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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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nesse curto trabalho demonstrar um 
conceito em acordo com os ditames constitucionais.
38 Schonblum, Paulo Maximilian Wi-
lhelm. Dano moral: questões contro-
vertidas, rio de Janeiro: forense, 2000, 
p.3.
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FGV DIREITO RIO 125
No Brasil a questão foi tão controvertida quanto na Itália, França e Portu-
gal39. Nas primeiras leis brasileiras editadas nota-se certa inclinação para a 
reparação do dano moral: o Código Criminal de 1832 dispunha que a mes-
ma sentença condenatória do réu também disporia acerca de reparações de 
injúrias e prejuízos apuradas no cível. Com efeito, reparações de injúrias tem 
um cunho não patrimonial. O Código Penal de 1890 determinava que nos 
defl oramentos, bem como nos estupros, o ofensor estaria obrigado a dotar a 
ofendida.
Entretanto, foi sem dúvida a Lei de Estradas de Ferro (Lei 2.681/12) que 
primeiro visualizou uma hipótese de ressarcimento por dano moral em seu 
art. 21. Este dizia que no caso de lesão corpórea, ou deformidade, à vista 
da natureza da mesma e de outras circunstâncias, além das despesas com o 
tratamento e lucros cessantes, deverá pelo juiz ser arbitrada uma indenização 
conveniente. Assim, a reparação do dano moral tinha previsão legal, mas de 
forma específi ca e casuística.
O Código Civil de 1916 nada mencionou acerca da reparabilidade do 
dano moral. Como era de se esperar surgiram duas correntes: a primeira que 
tinha como defensor Agostinho Alvim entendia que o dano moral não era 
indenizável diante do nosso ordenamento pátrio, pois:
Em face do direito constituído, entendemos não haver lugar para ressarci-
bilidade do dano moral, não sendo possível inferi-la de preceitos insulados, e 
nada explícitos a respeito.40
O autor ainda adverte para o fato de que o legislador não havia inserido 
no Código nenhuma regra sobre dano moral, nenhuma norma de caráter 
geral. Entretanto, admitia que é “o sentimento de justiça que impulsiona no 
sentido de admitir-se a indenização por dano moral”41 e afi rmava que “consi-
derando-o, porém, diante do direito a constituir-se não nos repugna, como a 
muitos, admitir o ressarcimento de danos morais.”42
Na doutrina, todavia, solidifi cou-se o entendimento pela aceitação da re-
parabilidade do dano moral. O seu fundamento estava previsto no art. 76 
que dispunha que para propor ou contestar uma ação é necessário ter legíti-
mo interesse econômico ou moral. O interesse moral justifi caria a indeniza-
ção pelo dano moral.
Entretanto, diversas foram as críticas à essa construção, pois interesse mo-
ral juridicamente protegido, não se confunde com ressarcimento por via eco-
nômica de valores meramente afetivos43. Ora, outra construção doutrinária 
se fazia necessária e não tardou. Passou-se a dizer que o art. 159 teria caráter 
genérico tratando de dano de forma ampla o que englobaria tanto o dano 
patrimonial quanto o moral. E, neste sentido, o art. 1.553 (Liquidação das 
Obrigações) Complementaria o art. 159, pois nos casos não previstos no ca-
pítulo, fi xar-se-ia a indenização por arbitramento. Desta forma, os danos não 
específi cos seriam liquidados por arbitramento judicial.
39 Para um maior detalhamento acerca 
da histótia do instituto, v. silVa, Wilson 
melo da, O dano moral e sua reparação, 
3a ed. rev. e ampl., rio de Janeiro: fo-
rense, 1983.
40 Alvim, Agostinho. Da inexecução das 
obrigações e suas conseqüências, 4a ed. 
atual., são Paulo: saraiva, 1972, p. 234.
41 Idem, p. 224.
42 Idem, p. 234.
43 Idem, p. 232.
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Certo que de forma a superar os problemas da reparação por danos morais 
sobrevieram diversas normas especiais das quais podemos citar duas como 
fundamentais. A primeira, a Lei 4.117/62 (Código Brasileiro de Telecomu-
nicações), que contemplou o dano moral e sua ressarcibilidade no art. 81.
Art. 81 Independentemente da ação penal, o ofendido pela calúnia, difa-
mação ou injúria cometida por meio de radiodifusão, poderá demandar, no 
Juízo Cível, a reparação do dano moral, respondendo por este solidariamen-
te, o ofensor, a concessionária ou permissionária, quando culpada por ação 
ou omissão, e quem quer que, favorecido pelo crime, haja de qualquer modo 
contribuído para ele.
A segunda, a Lei de Imprensa (Lei 5.250/67), que em seu art. 49 regulou 
de forma expressa a reparabilidade do dano moral.
Art. 49. Aquêle que no exercício da liberdade de manifestação de pensa-
mento e de informação, com dolo ou culpa, viola direito, ou causa prejuízo a 
outrem, fi ca obrigado a reparar:
I os danos morais e materiais, nos casos previstos no art. 16, números II e 
IV, no art. 18 e de calúnia, difamação ou injúrias;
II os danos materiais, nos demais casos.
Posteriormente, a Constituição Federal de 1988 pôs fi m à discussão as-
segurando em seu art. 5o, X o direito à indenização pelo dano moral. Logo 
após foi promulgado o Código de Defesa do Consumidor que assegurou ex-
pressamente a efetiva reparação dos dano morais nas relações de consumo em 
seu art. 6o, VI. E, fi nalmente, diante da adoção total da reparação do dano 
moral, o Código Civil de 2002 adotou expressamente esta teoria ao dispor 
no art. 186 que aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou 
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamen-
te moral, comete ato ilícito. E a norma é complementada pelo art. 927 que 
determina que aquele que por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a 
outrem, fi ca obrigado a repará-lo.
Ainda dentro da evolução histórica, parece ser pertinente discorrermos 
acerca das objeções à indenização por danos morais. Podemos resumí-las em 
três: i) A impossibilidade da rigorosa avaliação dos danos morais e imoralidade 
da compensação da dor com o dinheiro; ii) impossibilidade e a difi culdade da 
reparação; e iii) o excessivo arbítrio dos juízes nas reparações por danos morais.
Em oposição à primeira objeção Agostinho Alvim rebate:
Acham muitos que é uma grosseria querer mitigar a dor moral por meio 
do dinheiro. (...) Mas, não têm razão os que assim pensam. Não é por causa 
desta ou daquela hipótese, mais ou menos ridícula, que havemos de rejeitar 
um instituto tão útil. Na realidade, não se pode admitir que o dinheiro faça 
cessar a dor, como faz cessar o prejuízo patrimonial. Mas, em muitos casos, o 
conforto que possa proporcionar, mitigará, em parte, a dor moral, pela com-
pensação que oferece.44 44 Alvim, Agostinho. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências, 4a ed. 
atual., são Paulo: saraiva, 1972, p. 235.
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Nesse diapasão, Maria Celina Bodin de Moraes afi rma que, nos últimos 
anos, passou-se a entender que “se era imoral receber alguma remuneração 
pela dor sofrida, não era a dor que estava sendo paga, mas sim a vítima, lesa-
da em sua esfera extrapatrimonial, quem merecia ser (re)compensada pecu-
niariamente, para assim desfrutar de algumas alegrias e outros estados de 
bem-estar pscicofísico, contrabalançando (rectius, abrandando) os efeitos 
que o dano causara em seu espírito”.45
Em relação à segunda objeção, ela procede. Realmente é uma tarefa árdua 
tentar encontrar o equivalente ao dano, talvez até impossível alcançar um 
valor que repare integralmente, mas deve-se tentar chegar ao mais próximo 
disso. Entretanto, a difi culdade de avaliação em qualquer situação não pode 
ser obstáculo à reparação.46
Sem embargo que a terceira e última objeção não poderia proceder. Ora, 
arbitramento não é sinônimo de arbitrariedade. Ao contrário, devem ser afe-
ridos critérios objetivos para que o juiz estabeleça o quantum evitando-se, 
assim, valores aleatórios. Sem sombra de dúvida esta tarefa cabe em especial 
à doutrina e à jurisprudência.
Conceito
Após essa rápida evolução do instituto,