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Sigmund.Freud.Conferências.introdutórias.sobre.psicanálise.p.3(rtf)

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ainda em outras, está vinculado aos órgãos motores - e tudo isso os senhores encontrarão em atraente apresentação no valioso livro de W. Bölsche [1911-13]. Entre os animais, pode-se encontrar, por assim dizer, em forma petrificada todos os tipos de perversão da organização sexual. No caso dos seres humanos, entretanto, esse ponto de vista filogenético é parcialmente velado pelo fato de que aquilo que, no fundo, é herdado, não obstante é de aquisição recente no desenvolvimento do indivíduo, provavelmente porque as mesmas condições que impuseram sua aquisição persistem e continuam a operar em cada indivíduo. Gostaria de acrescentar que, originalmente, a operação dessas condições era criativa; agora, contudo, é evocativa. Ademais não há dúvida de que o curso estabelecido do desenvolvimento pode ser perturbado e alterado em todo indivíduo, através de influências externas recentes. Mas conhecemos a força que impôs à humanidade um desenvolvimento dessa ordem e mantém sua pressão na mesma direção nos dias atuais. Essa força, é, mais uma vez, a frustração advinda da realidade, ou, se quisermos dar-lhe o nome verdadeiro, o nome de peso, as ‘exigências da vida’ - Necessidade (‘ [Ananke]). Esta tem sido uma educadora rigorosa e tem exigido muito de nós. Os neuróticos estão entre aqueles de seus filhos aos quais seu rigor causou maus resultados; este, porém, é um risco que se corre em qualquer educação. Essa valorização da importância das necessidades da vida, aliás, não necessita pesar contra a importância das ‘tendências internas de desenvolvimento’, se se pode demonstrar que isto está presente.Ora, é digno de nota o fato de que os instintos sexuais e os instintos de autopreservação não se comportam da mesma maneira para com a necessidade real. Os instintos de autopreservação, e tudo o que com eles se relaciona, são muito mais fáceis de educar: cedo aprendem a adaptar-se à necessidade e a moldar seus desenvolvimentos de acordo com as instruções da realidade. Isto se compreende, pois eles não poderiam obter os objetos de que necessitam, se agissem de alguma outra maneira; e sem esses objetos, o indivíduo inevitavelmente pereceria. Os instintos sexuais são mais difíceis de educar, de vez que, no início, não precisam de objeto. Como estão ligados, à semelhança de parasitas, por assim dizer, às outras funções corporais e conseguem sua satisfação auto-eroticamente no próprio corpo da pessoa, eles estão, de início, retirados da influência educadora da necessidade real, e conservam essa característica de serem rebeldes e inacessíveis à influência (isto descrevemos como sendo ‘irracional’) na maioria das pessoas, em certo sentido, por toda a vida. Ademais, via de regra, a educabilidade de pessoas jovens chega ao fim quando suas necessidades sexuais surgem em toda a sua plenitude. Os educadores sabem disso e agem de acordo; mas as descobertas da psicanálise talvez possam induzi-los a deslocar a impacto principal da educação para os anos da meninice, partindo da infância propriamente dita. A pequena criatura, freqüentemente, já esta completa ao redor do quarto ou quinto ano de vida, e, depois disso, simplesmente revela o que já está dentro de si.
A fim de avaliar a plena significação da diferença que assinalei entre os dois grupos de instintos, devemos retroceder por um longo caminho e introduzir uma dessas dimensões que merece ser descrita como econômica [ver em [1], acima]. Isto nos leva a uma das mais importantes, mas, infelizmente, também uma das mais obscuras regiões da psicanálise. Podemos nos perguntar se, no funcionamento de nosso aparelho mental, pode ser evidenciado um propósito principal, e podemos responder, como proposição inicial, que esse propósito se orienta pela obtenção de prazer. É como se a totalidade de nossa vida mental fosse dirigida para obter o prazer e evitar o desprazer - que é automaticamente regulada pelo princípio de prazer. Gostaríamos de saber, dentre todas as coisas, o que é que determina a geração do prazer e do desprazer; isto, contudo, ignoramos. Podemos apenas arriscar-nos a dizer o seguinte: que o prazer está de alguma forma relacionado com a diminuição, redução ou extinção das cargas de estímulos reinantes no aparelho mental e que, de maneira semelhante, o desprazer está em conexão com o aumento dessas cargas. Um exame do prazer mais intenso acessível aos seres humanos, o prazer de efetuar o ato sexual, deixa pouca dúvida quanto a esse ponto. De vez que, em tais processos relativos ao prazer, a questão é saber o que acontece com as quantidades de excitação ou energia mental, damos a essa nova dimensão o nome de econômica. Notar-se-á que podemos descrever as atribuições e realizações do aparelho mental de outra forma mais geral do que simplesmente enfatizando a objeção de prazer. Podemos dizer que o aparelho mental serve ao propósito de dominar e eliminar as cargas de estímulo e as somas de excitação que incidem sobre ele, provenientes de fora e de dentro. É imediatamente óbvio que os instintos sexuais, do começo ao fim de seu desenvolvimento, atuam com vistas à obtenção de prazer; eles mantêm inalterada sua função original. Os outros instintos, os instintos do ego, têm, inicialmente, o mesmo objetivo. Sob a influência da instrutora Necessidade, porém, logo aprendem a substituir à princípio de prazer por uma modificação do mesmo. Para eles, a tarefa de evitar desprazer vem a ser tão importante como a de obter prazer. O ego descobre que lhe é inevitável renunciar à satisfação imediata, adiar a obtenção de prazer, suportar um pequeno desprazer e abandonar inteiramente determinadas fontes de prazer. Um ego educado dessa maneira tornou-se ‘racional’; não se deixa mais governar pelo princípio de prazer, mas obedece ao princípio de realidade que, no fundo, também busca obter prazer, mas prazer que se assegura levando em conta a realidade, ainda que seja um prazer adiado ou diminuído.A transição do princípio de prazer para o princípio de realidade é um dos mais importantes passos na direção do desenvolvimento do ego. Já sabemos que é só tardia e relutantemente que os instintos sexuais se reúnem a essa parte do desenvolvimento, e mais adiante ouviremos falar nas conseqüências, para os seres humanos, do fato de sua sexualidade se contentar com laços tão frouxos com a realidade externa. E agora, para terminar, um último comentário a respeito dessw assunto. Se o ego do homem tem seu próprio processo de desenvolvimento, assim como a libido tem o seu, os senhores não se surpreenderão ao ouvir que também há ‘regressões do ego’, e estarão desejosos de saber também qual o papel que pode ser desempenhado, nas doenças neuróticas, por esse retorno do ego a fases anteriores de seu desenvolvimento.
CONFERÊNCIA XXIII
OS CAMINHOS DA FORMAÇÃO DOS SINTOMAS
SENHORAS E SENHORES:
Para os leigos, os sintomas constituem a essência de uma doença, e a cura consiste na remoção dos sintomas. Os médicos atribuem importância à distinção entre sintomas e doença, e afirmam que eliminar os sintomas não equivale a curar a doença. A única coisa tangível que resta da doença, depois de eliminados os sintomas, é a capacidade de formar novos sintomas. Por esse motivo, no momento adotaremos a posição do leigo e suporemos que decifrar os sintomas significa o mesmo que compreender a doença.
Os sintomas - e, naturalmente, agora estamos tratando de sintomas psíquicos (ou psicogênicos) e de doença psíquica - são atos, prejudiciais, ou, pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa para todas as tarefas importantes da vida. Como esse resultado depende principalmente
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