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sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador; as da Lei do Inquilinato (Lei n.º 8.245/91), que protegem o inquilino; as da Lei n.º 6.766/79, sobre loteamento; as que se referem ao Condomínio, previstas nos artigos 1.327 a 1.330 e 1.336 do Código Civil. De proteção à família, impedindo doações do cônjuge adúltero a seu cúmplice (CC, art. 550). 
Entre as várias limitações ao direito de propriedade, merecem atenção especial as que são impostas pelo direito de vizinhança, que não, necessariamente, envolvem prédios contíguos, podendo ser próximos, desde que reflitam uns nos outros os atos propagados.
O direito de vizinhança “encerra uma relação jurídica que comporta poderes e deveres entre vizinhos, visando assegurar o exercício normal do direito de propriedade, harmonizando e resguardando os direitos opostos dos confinantes” (Melhim Namem Chalhub, coordenação de Sílvio Capanema).
Para manter a harmonia social, há necessidade de se regular as relações entre os vizinhos. Daí, surgem as regras conciliadoras de interesses, que, para atingir esse objetivo, precisam impor a um, ou outro, ou a todos os lindeiros, sacrifícios que implicam em restrição ao exercício do direito de propriedade. Essas regras compõem o chamado direito de vizinhança. 
 “Se assim não se procedesse, se os proprietários pudessem invocar uns contra os outros seu direito absoluto e ilimitado, não poderiam praticar qualquer direito, pois as propriedades se aniquilariam no entrechoque de suas várias faculdades” (Washington).
 “Essas restrições ao direito de propriedade são impostas, simplesmente, para que esse mesmo direito possa sobreviver.” (Maria Helena Diniz).
3.4.2. Definição
“Direito de vizinhança são limitações impostas por normas jurídicas a propriedades individuais, com o escopo de conciliar interesses de proprietários vizinhos, reduzindo os poderes inerentes ao domínio e de modo a regular a convivência social”, diz Maria Helena Diniz, reproduzindo definição de Daibert .
“Os direitos de vizinhança poderiam ser definidos como limitações impostas pela lei às prerrogativas individuais e com o escopo de conciliar interesses de proprietários vizinhos, reduzindo os poderes inerentes ao domínio e de modo a regular a convivência” (Silvio Rodrigues)
3.4.3 Natureza jurídica do direito de vizinhança
São obrigações propter rem, ensina Sílvio Rodrigues. Logo, vinculam o vizinho, nessa qualidade, podendo ser o dono ou possuidor. 
3.4.4 Compreensão do direito de vizinhança (Orlando Gomes)
O direito de vizinhança compreende os seguintes preceitos: Do uso anormal da propriedade; Das árvores limítrofes; Da passagem forçada; Da passagem de cabos e tubulações; Das águas; Dos limites entre prédios; Do direito de construir; Do direito de tapagem. Uns são onerosos (passagem forçada, direito de travejar), porque limitam, mas impõem ao beneficiário dever de indenizar; outros não requerem qualquer indenização.
3.4.4.1. O uso anormal (nocivo) da propriedade. CC, arts. 1.277/1.281
Dispõe o artigo 1.277, do Código Civil, que o proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha”.
Vide Apelação Cível N° 70010014421 da 17ª Câmara Cível do TJRS, tendo como relator o Des. Alexandre Mussoi Moreira, julgado em 22/2/2005, onde foi determinada a demolição de um muro, que prejudicava o comércio vizinho. Este acórdão faz significativas referências doutrinárias.
a) Segurança
Ofende a segurança todo e qualquer ato que “possa comprometer a estabilidade e a solidez do prédio, bem como a incolumidade de seus habitantes”, diz Washington. 
Ex.: Exploração de indústria perigosa, como a que fabrica explosivos. Vide AC Nº 1.0145.05.215440-1/001 – TJMG – Rel. Des. Elpídio Donidzetti – J. 23/2/2006.
b) Sossego
Prejudicam o sossego ruídos exagerados, como gritarias, algazarras, desordens, diversões espalhafatosas, bailes perturbadores, artes rumorosas, barulho ensurdecedor da indústria vizinha, emprego de alto-falantes de grande potência (Washington).
Jurisprudência:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITOS DE VIZINHANÇA. BARULHO EXCESSIVO. GRÁFICA. FUNCIONAMENTO 24 HORAS.
Deferimento de liminar para regular o funcionamento de gráfica que funciona 24 horas por dia em zona residencial.
Atividade não essencial. Possibilidade de vedação da atividade industrial das 22h às 6h, sob pena de multa diária de R$ 1.000,00, a fim de permitir o sossego noturno dos vizinhos. Agravo improvido. (AI Nº 70018289652. 19ª. CC. Re. Des. Guinther Spode. DT. 08/05/2007).
AGRAVO DE INSTRUMENTO. USO NOCIVO DA PROPRIEDADE. POLUIÇÃO SONORA PRODUZIDA POR “CASA NOTURNA”. PROVA COLIGIDA DANDO CONTA DO DESCUMPRIMENTO DE DECISÃO JUDICIAL NO SENTIDO DA SUSPENSÃO DAS ATIVIDADES PRÓPRIA DE DANCETERIAS, COM MÚSICA AO VIVO E SOM MECÂNICO. INEFICÁCIA DA FIXAÇÃO DE MULTA QUE JUSTIFICA A IMPOSIÇÃO DE REPRIMENDA MAIOR DE PRISÃO EM FLAGRANTE DO DESOBEDIENTE. RESGUARDO À EFETIVIDADE DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL.
AGRAVO DESPROVIDO.
(AI N° 70003760667 – 20ª CC – TJRS – Rel. Dês. José Conrado de Souza Júnior – J. 22/5/2002)
c) Saúde
Por último são ofensas à saúde a emanação de gases tóxicos, exalações fétidas, poluição de águas, etc.. 
Jurisprudência: 
AÇÃO CAUTELAR. USO ANORMAL DA PROPRIEDADE. CRIAÇÃO AVÍCOLA. INSALUBRIDADE. Criação de aves. Possibilidade de ocorrência de danos à propriedade vizinha. Uso anormal da propriedade. Direitos de vizinhança. Possibilidade de cessação pela via judicial. Ausência de autorização da Fepam. Art. 1277, CCB/2002. Negaram provimento. (AI Nº 70018599175 – 19ª. CC. Rel. Des. Carlos Rafael dos Santos Júnior. DJ: 03/04/2007).
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DIREITO DE VIZINHANÇA. POLUIÇÃO CAUSADA POR INDÚSTRIA EM ZONA RESIDENCIAL. NECESSIADE DE ADAPTAÇÃO DA EMPRESA PARA NÃO CAUSAR DANOS A TERCEIROS.
A atividade industrial não pode causar danos a terceiros, com prejuízo às pessoas que residem próximas à empresa, devendo ocorrer adaptação na indústria para evitar qualquer dano.
Prevalência do direito à saúde sobre o direito individual de exercitar a produção de bens.
Agravo desprovido.
(AI N° 70003863305 – 1ª Câmara Especial Cível – TJRS – Rel. Dês. Carlos Eduardo Zietlow Duro – J. 28/5/2002).
Resumindo, “tudo quanto possa, de modo geral, afetar a segurança, o sossego e a saúde dos vizinhos representa uso nocivo da propriedade” (Washington).
O mau uso, ou uso nocivo, é aquilo anormal, intolerável. Outros exemplos, como, apiários perigosos ; queima de detritos com produção de fumaça que penetra nas outras propriedades, exalando odores; o bimbalhar dos sinos de uma igreja.
Por fim, cabe salientar que muitos fatos considerados como uso nocivo da propriedade também são caracterizados como contravenções penais. Ex.: Art. 30 do Decreto-lei nº 3.688, de 03/10/1941, que trata do perigo de desabamento; art. 38, emissão de fumaça, vapor ou gás; art. 42, perturbação do trabalho ou do sossego. Bom lembrar que a improcedência da ação na contravenção penal não impede a propositura da ação cominatória no cível.
3.4.4.2. Das árvores limítrofes. CC, arts. 1.282/1.284
Situações:
a) Árvore cujo tronco se acha na linha divisória
Conforme o artigo art. 1.282 do Código Civil, árvore, cujo tronco estiver na linha divisória, presume-se pertencer em comum aos donos dos prédios confinantes”.
b) Árvore cujo tronco se acha num dos terrenos
Se se encontrar exclusivamente sobre um dos imóveis, ao proprietário deste imóvel pertence.
c) Efeitos na hipótese da árvore se encontrar com o tronco sobre a linha divisória
Encontrando-se o tronco na linha divisória, devem ser observados os seguintes efeitos: 
c1) cortada ou arrancada, a árvore deve ser repartida entre os confinantes; 
c2) os frutos devem ser partilhados em partes iguais entre