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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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para a 
legitimidade do direito positivo. Nisto, que o direito positivo deve respeitar, 
proteger e fomentar os direitos do homem para ser legítimo, portanto, ser 
suficiente à sua pretensão à exatidão, manifesta-se a prioridade dos direitos 
do homem. Direitos do homem estão, com isso, em uma relação necessária 
com o direito positivo, que está caracterizada pela prioridade dos direitos do 
homem.123 
 
Em suma, o homem pelo simples fato de ser pessoa e, portanto, dotado de 
dignidade, não pode ser considerado como um objeto, ou seja, não pode ser 
instrumentalizado, servindo como meio do poder estatal. Ao contrário, é a dignidade 
da pessoa humana que possibilita e legitima o poder do Estado, uma vez que este 
está a serviço do homem, pois, como no pensamento de Kant, “o homem é um fim 
em si mesmo”. 
Em nosso ordenamento jurídico ela está prevista como princípio fundamental 
no artigo 1°, inciso III da Constituição Federal. S egundo Sarlet, os princípios 
fundamentais possuem “a qualidade de normas embasadoras e informativas de toda 
a ordem constitucional”.124 Desse modo, a dignidade humana constitui o fundamento 
e o fim de nosso Estado Social e Democrático de Direito,125 ideal estabelecido no 
caput do referido artigo. 
Nesse contexto, os direitos e garantias fundamentais são concretizações ou 
desdobramentos – em maior ou menor grau – do Princípio da Dignidade da Pessoa 
Humana, uma vez que se referem à proteção e desenvolvimento das pessoas.126 
Assim, a dignidade de cada pessoa humana só pode ser exercida se lhe forem 
 
120
 BLECKMANN, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais 
na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 73-74. 
121
 MARTINS-COSTA, Judith. As interfaces entre o Direito e a Bioética. In: CLOTET, Joaquim (Org.). 
Bioética. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001, p. 75. 
122
 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e Teoria da constituição. 4. ed. Coimbra: 
Almedina, 2000, p. 225. 
123
 ALEXY, Robert. Direitos fundamentais no Estado Constitucional Democrático: para a relação entre 
direitos do homem, direitos fundamentais, democracia e jurisdição constitucional. Revista da Faculdade 
de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 16, p. 208-209, 1999. 
124
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 69. 
125
 Em relação ao conceito de Estado Social e Democrático de Direito, conferir: SILVA, José Afonso 
da. Curso de direito constitucional positivo. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 112-122. 
126
 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. 3. ed. Portugal: Coimbra, 2000, v. 4, p. 181. 
 
25
concedidos os direitos e garantias fundamentais, pois, por exemplo, como referido 
anteriormente, o direito à liberdade e à integridade física e moral (entre outros) 
constituem condições para uma vida digna. Por isso, os direitos fundamentais podem 
estar ligados direta ou indiretamente à dignidade da pessoa humana, lembrando que 
essa vinculação será mais ou menos intensa de acordo com a importância que o 
contexto histórico-cultural de determinada sociedade imprimir aos mesmos.127 Nessa 
linha de raciocínio, Sarlet, com base no pensamento de Geddert-Steinacher, destaca 
que a violação de um direito fundamental implica também em uma violação à dignidade 
da pessoa humana, tendo em vista o vínculo sui generis estabelecido entre eles e dada 
a função da dignidade da pessoa humana como “elemento e medida” dos direitos 
fundamentais.128 
 
2.2.1 A função integradora e hermenêutica do Princípio da Dignidade da 
Pessoa Humana 
 
Com efeito, sendo a dignidade da pessoa humana o fundamento da existência e o 
fim do próprio Estado, afirma-se que ela constitui um princípio de maior hierarquia 
axiológico-valorativa, sendo que a interpretação do ordenamento jurídico deve ser 
realizada com vistas a ela. Sobre este aspecto, cumpre referir que, apesar de o Princípio 
da Dignidade da Pessoa Humana assumir uma posição privilegiada em nosso 
ordenamento jurídico, Sarlet destaca, com base em Robert Alexy, que não existem 
princípios absolutos. Assim, não seria possível conceber sua prevalência de forma 
absoluta em todos os casos concretos. Havendo colisões, no momento da ponderação, a 
dignidade da pessoa humana poderá assumir diversos graus de realizações.129 
Isso significa dizer que, mesmo não sendo princípio absoluto (pois nenhum o 
é), a dignidade da pessoa humana assume relevante função no ordenamento 
jurídico, pelo o que já exposto, servindo como elemento de conexão dos direitos e 
garantias fundamentais, bem como de todo o ordenamento jurídico brasileiro. Em 
outras palavras, o referido princípio tem uma função de integrar o ordenamento 
jurídico, de tal forma que o mesmo revele-se coerente internamente como um todo. 
Ademais, ele revela-se como parâmetro para o processo de interpretação e 
aplicação das normas previstas em nosso sistema.130 Nesse sentido: 
 
A dignidade da pessoa humana constitui valor-guia não apenas dos direitos 
fundamentais, mas de toda a ordem constitucional, razão pela qual se 
justifica plenamente sua caracterização como princípio constitucional de 
maior hierarquia axiológico-valorativa.131 
Na medida em que serve de parâmetro para a aplicação, interpretação e 
integração não apenas dos direitos fundamentais e do restante das normas 
 
127
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 105. 
128
 GEDDERT-STEINACHER, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos 
fundamentais na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 113. 
129
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 82-83 e 89. Em relação a este 
ponto, conferir: COELHO, Inocêncio Mártires. Princípio da dignidade da pessoa humana. In: 
MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet; COELHO, Inocêncio Mártires (Org.). 
Curso de direito constitucional. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 172-177. 
130
 NIPPERDEY, apud SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais 
na Constituição Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 88. 
131
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 7. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 119. 
 
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constitucionais, mas de todo o ordenamento jurídico, imprimindo-lhe, além 
disso, sua coerência interna.132 
 
Tais afirmações podem ser constatadas em face dos limites que o Princípio 
da Dignidade da Pessoa Humana pode estabelecer em relação às restrições 
realizadas aos direitos fundamentais.133 Ressalta-se também que o Princípio da 
Dignidade da Pessoa Humana pode estabelecer limites aos próprios direitos 
fundamentais134 ou a outras normas previstas no ordenamento jurídico, levando-se 
em consideração a ocorrência de eventuais colisões.135 
Portanto, verifica-se que pelo conteúdo e significado do Princípio da 
Dignidade da Pessoa Humana, o mesmo “atua simultaneamente como limite e limite 
dos limites”.136 
Poder-se-ia, inclusive, dizer que – e aqui novamente retomamos os conceitos 
vistos no capítulo anterior –, o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana é um 
símbolo de tamanha importância que, em virtude de seu significado e conteúdo, 
coordena a interpretação de todos os demais símbolos normativos do ordenamento 
jurídico brasileiro, assegurando uma coerência entre eles. Por essa razão, ela não 
está unicamente prevista no artigo 1°, inciso III d a Constituição Federal, mas 
também expressa ou implicitamente