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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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as culturas e, por essa razão, revelar a 
necessidade do alargamento do diálogo, “com um pé numa cultura e outro, noutra”. 
Eis o caráter diatópico. 
Fazendo uso do pensamento de Ruth Benedict, no qual “a cultura é como 
uma lente através da qual o homem vê o mundo”, se poderia afirmar que nenhuma 
cultura consegue enxergar o mundo sozinha. Todas elas sofreriam de uma miopia, 
motivo pelo qual necessitariam dos óculos do “outro”, isto é, do diálogo intercultural 
e de um tráfico de símbolos significantes, proporcionando até mesmo uma 
(re)significação de seus próprios símbolos. 
Portanto, um dos pressupostos para o diálogo intercultural é o 
reconhecimento das incompletudes mútuas.210 Assim, a hermenêutica diatópica 
 
207
 SANTOS, Boaventura de Souza. Uma concepção multicultural de direitos humanos. Revista Lua 
Nova, São Paulo, CEDEC – Centro de Estudos de Cultura Contemporânea, n. 39, p. 107, 109-115, 
1997. 
208
 Ibidem, p. 115. 
209
 Ibidem, p. 116. 
210
 O autor fornece exemplos sobre os topoi dos direitos humanos na cultura ocidental, de dharma na 
cultura hindu e de umma na cultura islâmica, demonstrando que todas essas noções possuem 
incompletudes em si. Segundo Santos: “A hermenêutica diatópica mostra-nos que a fraqueza 
fundamental da cultura ocidental consiste em estabelecer dicotomias demasiado rígidas entre o 
indivíduo e a sociedade, tornando-se assim vulnerável ao individualismo possessivo, ao 
narcisismo, à alienação e à anomia. De igual modo, a fraqueza fundamental das culturas hindu e 
islâmica deve-se ao fato de nenhuma delas reconhecer que o sofrimento humano tem uma 
dimensão individual irredutível, a qual só pode ser adequadamente considerada numa sociedade 
 
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torna-se um procedimento que engloba um trabalho mútuo, isto é, que envolve a 
construção de conhecimento por diversas culturas.211 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
O conceito antropológico de “cultura”, tal como concebido por Clifford Geertz, 
indica um conjunto de sistemas de símbolos significantes, construídos 
historicamente. A partir desta perspectiva, a diversidade cultural apresenta-se como 
as diferentes interações dos grupos humanos com os modelos “da” e “para” a 
realidade. A tarefa antropológica constitui-se, assim, na interpretação de diferentes e 
peculiares maneiras de como cada cultura elabora e organiza o seu universo de 
símbolos e seus respectivos significados. 
Com efeito, neste trabalho pôde-se perceber, através da pesquisa de 
Marianna Holanda, que algumas comunidades indígenas brasileiras concebem e 
compreendem diferentemente as noções de ser humano, de vida e de morte, 
comparativamente à cultura não-indígena, visto que esses símbolos possuem outras 
significações. 
Não obstante, a justificativa do Projeto de Lei n° 1.057/2007 centra-se na 
exigência da interpretação do artigo 231 da Constituição Federal de acordo com o 
Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e os direitos fundamentais, além de 
outras normas de proteção à infância, englobadas no ordenamento jurídico 
brasileiro. Isto significaria, a partir do olhar antropológico, a exigência de uma 
mesma interpretação ou atitude em relação ao ser humano entre diferentes culturas. 
Por outro lado, pode-se afirmar que algumas comunidades indígenas interpretariam 
os artigos 1º, inciso III e 5º da Constituição Federal de modo radicalmente diferente, 
uma vez que sua concepção de ser humano é compreendida de outra forma. 
Observa-se, portanto, um embate gerado pela transposição de categorias de um 
sistema simbólico a outro. No entanto, tal embate não traz como conseqüência a 
existência de diferentes ordenamentos jurídicos. 
Não é de se negar, que existam diferentes culturas em nosso país e que elas 
possuem outros universos de significação. Com isso não se quer dizer que as 
mesmas não estejam englobadas e protegidas pelo ordenamento jurídico nacional. 
Verifica-se no caso do Projeto de Lei, o inquietante debate entre o Direito e a 
Antropologia. Mais do que isso, nota-se a importância e a necessidade das 
aproximações entre esses dois campos de conhecimento. 
Acredita-se que o problema apresentado atinge a interpretação atual da 
ordem jurídico-constitucional brasileira, baseada no Princípio da Dignidade da 
Pessoa Humana. Nesse sentido, questionam-se as conseqüências de se levar em 
consideração a questão da diversidade cultural como sendo tão fundamental quanto 
o referido princípio. 
 
não hierarquicamente organizada”. (SANTOS, Boaventura de Souza. Uma concepção multicultural 
de direitos humanos. Revista Lua Nova, São Paulo, CEDEC – Centro de Estudos de Cultura 
Contemporânea, n. 39, p. 118, 1997). 
211
 Ibidem, p. 120. 
 
43
Visto que a cultura orienta o comportamento humano, dando sentido à sua 
experiência, trata-se, sobretudo, de estabelecer questionamentos e perceber que 
existem outras formas de concepção do que seja o ser humano, a vida e a morte no 
Brasil, símbolos os quais coordenam alguns sistemas simbólicos indígenas, e que 
não podem ser esquecidas ou ignoradas. 
Entretanto, frise-se oportunamente que, com tais reflexões, não queremos, 
simplesmente, ser a favor ou contra as práticas tradicionais indígenas, mencionadas 
no Projeto de Lei n° 1.057/2007. Parafraseando o tí tulo de um artigo de Clifford 
Geertz,212 adotaremos a posição Anti anti-“infanticídio”, ou seja, ao irmos contra as 
posições que procuram impedir algumas práticas tradicionais indígenas, como 
estabelece o referido Projeto de Lei, não estamos necessariamente adotando uma 
posição a favor de tais práticas. Isto significa dizer, como Geertz explica em sua 
posição anti anti-relativista, que a dupla negativa “permite rejeitar algo sem que com 
isso nos comprometamos com aquilo que este algo rejeita”.213 
A partir de tal posição, encontramos três direções sobre o caso investigado: 
(1) as ditas “práticas tradicionais nocivas” devem ser impedidas, pois ferem o 
Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, bem como as normas de proteção à 
infância, previstas no ordenamento jurídico brasileiro; (2) tais práticas, tendo em 
vista que estão inseridas em sistemas de símbolos significantes diferentes, não 
poderiam sofrer intervenções; (3) seria necessário o estabelecimento de um diálogo 
intercultural, tendo por objetivo principal a justificação de tais práticas entre ambas 
as culturas e, nesse sentido, elas seriam (3.1) permitidas ou (3.2) proibidas até o 
consenso sobre os seus topoi. 
Percebe-se, assim, que as duas primeiras direções baseiam-se fortemente 
ora na perspectiva jurídica, ora na perspectiva antropológica. Já a terceira procura 
um diálogo entre ambas as perspectivas, mas difere essencialmente em sua 
resolução inicial. Diante destas propostas, o nosso trabalho procurou mostrar que as 
duas primeiras direções são insuficientes. Por essa razão, consideramos válida a 
terceira direção, à qual passaremos a justificá-la a seguir. 
A perspectiva antropológica revela que, ao se examinar determinados 
fenômenos e elementos culturais, é essencial não dissociá-los do contexto do qual 
pertencem. Simplesmente “pinçar” um símbolo cultural, desvinculando-o de seu 
significado e de seu sistema simbólico, e transpondo outros valores ao mesmo, pode 
caracterizar uma atitude etnocêntrica. Dessa forma, o relativismo cultural, como um 
princípio metodológico, tem por objetivo compreender o “outro” a partir de seus 
próprios termos. 
Ressalta-se, no entanto, que, dentro do sistema simbólico indígena, existem 
muitos indivíduos que participam diferentemente de sua cultura, sendo algumas 
pessoas contrárias às suas próprias práticas tradicionais, razão pela qual elas 
reivindicam a proteção das crianças. 
A partir da perspectiva jurídica, considera-se de suma relevância a construção 
e a conquista histórica dos direitos humanos, as quais