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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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humana); artigo 17 (integridade física, psíquica e moral), todos do 
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n° 8.069 de 1990). (SEGATO, Rita Laura. "Que cada 
pueblo teja los hilos de su historia: El argumento del Pluralismo Jurídico en diiálogo didáctico con 
legisladores". In: CHENAUT, Victoria; GÓMEZ, Magdalena. ORTIZ, Héctor; SIERRA, María 
Teresa. (Coords.). (Org.). Justicia y diversidad en tiempos de globalización. México: CIESAS e 
Red Latinoamericana de Antropología Jurídica, 2008, [Material por e-mail pessoal], p. 6. 
172
 Ibidem, p. 14. 
173
 Ibidem, p. 5. 
174
 HOLANDA, Marianna Assunção Figueiredo. Quem são os humanos dos direitos? Sobre a 
criminalização do infanticídio indígena. 2008. 157 f. Dissertação. (Mestrado em Antropologia 
Social) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008, p. 145. 
 
35
Aliás, este também é o posicionamento da Associação Brasileira de 
Antropologia, ao declarar que o Projeto de Lei n° 1 .057/2007 simboliza uma 
renovação do preconceito e, por isso, merece ser arquivado pelo Congresso 
Nacional.175 
Conforme afirma João Pacheco de Oliveira, representando a Comissão de 
Assuntos Indígenas da ABA, as publicações sobre as práticas indígenas nos meios 
de comunicação (internet, televisão, revistas e jornais) demonstram nada mais do 
que um discurso desprovido de qualquer fundamentação científica, tornando-se uma 
perigosa estratégia retórica para criminalizar as comunidades indígenas, estando aí 
implícita a consideração da irracionalidade e da perversão desses povos.176 O 
antropólogo compara tal discurso àquele da época da colonização da América, onde 
os atos eram justificados por diversas pretensões “humanitárias”. Por trás disso há, 
em realidade, interesses de intervenção.177 
Da mesma forma, segundo o antropólogo, o Projeto de Lei n° 1.057/2007 
apóia-se em informações da mídia e registros não confiáveis. A questão que ele 
coloca é: como, então, legislar sobre o assunto, impondo um “parâmetro de 
fiscalização” e “outros modos de socialização” sobre essas coletividades?178 Logo, 
João Pacheco de Oliveira declara: 
 
Tal intervenção pode resolver problemas de consciência de algumas 
pessoas, mas decididamente cria um falso problema e propõe soluções 
lastimáveis. Pior ainda, contribui para estimular uma visão negativa, 
ultrapassada e mesmo racista desse segmento da população brasileira.179 
 
João Pacheco de Oliveira destaca ainda que a Declaração Universal dos 
Direitos do Homem serve como um instrumento para proteger os cidadãos, e não 
para afirmar a superioridade moral de alguns povos sobre outros. Nesse contexto, 
afirma que a Constituição Federal de 1988 teve justamente a proposta de romper 
com as barreiras autoritárias da tradição colonial, promovendo um Estado Social de 
Direito, ao reconhecer e proteger as coletividades culturalmente distintas. Contudo, o 
que aparenta estar acontecendo é que o Brasil está na “contramão da história”, 
renovando o preconceito através deste Projeto de Lei. Segundo o antropólogo, essa 
pretensão de um movimento interventor poderia ser convertida em um diálogo 
 
175
 Comissão de Assuntos Indígenas da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Infanticídio 
entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do preconceito? Disponível em: 
<http://www.abant.org.br/index.php?page=2.31> Acesso em: 25/06/2009. p. 4. 
176
 O antropólogo João Pacheco de Oliveira afirma que atualmente as práticas em questão são raras 
entre as comunidades indígenas brasileiras e que não existem registros confiáveis e consistentes 
sobre elas. Além disso, comenta que o filme “Hakani”, veiculado no Youtube, trata-se de uma 
encenação produzida para obter fundos para as missões das instituições “pilantrópicas”. 
 Ressalta-se que o objetivo deste trabalho não é investigar os dados etnográficos e estatísticos da 
questão, mas expor os debates teóricos em torno do tema. 
Comissão de Assuntos Indígenas da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. 
Infanticídio entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do 
preconceito? Disponível em: <http://www.abant.org.br/index.php?page=2.31>. Acesso em: 25 jun. 
2009, p. 1 e 3. 
177
 Comissão de Assuntos Indígenas da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Infanticídio 
entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do preconceito? Disponível em: 
<http://www.abant.org.br/index.php?page=2.31> Acesso em: 25 jun. 2009, p. 3. 
178
 Ibidem, p. 3. 
179
 Ibidem, p. 3. 
 
36
intercultural, o qual obviamente deverá contar com a efetiva participação das 
comunidades indígenas afetadas por esta polêmica discussão.180 
De acordo com essa abordagem, Rita Segato alega que o Estado não possui 
legitimidade, capacidade e responsabilidade para intervir nas comunidades 
indígenas afetadas pelo Projeto de Lei n° 1.057/200 7. Diante desse pensamento, ela 
relembra as “cicatrizes” deixadas pelo impacto colonial sobre os povos indígenas, 
período profundamente marcado pela exploração, violência e ganância.181 
Segundo Rita Segato, as conseqüências da promulgação deste Projeto de Lei 
seriam, no mínimo, nefastas. Em primeiro lugar, porque essas práticas, como o 
“infanticídio”, poderão virar emblemas da diferença, ou seja, essas práticas tornar-se-
iam um símbolo representativo com uma conotação extremamente negativa, sendo as 
comunidades indígenas “marcadas” e lembradas apenas por esses atos. Em segundo 
lugar, pois o cumprimento das diretrizes estabelecidas no Projeto de Lei poderá permitir 
a intervenção das forças públicas para vigiar e fiscalizar os atos das comunidades 
indígenas, interferindo, conseqüentemente, na sua autonomia e intimidade.182 
Explica a antropóloga que o papel do Estado deveria ser mais o de proteger e 
promover a vitalidade dos povos indígenas, bem como a sua autonomia, do que 
atuar com um caráter preponderantemente punitivo e interventor.183 O foco da 
discussão para Rita Segato é o direito dessas comunidades como sujeitos 
coletivos184, ou seja, o direito de condição como povos, o qual ainda não teria sido 
objeto de maior desenvolvimento no ordenamento jurídico brasileiro.185 Assim, é 
necessária que seja restituída e garantida a liberdade às comunidades indígenas 
para que elas possam resolver seus próprios conflitos de acordo com seus usos, 
costumes e tradições. Só assim, continua Segato, será possível que esses povos 
dialoguem a seu modo com os parâmetros estabelecidos no Brasil e 
internacionalmente.186 
 
180
 Comissão de Assuntos Indígenas da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Infanticídio 
entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do preconceito? Disponível em: 
<http://www.abant.org.br/index.php?page=2.31>. Acesso em: 25 jun. 2009, p. 3. 
181
 Estes são alguns questionamentos colocados por Rita Segato: “¿Qué Estado es ese que hoy 
pretende legislar sobre como los pueblos indígenas deben preservar sus niños? ¿Qué estado es 
ese que hoy pretende enseñarles a cuidarlas? ¿Qué autoridad tiene ese Estado? ¿Qué 
legitimidad y qué prerrogativas? ¿Qué credibilidad ese Estado tiene al intentar, mediante esta 
nueva ley, criminalizar a los pueblos que aquí tejían los hilos de su historia cuando fueron 
interrumpidos por la violencia y la codicia de los cristianos?”. (SEGATO, Rita Laura. "Que cada 
pueblo teja los hilos de su historia: El argumento del Pluralismo Jurídico en diálogo didáctico con 
legisladores". In: CHENAUT, Victoria; GÓMEZ, Magdalena. ORTIZ, Héctor; SIERRA, María 
Teresa. (Coords.). (Org.). Justicia y diversidad en tiempos de globalización. México: CIESAS e 
Red Latinoamericana de Antropología Jurídica, 2008, [Material por e-mail pessoal], p. 17 e 20). 
182
 Ibidem, p. 21. 
183
 Ibidem, p. 17-18. 
184
 Em relação ao direito ao reconhecimento da diversidade cultural, há a discussão sobre a 
legitimidade dos sujeitos coletivos de direito.