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APROXIMAÇÕES ENTRE DIREITO E ANTROPOLOGIA

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2005, p. 
69. Sobre a crítica de Clifford Geertz em relação ao referido autor, consultar p. 3 da obra A 
interpretação das culturas). 
12
 Neste trabalho não se pretende detalhar as diferentes contribuições das escolas antropológicas, 
limitaremo-nos em apenas citar as mais conhecidas: Evolucionismo, Difusionismo, Funcionalismo, 
Estruturalismo, Antropologia Interpretativa, Antropologia Pós-Moderna ou Crítica. 
 
6
noção não perca seu conteúdo, torne-se mais esclarecedora e quiçá mais 
poderosa.13 Por essas razões, Clifford Geertz expõe que: 
 
a cultura é melhor vista não como complexos de padrões concretos de 
comportamento – costumes, usos, tradições, feixes de hábitos -, como tem 
sido o caso até agora, mas como um conjunto de controle – planos, 
receitas, regras, instruções (o que os engenheiros da computação chamam 
de “programas”) – para governar o comportamento. [...] O homem é 
precisamente o animal mais desesperadamente dependente de tais 
mecanismos de controle, extragenéticos, fora da pele, de tais programas 
culturais, para ordenar seu comportamento.14 
 
Diferentemente de Tylor, que define cultura utilizando a enumeração de itens, 
como um mero descritivismo – e aqui não desvalorizamos seu mérito, pois foi a partir 
de sua construção que o conceito se desenvolveu –, a concepção de Geertz torna-
se mais consistente, pois mesmo subjetivamente, define de forma simples e clara a 
expressão “cultura”, sem dissecar as “banalidades empíricas do comportamento”.15 
Em suma, para Geertz, o conceito antropológico de cultura pode ser designado 
como um conjunto de sistemas de símbolos significantes ou padrões culturais, 
construídos historicamente, que orientam o comportamento humano, dando 
significado à sua experiência.16 
Ao contrário do que é comumente pensada, a cultura não é apenas um 
detalhe característico que pode marcar um povo, como se o futebol representasse o 
brasileiro, a cuia, o gaúcho, o acarajé, o baiano e assim por diante. Conforme 
Geertz, a cultura não é simplesmente um acessório, mas um elemento essencial 
para a existência humana.17 Os sistemas de símbolos significantes ou padrões 
culturais são, de acordo com o autor, uma espécie de “programa” ou um “gabarito”18, 
no qual o homem norteia as suas decisões. Ressalta-se que o homem não é 
estritamente determinado por sua cultura, como se fôssemos fadados a viver de 
uma só forma. A gama de possibilidades de nossas decisões está inserida em uma 
espécie de gabarito cultural. Por essa razão, pode-se dizer, por exemplo, que 
preferimos escolher comer churrasco de gado à aranha grelhada. 
Para Geertz, “um dos fatos mais significativos a nosso respeito pode ser, 
finalmente, que todos nós começamos com o equipamento natural para viver 
milhares de espécies de vidas, mas terminamos por viver apenas uma espécie”.19 
Assim, todas as pessoas são capazes de crescer em qualquer cultura, porém tendo 
crescido em uma específica, a ela se adaptará, pois a convivência com os símbolos 
correspondentes implica na sua absorção e, por conseguinte, no seu modo de vida. 
Conforme Geertz: 
É por intermédio dos padrões culturais, amontoados ordenados de símbolos 
significativos, que o homem encontra sentido nos acontecimentos através 
dos quais ele vive. O estudo da cultura, a totalidade acumulada de tais 
padrões, é, portanto, o estudo da maquinaria que os indivíduos ou grupos 
 
13
 GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 3 e 28-31. 
14
 Ibidem, p. 32-33. 
15
 Ibidem, p. 33. 
16
 Ibidem, p. 66 e 135. 
17
 Ibidem, p. 34. 
18
 Ibidem, p. 124. 
19
 Ibidem, p. 33. 
 
7
de indivíduos empregam para orientar a si mesmos num mundo que de 
outra forma seria obscuro.20 
 
Portanto, pode-se afirmar que a cultura modela o comportamento humano, na 
medida em que fornece símbolos, ou seja, diretrizes abrangentes de conduta e até 
mesmo tendências e reflexos sutis, os quais orientam a vida do homem. Sem tais 
“códigos”, a vida humana seria vazia de sentidos. 
 
1.1.2 Os elementos simbólicos e seus significados 
 
Como a cultura é um conjunto ordenado de sistemas de símbolos 
significantes, entendê-la importa assimilar o que são os símbolos. Já foi dito 
anteriormente que os símbolos orientam, coordenam e dão sentido ao 
comportamento humano. Mas, o que são eles? 
Em linhas gerais, “símbolo” é tudo aquilo que carrega em si um significado. 
Da mesma forma que a noção de cultura, o conceito de símbolo precisa ser 
delimitado. Geertz o especifica, referindo que: 
 
[...] ele é usado para qualquer objeto, ato, acontecimento, qualidade ou 
relação que serve como vínculo a uma concepção – a concepção é o 
“significado” do símbolo [...] são formulações tangíveis de noções, 
abstrações da experiência fixada em formas perceptíveis, incorporações 
concretas de idéias, atitudes, julgamentos, saudades ou crenças. [...] Os 
atos culturais, a construção, apreensão e utilização de formas simbólicas, 
são acontecimentos sociais como quaisquer outros; são tão públicos como 
o casamento e tão observáveis como a agricultura.21 
 
Os significados, segundo Geertz, “só podem ser ‘armazenados’ através de 
símbolos”.22 Estes, por sua vez, podem ser expressos por uma atitude, um objeto 
concreto, uma relação ou até mesmo uma abstração. A mão abanando em direção a 
alguém que está partindo, o calendário, uma obra de arte, a palavra “amor”, uma 
música. Todos eles são símbolos carregados de um significado específico, isto é, 
que procuram “dizer algo”. Eis alguns exemplos de Geertz: 
 
O número 6, escrito, imaginado, disposto numa fileira de pedras ou indicado 
num programa de computador, é um símbolo. A cruz também é um símbolo, 
falado, visualizado, modelado com as mãos quando a pessoa se benze, 
dedilhado quando pendurado em uma corrente, e também é um símbolo a 
tela “Guernica” ou o pedaço de pedra chamada “churinga”, a palavra 
“realidade” ou até mesmo o morfema “ing”.23 
 
Logo, os significados da cultura de um povo estão sintetizados e 
representados em símbolos, construídos pelo homem para que sua vida tenha 
sentido. Ressalta-se que os elementos simbólicos não podem ser confundidos com 
os atos, objetos e relações, aos quais o homem atribui os significados. Embora os 
primeiros confundam-se com os segundos, isto é, uma cruz simbolize a fé cristã, a 
cruz por si só não é a fé cristã, mas um objeto que a exprime a partir de sua 
utilização por crentes. 
 
20
 GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 150. 
21
 Ibidem, p. 67-68. 
22
 Ibidem, p. 93. 
23
 Ibidem, p. 68. 
 
8
A interação de um símbolo com outro, dos símbolos entre si, forma um 
conjunto de sistemas de símbolos, os quais regulam e modelam as demais relações 
em que o homem está inserido.24 
Segundo Geertz, os sistemas de símbolos, ou seja, os padrões culturais 
desempenham um papel mútuo: são modelos “da” realidade e modelos “para” a 
realidade. No sentido de modelo “da” realidade, as estruturas simbólicas modelam 
as relações físicas ou não-simbólicas. No segundo caso, no modelo “para” a 
realidade, as estruturas simbólicas é que são adaptadas às relações físicas ou não-
simbólicas. Fazendo-se um paralelo à atividade agrícola, no modelo “da” realidade, o 
homem elabora uma teoria sobre as condições climáticas, da acidez do solo, da 
necessidade de fertilizantes, etc., a fim de obter uma maior produtividade em sua 
plantação. Ao mesmo tempo, no modelo “para” a realidade, essa teoria é modelada 
de acordo com o desenvolvimento da referida plantação, isto é, de acordo com os 
resultados obtidos com as condições climáticas, da acidez do solo e da qualidade 
dos fertilizantes utilizados. Destaca-se que os modelos “da” e “para” a realidade não 
possuem um caráter cronológico, como se um precedesse o outro. Ao contrário, a 
relação entre “da” e “para” a realidade é mútua, paralela, assim como pode ser