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Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

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que avançam. Na índia, citaremos o
exemplo dos Yogin [iogues], embora se trate de uma mística mais filosó-
fica do que religiosa, e mais religiosa do que mágica. Ao se aplicarem
(verbo yuj), eles se unem (verbo yuf) ao princípio primeiro transcen-
dente do mundo, união na qual se obtém (verbo sidK) o poder mágico
(siddhi). Os sutras de Pâtanjali são explícitos sobre esse ponto e esten-
dem mesmo essa faculdade a outros mágicos além dos Yogin. Os comen-
tários do sutra, iv, i, explicam que o principal siddhi é a levitação. Em
geral, todo indivíduo que tem o poder de exalar sua alma é um mágico;
não conhecemos exceção a essa regra. Sabe-se que esse é o princípio
mesmo de todos os fatos geralmente designados pelo nome, bastante
mal escolhido, de xamanismo.
Essa alma é seu duplo, isto é, não é uma porção anônima de sua
pessoa, mas sua pessoa ela própria. A seu bel-prazer, ela se transporta
ao lugar da ação, para lá agir fisicamente. Em certos casos, inclusive, é
preciso que o mágico divida-se em dois. Assim, o feiticeiro dayak deve
ir buscar seus medicamentos durante a sessão espírita. Os assistentes
vêem o corpo do mágico presente, no entanto ele está ausente espiritual
e corporalmente, pois seu duplo não é um puro espírito. Os dois termos
da divisão são idênticos a ponto de serem rigorosamente substituíveis.
De fato, pode-se perfeitamente imaginar que o mágico divide-se em
dois para pôr um duplo em seu lugar e transportar-se ele próprio a ou-
tra parte. É assim que se interpretava, na Idade Média, o transporte aé-
reo dos feiticeiros. Dizia-se que, quando o mágico partia para o sabá,
ele deixava um demônio em seu leito, um vicarium daemonem. Esse de-
mônio sósia não era outra coisa senão um duplo. O exemplo prova que
essa mesma idéia de desdobramento pode conduzir a aplicações exata-
mente contrárias. Assim, esse poder fundamental do mágico pôde ser
concebido de mil maneiras diferentes, e como que comportando uma
infinidade de graus.
O duplo do mágico pode ser uma espécie de materialização fugaz
de seu sopro e de seu feitiço, como um turbilhão de poeira ou de vento,
de onde sai, eventualmente, uma figura corporal de sua alma ou dele
mesmo. Alhures, ele é um ser completamente distinto do mágico, ou
mesmo quase independente de sua vontade, mas que, de tempo em tem-
po, aparece para prestar-lhe serviço. Assim o mágico é muitas vezes es-
coltado por um certo número de auxiliares, animais ou espíritos, que
não são senão seus duplos ou almas exteriores.
A meio caminho entre esses dois extremos está a metamorfose do
mágico. É, na realidade, um desdobramento sob o aspecto animal; pois,
se na metamorfose há quanto à forma claramente dois seres, na essência
eles são um só. Existem metamorfoses, talvez as mais freqüentes, em
que uma das formas parece anular a outra. É pela metamorfose que se
supõe, na Europa, produzir-se o transporte aéreo. Os dois temas estão
mesmo tão intimamente ligados que foram unidos numa única noção.
Na Idade Média, esta foi a de striga, que aliás provém da antigüidade
greco-romana: a striga, a antiga strix, é uma feiticeira e uma ave. Depa-
ra-se com a feiticeira fora de casa sob a forma de gato preto, de loba, de
lebre, com o feiticeiro sob a forma de bode etc. Quando o feiticeiro ou
a feiticeira deslocam-se para causar dano, eles o fazem sob sua forma
animal, e é nesse estado que se pretende surpreendê-los. No entanto,
mesmo então, as duas imagens conservaram sempre uma independência
relativa. Por um lado, o feiticeiro mantém em seus vôos noturnos a for-
ma humana, simplesmente encobrindo sua outra forma. Acontece tam-
bém que a continuidade se rompa, que o feiticeiro e seu duplo animal se
ocupem, ao mesmo tempo, de atos diferentes. O animal, nesse caso, não
é mais um desdobramento momentâneo, mas um auxiliar familiar do
qual a feiticeira permanece distinta. Assim é o gato Rutterkin das feiti-
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ceiras Margaret e Filippa Flower, que foram queimadas em Lincoln, no
dia n de março de 1619, por terem enfeitiçado um parente do conde de
Rutland. Aliás, em todos os fatos que parecem ser de metamorfose ab-
soluta, a ubiqüidade do mágico é sempre subentendida; não se sabe, ao
encontrar a forma animal da feiticeira, se se trata dela mesma ou de um
simples delegado. Não se pode sair da confusão primitiva da qual falá-
vamos mais acima.
As feiticeiras européias, em suas metamorfoses, não assumem indi-
ferentemente todas as formas animais. Elas se transformam regular-
mente, uma em jumento, outra em rã, outra ainda em gato etc. Esses
fatos nos levam a pensar que a metamorfose eqüivale a uma associação
regular com uma espécie animal. Encontram-se tais associações um
pouco em toda parte. Os médicos-feiticeiros algonquinos, iroqueses ou
cherokee, ou mesmo, de maneira mais geral, os médicos-feiticeiros
peles-vermelhas, possuem /narczVz«-animais, para falar como os Ojibwa;
do mesmo modo, em certas ilhas da Melanésia, os mágicos possuem ser-
vidores serpentes e tubarões. Em regra geral, o poder do mágico se deve,
nesses diversos casos, à sua familiaridade com animais. É do animal
associado que ele o recebe; este lhe revela as fórmulas e os ritos. Inclu-
sive os limites traçados a seu poder às vezes são definidos por essa
aliança; entre os peles-vermelhas, o auxiliar do mágico lhe confere po-
der sobre os animais de sua raça e sobre as coisas ligadas a ela; é nesse
sentido que Jâmblico falava de ucryoi XEÓVTCOV [mágoi leónton, feiticeiros
dos leões] e de |ióyoi òcpewv [mágoi ópheon, feiticeiros das serpentes], que
tinham poder respectivamente sobre as serpentes e os leões e curavam
feridas causadas por eles.
Em princípio, e com muito raras exceções, não é com um animal
em particular, mas com uma espécie animal inteira que o mágico tem
relações. Desse modo, já, estas se assemelham às relações totêmicas.
Deve-se supor que o sejam de fato? O que conjeturamos em relação à
Europa é provado em relação à Austrália e à América do Norte. O ani-
mal associado é claramente um totem individual. Howitt nos relata que
um feiticeiro murring fora transportado à terra dos cangurus; com isso
o canguru tornara-se seu totem, ele não devia mais consumir sua carne.
É de acreditar que os mágicos foram os primeiros e permaneceram os
últimos a terem tais revelações e, por conseguinte, a serem providos de
totens individuais. É mesmo provável que, na decomposição do tote-
mismo, tenham sido sobretudo famílias de mágicos que herdaram totens
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de clãs para perpetuá-los. Tal é o caso de uma família do Octopus, na
Melanésia, que tinha o poder de favorecer a pesca do polvo. Se pudesse
ser demonstrado com segurança que toda espécie de relação mágica
com animais é de origem totêmica, dever-se-ia dizer que, no caso em
que há relações desse tipo, o mágico é qualificado por suas qualidades
totêmicas. Mas pode-se simplesmente induzir, de toda a série de fatos
que acabamos de aproximar, que há aí não fábula, mas os indícios de
uma verdadeira convenção social que contribui para determinar a con-
dição do mágico. Contra a interpretação que damos desses fatos, não se
pode argüir que eles estão ausentes num certo número de magias, parti-
cularmente na da índia bramânica antiga. Pois, de um lado, só conhece-
mos essa magia através de textos literários, embora rituais, que são obra
de doutores em magia e estão muito afastados do tronco primitivo. De
outro lado, na índia mesmo, o tema da metamorfose não esteve ausente:
contos ejâtaias abundam em histórias de demônios e de santos, e de
mágicos metamorfoseados. O folclore e os costumes mágicos hindus
vivem disso ainda.
Falamos mais acima de espíritos auxiliares do mágico, mas é difícil
distingui-los dos animais com os quais os mágicos têm relações totêmi-
cas ou outras. Estes são ou podem ser tomados como espíritos. Quanto
aos espíritos, eles têm geralmente formas animais, reais ou fantásticas.
Além disso, existe, entre o tema dos animais auxiliares