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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 133
Culpa em sentido estrito
A culpa stricto sensu ou propriamente dita, por sua vez, diz respeito à 
vontade do agente que é dirigida ao fato causador da lesão, mas o resultado 
não é querido pelo agente. Podemos dizer, então, que é a falta de diligência 
na observância da norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, 
do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado, mas 
previsível57. É a omissão da diligência exigível do agente.
A mera culpa (ou culpa em sentido estrito), portanto, pode ser defi nida 
como a violação de um dever jurídico por negligência, imprudência ou im-
perícia. Ela pode consistir numa ação ou numa omissão.
Negligência se relaciona com a desídia. É a falta de cuidado por conduta 
omissiva. Imprudência está ligada à temeridade, ou seja, é a afoiteza no agir. 
É a falta de cautela por conduta comissiva. A imperícia, fi nalmente, é a falta 
de habilidade. Em outras palavras, decorre da falta de habilidade no exercício 
de atividade técnica.
A culpa ainda pode ser graduada em razão da gravidade da conduta. Ape-
sar do Código Civil não fazer qualquer menção sobre o tema, tanto doutrina 
quanto jurisprudência têm se utilizado dos graus de culpa no momento da 
fi xação da indenização, especialmente no dano moral.
Entrementes, para analisar a conduta é preciso saber qual é o padrão por 
que se afere a conduta do lesante, ou seja, será a diligência que o agente 
costuma aplicar nos seus atos, ou será a diligência de um homem normal, 
medianamente sagaz, prudente, avisado e cuidadoso?
A doutrina coloca que deve se aferir através da culpa em abstrato. Isto é, 
determina-se pelo modelo de um homem-tipo a que no direito romano se de-
signava por bonus pater familiar (bom pai de família), que é o homem médio.
Admite-se, então, três graus de culpa: grave, leve e levíssima. Culpa grave 
é aquela imprópria ao comum dos homens. É o erro grosseiro, descuido in-
justifi cável e equiparado ao dolo.
A culpa leve, por sua vez, é a falta evitável com atenção ordinária, com o 
cuidado próprio do homem comum. Por fi m, a culpa levíssima caracteriza-
se pela falta de atenção extraordinária, com especial habilidade ou conheci-
mento singular. Não obstante os diferentes graus, aquele que age com culpa 
(mesmo que levíssima) está obrigado a reparar (in lege Aquilia et levissima 
culpa venit).
espécies de Culpa
Embora as espécies de culpa aqui referidas estejam praticamente extintas 
em razão do Código Civil de 2002 estabelecer a responsabilidade objetiva 
57 Dias, José de Aguiar. Da responsabi-
lidade civil. 11a ed. rev., atualizada de 
acordo com o código civil de 2002 e 
aumentada por rui bedford dias. rio de 
janeiro: renovar, 2006, p. 149.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
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por fato de outrem ou na responsabilidade pelo fato do animal ou da coisa, 
é importante para fi ns didáticos explicá-las. A doutrina geralmente coloca 
como espécies de culpa as culpas in eligendo, in vigilando e in custodiando.
A primeira caracteriza-se pela má escolha do preposto. Nesse diapasão, 
foi elaborada a Súmula 341 do Supremo Tribunal Federal que determinava 
presumida a culpa do patrão pelo ato culposo do empregado ou preposto.
A culpa in vigilando decorre da falta de atenção ou cuidado com o proce-
dimento de outrem que estava sob a guarda ou responsabilidade do agente. 
Por fi m, a culpa in custodiando caracteriza-se pela falta de atenção em relação 
a animal ou coisa que estavam sob os cuidados do agente.
Culpa presumida
Se por um lado foi adotado em quase todos os ordenamentos do mundo 
uma teoria geral de responsabilidade civil fundada na culpa, por outro lado, 
essa teoria traz um grave óbice à reparação da vítima.
Com efeito, na medida em que as atividades humanas vão se expandindo 
e se tornando menos controláveis, os riscos vão se multiplicando. Diante 
dessa nova realidade, a responsabilidade civil vem exorbitando seus antigos 
domínios58 para tentar alcançar soluções conforme os anseios sociais. O de-
senvolvimento das indústrias e dos meios de transporte veio denunciar-lhe a 
insufi ciência para a solução de grande número de casos.59
A verdade é que exigir da vítima uma prova que ela não pode produzir é o 
mesmo que negar a reparação. A prova da culpa em algumas situções é uma 
prova impossível de ser produzida. Nesse diapasão, em conformidade com a 
tendência que tem como escopo a reparação da vítima e, de acordo com o prin-
cípio da ampla reparação, a doutrina e jurisprudência passaram a admitir o re-
curso à inversão da prova, como fórmula de assegurar ao autor as probabilida-
des de bom êxito que de outra forma lhe fugiriam totalmente em muitos casos.60
Dessa forma, surgem as hipóteses de culpa presumida. Nessa seara, ainda é 
imprescindível a culpa para fi ns de reparação, contudo, existe uma presunção 
cabendo ao autor do dano demonstrar que sua conduta não foi culposa. É, 
portanto, uma relativização do brocardo latino actori incumbit probatio (ao 
autor cabe o ônus da prova). A sua vantagem é que através da culpa presumi-
da, permite-se que a vítima seja reparada em inúmeras situações.
Concepção normativa da culpa
A concepção normativa, por sua vez, baseia-se na idéia de erro de conduta. 
Inúmeras atividades são desempenhadas diariamente que podem provocar 
58 silVa, Wilson melo da. Responsabi-
lidade sem culpa. 2a ed. são Paulo: 
saraiva, 1974, p.151.
59 Alvim, Agostinho, Da Inexecução 
das Obrigações e Suas Conseqüências, 
4a ed. atual., são Paulo: saraiva, 1972, 
p. 305.
60 Dias, José de Aguiar. Da responsabi-
lidade civil. 11a ed. rev., atualizada de 
acordo com o código civil de 2002 e 
aumentada por rui bedford dias. rio de 
janeiro: renovar, 2006, p. 110.
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danos. Por essa razão, a lei estabelece uma série de deveres e cuidados que o 
agente deve ter quando desempenhar essas atividades (p. ex. limite de veloci-
dade, uso de equipamentos especiais, etc).
Não havendo normas legais ou regulamentares específi cas, o conteúdo do 
dever objetivo de cuidado só pode ser determinado por intermédio de um 
princípio metodológico — comparação do fato concreto com o comporta-
mento que teria adotado, no lugar do agente, um homem comum, capaz e 
prudente61. Isto é, entende-se que a culpa é a quebra do dever a que o gente 
está adstrito por norma específi ca (legal ou contratual) e na falta desta, pelo 
dever genérico de não causar dano a outrem (neminem laedere).
A diferença da concepção clássica para a concepção normativa é que nesta 
não se exige um dever universal de cuidado, mas um padrão de conduta 
(standard) a ser utilizado para cada situação específi ca, ou seja em cada caso 
concreto. A culpa aqui passou a representar a violação de um padrão de con-
duta62, de onde conclui-se que a noção de culpa é normativa, exigindo um 
juízo de valor em cada caso.63
2. CASO GERADOR:
Joana era uma senhora de 40 anos. Cansada de sua aparência, resolveu 
matricular-se em uma academia de ginástica para emagrecer e modelar seu 
corpo. Todavia, após seis meses de academia, achava que não estava no pon-
to ideal. Foi quando sua amiga, Cléia, sugeriu que fosse ao seu médico, Dr. 
Paulo, para uma lipoaspiração.
Chegando no consultório médico, o médico sugeriu que fi zesse uma ci-
rurgia estética reformadora de mamas e abdômem. Realizada a cirurgia, Joa-
na teve alta dois dias depois.
Ocorre que chegando em casa, a paciente começou a sentir dores insupor-
táveis nas mamas, abdômen e na cabeça. Ao ligar para o médico, este infor-
mou que ela deveria continuar com o tratamento anteriormente prescrito. 
Ao persistirem as dores, Joana se dirigiu ao hospital local onde foi informada 
que seu estado era gravíssimo, apresentando coloração preta nos