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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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apresentam grau de risco elevado seja por-
que se centram sobre bens intrinsecamente danosos (como material 
radioativo, explosivo, armas de fogo etc), seja porque empregam métodos de 
alto potencial lesivo (como o controle de recursos hídricos, manipulação de 
energia nuclear etc.). Irrelevante, para a incidência do dispositivo, que a ati-
vidade de risco se organize ou não sob forma empresarial ou que se tenha 
revertido em proveito de qualquer espécie para o responsável.69
Risco integral
Não obstante as teorias até aqui apontadas, é importante tratar da chama-
da teoria do risco integral. Essa é uma modalidade extremada da teoria do 
risco em que o agente fi ca obrigado a reparar o dano causado até nos casos 
de inexistência do nexo de causalidade. O dever de indenizar surge tão-só em 
face do dano, ainda que oriundo de culpa exclusiva da vítima, fato de tercei-
ro, caso fortuito ou força maior.
A doutrina estabelece, geralmente, três hipóteses de risco integral em nos-
so ordenamento.
(i) Dano ambiental: o art. 225, § 3o da CRFB/88 c/c art. 14, § 1o da Lei 
6.938/ 81 estabelecem a obrigação de reparar o dano ambiental independen-
temente de culpa. A exegese dos referidos artigos importa em uma hipótese 
de risco integral, pois caso fosse possível invocar o caso fortuito e a força 
69 Schreiber, Anderson. Novos paradig-
mas da responsabilidade civil: da ero-
são dos fi ltros da reparação à diluição 
dos danos. são Paulo: atlas, 2007, p. 25.
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maior, fi caria fora da incidência da lei a maior parte dos casos de poluição 
(p.ex. carga tóxica de navio avariado em razão de tempestades marítimas).
Art.225, § 3o, CRFB/88 As condutas e atividades consideradas lesivas ao 
meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções 
penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os da-
nos causados.
Art. 14, Lei 6.938/81 Sem prejuízo das penalidades defi nidas pela legis-
lação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas neces-
sárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela 
degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:
(...)
§ 1o Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o polui-
dor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar 
os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O 
Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação 
de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente.
(ii) Seguro obrigatório DPVAT: A Lei 6.194/74, alterada pela Lei 
8.441/92, estabeleceu que a indenização pelo seguro obrigatório 
para os proprietários de veículos automotores é devida, mesmo que 
o acidente tenha sido provocado por veículo desconhecido, ou não 
identifi cado e ainda que tenha havido culpa exclusiva da vítima. 
Art. 5o, Lei 6.194/74 O pagamento da indenização será efetuado 
mediante simples prova do acidente e do dano decorrente, indepen-
dentemente da existência de culpa, haja ou não resseguro, abolida 
qualquer franquia de responsabilidade do segurado.
(iii) Danos nucleares: dado a enormidade dos riscos decorrentes da ex-
ploração da atividade nuclear, também foi adotada a teoria do risco 
integral. A Constituição em seu art. 21, XXIII, “d” determina que a 
responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência 
de culpa. Todavia, o art. 8o da Lei 6.453/77 exclui a responsabili-
dade do operador pelo dano resultante de acidente nuclear causado 
diretamente por confl ito armado, hostilidades, guerra civil, insurrei-
ção ou excepcional fato da natureza. Art. 21, CRFB/88 Compete à 
União:(...)XXIII explorar os serviços e instalações nucleares de qual-
quer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o 
enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio 
de minérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes princí-
pios e condições: (...)d) a responsabilidade civil por danos nucleares 
independe da existência de culpa; Art. 8o, Lei 6.453/77 O operador 
não responde pela reparação do dano resultante de acidente nuclear 
causado diretamente por confl ito armado, hostilidades, guerra civil, 
insurreição ou excepcional fato da natureza.
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o fundamento da responsabilidade objetiva
Se, inicialmente, o sistema objetivo foi adotado com fundamento exclusi-
vo na teoria do risco, atualmente, existem outras fontes legitimadoras do re-
ferido sistema. Verifi ca-se uma crescente conscientização de que a responsa-
bilidade objetiva consiste em uma responsabilização não pela causa, mas pelo 
resultado.70
2. CASO GERADOR:
Carla, uma senhora de 63 anos, dirigiu-se ao supermercado local Compre 
Sempre S/A para realizar as compras do mês. Enquanto atravessa o corredor 
de grãos para adquirir sal, escorregou em arroz espalhado no chão, sofrendo 
uma queda forte que veio a lhe acarretar traumatismo no joelho esquerdo.
No mesmo dia foi encaminhada ao Hospital da Ajuda, acompanhada por 
um preposto do Supermercado permanecendo lá internada para tratamento 
cirúrgico do joelho fraturado, quando, então, retornou para casa, carecendo 
de acompanhamento domiciliar em tempo integral.
Procurada para reparar os danos sofridos, o supermercado alegou que 
sempre manteve uma equipe de limpeza e, portanto, por não poderia ser 
imputada qualquer responsabilidade civil.
Tem razão o supermercado? Justifi que com base na legislação pertinente.
70 Schreiber, Anderson. Novos paradig-
mas da responsabilidade civil: da ero-
são dos fi ltros da reparação à diluição 
dos danos. são Paulo: atlas, 2007, p. 28.
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AULA 19. NEXO CAUSAL
LEITURA OBRIGATÓRIA:
TEPEDINO, Gustavo. Notas sobre o nexo de causalidade, in Temas de direi-
to civil, tomo II. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p.63/82.
LEITURAS COMPLEMENTARES:
CRUZ, Gisela Sampaio da. O problema do nexo causal na responsabilida-
de civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 33/154. VARELA, Antunes, Das 
Obrigações em geral, Volume I, 10 a Edição, Revista e Actualizada, Coimbra: 
Almedina, 2000, p. 887/900.
1. ROTEIRO DE AULA
Inúmeros são os danos sofridos pelas pessoas no seu dia-a-dia, especial-
mente no mundo moderno de massas em que vivemos atualmente. Entre-
tanto, o dano só pode gerar a obrigação de indenizar quando for possível 
estabelecer com certeza absoluta que certa ação ou omissão, cometida por 
alguém, provocou o referido dano. Nas palavras de Agostinho Alvim:
“O dano só pode gerar responsabilidade quando seja possível estabelecer 
um nexo causal entre ele e o seu autor, ou, como diz SAVATIER, um dano só 
produz responsabilidade, quando ele tem por causa uma falta cometida ou 
um risco legalmente sancionado”71.
A doutrina defi ne nexo causal como um elemento referencial entre a con-
duta e o resultado72. É o liame que une a conduta do agente ao dano. Trata-se 
de tarefa árdua ao aplicador do direito.
Diversas são as teorias para explicar o nexo de causalidade. No Brasil, 
entretanto, são citadas apenas três correntes para identifi cação da causa que 
efetivamente gerou o dano: i) Teoria da Equivalência das condições; ii) Teoria 
da Causalidade Adequada e iii) Teoria Do Dano Direto e Imediato. Parece 
importante, neste momento, analisar as teorias e suas subteorias para um 
melhor aprofundamento do tema.
71 Alvim, Agostinho, da inexecução das 
obrigações e suas Conseqüências, 4a 
ed. atual., são Paulo: saraiva, 1972, p. 
340.
72 Cavalieri Filho, Sergio, Programa de 
Responsabilidade Civil, rio de Janeiro: 
malheiros editores, 2003.
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