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MESZAROS, Istvan. A teoria da alienação em Marx; Boitempo.

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e natureza. Um mediador que permite ao homem conduzir um modo 
humano de existência, assegurando que ele não recaia de volta na natureza, que não 
se dissolva no "objeto". "O homem vive da natureza", escreve Marx, "significa: a 
natureza é o seu corpo, com o qual de tem de ficar num processo contínuo para não 
2" IvLUlltScritUJ" éconrJmico-j/!oSÓji(IJ;', cir., p. 114. 
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80 A teoria da alienação em Marx 
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~morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não 
tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o 
homem é uma parte da natureza"29. 
A atividade produtiva é então a fonte da consciência, e a "consciência alienada" é ~' õ reflexo da atividade alienada ou da alienação da atividade, isto é, da auto-alienação 
do trabalho. 
Marx usa a expressão: "corpo inorgânico do homem", que não significa simplesmente 
aquilo que é dado pela natureza, mas a expressão concreta e a materialização de uma fase 
e uma estrutura historicamente dadas da atividade produtiva, na forma de seus produtos, 
dos bens materiais às obras de arte. Como resultado da alienação do trabalho, o "corpo 
inorgânico do homem" aparece como meramente externo a ele e, portanto, pode ser 
trap:sformado em uma mercadoria. Tudo é "reificado" , e as relações ontológicas funda­
mentais são viradas de cabeça para baixo. O indivíduo é confrontado com meros objetos 
(coisas, mercadorias), uma vez que seu "corpo inorgânico" - "natureza trabalhada" e 
capacidade produtiva externalizada - foi dele alienado. Ele não tem consciência de ser 
um "ser genérico". (Um Gattungswesen - isto é, um ser que tem consciência da espécie a 
que pertence, ou, dito de outro modo, um ser cuja essência não coincide diretamente 
com sua individualidade. O homem é o único ser que pode ter uma tal "consciência da 
espécie" - tanto subjetivamentc, em sua percepção consciente da espécie a que pertence, 
como nas formas objetivadas dessa "consciência da espécie", da indústria e às institui­
ções e às obras de arte - e assim ele é o único "ser genérico'!.) 
A atividade produtiva na forma dominada pelo isolamento capitalista - em que "os 
homens produzem como átomos dispersos sem consciência de sua espécie" - não pode 
realizar adequadameme a função de mediação entre o homem e a natureza, porque "reifica" 
o homem e suas relações e o reduz ao estado da natureza :lllimal. Em lugar da "consciên­
cia da espécie" do homem, encontramos o culto da privacidade e uma idealização do 
indivíduo abstrato. Assim, identificando a essência humana com a mera individualidade, 
a natureza biológica do homem é confundida com a sua própria natureza, especitlcamen­
t~ humma. Pois a mera individualidade exige apenas meios para sua subsistência, mas não 
fórmas especificamente humanas - humanamente naturais e naturalmente humanas, isto 
é, SO'CÍifú - ck auto-realização, as quais S:10 ao mesmo tempo manifestações adequadas da 
atividade vital de um GrlttungsweseJl, um "ser genérico". 
o homem é um sagew!rico não somente quando pdtica e teoricamente fiz do gêtll~ro, tanto do 
seu próprio quanto do restante das coisas, o seu objeto, mas também - e isto é somente uma 
outra expressão da mesma coisa - quando se relaciona consigo mesmo como o gênero vivo, j 
presente, qUiWtfO )-e re/acimltl COWlgO mem'lD como um ser universal e por isso liure. 30 l 
O culto mistiflcador do indivíduo abstrato, ao contdrio, indica como natureza do I 
homem um atributo - a mera individualidade - que é llma categoria universal da natureza f 
em geral, e nenhum modo algo especificamente IJlLrtülllO. (Vcr o elogio de Marx a Hobbes por 
2 'I Ibidem, p. 84. 
'ti lbiJem, p. 8_~-4. 
A gênese da teoria da alienação de Marx 81 
ter reconhecido na natureza o domínio da individualidade em seu princípio do bel/um 
omnium contra omnes.) 
A atividade produtiva é, então, atividade alienada quando se afasta de sua função 
apropriada de mediar humanamente a relação sujeito-objeto entre homem e natureza, 
e tende, em vez disso, a levar o indivíduo isolado e reificado a ser reabsorvido pela 
"naturezà'. Isso pode ocorrer até mesmo em uma fase altamente desenvolvida da civi­
lização, se o homem for sujeitado, como diz o jovem Engels, a "uma lei natural baseada 
na inconsciência dos participantes". (Marx integrou essa idéia do jovem Engels a seu 
próprio sistema e mais de uma vez referiu-se a essa "lei natural" do capitalismo, não só 
nos Manuscritos de 1844 como também em O capitaf3 t .) 
Assim, o protesto de Marx contra a alienação, a privatização e a reificação não o 
envolve nas contradições da idealização de algum tipo de "estado natural". Não há 
vestígio deuma nostalgia romântica ou sentimental da natureza em sua concepção. Seu 
programa, nas referências críticas aos "apetites artificiais" etc., não advoga um retorno 
à "natureza", a uma série "natural" de necessidades primitivas, ou "simples", mas a 
"plena realização da natureza do homem", por intermédio de uma atividade humana 
adequadamente automediadora. ''A natureza do homem" (o seu "ser genérico") significa 
precisamente uma distinção com relação à natureza em geral. A relação entre o homem 
e a natureza é "aulO11lcdiadora" num duplo sentido. Primeiro, porque é a natureza que 
se media consigo mesma no homem. E em segundo lugar, porque a própria atividade 
mediadora é apenas um atributo do homem, localizado numa parte específica da natu­
reza. Assim, na atividade produtiva, sob o primeiro de seus aspectos ontológicos duais, 
a natureza medeia a si meSm(1 com a natureza; e, sob o segundo aspecto ontológico - em 
virtude de que a atividade produtiva é inerentemente atividade social -, o homem 
medeia ti si mesmo com o homern. 
As mediações de segunda ordem mencionadas acima (institucionalizadas na forma 
de divisão do trabalho - propriedade privada - intercâmbio capitalistas) perturbam 
essa relação e subordinam a própria atividade produtiva, sob o domínio de uma "lei 
natural" cega, às exigências da produção de mercadorias destinada a assegurar a repro­
dução do indivíduo isolado e reificado, que não é mais do que um apêndice desse 
sistema de "dctcrmill:lções econômicas". 
A atividadc produtiva do homem não pode lhe trazer realização porque as media<,-õcs 
de segunda ordcm institllcionalizadas se interpõem entre o homem e sua atividadc, entre 
o homem e a natureza, e entre o homem e o homem. (As duas últimas já estão implícitas 
na primeira, isto é, na interposição das mediações de segunda ordem capitalistas entre o 
homem e sua atividade, na subordinação da atividade produtiva a essas mediações. Pois 
se a auto mediação do homem for ainda mediada pela forma capitalisticamente 
instirucionalizada de atividade produtiva, então a natureza não pode mediar a si mesma 
com a natureza e o homcm não pode mediar a si mesmo com o homem. Ao contrário, 
o homem é confrontado pela natureza de uma m~meira hostil, sob o império de uma "lei 
natural" que domina cegamente por meio do mecanismo do mercado (intercâmbio) e, 
\ I Ver. por exemplo, O capirttL (Moscou, 1958), v. I, p. 75. 
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82 A teoria da alienação em Marx 
de outro lado, o homem é confrontado pelo homem de uma maneira hostil, no antago­
nismo entre capital e trabalho. A inter-relação original do homem com a natureza é 
transformada na relação entre trabalho assalariado e capital, e no que concerne ao traba­
lhador individual o objetivo de sua atividade está necessariamente confinado à sua auto­
reprodução como simples indivíduo, em seu ser físico. Assim, os meios se tornam os 
fins últimos, enquanto os fins humanos são transformados em simples meios subordina­
dos aos fins reificados desse sistema institucionalizado de mediações de segunda ordem.) 
Uma negação adequada da alienação é, portanto, inseparável
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