sido colhidas em um mesmo estádio de crescimento.
Tabela 11 - Composição (% MS), digestibilidade in vitro da massa seca (DIVMS), de
forragem de Tifton 85 e Coastal colhida com diferentes maturidades e
fornecida na forma de feno a novilhos de corte em crescimento
Cultivar Maturidade (semanas)
Características Tifton 85 Coastal 3 5 7
MO 93,7a 93,8a 93,5c 93,7b 94,0a
PB 14,3a 14,5a 15,3a 15,1a 12,8b
FDN 75,1a 70,9a 72,9b 75,2a 71,0c
FDA 32,8a 30,6a 31,7a 31,9a 31,5a
LDA 4,0b 4,6a 3,9b 4,5a 4,5a
DIVMS, % 63,2b 59,4b 62,7a 6,5b 6,7b
Médias com letras iguais na mesma linha, dentro de "cultivar" ou de "maturidade", não diferem entre
si (P >0,05);
Fonte: Mandebvu et al. (1998; citados por Hill et al., 1998).
Tabela 12 - Consumo e digestão no trato total, de forragem de Tifton 85 e Coastal
colhidas com diferentes maturidades e fornecida na forma de feno a
novilhos em crescimento
Cultivar Maturidade
Características Tifton 85 Coastal 3 5 7
MO
Consumo (kg.dia-1) 4,4a 4,5a 4,3b 4,3b 4,7a
Digestibilidade (%) 59,1a 54,2b 58,2a 55,6a 56,1a
PB
Consumo (kg.dia-1) 0,67a 0,69a 0,70a 0,71a 0,64b
Digestibilidade (%) 59,8a 58,4a 58,2a 59,5a 59,5a
Tabela 12: continuação...
Cultivar Maturidade
Características Tifton 85 Coastal 3 5 7
FDN
Consumo (kg.dia-1) 3,5a 3,4a 3,3a 3,4a 3,6a
Digestibilidade (%) 65,5a 57,8b 64,1a 62,4ab 58,6b
FDA
Consumo (kg.dia-1) 1,53a 1,48b 1,46b 1,49ab 1,56a
Digestibilidade (%) 61,3a 51,4b 58,7a 57,3ab 53,1b
Médias iguais na mesma linha, dentro de "cultivar" ou de "maturidade" não diferem entre si (P <
0,05);
Fonte: Mandebvu et al. (1998; citados por Hill et al., 1998).
Haddad e Castro (1998) realizaram uma extensa revisão sobre a produção de
feno de gramíneas do gênero Cynodon e, concluíram que praticamente todas as
espécies, se adequam ao processo de fenação. Algumas espécies tais como
Coastcross, Florakirk, Tifton 78 (bermudas) são tradicionalmente utilizadas para
fenação, uma vez que apresentam colmos finos, reduzindo o diferencialde
desidratação entre folhas e colmos e, portanto, produzindo um feno de qualidade em
um tempo curto de secagem. Outras espécies e, ou cultivares como a Florona,
Florico, Porto Rico, Tifton 6 e as demais estrelas possuem talos mais grossos
comparativamente às bermudas, mas não chegam a inviabilizar o processo. Segundo
os autores, a cultivar Tifton 85 parece ocupar uma posição intermediária entre os
grupos citados. A Tabela 13 reúne dados de características nutricionais do feno dos
cultivares Coastcross-1, Florakirk, Florico e Florona, em diferentes idades ao corte.
As gramíneas do gênero Cynodon constituem uma excelente opção de
alimento volumoso, quando submetidas ao processo de fenação. Seu valor nutritivo
é considerado satisfatório quando comparado a outros alimentos considerados de alta
qualidade, como silagem de milho. O feno de Cynodon é utilizado por muitos
pecuaristas na estação seca e, em função da oferta relativamente reduzida de
volumoso nessa época, tem se tornado negócio de alta lucratividade para quem o
produz, pois tem alcançado preços elevados no mercado brasileiro.
Tabela 13 - Características nutricionais de fenos de cultivares de Cynodon em
diferentes idades ao corte
Idade (dias)
Cultivar 20 30 40 50 60 70
MS (%)
Coastcross 14,66 17,67 23,39 33,02 36,20 27,60
Florakirk 26,14 28,70 30,37 34,88 35,61 40,13
Florico 15,40 18,78 18,81 23,30 21,45 27,42
Florona 21,73 25,91 23,67 27,15 30,08 30,76
FDN (% MS)
Coastcross 68,70 71,63 75,91 78,42 79,74 80,55
Florakirk 71,51 74,85 78,14 78,31 79,07 77,39
Florico 65,05 71,03 73,09 75,80 76,91 77,16
Florona 65,84 69,29 73,24 74,47 76,27 75,51
FDA (% MS)
Coastcross 39,45 37,94 42,27 44,88 45,13 46,55
Florakirk 32,86 33,36 35,83 36,98 37,83 38,11
Florico 32,95 37,67 39,49 41,76 41,67 41,68
Florona 33,99 34,66 40,56 38,11 38,83 39,15
PB (% MS)
Coastcross 19,06 17,09 13,88 11,64 10,43 8,78
Florakirk 17,64 13,69 11,17 10,08 8,84 6,86
Florico 20,40 15,06 15,03 12,48 11,90 11,23
Florona 19,88 17,75 15,00 14,44 12,69 11,62
Tabela 13 - continuação...
Idade (dias)
Cultivar 20 30 40 50 60 70
DIVMS (%)
Coastcross 73,57 69,01 60,58 50,80 54,90 50,96
Florakirk 72,94 68,18 65,09 60,75 58,80 57,12
Florico 70,63 66,38 61,31 61,66 58,02 58,97
Florona 72,08 69,21 67,17 64,31 61,26 59,14
Fonte: Haddad e Castro (1998).
5.3 - Ensilagem e pré-secado
Em situações em que o preparo de feno é difícil, a ensilagem de gramas
bermudas pode ser uma alternativa de conservação de forragem. O pré-secado
(haylage) consiste de um método "híbrido" de conservação de forragem. Após a
colheita, a massa é submetida a um pré-secamento, para perda de umidade e,
consequentemente, elevação do teor de massa seca da forragem. Em seguida, a
forragem é ensilada, geralmente, em fardos envolvidos por filme plástico, para uma
perfeita vedação. O pré-secamento tem por objetivo reduzir o teor de umidade da
massa a ser ensilada que, em valores elevados (acima de 60-70%), provavelmente
induzirá a proliferação de bactérias heterofermentativas, as quais promovem
fermentações indesejáveis na massa (fermentações acéticas, butíricas e, em última
instância, o aparecimento de Clostridium spp.). Para obter uma fermentação de boa
qualidade, é recomendável o emuchercimento da forragem ao sol, por três a cinco
horas, antes da ensilagem. A adição de melaço, na base de 5% da MS, parece não ser
recomendada nessas condições (Umaña et al., 1991). Informações disponíveis na
literatura sobre "silagem" de Cynodon, via de regra dizem respeito, na verdade, ao
pré-secado.
O fornecimento da silagem para vacas em lactação é influenciado pela idade
em que a forragem foi colhida e pela proporção de concentrado na dieta. Bernal
(1993) citado por Vilela e Alvim (1998), avaliando duas idades ao corte (4 e 8
semanas) e diferentes proporções de concentrado na dieta de vacas em lactação
observaram em silagens de Cynodon, que os teores de PB reduziram de 16,6 para
11,1% e os teores de DIVMO de 55,0 para 44,0% ao atrasar o corte de quatro para
oito semanas, respectivamente. As vacas alimentadas com a silagem preparada com
quatro semanas e relação volumoso:concentrado de 52:48 na MS produziram 23,2
kg.vaca-1.dia-1de leite, enquanto as vacas alimentadas com a silagem preparada com
oito semanas, produziram a mesma quantidade de leite tendo que receber 8% a mais
de concentrado (na proporção 44:56 na MS), ou seja, 3 kg.vaca-1.dia-1.
Evangelista et al. (1999) avaliaram características da silagem de estrela roxa
(C. nlemfüensis) colhida com 45 dias, submetida a 1, 2 ou 3 horas de pré-secagem e
com ou sem a adição de 4% de polpa cítrica. Para as silagens que não receberam
polpa, a pré-secagem da forragem por 3 horas elevou o teor de MS em 15,5 unidades
percentuais e, para as silagens acrescidas de polpa, o aumento na MS foi da ordem de
14,1 unidades percentuais, em relação às silagens que não foram submetidas a pré-
secagem. Isso indica que a adição de polpa cítrica à massa elevou o teor de MS da
forragem de maneira similar à pré-secagem por 3 horas. Com relação aos teores de
PB, houve efeito somente da adição de polpa cítrica, tendo os maiores valores sido
observados nas silagens sem polpa (13,5%), em relação às que foram acrescidas de
polpa (12,8%). Para as silagens sem aditivo, constatou-se redução de 4,3 unidades
percentuais no teor de FDN, quando se comparou com o valor observado na silagem
não submetida à pré-secagem (82,7%), em relação à silagem submetida a três horas
de pré-secagem.
Com o objetivo de avaliar o efeito de emurchecimento e de aditivos na
fermentação de pré-secado de Tifton 85, Nussio et al. (2001) conduziram
experimento em Água Comprida, MG, com os tratamentos consistindo de cinco
teores de MS (20-30, 30-40, 40-50, 50-60 e 60-70%) sem aditivo (Sil-All-Althec
Inc.) e três teores de MS (20-30, 40-50 e 60-70%) com aditivo. Foram retiradas
amostras dos fardos após 0, 6 e 12 horas e 1, 2, 4, 8, 16 e 32 dias após a embalagem
dos mesmos para verificar o pH e a temperatura da silagem. Os perfis de pH final e
picos de temperatura foram afetados principalmente pelo teor de MS na forragem,
sugerindo que uma melhor fermentação deve ser alcançada tanto pelo murchamento
como pela presença do aditivo. As perdas de MS (177 a 281 kg.ha-1) aumentaram
com o maior nível de MS, enquanto que o peso do fardo (364 a 254 kg) e densidade
(310 a 216 kg.m-3) diminuíram com a elevação do teor de MS. Os dados sugerem um
melhor processo de fermentação nos níveis intermediários de MS.
A produção e o valor nutritivo do capim-coastcross-1 foram estudados com a
forragem conservada sob as formas de feno, silagem e pré-secado (Andrade et al.,
1999). Foi verificado um melhor valor nutritivo para o pré-secado do que para as
duas outras formas de conservação (Tabela 14), bem como um maior consumo de
MS e teor de nutrientes digestíveis totais. A produção de massa seca aumentou
linearmente com a idade da planta, tendo o teor de PB apresentado comportamento
inverso. O teor de MS da forragem não foi afetado pela idade. Os autores
concluíram que o pré-secado é o melhor método de conservação para Coastcross-1,
devendo a forragem ser colhida no intervalo de 28-35 dias de rebrotação.
Dentre os métodos de conservação de forragem, a ensilagem de Cynodon é
talvez a de utilização menos indicada, seja em função dos altos teores de umidade da
forragem, quando colhida aos 20 a 30 dias ou dos baixos teores de PB e
digestibilidade, além dos altos teores da porção fibrosa (FDN), quando colhida aos
70 a 80 dias. Já o pré-secado vem ganhando espaço entre os pecuaristas, já sendo
utilizado em pequena escala com sucesso nas épocas de baixa disponibilidade de
pasto. Entretanto, há necessidade de elevar a quantidade produzida desse tipo de
alimento conservado,haja vista, igualmente ao que acontece com o feno, que tem
alcançado preços relativamente altos, muitas vezes não sendo economicamente
viável para o pecuarista.
Tabela 14. Valor nutritivo de capim-coastcross-1 em diferentes métodos de
conservação
Característica Método de conservação
Silagem Pré-secado Feno
- - - - - - - - - - - - - - - - - % - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Digestibilidade MO 62,34ab 65,23a 61,98b
Digestibilidade PB 66,94b 71,39a 70,61ab
Digestibilidade FDN 61,02b 65,10ab 67,35a
NDT 64,64b 75,73a 68,51a
Consumo MS (% Peso corporal) 2,26b 2,54a 2,14b
Médias seguidas de letras iguais na mesma linha não diferem entre si (P=0,05);
Fonte: Andrade et al. (1999).
5.4.Associação de Cynodon com outras espécies em pastagens
Visando melhor utilização de áreas de pastagens cultivadas com gramas-
bermudas, tem-se obtido sucesso na introdução de leguminosas de inverno para
melhorar a produção de forragem por área e a qualidade da dieta e, na recuperação de
pastagens degradadas de Coastal, com reflexos positivos na produção animal.
Por outro lado, a associação de Cynodon com leguminosas tropicais vem
sendo um desafio para os pesquisadores e produtores, pois, apesar das boas
condições de estabelecimento da consorciação, as diferenças entre as espécies
determinam a dominância da gramínea após o início do pastejo. Sob diferentes
sistemas de manejo da pastagem, foi verificado que Desmodium intortum (Mill.)
Urb. somente seria mantido no consórcio com períodos de descanso de no mínimo 56
dias, o que já comprometeria a qualidade da forragem da gramínea (Serrão, 1976;
citado por Maraschin, 1988).
Brown e Byrd (1990) e Stringer et al. (1994) conduziram experimentos
consorciando Cynodon com alfafa (Medicago sativa L.) e, demonstraram uma
dominância da leguminosa. Brown e Byrd (1990) em dois experimentos avaliram a
produção e a composição botânica dessa consorciação. No primeiro, a alfafa foi
semeada pura e em consorciação com Tifton 44, sem adubação ou adubado com 100
kg ha-1 de N, comparando esses tratamentos com a gramínea adubada com doses de
100, 200 e 300 kg ha-1de N. No segundo experimento, a alfafa foi semeada pura em
linhas espaçadas de 15 cm e em linhas espaçadas de 15 ou 30 cm consorciada com a
cultivar Coastal. O capim também foi cultivado puro e fertilizado com as doses de
100, 200 e 300 kg.ha-1 de N. A produção média na consorciação nos dois
experimentos foi de 9.700 kg.ha-1de MS, sendo similar à produção da alfafa como
cultura única (9.200 kg.ha-1 de MS). A produção na consorciação também foi similar
quando a gramínea foi adubada com 200 kg ha-1 de N (11.200 kg.ha-1). A alfafa foi
predominante na consorciação, compreendendo 100% da forragem disponível nas
colheitas de primavera. A menor percentagem da leguminosa foi de 53%, obtida no
primeiro ano do experimento.
Stringer et al. (1994) propuseram que o baixo vigor da gramínea em
consorciação com a alfafa pode ser devido ao sombreamento causado pela
leguminosa e, que o equilíbrio na composição botânica pode ser manipulado através
da utilização de nitrogênio e de espaçamentos adequados. Esses autores
desenvolveram experimentos com o objetivo de avaliar esses efeitos na consorciação
Tifton 44 + alfafa. Foram aplicadas doses de 0, 112, 224 e 448 kg.ha-1 ano-1 de N e a
alfafa foi semeada no Tifton 44 nos espaçamentos de 20, 40 e 60 cm entre linhas. A
produção da gramínea duplicou com a dose de 448 kg ha-1 ano-1 de N, em relação à
ausência de N. O N aumentou a produção nas parcelas consorciadas em 11%,
embora não tenha tido efeito ou tenha diminuido a participação da gramínea na
parcela. Os autores concluíram que a alfafa utilizou uma porção significativa do N
aplicado e, que este não auxiliou na permanência da gramínea na consorciação. Já o
aumento no espaçamento gerou maior percentagem da gramínea, provavelmente em
função da redução do sombreamento da alfafa.
A associação de Cynodon com outras espécies em pastagens surge como uma
boa opção, já que aumenta a produção de forragem por área e melhora a qualidade da
dieta animal. Entretanto, há também necessidade da realização de outros ensaios
visando métodos de manejo que permitam a perenidade da consorciação após o
início do pastejo, o que dificilmente tem ocorrido nas tentativas de consorciar essa
gramínea com outras espécies, principalmente leguminosas.
6 - PROJEÇÕES E PERSPECTIVAS PARA O USO DE Cynodon spp. EM
SISTEMAS DE PRODUÇÃO ANIMAL EM PASTAGENS
As forrageiras do gênero Cynodon são boas opções para sistemas de produção
animal. Historicamente, esse grupo de espécies forrageiras tem sido largamente
empregado em sistemas de produção de carne e leite com bovinos, além de ter
importante papel na alimentação de equinos e ovinos em diversas regiões do
continente americano. A variabilidade genética entre espécies e cultivares tem sido
um eficiente banco de genes nos programas de melhoramento e no lançamento de
novas cultivares comerciais para o setor produtivo. É necessário, no entanto, que se
dê continuidade às pesquisas que visem elucidar os processos ecofisiológicos
relativos às respostas dessas novas plantas à desfolhação, seja por máquinas ou por
animais. Informações amplamente disponíveis na literatura sobre os aspectos
biológicos das inter-relações envolvendo o solo, a planta, o animal, e o meio, ainda
são escassas para a maioria das espécies forrageiras tropicais. Alguns esforços, no
entanto, já começam a enriquecer as bases de dados sobre gramíneas tropicais sob
pastejo, e especificamente no caso de Cynodon, onde aspectos de ambiente luminoso
e arquitetura foliar (Fagundes et al., 1999a, 1999b), dinâmica de perfilhamento
(Carvalho et al., 2000), mecanismos de competição intraespecífica (Sbrissia et al.,
2001), fluxo de tecidos (Pinto et al., 2001), e da interface planta-animal (Carnevalli
et al., 2001a, b) começam a ser disponibilizados na literatura. À medida que novas
informações forem geradas, por exemplo sobre o efeito da temperatura e do
fotoperíodo sobre a fisiologia e balanço de carbono nas muitas espécies e cultivares
de Cynodon (que certamente diferem entre si), será possível não apenas planejar a
produção de alimento dentro do sistema, mas também aferir com maior exatidão a
viabilidade técnica e econômica de práticas que visem a intensificação da produção,
tais como a adubação e a irrigação de pastagens e áreas destinadas à conservação de
forragem.
6.1 - Estudos em ecofisiologia para subsdiar novas práticas de manejo de Cynodon
Em anos recentes, uma série de trabalhos adotando um novo enfoque, não
apenas baseado na combinação entre produção e qualidade da forragem produzida,
mas sim em princípios de ecofisiologia foram conduzidos no Brasil na tentativa de
otimizar o manejo de pastagens do gênero Cynodon. Esses trabalhos têm se baseado
na premissa de que é fundamental conhecer os constituintes individuais das
pastagens nos seus mais diversos aspectos, seu arranjo espacial (estrutura), assim
como a dinâmica das suas interações dentro da comunidade de plantas, para, com
base neles, fazer recomendações de manejo (Da Silva et al., 1998), já que o acúmulo
de massa seca é apenas um dos processos dentro do sistema de produção em
pastagens (e ainda assim resultante de vários outros processos), e pouco representa
como guia de manejo para a otimização do uso da pastagem como recurso dentro do
sistema, caso outros processos não sejam identificados, quantificados e
compreendidos (Da Silva e Pedreira, 1997).
Seguindo essa linha, em um experimento com duração de 12 meses, três
cultivares de Cynodon (Coastcross, Florakirk e Tifton 85) foram pastejadas por
ovinos em lotação contínua, mantendo a altura do dossel em 5, 10, 15 e 20 cm acima
do nível do solo, sendoessas alturas respectivamente correspondentes às massas de
3.000, 4.000, 5.000 e 6.000 kg.ha-1 de MS. Dentro desse experimento, diversos
aspectos ligados às plantas e a inter-relação entre planta e animal foram estudados,
com avaliações sobre a composição morfológica (Fagundes et al., 1999a), índice de
área foliar (IAF), interceptação luminosa (IL), coeficiente de extinção e acúmulo de
forragem (Fagundes et al., 1999b e Fagundes et al., 2001), demografia de perfilhos e
perfilhamento (Carvalho et al., 2000), dinâmica dos compostos de reserva (Carvalho
et al., 2001), dinâmica do acúmulo de massa seca e padrões estacionais de
crescimento (Pinto et al., 2001), mecanismos de compensação entre tamanho e
densidade de perfilhos (Sbrissia et al., 2001; 2003) e por fim, o desempenho dos
animais em pastejo (Carnevalli et al., 2000, 2001a, 2001b).
Essa série de trabalhos mostrou que, apesar da forma de crescimento
prostrada, cerca de 60 a 75% do crescimento das plantas foi proveniente de
alongamento de colmos, e não de folhas, o que foi constatado com a evolução da
constituição morfológica das plantas ao longo do período experimental (Tabela 15).
O número de folhas vivas por perfilho se manteve praticamente inalterado, ao redor
de 5 folhas, com a taxa de aparecimento de folhas diminuindo, conforme ficou
evidenciado pelos valores de filocrono (Tabela 16) e o tempo de vida médio das
folhas aumentando com o incremento nas alturas de corte (Pinto et al., 2001). O
índice de área foliar (IAF) variou entre cultivares, sendo consistentemente maior para
Tifton 85 do que para as demais, (Figura 9), o mesmo acontecendo com a
interceptação de luz (IL) (Figura 10), refletindo as diferenças morfológicas entre as
cultivares (Fagundes et al., 1999b).
Tabela 15 - Distribuição percentual dos componentes morfológicos de três cultivares
de Cynodon no período de julho a dezembro de 1998
Tifton 85 Florakirk Coastcross
Mês Folha Colmo Morto Folha Colmo Morto Folha Colmo Morto
- - - - - - - - - - - - % da massa de forragem - - - - - - - - - - - -
Julho 24,2 34,1 41,7 16,9 34,6 42,0 17,4 40,0 46,0
Agosto 26,5 37,8 35,6 19,3 36,9 43,2 17,5 42,5 40,0
Setembro 18,4 44,5 39,1 10,4 36,9 52,6 10,8 31,8 57,4
Outubro 22,6 41,5 35,9 19,5 41,6 37,7 23,3 39,6 37,1
Novembro 15,3 46,7 38,0 13,9 45,0 40,3 17,9 49,0 33,1
Dezembro 12,5 47,5 40,0 12,1 42,2 44,6 17,1 41,2 41,7
Adaptado de Fagundes et al. (1999a).
Tabela 16 - Valores de filocrono em dosséis mantidos a quatro alturas constantes
(steady-state) por pastejo. Média de três cultivares (Tifton 85,
Florakirk, e Coastcross)
Época de
avaliação Altura do dossel (cm)
5 10 15 20
- - - - - - - - - - dias / folha - - - - - - - - - -
Dez
Fev
Abr
Jul
4,1 4,3 4,0 3,1
3,8 4,9 4,2 5,3
4,7 4,8 5,3 5,4
8,3 9,2 8,5 11,4
Adaptado de Pinto et al. (2001).
0
0,5
1
1,5
2
2,5
Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro
Época de avaliação (mês)
Índ
ic
e
de
ár
ea
fo
lia
r
(IA
F)
Tifton 85 Florakirk Coastcross
Figura 9 - Índice de área foliar em pastos de Cynodon spp. sob regime de lotação
contínua em diferentes épocas de avaliação (Fonte: Fagundes et al.,
1999b).
Estudos da dinâmica do perfilhamento revelaram que a população de
perfilhos em áreas de Cynodon sob pastejo passa por constante renovação, que é
mais acentuada nas menores alturas de dossel, e mais lenta nas maiores alturas
(Tabela 17). Esse processo opera de forma concomitante com um mecanismo de
compensação entre o tamanho e a densidade populacional de perfilhos, onde nas
menores alturas o número de perfilhos por unidade de área é maior, porém com
indivíduos de menor tamanho, enquanto que conforme a altura aumenta o tamanho
dos perfilhos também aumenta, em detrimento da densidade populacional, que
diminui devido à competição intra-específica (Sbrissia et al., 2001).
0
10
20
30
40
50
60
70
80
Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro
Época de avaliação (mês)
In
te
rc
ep
ta
çã
o
Lu
m
in
o
sa
(%
)
Tifton 85 Florakirk Coastcross
Figura 10 - Interceptação luminosa em pastos de Cynodon spp. sob regime de lotação
contínua e em diferentes épocas de avaliação (Fonte: Fagundes et al.,
1999b).
Na pesquisa citada, mesmo as alturas de pastejo mais drásticas, utilizadas em
regime de lotação contínua com ajustes frequentes na taxa de lotação para
manutenção da condição de equilíbrio, aparentemente não comprometeram a
perenidade dos estandes, pois além da evidência proveniente dos dados de dinâmica
populacional de perfilhos, os níveis de compostos de reserva (carboidratos totais não-
estruturais e compostos nitrogenados) em momento nenhum indicaram um
esgotamento dos estoques energéticos para manutenção das plantas. Além disso,
amostras de forragem obtidas por pastejo simulado revelaram que os teores de
proteína bruta e digestibilidade da matéria orgânica foram pouco variáveis, ao redor
de 17,5% e 76,3% respectivamente, em função de variação da composição da dieta
“selecionada” ter sido pequena entre os tratamentos, mostrando que as diferenças em
desempenho se deram mais em função das diferenças quantitativas no consumo
voluntário do que em diferenças no valor nutritivo da forragem consumida
(Carnevalli et al., 2000; 2001a; 2001b). A faixa de aparente flexibilidade para
acúmulo de forragem total (equilíbrio entre crescimento e senescência) para os
capins do gênero Cynodon estudados, ocorreu nas alturas de dossel entre 10 e 20 cm,
com as maiores produções de massa seca ocorrendo entre os 15 e 20 cm, bem como
os melhores desempenhos de produção por unidade de área (kg de peso corporal por
hectare).
Tabela 17- Densidade populacional e peso de perfilhos individuais de pastos de
Cynodon spp. mantidos a quatro alturas constantes (steady-state) por
pastejo em diferentes épocas (meses) de avaliação. Média de três
cultivares (Tifton 85, Florakirk, e Coastcross)
Altura
(cm)
Dezembro Fevereiro Abril Julho
densidade
(perfilho/m2)
peso
(mg)
densidade
(perfilho/m2)
peso
(mg)
densidade
(perfilho/m2)
peso
(mg)
densidade
(perfilho/m2)
peso
(mg)
5 15.127 17,4 16.482 11,1 11.155 17,4 14.415 17,8
10 9.904 41,2 11.773 32,6 15.528 22,6 11.661 36,7
15 10.145 51,1 9.026 43,2 14.483 28,4 12.001 41,5
20 6.980 88,8 9.996 63,0 12.251 55,6 17.659 42,8
Adaptado de Sbrissia et al., 2001.
Conforme tem sido demonstrado por uma série de trabalhos mais recentes,
realizados com outras espécies forrageiras tropicais, como os capins dos gêneros
Panicum (Uebele, 2002; Bueno, 2003; Carnevalli, 2003 e Barbosa, 2004) e
Brachiaria (Lupinacci, 2002; Sarmento, 2003; Molan, 2004; Andrade, 2004),
seguindo essa abordagem ecofisiológica, existe uma semelhança muito grande no
padrão de resposta apresentado por essas plantas tropicais no que diz respeito à
estrutura do dossel (arranjo espacial), tamanho do aparato fotossintético (IAF),
interceptação luminosa e dinâmica do perfilhamento com os relatados para as plantas
de clima temperado (Da Silva, 2002). Isso permite inferir que os processos
fundamentais que determinam respostas biológicas de espécies forrageiras tropicais
não devem diferir daqueles que já há algum tempo são melhor conhecidos, bem
aceitos, e largamente aplicados no manejo de gramíneas de clima temperado.
Com base nesse conceito de interceptação de luz, os dados apresentados por
Fagundes et al. (1999b) (Figura 10), indicam que Tifton 85 atingiu os 95% de
interceptação em alturas de dossel ao redor de 20 cm, ao passo que Florakirk e
Coastcross em alturas na faixa de 25 a 30 cm. Isso sugere que devem existirdiferenças nas exigências de manejo para a otimização de processos biológicos
nessas três forrageiras, que, de outra maneira, parecem ser tão semelhantes. Estudos
com outras espécies manejadas sob desfolhação intermitente como Panicum e
Brachiaria (não existem dados específicos para Cynodon em pastejo intermitente
usando esta abordagem metodológica), sugerem que a altura recomendada para o
manejo sob lotação contínua, corresponderia, numa boa aproximação, à condição
média entre a altura de entrada e a altura de resíduo pós-pastejo para a planta. Se
isso se aplicar aos capins do gênero Cynodon, pode-se indicar que para Tifton 85
seriam recomendados uma altura de entrada para pastejo ou corte de 25 cm, com um
rebaixamento para 15 cm de resíduo, e para Coastcross e Florakirk uma altura de
entrada de 30 a 35 cm, e um resíduo semelhante ao do Tifton 85.
Esse novo enfoque metodológico oferece não apenas uma abordagem sob o
prisma de conceitos e princípios, mas principalmente um novo rol de informações
para o entendimento dos diversos aspectos ligados à dinâmica de produção e
consumo de forragem em pastagens, bem como as respostas de animais em pastejo,
trazendo uma visão integrada dos componentes do sistema pastoril, solo–planta–
animal, e possibilitando o estabelecimento de técnicas de manejo mais racionais,
eficientes e economicamente mais viáveis.
7- CULTIVARES DE Cynodon MAIS UTILIZADOS NO BRASIL
Cynodon spp. cv. Coastcross 1
Coastcross-1, no Brasil conhecido apenas como Coastcross é provavelmente
a cultivar de Cynodon mais disseminada em nosso país, sendo há muito tempo aqui
cultivada (Hill et al., 1998). Originária dos Estados Unidos, fruto do programa de
melhoramento das plantas desse gênero feito por G.W. Burton na Estação
Experimental Coastal Plain em Tifton na Geórgia, foi liberada para plantio em 1967.
É um híbrido de primeira geração (F1), estéril, obtido do cruzamento de Coastal
[Cynodon dactylon (L.) Pers.] com uma introdução de número PI 255445, um
Cynodon nlemfuënsis Vanderyst var. robustus trazido do Quênia (Burton, 1972). Foi
desenvolvida principalmente para a região sul dos Estados Unidos, sendo pouco
resistente ao frio e tendo seu potencial produtivo reduzido com o abaixamento da
temperatura.
Descrição morfológica: Gramínea perene, de crescimento prostrado (estolonífero),
sem a presença de rizomas, com as gemas basais abaixo ou bem próximas da
superfície do solo (Burton, 1972). Apresenta colmos e folhas finos, com folhas
macias e pilosas, de coloração verde clara, em tom menos intenso do que das
gramas-estrela (Vilela e Alvim, 1998). As inflorescências são levemente
avermelhadas.
Características agronômicas: Coastcross é considerada uma cultivar de alta
produção de massa seca, que quando bem manejada produz mais de 20 t.ha-1.ano de
MS (Alvim et al., 1996). É uma planta exigente em fertilidade não tolerando solos
ácidos e pobres em nutrientes ou mal drenados. Apresenta boa resistência ao pisoteio
e alta tolerância à pragas e doenças. Seu valor nutritivo é alto, com boa
digestibilidade e alto teor de proteína, apesar de essas características serem
fortemente relacionadas ao manejo. Dentre as forrageiras do gênero Cynodon é
considerado um capim pouco competitivo, fechando lentamente o estande inicial
quando comparado com outras espécies e cultivares do gênero. A ausência de
rizomas faz com que a erradicação da planta seja mais fácil. É uma planta que se
propaga vegetativamente.
Cynodon spp. cv. Tifton 85
Tifton 85 é considerada a melhor cultivar de Tifton lançada (Rodrigues et
al.,1998), sendo também oriunda do programa de melhoramento desenvolvido por G.
W. Burton na Geórgia, EUA. De introdução relativamente recente no Brasil, foi
trazida por produtores particulares em meados da década de 1990, quando os
Cynodon foram os “capins da moda” (Pedreira et al., 1998). É hoje a preferida na
formação de novas áreas de Cynodon em nosso país. Sua liberação para uso
comercial ocorreu em maio de 1992 (Burton et al., 1993) como resultado de um
programa de seleção, iniciado em 1984 (Burton, 2001) que avaliou híbridos F1 de
Tifton 68 (Cynodon nlemfuensis) com uma introdução originária da África do Sul
(denominada Tifton 292 ou PI290884), que segundo Pedreira (2005), é
provavelmente um C. dactylon.
Descrição morfológica: Gramínea perene, estolonífera e rizomatosa, de porte alto
quando comparada com outras plantas do gênero, com colmos e folhas largas, de cor
verde escura (Burton et al.,1993). Apresenta rizomas e estolões grandes e grossos,
que se espalham rapidamente pelo terreno. Os estolões são verdes em tom escuro,
com pigmentação roxa pouco intensa (Rodrigues et al.,1998). Os rizomas aparecem
em pequeno número.
Características agronômicas: Diversos trabalhos têm indicado Tifton 85 como a
cultivar de mais alta produção dentre os Cynodon (Burton, 1993; Postiglioni e
Messias, 1998; Mandebvu, et al., 1999; Tonato et al., 2002), produzindo forragem de
elevado valor nutritivo (Hill et al., 1993; Sollenberger et al., 1995), apesar de altos
teores de FDN. No que diz respeito às exigências em fertilidade do solo, é
considerada exigente, e com grande potencial de resposta às adubações nitrogenadas
(Alvim et al., 1996). Seu crescimento é vigoroso, se espalhando rapidamente pelo
terreno, de maneira bastante competitiva. É um híbrido de propagação vegetativa.
Cynodon spp. var. Jiggs
Jiggs é atualmente considerada uma variedade de grama-bermuda (Cynodon
dactylon). Suas origens não são totalmente conhecidas, e não há registro oficial de
cultivar na literatura técnico-científica. Parece tratar-se de uma variedade
desenvolvida por produtores norte-americanos (lançamento particular),
provavelmente um pecuarista do oeste do Texas chamado J. C. Riggs (Bade, 2006).
Existem diversas versões de como essa variedade foi difundida e o que se sabe é que
tem se disseminado rapidamente pelo oeste do EUA. No Brasil não se têm registros
oficiais de sua introdução, mas pode ser encontrada no país e tem se espalhado
relativamente rápido, principalmente entre criadores de cavalos e de gado de leite. As
informações mais recentes a respeito desse capim dizem que testes feitos na
Universidade de Auburn no Alabama, mostraram ser uma planta muito semelhante à
outra grama-bermuda, a cv. Callie, e ainda mais parecido com um outro ecótipo
encontrado no Mississipi chamado de Rice Maddox (Bade, 2006).
Descrição morfológica: Em função do desconhecimento de sua origem e da
conseqüente falta de estudos em relação a essa planta, sua descrição morfológica é
um tanto quanto pobre. Segundo Mislevy (2006) trata-se de uma planta perene, de
porte intermediário, que forma um dossel denso, em tom de verde claro. Possui
folhas e estolões muito finos, e poucos rizomas, que também não são muito grossos.
Características agronômicas: Mais uma vez as informações são escassas, mas
indicam ser essa uma planta de alto potencial produtivo, principalmente em solos
férteis, mas ao contrário dos demais Cynodon parece vegetar bem em solos mais
pobres, inclusive superando cultivares mais produtivas como Tifton 85 nessas
condições. Também existem indicações de ser mais tolerante à seca do que as
demais. Apresenta bom valor nutritivo como os demais Cynodons e Mislevy (2006)
relatou valores de 10 a 16% de PB, e 51 a 58% de digestibilidade quando a pastagem
foi manejada a intervalos entre cortes de 4 a 5 semanas. Por ser uma planta de
estruturas muito finas, sua desidratação é rápida, tornando essa planta indicada à
fenação.
Jiggs também é propagado por mudas ou estolões, apresentando um rápido
pegamento, e fechando o estande em pouco tempo. Uma vez estabelecido, é uma
planta persistente, bastante competitva, mesmo com outros Cynodon.
Cynodonspp. cv. Tifton 78
Cultivar lançada em 1984 pela Universidade da Geórgia, como o nome
indica, também é fruto do programa de melhoramento de G. W. Burton na Coastal
Plain Experiment Station em Tifton. Consiste de um híbrido F1 obtido do cruzamento
entre Tifton 44 (Cynodon spp.) e Callie (C, dactylon var. aridus) em 1975 (Burton e
Monson, 1988). Foi desenvolvida com o intuito de se obter uma planta com alta
tolerância ao frio como a Tifton 44, mas com maior produtividade do que esta. Para
as condições brasileiras não é recomendada, apesar de existirem algumas áreas
implantadas com essa gramínea.
Descrição morfológica: Perene, estolonífera e rizomatosa, de porte mediano a alto,
com aspecto grosseiro (Evangelista e Pinto, 2005). Os estolões e os rizomas
aparecem em grande quantidade (Burton e Monson, 1988).
Características agronômicas: Em comparação às cultivares de maior produção do
gênero, é considerada uma planta de produtividade média, sendo sua grande virtude a
elevada capacidade de resistência ao frio. Apresenta valor nutritivo mediano também
em relação às melhores cultivares Tifton 85 (Hill et al., 1987). É considerada
exigente em fertilidade do solo. Ocorre de forma vegetativa, por se tratar de um
híbrido, estabelece-se rapidamente e de maneira fácil, sendo de difícil erradicação
depois de implantada em decorrência da grande quantidade de rizomas que produz.
Cynodon nlemfuënsis Vanderyst cv. Tifton 68
Apesar de não ser um C. dactylon ou um híbrido interespecífico, é
considerada por Burton e Monson (1984) como uma grama-bermuda. Liberada para
uso comercial em 1984, também foi desenvolvida pela Universidade da Geórgia e na
Estação Experimental de Tifton. Originou-se do cruzamento entre duas introduções
Quenianas PI 255450 e PI 293606, as duas plantas de maior digestibilidade do banco
de germoplasma de G.W. Burton. É um produto de primeira geração (F1), mas não
interespecífico, mantendo dessa forma a sua fertilidade (produz pólen) (Burton e
Monson, 1984). Seu desenvolvimento se deu pela busca por plantas com maiores
valores de digestibilidade, sendo Tifton 68 a primeira cultivar lançada dentro desse
intuito. Mais tarde, seguindo essa linha de desenvolvimento, Tifton 68 foi usado
como base para o desenvolvimento do Tifton 85. As áreas existentes no Brasil com
Tifton 68 são restritas, já que foi introduzida aqui em meados da década de 90, com o
“modismo dos Tiftons” (Pedreira et al., 1998), juntamente com Tifton 85, Florakirk e
outras, mas em função de sua inferioridade quando comparada com Tifton 85, os
produtores têm preferido implantar essa última. Relatos dão conta de que é
extremamente susceptível a várias espécies de cigarrinha-das-pastagens, sofrendo
grandes danos quando infestada.
Descrição morfológica: Perene, estolonífera, não rizomatosa, é descrita por Burton e
Monson (1984) como um tipo gigante, de porte alto, com grandes colmos, e estolões
grossos.
Características agronômicas: Apresenta alta produção, mas também alta exigência
em fertilidade do solo. Tifton 68 é uma cultivar cujo processo de seleção se guiou
pela busca de forrageiras de alta digestibilidade.
A exceção dos demais Cynodon cultivados no Brasil, Tifton 68 produz
sementes viáveis, podendo dessa forma, ser estabelecida por sementes. A
inexistência de sementes comercialmente disponíveis, e a formação muito mais lenta
do estande quando comparado à implantação de forma vegetativa, praticamente
inviabilizam a formação por sementes, sendo mesmo para essa cultivar, recomendada
a implantação por mudas.
Cynodon sp. cv. Florakirk
Florakirk é uma grama-bermuda, lançada em 1994 pela Universidade da
Flórida em cooperação com a Universidade da Georgia (Mislevy et al., 1999). Essa
cultivar foi desenvolvida por G.W. Burton, através do o mesmo cruzamento usado
para desenvolver Tifton 78, isto é, hibridando Tifton 44 e Callie, com a única
diferença de que para Florakirk, Callie foi usada como linhagem paterna, e para
Tifton 78 Tifton 44 foi a linhagem paterna (Pedreira, 1996). Ambas as cultivares
foram desenvolvidas conjuntamente com Florakirk inicialmente recebendo a
denominação de Tifton 35-3, e Tifton 78 de 35-4. Na Geórgia, Tifton 78 apresentou
produtividade melhor, sendo então comercialmente lançada, mas na Florida, a
cultivar 35-3 que estava sendo testada desde 1978 mostrou-se superior,
principalmente em condições de solos mal drenados, sendo então lançada 10 anos
depois. Essa cultivar, é um híbrido estéril mais adaptado às condições subtropicais, e
por isso foi introduzida no Brasil, também na década de 1990 por produtores, e de
maneira não oficial. Em função dessa introdução relativamente recente, e do grande
número de cultivares simultaneamente trazidas, o número de pesquisas com essa
planta é relativamente pequeno em nosso país e, portanto, o conhecimento da
produtividade dessa planta nas nossas condições também.
Descrição morfológica: Capim de porte médio, persistente, perene, estolonífero e
rizomatoso. Seus nós e entrenós são glabros, e seus colmos são finos (Mislevy et al.,
1999).
Características agronômicas: Considerada uma cultivar de alta produção e de alta
qualidade por Mislevy et al. (1999), Florakirk foi lançada com o principal objetivo de
ser usada na produção de feno, sendo pouco recomendado seu uso para pastejo. De
alta exigência em fertilidade de solo, é uma planta que se destaca também por ser
mais tolerante que as demais gramas bermudas a solos mal drenados (Pedreira,
2005). Um problema apresentado por Florakirk é o acúmulo de glicosídeos
cianogênicos, principalmente quando submetido a altas doses de N. Esses compostos
podem em condições específicas liberar ácido cianídrico (HCN), que em
determinadas concentrações menores pode deprimir o desempenho animal ou em
maiores concentrações ser até mesmo letal (Nussio et al., 1998).
Propaga-se somente de forma vegetativa, sendo seu estabelecimento rápido
quando as condições de fertilidade do solo são adequadas.
Cynodon nlemfuënsis Vanderyst var. nlemfuënsis cv. Florico
Os primeiros registros de Florico datam de sua introdução em 1957 na
Universidade de Porto Rico, ainda como um Cynodon plectostachyus (K. Schum.)
Pilg. que fora trazido do Quênia. Ainda em Porto Rico, foram feitas as primeiras
pesquisas que atestaram sua superioridade em relação ao acúmulo de massa e de
proteína (Mislevy et al., 1993a). Na década de 1970, a denominação científica foi
corrigida para a atual, por J. R. Harlan, da Universidade de Illinois, e logo a seguir,
em 1972 essa forrageira foi levada para a Flórida para maiores estudos. Esses estudos
culminaram com a liberação para uso comercial nos EUA de um clone assexuado em
1989. No Brasil a data de sua chegada é desconhecida, tendo ocorrido provavelmente
no final da década de 1990. É bem adaptada a regiões tipicamente tropicais
Descrição morfológica: Alta e de aspecto grosseiro, estolonífera, mas sem a
presença de rizomas. Seus colmos são grossos, seus estolões são longos e suas folhas
não muito longas. Apresenta coloração verde escuro com tom avermelhado em seus
colmos e folhas, e suas inflorescências são de cor roxa acentuada. Forma um estande
pouco denso quando comparada com as gramas-bermuda. As inflorescências
apresentam uma coloração roxa avermelhada, facilitando sua identificação (Mislevy
et al., 1989a).
Características agronômicas: Apresenta alta produção de massa seca, e boa
resposta a altos níveis de adubação, mas tem grande potencial para acúmulo de
glicosídeos cianogênicos, principalmente sob altas doses de N (Mislevy et al.,
1993a). O valor nutritivo de sua forragem é razoável, superando cultivares mais
antigas como a cv. Ona, mas sendo inferior à boa parte dos cultivares de grama-
bermuda (Mislevy et al.,1989a). Presta-se à produção de feno ou ao pastejo.
Por se tratar de um híbrido assexuado, sua propagação é exclusivamente
vegetativa, estabelecendo-se segundo Mislevy et al. (1989a) em 70 a 90 dias.
Cynodon nlemfuënsis vanderyst var. nlemfuënsis cv. Florona
Esta cultivar foi desenvolvida a partir de plantas que foram observadas
crescendo em um campo de capim-pensacola (P. notatum) em 1973 em uma estação
experimental da Universidade da Flórida em Ona, Flórida, EUA. Não se sabe como
essas plantas apareceram nesse lugar (Mislevy et al., 1989b). Em 1975 algumas
dessas plantas foram coletadas e multiplicadas, iniciando os estudos com essa
cultivar. Comercialmente, Florona foi lançada em 1988, sendo registrada como
cultivar em 1989, juntamente com Florico (Mislevy et al., 1993b). A data de sua
introdução no Brasil também é desconhecida, devendo ter acontecido junto com
Florico e alguns outros Cynodon.
Descrição morfológica: Cultivar estolonífera e não rizomatosa, com colmos e folhas
de cor verde clara, e inflorescência roxa. Forma um estande relativamente aberto, não
muito denso (Mislevy et al, 1989b).
Características agronômicas: Bem adaptada a uma grande variedade de solos, é
exigente em fertilidade, sendo selecionada principalmente por sua persistência e alta
produção. Sua produção é um pouco superior à de Florico, mas sua digestibilidade e
teor de proteína são inferiores aos deste. Pode ser utilizada para pastejo ou produção
de feno, mas, de maneira semelhante a Florico, Florona apresenta problemas com
glicosídeos cianogênicos (Mislevy et al., 1989b). Propaga-se exclusivamente de
maneira vegetativa, pois produz poucas sementes viáveis.
7.1-Cultivares de Cynodon propagadas por de sementes
Em anos recentes tem surgido nos EUA um renovado interesse por
forrageiras do gênero Cynodon propagadas por sementes (Yerramsetty et al., 2005).
Esse interesse é justificado pela maior facilidade e rapidez no estabelecimento, pelos
menores custos decorrentes da diminuição no uso de mão-de-obra e menor
necessidade de operações mecanizadas, e pela possibilidade de formação de novas
áreas de pastagens em condições nas quais a propagação vegetativa seria difícil,
como terrenos de grande declividade, áreas de integração agricultura pecuária ou
silvipastoril ou ainda, regiões de inverno muito severo em que as cultivares híbridas
não sobrevivem devido ao frio excessivo e precisam ser novamente implantadas
após alguns anos devido à deterioração do estande (Evers e Parsons, 2002).
Nesse contexto, diversos materiais propagados por sementes vêm sendo
lançados nos EUA, mas ao contrario dos híbridos de propagação vegetativa em que a
pesquisa e o desenvolvimento de novas cultivares está vinculado a instituições de
pesquisa como Universidades, o desenvolvimento e os lançamentos de Cynodons
propagados por sementes é predominantemente feito pela iniciativa privada e às
vezes por produtores, o que acaba dificultando a padronização de avaliações feitas no
ambiente acadêmico. O uso de sementes como forma de propagação também tem
viabilizado uma prática inexistente entre as cultivares de propagação vegetativa, qual
seja a mistura física de diferentes "variedades" em uma mesma área, já que diversas
dessas forrageiras (a maioria sem registro formal e sem número PI - plant
introduction - junto à Crop Science Society of America, que publica os registros no
periódico Crop Science) propagados por sementes não são resulatados de
interferência humana via cruzamentos de hibridação, como acontece com os híbridos
propagados por mudas (a maioria desses com registro de "crop cultivar"), mas
simplesmente sementes de diversas variedades misturadas em diferentes proporções.
Segundo Evers e Parsons (2002) isso é feito buscando a complementaridade entre
essas variedades em relação à capacidade de cobertura do solo, persistência ao longo
dos anos, e produtividade.
Essa combinação entre a atuação da iniciativa privada e a possibilidade de se
“criar” uma nova cultivar através da mistura de sementes de outras tem levado ao
aparecimento de um grande número de novas "cultivares comerciais" propagados por
sementes (Redfearn et al., 2007), sendo esse processo consideravelmente mais rápido
do que o desenvolvimento de Cynodon híbrido propagado vegetativamente.
De acordo com Yerramsetty et al. (2005) grande parte das cultivares atuais
propagadas por sementes estão geneticamente relacionadas à cultivar hoje
denominada Comum, um Cynodon dactylon L. Pers., introduzida e bem aclimatada à
região do estado do Arizona e Califórnia (EUA) em meados do século XIX, muito
provavelmente a cultivar conhecida no Brasil como grama-seda. Segundo os mesmos
autores, a inter-relação genética entre essas forrageiras é grande, mas de alguma
forma nos últimos anos a diversidade genética tem aumentado. Como resultado,
existe hoje no mercado norte-americano um grande número de cultivares de Cynodon
implantadas por sementes, mas de forma geral, mesmo nos EUA os dados de
pesquisa a respeito dessas plantas parecem ser escassos.
As principais cultivares comerciais propagados por sementes são:
Common (comum): Cynodon originalmente introduzido nos EUA, e foi descrito por
Redmon (2007) como uma planta de aparência bastante variável, que responde
favoravelmente ao bom manejo. Considerada de duplo propósito, podendo ser usada
como forrageira e para gramados esportivos ou residenciais. Apresenta resistência
moderada ao frio e boa adaptação aos diversos tipos de solos (Evers, 2007). Sua
produtividade de forragem é considerada baixa, mas apresenta grande produção de
sementes de boa qualidade, sendo usada em grande número de cultivares compostas.
Giant (Cynodon dactylon var. aridus): Outrora conhecida como NK37, produz
plantas de maior porte e de estabelecimento mais rápido, sendo por isso muito
utilizada em diversas misturas. Sua produção no ano de implantação é boa, mas
diminui com o tempo, chegando por vezes a desaparecer completamente após dois ou
três anos. Sua resistência ao frio é baixa, desaparecendo no inverno em estados mais
frios. Em um estudo comparativo conduzido na Georgia (EUA) sua produção média
em quatro anos de estudo foi de 66% da produção da cultivar Cheyenne, outra
cultivar propagada por sementes, e o estande final apresentava apenas 50% da
densidade original.
Cheyenne: Resultado do cruzamento entre uma grama-bermuda usada para
gramados na região noroeste do Pacífico e uma planta originária da antiga
Iugoslávia, essa cultivar foi liberada comercialmente por duas empresas privadas
(Jacklin Seed Company e Pennington Seed) em 1989 inicialmente para uso em
jardins, mas acabou mostrando também possibilidade de exploração em pastagens.
Sua produtividade pode considerada boa, similar às de Russel e Coastal (cultivares
propagadas por mudas). Também são consideradas características positivas sua
persistência e tolerância ao frio. Seus maiores problemas são o estabelecimento lento
e a baixa produção de sementes, o que tem levado ao gradual desaparecimento dessa
forrageira do mercado, pois as empresas têm preferido usar as sementes produzidas
na formação das já mencionadas cultivares compostas, já que Cheyenne aparece em
várias delas.
Wrangler: Cultivar desenvolvida no estado de Oklahoma visando tolerância ao frio,
principal aspecto usado para a seleção de espécies forrageiras C4 naquele estado
norte-americano (Redfearn et al., 2007). Sua produtividade é considerada boa, assim
como sua capacidade de cobrir o solo (Coffey, 2007).
KF CD194: Resultado de um programa de seleção, essa cultivar apresenta
produtividade similar à de Cheyenne e de Coastal, com boa persistência do estande.
É considerada uma cultivar com grande potencial para pastagens e campos de feno.
Assim como Cheyenne apresenta limitadaprodução de sementes e as empresas têm
preferido usar suas sementes na formação de cultivares compostas ao invés de sua
comercialização pura.
Morhay, Pasto Rico, Pasture Supreme, Texas Tough e Tierra Verde: Essas cinco
cultivares são misturas de sementes de Common e Giant em proporções variáveis, e
comercializados por diferentes empresas produtoras de sementes nos EUA. De forma
geral, todos tendem com o tempo a se tornarem estandes puros de Common, pois
Giant normalmente desaparece com o passar do tempo (Evers e Davidson, 2007).
Ranchero Frio: Mistura de sementes de Cheyenne, Giant e Mohawk, uma cultivar
usada em jardins.
Sungrazer: mistura de sementes de Wrangler com KF CD194.
Vaquero: Mistura de duas cultivares originalmente comercializados como gramas
para jardins, Pyramid e Mirage, e uma cultivar própria para produção de forragem
CD 90160 que ainda é considerado acesso experimental, não tendo sido oficialmente
liberado para uso em fazendas, mas que obteve bons resultados em testes realizados
nas universidades de Oklahoma, Georgia, Kansas, Virginia e Kentucky. A
produtividade de Vaquero é boa, assim como sua tolerância ao frio e ao déficit
hídrico. Em função da presença de plantas utilizadas para jardins, sua capacidade de
cobrir o solo também é grande, formando um estande bastante denso.
De forma geral, os resultados de produtividade obtidos nos estudos
comparativos têm mostrado que as cultivares implantados por sementes são menos
produtivas do que as implantadas por mudas (Tabela 18). Como esses estudos, até o
momento, só foram conduzidos em condições norte-americanas, especula-se se os
resultados podem ser aplicados às condições brasileiras.
Tabela 18. Produtividade média de diferentes cultivares de Cynodon cultivados em
Overton, Texas, por 5 anos
Cultivar 1997 1998 1999 2000 2001 Média
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - t.ha-1 de MS - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
-
Tifton 85 * 5.654,7 a 9.040,4 a 14.478,7 a 13.488,8 a 17.578,5 a 12.048,2 a
Coastal * 1.806,1 d 4.191,7
cd
9.537,0 cd 10.583,0
bd
12.947,3
bd
7.813,0 bc
CD 90160 3.068,4 b 3.979,8 d 10.870,0
bc
11.599,8 d 15.016,8
ac
8.907,0 b
Texas Tough 2.780,3
bc
5.899,1 b 13.171,5
ab
8.919,3 eg 12.324,0
cd
8.618,8 b
Ranchero
Frio
2.178,3
cd
3.264,6
de
10.071,7 c 11.200,7
bc
13.932,7
bd
8.129,6 bc
Terra Verde 2.337,4
cd
5.476,5
bc
10.150,2 c 9.325,1 df 13.170,4
bd
8.091,9 bc
Cheyenne 2.699,6
bc
3.845,3
de
7.443,9 df 10.009,0
ce
15.057,2
ab
7.811,0 bc
KF CD 104 2.145,7
cd
4.107,6
cd
8.303,8 ce 8.436,1 fg 11.294,8
de
6.857,6 c
Common 1 429,4 8.346,4 fg 12.726,5
bd
7.167,4
Giant 1 937,2 8.246,6 fg 7.447,3 f 5.543,7
Wrangler 1 210,8 7.560,5 gh 8.464,1 f 5.411,8
*Cultivares formados por mudas; 1 Cultivares implantados somente em 1999. Médias dentro de anos
seguidas da mesma letra não diferem entre si pelo Teste de Tukey a 5%. Adaptado de Evers (2007).
No Brasil, essas forrageiras ainda são "novidades" no mercado e até o
momento não existem dados de pesquisa gerados em condições experimentais
controladas, que possam fornecer subsídios a recomendações relativas à formação e
manejo. A principal vantagem que se vislumbra na adoção das cultivares
implantados por sementes, ao invés das cultivares implantados vegetativamente em
nosso país, seria a diminuição dos custos e do trabalho envolvidos na formação das
pastagens, bem como na simplificação do processo em si, retirando alguns dos
fatores citados por Envagelista e Pinto (2005) como principais limitadores à
expansão de forrageiras do gênero Cynodon em nosso país.
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CAPÍTULO 4
GÊNERO Paspalum
José Antônio Obeid
Dalton Henrique Pereira
1- INTRODUÇÃO
Das milhares de espécies de gramíneas conhecidas, a maior parte é
encontrada em pastagens nativas. Entretanto, Hartley e Willians (1956) afirmam que
em 1956, apenas 40espécies constituíam mais de 99% das pastagens cultivadas. A
busca incessante por novas espécies e, ou cultivares que garantam a quantidade e a
qualidade de forragem produzida tem incentivado a coleta de plantas com potencial
forrageiro.
Atualmente, as pesquisas com plantas forrageiras e a importância de se
conhecer novas variedades mais produtivas tem aumentado de maneira considerável,
com esforços no sentido de identificar gêneros, espécies, cultivares e ecótipos de
plantas forrageiras melhor adaptadas às condições de diversos ecossistemas. No
Brasil, até então, esta atividade vinha sendo realizada de modo a estimular as coletas
e intercâmbios de germoplasma exóticos, principalmente do Continente Africano
(gêneros Brachiaria, Panicum, etc.), esquecendo os gêneros e espécies nativas, como
por exemplo, as pertencentes ao gênero Paspalum.
É notória a importância de forrageiras do gênero Paspalum na formação de
pastagens cultivadas, sendo a América do Sul o centro de origem da maioria das
espécies desse gênero. A variabilidade genética disponível facilita os programas de
melhoramento na busca de cultivares mais produtivas e de melhor valor nutritivo.
Como espécie nativa de nossos ecossistemas, apresenta menor risco ecológico que
aqueles possibilitados pelas exóticas, como os problemas de fotossensibilização e a
suscetibilidade ao ataque de cigarrinha-das-pastagem em Brachiaria decumbens
(Cosenza, 1982) e o vírus do enfezamento em capim-pangola (Digitaria decumbens)
(Schank, 1974).
Segundo Valls (1986), o gênero Paspalum destaca-se entre as gramíneas
brasileiras por possuir grande número de espécies de bom potencial forrageiro e por
possuir boa capacidade de adaptação à acidez, à desfolhação, ao fogo, ao frio e ao
alagamento (Rodrigues, 1986). Pizarro e Carvalho (1992) afirmam que as espécies e
variedades do gênero Paspalum apresentam um grande potencial ainda pouco
explorado, para ocupar importantes áreas como as várzeas e baixadas mal drenadas.
Segundo Pott (1988), no ecossistema Pantanal, 99% das forrageiras são
nativas e, dentre as gramíneas presentes, o gênero Paspalum está representado pelas
seguintes espécies: Paspalum pantanalis, Paspalum plicatulum e Paspalum
hydrophilum (comunidade vegetal felpudo); Paspalum carinatum e Paspalum
lineare (comunidade vegetal fura bucho); Paspalum repens (comunidade vegetal
baía) e grama-tio Pedro (Paspalum oteroi).
2 – ORIGEM E DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
Pertencente a tribo Paniceae, sub família Panicoideae e família Gramineae,
atual Poaceae (Parodi, 1961), o gênero Paspalum é uma forrageira de grande
importância econômica e, dificilmente, encontra-se uma formação vegetal no Brasil
sem a presença de espécies desse gênero, sendo às vezes, dominantes e responsáveis
pela maior parte da forragem produzida (Batista e Reginato Neto, 1999).
A distribuição da tribo Paniceae foi estudada por Hartley (1950), com base
em 165 registros. Entre as maiores tribos, Paniceae é única que se apresenta
predominantemente distribuída no Hemisfério Oeste, sendo encontrada desde as
Bahamas, Índias Ocidentais, Leste Tropical da América e Centro Sul do Brasil. A
precipitação parece ser um dos fatores de maior importância na distribuição da tribo,
tendo em vista que, todas as divergências positivas em torno da distribuição
“normal” ocorrem em regiões de precipitação média anual superior a 760 mm e, as
negativas, abaixo desse limite. Ainda em relação à precipitação pluvial existe uma
alta correlação positiva (r = 0,86) entre a porcentagem de espécies da tribo Paniceae
e a média anual de chuva. Verifica-se, em geral, um efeito positivo quando a chuva é
de verão, favorecendo a distribuição e, negativo, se as precipitações acontecem no
inverno, onde as condições de temperatura são muito baixas para o crescimento ativo
das espécies de Paniceae. Todavia, mais que a intensidade de precipitação pluvial, o
binômio temperatura e umidade na estação favorável ao crescimento determina os
elevados índices porcentuais de ocorrência de espécies da tribo Paniceae. Entretanto,
não é possível determinar em que extensão a precipitação é responsável pela
abundância da tribo no hemisfério oeste (Rocha, 1991).
Burkart (1975) relata que sob condições megatérmicas, tropicais e
subtropicais, o fator temperatura perde importância e as condições hídricas controlam
as fases fenológica das gramíneas, especialmente para aquelas que vegetam em
savanas e florestas onde a família Paniceae é predominante. Rocha (1991) afirma
que a relação observada entre a maior distribuição de Paniceae e as regiões de
floresta deve-se, provavelmente, ser de efeito secundário, refletindo a presença
marcante da tribo em regiões de alta temperatura e pluviosidade. As maiores
concentrações de Paniceae ocorrem nas zonas equatoriais de ambos os hemisférios,
acima de 40o Norte e Sul de latitude, com exceção do nordeste dos Estados Unidos,
que possuem menos de 10% de espécies da tribo. Com esta ressalva, pode-se dizer
que a tribo é igualmente abundante ao norte e ao sul do Equador. Parece que a tribo
Paniceae é originária do hemisfério oeste, tendo se difundido pelas outras partes do
mundo. Entretanto, os modelos de distribuição e avaliações taxonômicas não
permitem confirmar origem desta tribo. Dos 81 gêneros incluídos nos limites da tribo
Paniceae estabelecido por Pilger (1940), 41 são encontradas no hemisfério leste, 17
são comuns a ambos os hemisférios e apenas 23 ocorrem como endêmicos no
hemisfério oeste. A família Paniceae é composta de 24 (Soreng e Davis, 1998) a 28
(Hartley, 1950) tribos com aproximadamente 620 gêneros e 10.000 espécies.
As espécies do gênero Paspalum são quase na sua totalidade de origem
americana, em especial do Brasil, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina, possuindo
cerca de 300 espécies (Barreto, 1974) a 400 espécies (Chase, 1929). Segundo Batista
e Regitano Neto (1999), a grande maioria das espécies de Paspalum conhecida
ocorre no Brasil fazendo parte das mais variadas formações vegetais, em diferentes
condições ecológicas, que foi tomada como tipo do gênero por ter sido a primeira
descrita. São conhecidas espécies tipicamente hidrófilas nos grandes rios da
Amazônia até espécies xerófitas nas regiões Nordeste e no cerrado do Centro-Oeste.
As coletas de germoplasma do gênero Paspalum foram estimuladas, segundo
Moraes (1987), citado por Batista e Reginato Neto (1999), a partir do final de 1984,
quando a EMBRAPA Recursos Genético e Biotecnologia (CENARGEN) obteve
aprovação e patrocínio da Junta Internacional de Recursos Genéticos (IBPGR/FAO)
para o projeto de coletas de germoplasma de espécies forrageiras no Brasil
Subtropical, para cuja execução foi postulada a participação cooperativa das
entidades regionais envolvidas na pesquisa com forrageiras e pastagens. Deste modo
tornou-se possível o enriquecimento da variabilidade genética disponível para a
pesquisa, a sua conservação para o futuro e a colocação da variabilidade obtida à
disposição de melhoristas e demais interessados, destacando-se, em especial, a ênfase
dada às espécies nativas do gênero Paspalum.
Apesar de nos últimos anos ter intensificado a busca por germoplasma de
Paspalum, Valls (1987) relata que tal preocupação não é nova, pois vários trabalhos
da década de 1930 estudaram a qualidade forrageira das espécies deste gênero.
Entretanto, poucos acessos de germoplasma coletados nessa fase sobreviveram em
coleções até os dias atuais. Relata ainda, que é pequeno o número de acessos de
Paspalum introduzidos de outros países e que, de modo geral, sua origem primária é
no próprio Brasil ou em países limítrofes, como revela Burton (1967) em estudos
sobre a origem do capim-pensacola (Paspalum notatum).
O gênero Paspalum é constituído por vários grupos, distribuídos nos trópicos
e sub-trópicos, tem a maioria das espécieslocalizadas nas Américas (Clayton e
Renvoize, 1986), sendo o grupo Plicatula o mais importante pela heterogeneidade
morfológica (Killen, 1990), muitas com apenas citotipos tetraplóides conhecidos.
3 - TAXOMONIA, CITOGENÉTICA E MELHORAMENTO
Estudos mais abrangentes sobre o gênero Paspalum, em relação aos aspectos
taxonômicos, foram feitos por Chase (1929) que, baseando-se nas similaridades
morfológicas, subdividiu o gênero Paspalum em dois subgêneros: Paspalum e
Ceresia, com 25 grupos informais. Esses grupos, mesmo não possuindo categoria
taxonômica definida, são reconhecidos pelos especialistas e considerados artificiais,
embora tenha-se discutido a provável monofilia de alguns deles (Denham et al.,
2002; Rua e Aliscione, 2002).
O gênero tem sido subdividido segundo a interpretação dos vários autores em
grupos informais, subgêneros, seções e subseções. Pilger (1940) reconheceu oito
seções: Moenchia, Ceresia, Eriolepidium, Cymatochloa, Pterolepidium, Erianthum,
Anachyris e Eupaspalum, este último subdividido em três grupos.
Não há, até o presente, uma hipótese filogenética para o gênero Paspalum em
seu conjunto. Portanto, não há caracteres exclusivos de Paspalum, que é delimitado
por suas inflorescências parciais racemiformes e espiguetas plano-convexas dispostas
unilateralmente. Como confirmação da dificuldade de identificação das espécies de
Paspalum plicatula, a bibliografia relaciona 30 sinônimos e 21 categorias específicas
relacionadas apenas a Paspalum plicatula.
Linnaeus (1759) descreveu o gênero Paspalum baseado em quatro espécies:
Paspalum distichum, Paspalum paniculatum, Paspalum virgatum e Paspalum
dimidiatum, que foi tomada como tipo do gênero por ter sido a primeira descrita
(Barreto, 1974). Na mesma publicação, o autor relata que as primeiras espécies
forrageiras conhecidas no continente Americano eram do gênero Paspalum, uma vez
que, por volta de 1700, Plukenet e Sloane apresentaram figuras, provavelmente, de
Paspalum virgatum L. e Paspalum boscianum Flügge.
Em 1791, houve a ampliação do gênero incluindo gêneros mais tarde
segregados em Syntherisma Walter, Axonopus P. Beauv., Eriochloa Kunth e
Cynodon Pers. (Lammark, 1791), tendo sido seguido por outros autores. Ness (1829)
dividiu o gênero em seis seções: Digitariae, Cristati, Ceresiae, Genuini, Lanigeri e
Axonopodes. Döll (1877) dividiu-o em apenas quatro seções: Eremachyrion, com
gluma superior ausente; Opisthion, com a maior parte das espécies tratadas no gênero
e Cabrera e Emprosthion que englobam as espécies atuais incluídas em Axonopus.
Bentham (1881) citado por Chase (1929), tomando como referência os
trabalhos de Nees, subdividiu o gênero Paspalum em três seções: Eupaspalum,
Cabrera e Anastrophus, as duas últimas englobando as espécies de Axonopus. A
seção típica foi subdivida em quatro subseções: Anachyris, sem gluma superior,
Opisthion onde a maioria das espécies apresentam gluma superior e ráquis áptera e
Pseudoceresia com espécies possuindo ráquis alada e espiguetas glabras e Ceresia,
que trata dos taxa com ráquis alada e espiguetas pilosas.
Chase (1911) aceitou o gênero Axonopus com base na posição reversa da
espigueta em relação a de Paspalum, considerando Anastrophus como sinônimo de
Axonopus e Cabrera como sendo uma seção do mesmo gênero.
Pilger (1929, 1940) subdividiu o gênero Eupaspalum em três grupos
informais, com base na características das inflorescências: Conjugata, Monostachya
e Paniculata.
De modo geral, as espécies de Paspalum para a América do Norte e Central
foram bem abordadas por Chase (1929), que sinonimizou o gênero Dimorphostechys
a Paspalum e reconheceu no gênero dois subgêneros: Ceresia com 8 espécies e
Paspalum com as demais. Subdividiu ainda o gênero Paspalum em 25 grupos
informais: Alterniflora, Brevia, Conjugata, Corcovadensia, Coryphea, Decumbentes,
Dilatata, Dissecta, Disticha, Fasciculata, Filiformia, Floridana, Laevia, Linearia,
Lívida, Malacophylla, Notata, Orbiculata, Paniculata, Parviflora, Plicatula,
Rupestria, Setaceae e Virgata, sendo que algumas espécies permaneceram não
agrupadas.
Hitchock (1951), estudando as gramíneas da América do Norte, reconheceu
16 grupos informais. O subgênero Ceresia não foi citado, tendo sido ainda propostos
outros grupos adicionais.
Cleyton e Renvoize (1986) subdividiram o gênero em oito seções:
Diplostachys, Moenchia, Ceresia, Eriolepidium, Pterolepidium, Erianthum,
Anachyris e Paspalum.
A subdivisão proposta por Chase (1929) em dois subgêneros e grupos
informais, com pequenas modificações, tem sido a mais empregada pelos
taxonomistas. Oliveira (2004) afirma que os grupos propostos por Chase (1929) não
possuem conotação filogenética.
Barreto (1974), classificando as espécies de Paspalum do Rio Grande do Sul,
utilizou os grupos de Chase e criou os grupos Stellata, Acuminata, Elliptica,
Modesta, Polyphylla, Eriantha, Quadrifaria, Erianthoidea e Ovalia. Canto-Dorow et
al. (1996) estudando o grupo Notata no Rio Grande do Sul, incluíram o Paspalum
almum, deixando entretanto aberta a sua exclusão após estudos mais amplos.
Davidse e Filgueiras (1993) e Filgueiras e Davidse (1994) ampliaram a
circunscrição do gênero ao descreveram a primeira espécie aristada do grupo:
Paspalum longiaristatum e, posteriormente, Paspalum biaristatum dando origem à
seção Biaristata.
A grande variabilidade presente no gênero, com a maior parte das espécies
distribuídas na América Tropical, podem contribuir para a seleção e hibridação com
outros grupos genéticos, adaptáveis às várias situações ecológicas tropicais e
subtropicais. Falta a certos representantes do gênero Paspalum, estudos de
melhoramento genético, como é o caso de algumas espécies que têm sido utilizadas
em aproveitamento natural em algumas regiões do Brasil como: capim-ramirez
(Paspalum guenoarum Arach. e suas variedades guenoarum e rojasii) no subtrópico
da América do Sul, e da grama-tio Pedro (Paspalum convexum Humb. – Paspalum
oterii) no Pantanal Matogrossense, e de vários outros como por exemplo Paspalum
maritimum Trin. e Paspalum fasciculatum Wild., etc. (Leme da Rocha, 1991).
Diversos pesquisadores têm demonstrado interesse pelo estudo do gênero
Paspalum, não só pela sua importância ecológica, forrageira e ornamental, mas
principalmente, pela sua heterogeneidade interna: apomixia, alopoliploidia,
autopoliploidia e hibridação inter-específica participam da evolução do gênero.
Em seu trabalho, Quarin (1992) afirma que cerca de 15% das espécies de
Paspalum já haviam sido estudadas no que tange ao aspecto citológico (número e
comportamento cromossômico na meiose), método de reprodução (apomixia ou
anfimixia) e sistema de cruzamento (produção de sementes em polinização aberta ou
fechada) e que, os resultados desses estudos demonstraram ainda que as espécies de
Paspalum, podem apresentar diversos níveis de ploidia. Citotipos de Paspalum com
2n = 20, geralmente são sexuais alógamos por auto-incompatibilidade e, aqueles com
40, 60 ou 80 são apomíticos e auto-compátiveis. Revela ainda que é grande o número
de diplóides, com uma contra parte conspecífica de apomíticos tetraplóides. Os dados
sugerem ainda que a apomixia surgiria após duas autoploidizações.
Morfologicamente, cada um desses citotipos diplóides são similares à sua contraparte
tetraplóide, sendo as pequenas diferenças morfológicas que separam os indivíduos
diplóides, mantidas no nível tetraplóide.
A ocorrência de apomixia em espécies forrageiras é interessante uma vez que,
um fenótipo promissor coletado na natureza, pode ser lançado no mercado pela
simples multiplicação das sementes, gerando plantas idênticas.
Burson e Quarím (1982) demonstraram a facilidade de hibridação em
Paspalum, ao reconstruírem o cruzamento natural entre Paspalum intermedium (II) x
Paspalum jürgensii (JJ),resultando na formação de um citotipo tetraplóide de
Paspalum dilatatum (IIJJ), de Paspalum urvillei (IIJJ), contribuindo nos genomas de
Paspalum conspersum (I2I2JJ) e de Paspalum virgatum (IIJ2J2). O genoma II é
característico de algumas espécies do grupo Virgata, que Barreto (1974) reuniu em
Quadrifaria. O JJ é de Paniculata. Porém, juntos, aparecem em Dilatata e Virgata,
havendo fortes indícios que o subgênero Ceresia é monofilético, englobando as
espécies do grupo Pectinata (Rua e Aliscione, 2002).
Quarim et al. (1996) afirmam que as espécies do gênero Paspalum são
abundantes nas regiões Sul e Central do Brasil, e que um grande número delas, são
excelentes forrageiras em campos nativos dessas regiões. No entanto, o estudo dessas
plantas forrageiras é altamente dependente da sua disponibilidade em coleções de
germoplasma. O aumento da necessidade do uso racional e intensivo de pastagens
levou à formação de coleções de gramíneas forrageiras nativas da América do Sul.
Inúmeras viagens de coletas foram feitas nas últimas décadas pela América do Sul
resultando em importante coleção estabelecida na Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia (CENARGEN) e, segundo Quarím et al. (1996), parte dessa coleção
foi levada para estudos no Instituto de Botânica de Corrientes (IBONE), na
Argentina.
Nessas coleções, Paspalum é um dos gêneros com maior potencial forrageiro
e, o grupo Plicatula, é o que apresenta o maior número de espécies (Quarím et al.,
1996). Na coleção do CENARGEN estavam disponíveis cerca de 1.500 acessos de
Paspalum (Valls, 1992), que foram posteriormente distribuídos a vários centros de
pesquisas do país, dentre eles, a EMBRAPA Sudeste, São Carlos-SP, num total de
215 acessos (Quadro 1), onde acessos do grupo Plicatula e Virgata estão sendo
avaliados, procurando ainda estimular o intercâmbio de germoplasma, que é
colocado à disposição dos pesquisadores no intuito da obtenção de novas cultivares
mais produtivas e adaptadas aos diversos ecossistemas brasileiros. O grupo de
pesquisa referência nestes estudos é liderado pelo pesquisador Luiz Alberto Rocha
Batista, da EMBRAPA Pecuária Sudeste, São Carlos-SP.
Segundo Batista e Reginato Neto (1999), os acessos foram coletados por
meio de partes vegetativas (mudas e estolões). Após o recebimento dos acessos,
normalmente mudas, esses passaram por um período de adaptação em casa de
vegetação com controle ambiental de temperatura, água e luminosidade. De acordo
com o aspecto vegetativo (desenvolvimento e adaptação) as mudas são repicadas e
colocadas sob “sombrite” com redução de luminosidade de 50%, onde são realizadas
outras multiplicações. Com o número mínimo de 50 mudas por acesso, estas são
levadas para um ambiente natural, com irrigação suplementar para aclimatação e a
realização de novas multiplicações. Atingindo o número de 130 por acesso, as mudas
são transplantadas para o campo em época adequada (novembro a janeiro) para
caracterização e avaliação.
Para a pesquisa, é de suma importância a ampliação e conservação da
variabilidade genética disponível e colocá-la a disposição de melhoristas e demais
interessados, destacando-se às espécies nativas do gênero Paspalum.
A procura de germoplasma interessante entre as espécies nativas, poderá
trazer resultados pelo menos equivalentes àqueles obtidos em decorrência de várias
décadas de introdução e de avaliação de plantas introduzidas, situando-se, o Brasil,
entre os países com maior diversidade genética disponível para a pesquisa e
melhoramento das espécies do gênero Paspalum (Valls, 1987). As inúmeras espécies
pertencentes a este gênero com bom valor forrageiro são ainda, de modo geral,
tolerantes à geada, como relata Haker et al. (1974), principalmente, em se tratando de
Paspalum dilatatum.
Quadro 1 – Número de acessos, por espécie e respectivo grupo botânico, do banco
ativo de germoplasma do gênero Paspalum da EMBRAPA Pecuária
Sudeste, São Carlos, SP. 1999
Espécie Grupo Botânico Número de acessos
P. plicatulum Plicatula 22
P. yaguaronense Plicatula 11
P. compressifolium Plicatula 14
P. oteroi Plicatula 03
P. guenoarum Plicatula 05
P. regnellii Plicatula 01
P. atratum Plicatula 01
P. nicorae Plicatula 02
Sem classificação Plicatula 112
P. notatum Notata 10
P. ionanthum Notata 02
P.cromyorrhizon Notata 02
P. subciliantum Notata 01
P. chacoense Caespitosa 02
P. indecorum Caespitosa 03
P. maritimum Caespitosa 03
P. malacophylium Malacophylla 01
P. simplex Malacophylla 02
P. modestum Modesta 03
P. lividum Livida 03
P. conspersum Virgata 03
Sem classificação Virgata 01
Quadro 1: continuação...
Espécie Grupo Botânico Número de acessos
P. fasciculatum Fasciculata 02
P. coryphaeum Quadrifaria 01
P. conjugatum Conjugata 01
P. vaginatum Disticha 02
P. ovale Ovalia 01
TOTAL 215
Fonte: Batista e Reginato Neto (1999).
A grande variabilidade presente no gênero, com a maior parte das espécies
distribuídas na América Tropical, pode contribuir para a seleção e hibridação com
outros grupos genéticos adaptáveis às várias situações ecológicas tropicais e
subtropicais. Falta a certos representantes do gênero Paspalum, estudos de
melhoramento genético, como é o caso de algumas espécies que têm sido utilizadas
em aproveitamento natural em algumas regiões do Brasil como: capim-ramirez
(Paspalum guenoarum Arach. e suas variedades Guenoarum e Rojasii) no sub
trópico da América do Sul e da grama-tio Pedro (Paspalum convexum Humb. –
Paspalum oterii) no Pantanal Matogrossense e de vários outros como por exemplo
Paspalum maritimum Trin. e Paspalum fasciculatum Wild., etc. (Leme da Rocha,
1991).
4- PRINCIPAIS ESPÉCIES DO GÊNERO Paspalum
4.1 -Paspalum atratum
Nome científico: Paspalum atratum Swallen
Sinonímias: Paspalum plicatulum var. robustum Hack
Paspalum sp. aff. P. plicatulum
Família: Poaceae (alt. Gamineae)
Subfamília: Panicoideae
Tribo: Paniceae
Grupo: Plicatula
Nomes comuns: atra paspalum (Estados Unidos), atratum (sudeste da Ásia), pasto-
cambá (Argentina), pasto-pojuca (Venezuela) e capim-pojuca (Brasil).
Distribuição: Nativa da América do Sul: Brasil (Goiás, Mato Grosso e Minas
Gerais), Bolívia (Santa Cruz). Naturalizada: Estados Unidos, subtrópico australiano e
em toda a América do Sul.
De acordo com Costa (2004), o capim-pojuca foi coletado pelos
pesquisadores Valls, Simpson e Werneck, sendo o primeiro e o terceiro da
EMBRAPA - Recursos Genéticos e Biotecnologia e o segundo da Universidade
Texas A & M, em 1986, próximo a Terenos - MS, recebendo o número de coleta
VSW 9880 e o BRA-009610. O local da coleta, com altitude de 530 m, é sujeito a
inundações e possui um lençol freático superficial.
Segundo o autor, a palavra pojuca, em tupi-guarani, significa: brejo, área
úmida ou alagadiça, local preferencial para o cultivo desse capim na região central
do Cerrado (Goiás, Sul e Centro de Tocantins e Minas Gerais). Apresentou também
excelente produtividade em regiões com precipitação acima de 1.600 mm, como em
Mato Grosso, Rondônia e Acre. Na região central do Cerrado, o capim-pojuca
também pode ser semeado em regiões com solos bem drenados, embora entre em
senescência rapidamente no início do período seco. É excelente alternativa ao
quicuio-da-amazônia (Brachiaria humidicola), produzindo mais forragem com
melhor qualidade e maior produção de sementes, quando a colheita é realizada em
época mais favorável.
4.1.1 – Caracterização morfológica
O Paspalum atratum Swallen é uma gramínea perene, tetraploide (2n = 4x =
40) de reprodução apomítica, apresentando crescimento cespitoso formando
touceiras, com folhas abundantes e colmos vigorosos, podendo atingir de 1 a 2
metros de altura (por ocasião do florescimento). Suasfolhas possuem geralmente
mais de 2,5 cm de largura, com a metade superior dobrada para baixo, são tenras
quando novas, com as bordas ásperas, tornando-se duras com o amadurecimento. As
lâminas foliares possuem poucos pêlos (brancos e longos) nas bordas e base da face
ventral. Sua inflorescência é uma panícula simples, com cerca de 26 cm de
comprimento, constituída de mais de 20 racemos, com menos de 14 cm de
comprimento. Suas espiguetas possuem 3 mm de comprimento e 2 mm de largura,
podendo conter de 250.000 a 450.000 sementes.kg-1. A reprodução é apomítica.
4.1.2- Caracterização Agronômica
O capim-pojuca, ocorre na América do Sul, entre 13,9º S (Bolívia) e 20,0o S
(Brasil), altitude de até 600 m, temperatura média anual ao redor de 23º C. Embora
sobreviva am regiões com temperaturas mais baixas (20o C), seu maior crescimento
ocorre em temperaturas entre 22º e 27º C. O florescimento ocorre no início de abril
(hemisfério sul) ou em outubro (hemisfério norte) e, mais cedo, nas latitudes
compreendidas entre 5º a 10º acima e abaixo do Equador. Na região central do
Brasil, o florescimento ocorre de meados de fevereiro a meados de março, com a
colheita de sementes de março a abril, sendo as sementes lisas e de cor marrom. No
primeiro ano, o florescimento pode ser baixo.
É uma gramínea utilizada na formação de pastagem, tolerando
moderadamente o sombreamento como componente do sub-bosque de áreas
reflorestadas. Pode ser cultivada em solos de textura variando de arenosa a argilosa,
tolera solos mal drenados, ácidos e de baixa fertilidade, respondendo bem a aplicação
de nitrogênio. Ocorre geralmente em áreas cuja precipitação anual é acima de 1.500
mm, persistindo em regiões de precipitação ao redor de 1.100 mm.ano-1. Em
condições naturais, vegeta bem em solos úmidos e sujeitos ao alagamento temporário
durante o verão, não tolerando áreas permanentemente inundadas e é menos tolerante
a seca do que Brachiaria decumbens e Brachiaria brizantha. Possui excelente
produção de forragem, curto período de estabelecimento e de rebrotação, tolera
pastejo intenso e cortes regulares, entretanto, melhores resultados são obtidos com
manejo mais leniente. Tolera solos de baixa fertilidade, mas, responde bem a
aplicações de 150 a 200 kg.ha-1.ano de N.
Apesar de sua grande tolerância aos solos ácidos, responde satisfatoriamente
a aplicação de doses moderadas de calcário dolomítico (1 a 2 t.ha-1), quantidade
necessária para elevar a saturação por bases ao mínimo de 30% e, a adubação
fosfatada (50 a 80 kg.ha-1 de P2O5). A adubação potássica deve ser realizada quando
os teores deste nutriente forem inferiores a 30 mg.dm-3, sugerindo-se a aplicação de
40 a 60 kg.ha-1 de K2O. Em geral, o capim-pojuca apresenta menor exigência em P
no solo, quando comparado a Melinis minutiflora, Brachiaria decumbens, Panicum
maximum cv. Centenário, Digitaria decumbens e Pennisetum purpureum, o que lhe
assegura maior eficiência na absorção de P e, conseqüentemente, na produção de
forragem (Costa 2004).
Apresenta capacidade de rebrotação após a queima e é resistente a cigarrinha-
das-pastagens (Deois flavopicta Stal), mas, é suscetível à doença da mancha foliar
causada por Bipolaris maydis (Nisik. e Miyake) Shoemaker [(sinônimos:
Helminthosporium maydis Nisikado e Miyake e Drechslera maydis (Nizikado)
Subramanian e P.C. Jain)].
4.1.3 – Formas de Propagação
A semeadura deve ser realizada no início do período chuvoso (outubro e
novembro), podendo ser em linhas espaçadas de 0,5 a 1,0 m entre si ou a lanço. A
densidade de semeadura é de 2 kg.ha-1 de sementes puras viáveis. Na semeadura
mecanizada, recomenda-se a mistura das sementes com superfosfato simples (40 a 50
kg.ha-1 de adubo), para facilitar a regulagem da semeadora e melhorar a distribuição
das sementes. O preparo do solo é o convencionalmente utilizado para a implantação
de outras gramíneas forrageira (aração e gradagem), podendo ser utilizado o sistema
de plantio direto. O capim-pojuca também pode ser semeado em associação com
milho e com arroz, reduzindo o custo de formação da pastagem e, em Rondônia, a
competição desse capim com as referidas culturas não diminuiu a produtividade de
grãos dos cereais testados. Na semeadura realizado com arroz, a produção de MS do
capim-pojuca (1.932 kg.ha-1), foi superior a de Brachiaria humidicola (515 kg.ha-1)
(Costa, 2004).
As plantas invasoras que surgem são controladas por herbicidas à base de
2,4–D e, em pré-emergência à aplicações de clomozone, fluometron, diuron,
imazetnapyr, metribuzina, triflurarina ou norflurazona, que impedem o seu
estabelecimento por sementes. O capim-pojuca, após estabelecido, pode ser
controlado por glifosato, utilizando-se de 3 a 4 litros do princípio ativo por hectare.
4.1.4 – Formas de utilização
Apesar do seu rápido desenvolvimento, consorcia-se bem e de forma estável
com leguminosas de crescimento estolonífero ou prostrado como Arachis pintoi,
Calopogonio mucunoides, Pueraria phaseoloides, Desmodium eterocarpum ssp.
ovalifolium e Centrosema acutifolium.
O capim-pojuca apresenta boa aceitabilidade por bovinos, bubalinos e por
eqüídeos, não havendo registro na literatura de fatores anti-nutricionais.
4.1.5 – Resultados de Pesquisas
A produtividade média anual de massa seca do capim-pojuca é de 10 a 15
t.ha-1 podendo atingir até 26 t.ha-1 de MS. Segundo Costa (2004), cultivado em
parcelas submetido a cortes mecânicos, em Porto Velho - RO, o capim-pojuca
produziu 60% mais que B. humidicola e 84% mais que B. dictyoneura. Produz cerca
de 20 a 30% de seu rendimento anual de forragem durante o período seco. Pastagens
submetidas a taxas de lotação de 2 e 3 UA.ha-1, respectivamente para os períodos
chuvoso e seco, apresentaram disponibilidade de MS de 3,6 e 2,0 t.ha-1 e, de 2,7 e 1,4
t.ha-1. Apresenta alta porcentagem de folhas, cerca de 85% durante o ano. Foram
observados na MS teores de 8,8 e 7,6% de PB; 0,19 e 0,14% de fósforo e, 0,41 e
0,44% de cálcio, respectivamente para plantas com 21 e 28 dias de rebrotação,
valores superiores aos obtidos com Andropogon gayanus cv. Planaltina e Brachiaria
humidicola.
Costa (2004) relata a seguinte composição bromatológica do capim-pojuca:
68,11 e 71,69% de fibra em detergente neutro (FDN), 38,79 e 41,13% de fibra em
detergente ácido (FDA), 26,63 e 28,47% de celulose; 5,07 e 6,58% de lignina e, 4,08
e 6,31% de sílica, respectivamente para plantas com três e seis semanas de
rebrotação, sendo os coeficientes de digestibilidade da MS, FDN e da PB
significativamente reduzidos com o aumento da idade das plantas. A digestibilidade
da MS é superior a 60% e trabalhos com animais em gaiolas, realizados em
Planaltina-DF, indicaram que não existe limitação ao consumo da gramínea até 35
dias de rebrotação. No entanto, o capim-pojuca apresenta baixa aceitabilidade e,
conseqüentemente, menor consumo de MS, notadamente com o avanço da idade de
suas plantas, comparativamente às espécies dos gêneros Brachiaria, Panicum,
Cynodon e Pennisetum. Na EMBRAPA Cerrados, utilizando bovinos anelorados, foi
constatado um decréscimo de 18% no consumo de MS, ao fornecer forragem com
seis semanas de rebrotação (4,52 kg.dia-1), comparativamente àquela fornecida com
três semanas de rebrotação (5,47 kg.dia-1). Contudo, a ingestão média de MS, em
todas as idades de rebrotação, foi inferior àquela sugerida como padrão para bovinos
(140 g.kg-0,75).
A rebrotação é rápida na época das chuvas e a taxa de alongamento foliar
pode atingir até 0,6 cm.dia-1. Com três semanas de rebrotação, após corte ou pastejo
realizados a cada 30 ou 40 dias, são acumuladas aproximadamente 2,4 t.ha-1 de MS.
Em Rondônia, estabelecido sob seringais com 12 anos de idade visando a formação
de pastagens em áreas cultivadas com espécies arbóreas, sua produção foi de 1,7 t.ha-1
de MS de forragem no período de chuva (média de 4 cortes), e de 1,5 t.ha-1 no
período de seca. Para o período de chuva, essa produção foi semelhante à de B.
humidicola e inferior à da B. brizantha cv. Marandu. No período de seca, no entanto,
a produção (cerca de 30% da produção obtida no período de chuvas) foi superior a de
B. humidicola e semelhante ao de Brachiaria brizantha cv. Marandu (Costa, 2004).
No que se refere ao manejo de formação, em geral, o primeiro pastejo deve
ser realizado 90 a 120 dias após à semeadura. O capim-pojuca apresenta uma
proteção razoável de seus pontos de crescimento, o que permite a utilização de
pressões de pastejo mais elevadas, comparativamente às espécies de hábito cespitoso.
Pastagens bem formadas e bem manejadas apresentam uma capacidade de suporte de
1,5 a 2,5 UA.ha-1 durante o período de chuva, e de 1,0 a 1,5 UA.ha-1 no período de
seca. Os ganhos de peso variam de 300 a 500 g.cab-1.dia no período chuva, e de 150
a 200 g.cab-1.dia na época de estiagem. Os ganhos por área estão em torno de 300 a
400 kg.ha-1.ano. O manejo mais recomendado para a gramínea é o pastejo rotativo,
com períodos curtos de descanso (menores ou iguais a 21 dias), e o uso de taxas de
lotação adequadas para manter o pasto com cerca de 15 a 20 cm de altura. O pastejo
deve ser iniciado quando as plantas atingirem entre 0,4 e 0,6 m de altura. Em
Rondônia, em pastagens de capim-pojuca, submetidas a pastejo rotativo (7 dias de
ocupação por 21 dias de descanso), foram obtidos ganhos de peso 398 e 242 g.cab-
1
.dia e 146,4 e 18,8 kg.ha-1, respectivamente para os períodos de chuva e seca. Em
pastos consorciados com Arachis pintoi, estabelecidos em solos de várzeas, num
período de avaliação de quatro anos, obteve-se ganho médio de peso de 587 g.cab-
1
.dia e 630 kg.ha-1.ano. Visando conciliar produtividade e qualidade de forragem, as
pastagens de capim-pojuca podem ser diferidas ou vedadas em março para utilização
em junho e julho e, em abril, para utilização em agosto e setembro. Neste sistema de
manejo são obtidas produções de MS entre 2 e 4 t.ha-1 e teores de PB entre 6 e 8%
(Costa, 2004).
4.2 - Paspalum plicatulum
Nome científico: Paspalum plicatulum Michx
Sinonímia: Paspalum plicatulum Michx. Var. glabrum Arevach.
Paspalum plicatulum Michx. Var. villosissimum Pilg.
Paspalum texanum Swallen
Família: Poaceae (alt. Gamineae)
Subfamília: Panicoideae
Grupo: Plicatula
Nomes comuns: ya-phlikhathiulum (Tailândia); zong zi que bai (China); herbe à
cheval (França); plicatulum (Australia); brown-seed paspalum, brown-top paspalum,
plaited paspalum (Estados Unidos); camalote, gamalote, gramalote, hierba de cepa
(América espanhola); capim-coqueirinho, capim-felpudo, pasto-negro (Brasil).
Distribuição: É nativa da América do Norte (Sul do Alabama, Flórida, Geórgia,
Louisiania, Sul do Mississipi e Texas); México (Águas Calientes, Chiapas, Colima,
Guerrero, Jalisco, Michoacan, Morelos, Nayarit, Nuevo Leon, Oaxaca, San Luis
Potosi, Sinaloa, Tabasco, Tamaulipas, Veracruz); América Central (Belize, Costa
Rica, Guatemala, El Salvador, Panamá, Honduras, Nicarágua); Caribe (Porto Rico,
Antigua e Barbuda, St Kitts e Nevis, Barbados, Martinica, Cuba, Jamaica, República
Dominicana, Montserrat, Granada, Guadalupe); América do Sul (Uruguai, Paraguai,
Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa, Peru, Suriname).
O grupo Plicatula foi caracterizado por Chase (1929) pelo antécio castanho-
escuro a atro-purpureo, brilhante e lema inferior com ondulações transversais.
Entretanto, estes caracteres são comuns a outros grupos de Paspalum e a outros
gêneros de Paniceae, a exemplo do que ocorre nas espécies das seções Cabrera e
Lappagopsis de Axonopus havendo, entretanto, um certo consenso entre os diversos
autores quanto às espécies que comporiam este grupo.
Este grupo nunca foi estudado de forma completa. A adição constante e
fragmentária de novos taxa ao grupo, criou uma situação anárquica, tornando
impraticável a identificação de grande parte dos espécimes. Cerca de 170 nomes
relacionados a 45 espécies foram distribuídos no grupo Plicatula. Apesar do grande
número de acessos no germoplasma disponível, ainda há grande necessidade de
expedições de coleta, pois existem regiões mal representadas onde as espécies
correm risco de extinção, reduzindo a variabilidade genética ainda inexplorada.
Na região do Brasil Central, o grupo Plicatula é o mais importante, e é
representado, de modo geral, por diversas espécies de porte mais elevado, além da
ocorrência generalizada de espécies de porte mais reduzido (Valls, 1987).
4.2.1 – Caracterização morfológica
As características diferenciais dessa espécie são a ausência ou raras vezes a
presença mínima de gluma inferior, lemas hermafroditas próximas ao eixo,
espiguetas quase sempre em pares planos convexos, com dorso do fruto voltado para
a ráquis do racemo. A grande diversidade entre as espécies desse gênero levou vários
autores a referenciar diferentes números de grupos taxonômicos: 26 grupos (Chase,
1929), 20 grupos (Barreto, 1974) e 24 grupos (Valls, 1987), grupos estes que
equivalem na prática a subgêneros de Paspalum por agregarem espécies com
características comuns.
É uma gramínea perene, halotetraplóide (2n = 4x = 40) de reprodução
apomítica, sendo ocasionalmente auto-incompatível, sexual diplóide (2n = 2x = 20),
tendo sido identificada uma espécie hexaplóide (2n = 6x = 60). Possui crescimento
entouceirado, altura de 0,6 a 1,3 m, raízes aéreas arroxeadas, bainhas glabras ou
pouco pilosas na extremidade, lígula membranosa com 1 a 3 mm de comprimento,
lâmina foliar glabra a pubescente, com comprimento variando de 10 a 50 cm e 3 a 10
mm de largura. A inflorescência é uma panícula constituída por 10 a 13 racemos,
com 2 a 6 cm de comprimento e com 1,5 a 2,0 mm de largura. Espiguetas aos pares,
oblongas-elipsoidais com 2 a 3 mm de comprimento e 1,5 a 2,0 mm de largura,
cariopse marrom-escuro brilhante.
4.2.2 – Caracterização agronômica
Ocorre desde a latitude 31o S dos Estados Unidos até 32º S na Argentina, do
nível do mar até 1.500 m de altitude. Embora a temperatura ideal de crescimento seja
de 17 a 27º C, em temperaturas mais baixas (até 9o C) a parte superior da forrageira
queimada pelo frio rebrota normalmente na estação seguinte. Adapta-se a diversos
tipos de solo, incluindo solos ácidos a neutros (pH 4,5 a 7,0), de baixa a muito baixa
fertilidade, satisfatoriamente tolerante a altos níveis de alumínio e também aos solos
mal ou bem drenados, respondendo bem a aplicação de fertilizantes. A quantidade
mínima de chuva é de 760 mm, sendo a ideal de 1.200 a 1.500 mm.ano-1. Todavia,
espécies foram coletadas em regiões de precipitação superior a 3.500 mm.ano-1.
Moderadamente tolerante à seca intensa, muito tolerante a enchentes e a curtos
períodos de inundação. É pouco tolerante ao sombreamento, entretanto, tem sido
cultivada nas entrelinhas de plantações de coco. A produção de sementes varia de
920 a 2.620 Kg.ha-1, embora os campos comerciais apresentem produções de 130 a
250 Kg.ha-1 de sementes. As sementes remanescentes no campo permanecem viáveis
por até dois anos. A quantidade de sementes varia de 780.000 a 1.000.000, com cerca
de 530.000 a 600.000 sementes puras viáveis por quilo.
4.2.3 – Forma de propagação
As pastagens são formadas via sementes sendo, entretanto, possível sua
implantação por mudas. O bom preparo do solo é essencial na formação das
pastagens, proporcionando uma boa condição de germinação, dado ao pequeno
tamanho e vigor das sementes, que devem ser semeadas à profundidade de até 1 cm.
4.2.4 – Formas de Utilização
Possui boa produção de forragem, sendo melhor para pastejo no verão e na
primavera, entretanto, quando maduro,é muito pouco aceito pelos bovinos e, para
ser utilizado como verde picado é preciso ser suplementado com melaço e uréia. Os
genótipos mais pubescentes são considerados melhores plantas forrageiras do que
algumas espécies nativas dos Cerrados. Não há referência sobre toxidez, sendo seu
teor de oxalato muito baixo (0,02% na MS), quando comparado com o da Setaria
anceps, que pode apresentar valores de oxalato superiores a 5%. O crescimento é
intenso no período de outubro a abril, sendo pouco tolerante ao manejo em lotação
contínua ou ao corte freqüente em relação aos outros membros do grupo Plicatula,
em especial Paspalum atratum e Paspalum nicorae. Em pastejo rotativo, Leithead et
al. (1971) afirmam que o período de descanso está em torno de 30 dias. Apesar de
seu rápido crescimento, consorcia-se bem com leguminosas como Desmodium
intortum, Desmodium uncinatum, Lotononis bainesii, Lotus uliginosus, Macroptilium
atropurpureum, Stylonsanthes guianensis, Trifolium repens, Vigna parkeri.
Pode ser conservado através dos processos de fenação e de ensilagem sendo
que, no processo de ensilagem a fermentação é deficiente, com pH nunca inferior a
5,96, concentração de ácido lático menor que 0,5% (MS) e o teor de NH3 menor que
15% do nitrogênio total (Catchpoole e Henzel, 1971).
4.2.5 – Resultados de Pesquisas
A produtividade média anual de MS é de 8 a 12 t.ha-1 podendo chegar a 24
t.ha-1, entretanto, seu crescimento no início da primavera é menor que o apresentado
por Paspalum dilatatum. Apresenta boa capacidade de rebrotação após a queima. É
resistente às doenças, inclusive, ao Claviceps paspali. É facilmente controlado em
pré-emergência com aplicação de herbicidas do grupo atrazina.
Em experimentos realizados pelo CSIRO (Queensland - Austrália), o
Paspalum plicatulum cv. Rodd’S Bay mostrou alta persistência em combinação com
leguminosas tanto em lotação contínua quanto em lotação intermitente, com taxa de
lotação de 0,4 a 0,6 animais por hectare. O ganho de peso anual, 232 kg.ha-1, é menor
que o obtido em pastagens de Paspalum dilatatum, entretanto, Paspalum plicatulum
cv. Bryan, fertilizado com 440 kg.ha-1 de N, produziu durante um período de três
anos, 740 kg.ha-1.ano de peso corporal, com taxa de lotação de 5 novilhos.ha-1
(Bisset, 1975).
4.3 - Paspalum guenoarum
Nome científico: Paspalum guenoarum Arechav.
Taxa subordinados: Paspalum guenoarum Arechav. var. guenoarum
Paspalum guenoarum Arechav var. rojasii (Hack) Parodi
Sinonímia: Paspalum plicatulum Michx. var. robustum Hack
Paspalum plicatulum subsp. guenoarum (Arechav) Roseng; B.R. Arril. e
Izag.
Paspalum rojasii Hack
Família: Poaceae (alt. Gramineae)
Subfamília: Panicoideae
Tribo: Paniceae
Grupo: Plicatula
Nomes comuns: wintergreen paspalum, pasto rojo, capim-guenoaro, capim-ramirez,
pasto-ramirez.
Distribuição: É nativa da América do Sul, vegetando na Argentina nas regiões de
Corrientes, Misiones e Tucumán; na Bolívia nas regiões de Chuquisaca, La Paz,
Santa Cruz, Tarija; no Brasil nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e
Paraná; no Uruguai e no Paraguai.
4.3.1 – Caracterização morfológica
É uma gramínea perene, apomítica apospórica, halotetraplóide (2n = 4x = 40)
e, ocasionalmente, sexual diplóide (2n = 2x = 20). Hábito entouceirado, rizomas
curtos na base, colmos férteis, altura de 1,5 a 2,0 m, folhas com 0,6 a 1,0 m de
comprimento dependendo do ecótipo, lâminas foliares com 60 cm de comprimento e
3 cm de largura, tenras mesmo quando maduras, com cor variando de verde intenso a
verde acinzentado na parte ventral da folha e, normalmente, cinza-claro na parte
dorsal da mesma. As folhas são glabras, com pelos longos na base em algumas
introduções, apresentando bordas serrilhadas e lígula membranosa amarelada. A
inflorescência é uma panícula simples constituída de 3 a 10 racemos com 6 a 15 cm
de comprimento, com os racemos inferiores maiores que 20 cm de comprimento,
espiguetas com 3 a 3,5 mm de comprimento e com 2 a 2,5 mm de largura. Distingue-
se facilmente do Paspalum atratum em virtude da coloração verde acinzentada da
parte dorsal da folha.
4.3.2 – Caracterização agronômica
Ocorre nas latitudes compreendidas entre 15o a 32º S, vegetando desde o
nível do mar até 1.750 m de altitude. Alguns ecótipos apresentam bastante tolerância
ao frio, sendo a maior parte das cultivares adaptadas à temperaturas entre 19 e 21º C,
embora a cultivar Bela Vista tenha a sua melhor produção em temperaturas
superiores a 27oC. O início do florescimento no hemisfério sul e no subtrópico ocorre
no começo de fevereiro até o final de março.
É utilizada para formação de pastagens, sendo moderadamente tolerante à
sombra como as outras plantas do grupo Plicatula (P.m atratum e P. nicorae). Ocorre
em solos úmidos, geralmente de baixa drenagem, férteis e arenosos. Moderadamente
tolerante ao encharcamento, prefere solos úmidos apesar de se adaptar aos mais
diversos tipos de solo, sendo medianamente tolerante à seca. Vegeta bem em solos de
baixa fertilidade respondendo, entretanto, a aplicações de nitrogênio na ordem de 150
a 200 kg.ha-1.ano de N. Sensível ao fogo, recupera o estande através do banco de
sementes que permaneceram no solo. A quantidade de sementes por quilo é de
270.000 a 380.000. Desenvolve-se bem em regiões de precipitação de 1.200 a 2.000
mm por ano, mas, precipitações muito elevadas, favorecem o aparecimento de
fungos que causam manchas foliares como o Helmintosporium sp.. É resistente ou
pouco afetado por fungos do gênero Meloidogyne como Meloidogyne javanica,
Meloidogyne arenaria e outros. É resistente às cigarrinhas-das-pastagens, em
especial às do gênero Deois e Zulia (Deois flavopicta e Zulia entreriana).
4.3.3 – Forma de Propagação
As pastagens são estabelecidas por sementes que permanecem viáveis em
condições ambientais por período menor que um ano. São necessários cerca de 15
kg.ha-1 de sementes comercias (cerca de 30% de valor cultural) no espaçamento de
0,5 m entre linhas, sendo o estabelecimento rápido tanto quando a multiplicação é
realizada via sementes ou via mudas (estacas), sendo sensível a aplicação de
herbicidas à base de atrazina.
4.3.4 – Formas de Utilização
Tolera pastejo intenso e cortes regulares, porém, é mais produtivo quando se
usa manejo mais leniente. O pastejo ou corte deve ser efetuado quando a planta
apresenta-se com altura em torno de 60 cm. Consorcia-se relativamente bem com
leguminosas forrageiras como: Desmodium intortum, Lotus pedunculatus, Lotononis
bainesii, Arachis pintoi, Lotus uliginosus, Neonotonia wightii , Trifolium repens,
Vigna parkeri, Centrosema molle (pubescens).
Com boa aceitabilidade e produzindo forragem de bom valor nutritivo, seu
teor de proteína bruta (PB) varia de 8 a 13% e a digestibilidade in vitro da massa seca
(DIVMS) de 58 a 67%, dependendo da estádio de maturação e da fertilidade do solo.
4.4- Paspalum nicorae
Nome científico: Paspalum nicorae Parodi
Sinonímia: Paspalum arenicolum Herter
Paspalum plicatulum Michx. var. arenarium Arechav.
Família: Poaceae (alt. Gramineae)
Subfamília: Panicoideae
Tribo: Paniceae
Grupo: Plicatula
Nomes comuns: Brunswick grass (Austrália e EUA)
Distribuição: É nativa da América do Sul, ocorrendo no norte da Argentina, sul do
Brasil, Uruguai e no Paraguai, sendo naturalizada na Austrália (Queensland e New
South Wales) e no sudeste dos Estados Unidos.
4.4.1 – Caracterização morfológica
Trata-se de uma espécie forrageira perene, com longos e profundos rizomas,
tetraploide (2n = 40), de reprodução apomítica e pseudogâmica (Burson e Bennet,
1971), de hábito de crescimento ereto, colmos menores que 40 cm de comprimento,
presença de folhas basilares, entrenós curtos, folhas eretas,estreitas, de coloração
verde acinzentada, bainhas glabras, lígula com 0,5 a 1,0 mm, lâmina foliar com 10 a
20 cm de comprimento e 2 a 3 mm de largura e com poucos pelos na parte dorsal da
folha. A inflorescência de coloração verde acinzentada, possui de 2 a 4 racemos com
2 a 4 cm de comprimento, espiguetas de formato oval a elíptica com cerca de 2,4 a
2,8 mm de comprimento e 1,5 mm de largura, lema estéril em geral transversalmente
dobrada, glumas com pêlos finos, curtos, visíveis apenas com auxílio de lentes,
sementes de coloração castanho escuro, lisas e convexas (Barreto, 1956). O número
de sementes por quilo é de aproximadamente 450.000.
4.4.2 – Caracterização agronômica
Ocorre nas latitudes 25º S no Paraguai até 35o S no Uruguai e Argentina e, de
65º O na Argentina a 50º O no Brasil. No Brasil, os melhores ecótipos são
encontrados no Rio Grande do Sul, entre as latitudes de 29º S e 30º S, vegetando
desde o nível do mar até 500 m de altitude. Vegeta bem em regiões onde a
precipitação anual varia de 800 a 1.500 mm, é tolerante à seca, sobrevive a curtos
períodos de inundação, mas não tolera solos permanentemente alagados. A maior
parte das linhagens inicia seu florescimento em junho no Hemisfério Norte, e em
dezembro no Hemisfério Sul, não florescendo em latitudes inferiores a 15o S. A
produção de sementes é de 170 a 250 kg.ha-1, podendo chegar a 1.000 kg.ha-1 em
algumas linhagens convenientemente cultivadas objetivando a produção de sementes.
Possui elevada tolerância ao frio embora, algumas espécies foram
naturalizadas em regiões que estão sujeitas à temperaturas tão baixas ou menores que
15o C (Estados Unidos). Apesar de possuir tolerância ao frio comparável a do capim-
kikuio (Pennisetum clandestinum), seu maior desenvolvimento acontece em
temperaturas mais elevadas, produzindo nestas condições cerca de 50% a mais de
MS que o P. clandestinum durante os seis meses mais frios e secos, em latitude de
27o S. Em condições climáticas favoráveis, o crescimento vegetativo é intenso
durante o verão prolongando-se até o outono, sendo que 80% da produção total de
forragem ocorre nos seis meses mais quentes e úmidos do ano.
Vegeta bem nos solos arenosos da região costeira e na Depressão Central do
Rio Grande do Sul, nos solos areno-graníticos da província de Córdoba (Argentina),
sendo também adaptado aos latossolos argilo-arenosos vermelhos do sudeste do
Paraguai. Embora mais adaptado a solos arenosos, pode ser cultivado em solos de
médio a alto teor de argila, inclusive nos solos argilosos de baixada, desde que
possuam boa drenagem. Originário e, ou naturalizado em regiões constituídas por
solos de baixa fertilidade, responde à fertilização, sendo mais adaptado a solos ácidos
que aos neutros ou alcalinos. Apresenta desenvolvimento rápido (competitivo)
formando densos relvados. É extremamente tolerante a cortes regulares e ao pastejo
em lotação contínua, recuperando-se bem e com rapidez após cada utilização. O P.
nicorae é muito tolerante à desfolhação, persistindo por cerca de 20 anos sob pastejo
em lotação contínua no sudoeste dos Estados Unidos, com pastejos efetuados a cada
seis semanas e com rebaixamento de 3 cm em relação ao solo (Beaty et al., 1970). A
produção de MS é elevada, principalmente sob aplicações de fertilizantes
nitrogenados, chegando em média a 28 t.ha-1.ano de MS.
De modo geral não apresenta problemas sérios com doenças ou insetos.
Alguns genótipos são atacados por Claviceps paspali (mancha foliar) e há suspeitas
de que o ataque do besouro negro africano (Heteronychus arator – Scarabeidae)
cause danos às raízes e rizomas, provocando o seu amarelecimento e morte. É de
difícil controle por métodos culturais, podendo ser controlado por glifosato em
concentrações mais elevadas. É de difícil consorciação com leguminosas forrageiras
sendo, o Arachis pintoi, Arachis glabrata, Trifolium repens, Trifolium subterraneum,
Medicago sp. e o Lotus uliginosus, as mais indicadas.
4.4.3 – Formas de utilização
Cultivada para a formação de pastagens perenes nos subtrópicos, é também
utilizada na produção de silagem e de feno. Com moderada tolerância ao
sombreamento, pode ser cultivada em áreas reflorestadas com eucalipto e pinus.
Oferece boa cobertura do solo, controla bem a erosão, sendo utilizada na
estabilização de canais de irrigação e na cobertura de áreas sujeitas ao tráfego.
4.4.4 – Resultados de pesquisas
Apresenta boa aceitabilidade e bom valor nutritivo, devendo ser pastejada ou
colhida a intervalos de 4 a 6 semanas, a partir do que, ocorre redução gradual na
aceitabilidade. Análises da parte aérea efetuadas com seis semanas de rebrotação,
apresentaram os seguintes valores e suas respectivas médias de composição
bromatológica: PB de 7 a 14% (10%), P de 0,15 a 0,26% (0,18%), Ca de 0,37 a
0,77% (0,54%), digestibilidade in vitro da MS de 54 a 64% (60%), FDA de 34 a 41%
(38%) e FDN de 62 a 70% (66%).
O desempenho animal de novilhas de 265 kg, em pastagem exclusiva de P.
nicorae, adubado com 110 kg.ha-1 de N, durante os três meses de maior crescimento
e sob taxa de lotação de 5 novilhas.ha-1, variou de 1,3 (no primeiro mês de pastejo) a
0,6 kg.novilha-1.dia. Parte do ganho de peso no primeiro mês (maior ganho) pode ser
atribuído a ganho compensatório e também à redução na intensidade de crescimento
decorrente das condições climáticas menos favoráveis e, ou do declínio no valor
nutritivo.
4.5- Paspalum scrobiculatum
Nome científico: Paspalum scrobiculatum L.
Sinonímia: Paspalum polistachyum. R. Br.
Paspalum commersonii Lam.
Paspalum cartilagineum Presl.
Paspalum orbiculare G. Forst.
Família: Poaceae (alt. Graminae)
Subfamília: Panicoidae
Grupo: Plicatula
Nomes comuns: scrobic, crobic paspalum, kodo millet, creeping paspalum, ditch
millet, Indian paspalum, rice grass, water couch, native paspalum (países de lingua
Inglesa); co duru levu, tho ndina, tho nduru levu, tho ni ndina (Ilhas Fiji); mau ‘u
laiki; mata (Ilhas Maori); manoha (Taiti); mijo koda (países de língua Espanhola).
Distribuição: Nativa da África e da Ásia Tropical foi introduzida na Austrália
procedente do Zimbábue.
4.5.1 – Caracterização Morfológica
É uma gramínea forrageira perene, tetraploide (2n = 40), de colmos eretos,
glabros, de hábito entouceirado, raízes pouco profundas, bainha com 7 a 14 cm de
comprimento, glabra ou com pêlos brancos e esparsos no colar, lâmina foliar plana,
fina, leve completamente lisa, com l2 a 40 cm de comprimento e 3 a 12 mm de
largura; lígula membranosa muito curta mas com densas fileiras de pêlos;
inflorescência com 4 a 6 racemos alternos com 2 a 4 cm de comprimento, distantes
entre si (4 a 9 cm), algumas vezes pilosos, espiguetas pareadas com 2 a 2,5 mm de
comprimento, comumente avermelhada nas margens, de forma elíptica, imbricada e
glabra. O número de sementes por quilo é em torno de 600.000.
4.5.2 – Caracterização agronômica
Desenvolve-se entre as latitudes de 17,3o S e 28,1o S, desde o nível do mar até
3.000 m de altitude, precipitação anual de 800 a 1.640 mm.
Não é muito resistente à seca em função de seu sistema radicular, não
tolerando tampouco o sombreamento. Adapta-se bem a diversos tipos de solos desde
os argilosos férteis até os arenosos de baixa fertilidade. Adapta-se bem a
temperaturas entre 19 e 22o C, sendo bastante sensível à baixas temperaturas. É
muito tolerante ao alagamento.
É bem resistente à ferrugem, mas é sensível à cochonilha-das-gramíneas
(Antonina graminis) que reduz sua persistência. Pode ser utilizado para a produção
de silagem, desde que se utilize aditivos, produz excelente feno. Possui boa
aceitabilidade e boa digestibilidade até a época do florescimento. A produção de
sementes.ha-1 pode, em condições ideais,chegar a 2.500 kg.ha-1.
Vegeta bem em solos pesados, arenosos e úmidos. Forma densas populações
de plantas ao longo de estradas florestais, trilhas e áreas cultivadas, de baixa a média
declividade, onde está dispersa no meio da vegetação nativa (Motooka et al., 2002).
Ocupa ainda margens de canais, rodovias e de pastagens. Seu crescimento vigoroso e
ereto compete intensamente com outras forrageiras, podendo ser considerado até
mesmo como planta invasora.
4.5.3 – Forma de propagação
Propaga-se por sementes que, por serem pequenas, exigem um bom preparo
de solo, semeadura à profundidade máxima de 1 cm e a utilização de rolo
compactador sobre a área semeada. A taxa de semeadura recomendada é de 3,5
kg.ha-1 (40% de germinação e 93% de pureza).
4.5.4 – Forma de Utilização
A produção anual de MS por hectare varia de 2,9 t para áreas não fertilizadas
a 8,9 t.ha-1 para as áreas fertilizadas e é de difícil consorciação com leguminosas
forrageiras. Os teores médios de PB e de digestibilidade são de 7,3% e 54%, na base
da MS, respectivamente. A produção animal no sudoeste de Queensland durante um
período de 7 anos foi de 297 kg.ha-1 de peso corporal, numa taxa de lotação variando
de 1,6 a 2,5 muares.ha-1.
4.6 - Paspalum notatum
Taxa subordinados: Paspalum notatum Flüggé var. notatum
Paspalum notatum Flüggé var. latiflorum Döll
Paspalum notatum Flüggé var. saurae Parodi
Sinonímias: Paspalum notatum var. cromyorrhizum Herter, Paspalum cromyorhizon
Trin. ex Döll, Paspalum distachyon Willd. ex Döll, Paspalum notatum var.
cromyorhizon (Trin. ex Döll) Herter, Paspalum notatum var. eriorhizon Griseb.,
Paspalum notatum var. eriorrhizon Griseb., Paspalum notatum var. maculatum
Nees in Hook., Paspalum notatum Fluegge var. notatum (sin. var. latiflorum),
Paspalum notatum var. typicum (Flüggé) Parodi, Paspalum saltense Arechav.,
Paspalum saurae (Parodi) Parodi, Paspalum taphrophyllum Steud., Paspalum
tephophyllum Steud., Paspalum uruguayense Arechav.
Família: Poaceae (alt. Gramineae)
Subfamília: Panicoideae
Tribo: Paniceae
Grupo: Notata
Nomes comuns: Bahia grass, bahiagrass (Austrália, EUA); grama-batatais, grama-
da-bahia, grama-forquilha, grama-forquinha, grama mato grosso (Brasil); jenji brillo,
gengibrillo (Costa Rica); tejona (Cuba); herbe de bahia (França); bahiagras
(Alemanha); rumput pencasilan (Indonésia); américa suzume no hie, bahia garusu,
kyuushu suzume no hie, oni suzume no hie (var. saurae) (Japão); zacate bahia
(México); cañamazo, gramilla blanca, grama dulce, hierba de bahia, pasto bahia,
pasto horqueta (Espanha); ya-bahia (Tailândia); co san dâú (Vietnam); paspalum
paraguai (Zimbábue).
Distribuição: Nativa da América do Norte: Estados Unidos (nativa e naturalizada);
América Central: Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México
(leste), Nicarágua e Panamá; Caribe: Antígua e Barbuda, Cuba, Dominica, Granada,
Guadalupe, Jamaica, Martinica, Montserrat, Porto Rico, Santa Lucia, São Vincente e
Granada; América do Sul: Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai, Peru e Uruguai.
Provavelmente, é a espécie de gramínea mais difundida na América do Sul e Central.
A variedade Saurae origina-se da Argentina Oriental (Províncias de Santa Fé e Entre
Rios), estendendo-se até o Uruguai. A variedade Notatum ocorre principalmente no
sul dos Estados Unidos. O Paspalum notatum é naturalizada na África, Austrália,
Estados Unidos e outros lugares nos trópicos e subtrópicos.
4.6.1 – Caracterização Morfológica
O Paspalum noratatum Flügge possui diversas variedades (Alcântara e
Bufarah, 1980):
Grama batatais comum: é a mais freqüente no Brasil, apresentando rizomas curtos
e lenhosos que se enraízam abundantemente nos nós, com colmos eretos crescendo
até 50 cm, folhas numerosas e agrupadas em volta da base com comprimento de 5 a
25 cm e com 3 a 8 mm de largura, planas e pilosas
Grama batatais de folha fina: apresenta características similares as das batatais
comum entretanto, as folhas são muito finas, de aspecto prateado devido a presença
de intensa pilosidade em sua superfície. Ocorre em geral nos estados do Sul do
Brasil;
Grama batatais de folha curta: apresenta características similares as das batatais
comum, diferencia-se desta por apresentar porte menor, folhas bem mais curtas,
largas e pubescentes;
Pensacola, Pensacola bahia ou Pensacola bahia grass (Figura 1): apresenta
características semelhantes as das batatais de folha fina, com folhas menos pilosas,
polinização cruzada e altura de até 60 cm.
Trata-se de uma gramínea perene, de reprodução sexual (2n = 20 – var.
saurae) e apomítica (2n = 40 – var. Notatum e Latiflorum), apresenta rizomas que se
assemelham a estolões com 5 mm ou mais de diâmetro, com entrenós curtos
suportando a brotação, com raízes profundas e fibrosas nos nós. A lâmina foliar é de
glabra a pilosa, variando de 3 a 10 mm de largura e de 2 a 5 cm de comprimento
próximo a extremidade do estolão e, de 20 a 30 cm (podendo alcançar até 50 cm)
originando-se verticalmente dos nós. A pubescência das folhas varia com o vigor da
planta, sendo glabras com crescimento vigoroso e pubescentes com crescimento
deprimido. Apresenta colmos eretos com 20 a 50 cm de altura. A inflorescência
normalmente contém dois racemos terminais com 5 a 10 cm de comprimento (Figura
2). As espiguetas são glabras, com cor castanha, obovalada a obovada, com 2,5 a 4
mm de comprimento e 2 a 3 mm de largura. O número de sementes por quilo varia
de 250.000 a 550.000, que podem apresentar dormência por períodos superiores a
três anos, dormência esta que pode ser “quebrada” com tratamentos químicos, como
por exemplo, a utilização de H2SO4.
Figura 1: Planta de Paspalum notatum Flügge (Pensacola) em estádio vegetativo de
desenvolvimento.
Figura 2: Inflorescência de Paspalum notatum Flügge (Pensacola)
4.6.2 – Caracterização agronômica
Ocorre naturalmente entre as latitudes de 25º N e 32º S e, agora, está
naturalizada a 35º N nos EUA e, a aproximadamente, a 30º S na Austrália. Ocorre
também desde o nível do mar até altitudes superiores a 2.300 m acima do nível do
mar (Bolívia e México). É encontrada em regiões de temperatura média anual
variando em torno de 17 a 25º C. A temperatura ótima para germinação é de 30 a 35º
C e para crescimento, de 25 a 30º C. O crescimento é menor em meses mais frios. As
extremidades da planta são queimadas pelo congelamento, sendo que a planta morre
quando a temperatura cai abaixo de -10 a -12º C, sendo o relvado reconstituído pelo
banco de sementes existente no solo. Temperaturas noturnas abaixo de 13º C inibem
o florescimento.
Pode ser cultivada em diversos tipos de solos, preferindo os arenosos ou de
textura leve, com pH variando de 4,3 a 6,5 com moderada tolerância a alumínio.
Embora prefira solos férteis, vegeta muito bem em solos de baixa fertilidade,
provavelmente decorrente da fixação assimbiótica de nitrogênio atmosférico
desenvolvida pela associação entre micorrizas, Azotobacter paspali e o seu sistema
radicular. A produção de sementes é de 110 a 350 kg.ha-1. A fixação de nitrogênio
por Azotobacter paspali é estimada em 10 a 20 kg, podendo atingir até 90 kg.ha-
1
.ano de N. Apresenta boa reposta à aplicação de nitrogênio de até 200 kg.ha-1.ano.
Aplicações de P aumentam o perfilhamento e a produção de sementes. Alguns
ecótipos são tolerantes à salinidade, suportando concentrações superiores a 4.500
mg.dm-3 de NaCl na água de irrigação. Entretanto, a fotossíntese e a transpiração são
diminuídas quando a concentração ultrapassa 9.000 mg.dm-3 de NaCl. A precipitação
anual no habitat da espécie varia de 700 a 1.500 mm, sendo muito tolerante à seca
em decorrência do seu sistema