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Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

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e o dos espíritos
auxiliares, a conexão de que, em ambos os casos, o poder do mágico tem
sua origem fora dele mesmo. Sua qualidade de mágico resulta de uma
associação com colaboradores que mantêm uma certa independência
frente a ele. Como o desdobramento, essa associação comporta graus e
formas variadas. Ela pode ser inteiramente frouxa e reduzir-se a um
simples poder de comunicar-se acidentalmente com espíritos. O mágico
conhece sua residência e linguagem, tem ritos para abordá-los. Tais são,
geralmente, as relações com os espíritos dos mortos, as fadas e outros
espíritos do mesmo gênero (Hantus dos malaios, Iruntarinias dos Arunta,
Devatâs hindus etc.). Em muitas ilhas da Melanésia, o mágico deve em
geral seu poder às almas de seus parentes.
O parentesco é uma das formas que se atribui mais comumente à
relação do mágico com os espíritos. Supõe-se que ele tem por pai, por
mãe, por antepassado um espírito. Na índia atual, algumas famílias
devem suas qualidades mágicas a tal origem. No País de Gales, faz-se
descender da união de um homem com uma fada as famílias que mono-
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polizam as artes aparentadas à magia. É ainda mais comum que a rela-
ção seja representada sob a forma de contrato, de pacto, tácito ou ex-
presso, geral ou particular, permanente ou efêmero. Uma espécie de
vínculo jurídico compromete as duas partes. Na Idade Média, o pacto é
concebido na forma de um ato, selado pelo sangue com que é escrito ou
assinado. É, portanto, ao mesmo tempo um contrato pelo sangue. Nos
contos, o contrato aparece sob as formas menos solenes da aposta, do
jogo, das corridas, das provas superadas, nas quais o espírito, demônio
ou diabo, geralmente perde a partida.
É comum o gosto de imaginar as relações de que falamos aqui sob
a forma sexual: as feiticeiras têm íncubos, e as mulheres que têm íncu-
bos são assimiladas às feiticeiras. O fato verifica-se ao mesmo tempo na
Europa, na Nova Caledônia e certamente noutras partes. O sabá euro-
peu é geralmente acompanhado de relações sexuais entre os diabos
presentes e os mágicos. A união pode chegar ao casamento, contrato
permanente. Essas imagens estão longe de ser secundárias; na Idade
Média e na antigüidade greco-romana, elas contribuíram para formar a
noção das qualidades positivas dos mágicos. A striga, com efeito, é con-
cebida como uma mulher lasciva, uma cortesã, e foi nas controvérsias
relativas ao concubitus daemonum que se esclareceu em boa parte a no-
ção de magia. As diferentes imagens pelas quais é representada a asso-
ciação do demônio e do mágico podem estar reunidas: conta-se que um
râjput, tendo feito prisioneiro o espírito feminino do mormo, trouxe-o à
sua casa e a descendência que teve dele, ainda hoje, possui hereditaria-
mente poder sobre o vento; esse mesmo exemplo pode conter simul-
taneamente os temas do jogo, do pacto e da descendência.
Essa relação não é concebida como acidental e exterior, mas como
afetando profundamente a natureza física e moral do mágico. Este traz
a marca do diabo, seu aliado; os feiticeiros australianos têm a língua fu-
rada por espíritos, seu ventre foi aberto e suas entranhas supostamente
renovadas. Nas ilhas Banks, certos feiticeiros tiveram a língua perfura-
da por uma serpente verde (mãe). O mágico é normalmente uma espé-
cie de possuído, ele é inclusive, como o adivinho, o tipo do possuído, o
que o sacerdote só é muito raramente; aliás, tem consciência de sê-lo e
conhece geralmente o espírito que o possui. A crença na possessão do
mágico é universal. Na Europa cristã, ele é considerado de tal forma
como um possuído que o exorcizam; inversamente, tende-se a conside-
rar o possuído como um mágico. Aliás, não apenas o poder e o estado
do mágico são comumente explicados pela possessão, mas também há
sistemas mágicos em que a possessão é a condição mesma da atividade
mágica. Na Sibéria, na Malásia, o estado de xamanismo é obrigatório.
Nesse estado, não apenas o feiticeiro sente em si a presença de uma per-
sonalidade que lhe é estranha, mas também sua personalidade se abole
completamente e, na realidade, é o demônio que fala por sua boca. Se
deixarmos de lado os casos numerosos de simulação que, aliás, imitam
estados reais e experimentados, vemos que se trata aqui de fatos que,
psicológica e fisiologicamente, são estados de desdobramento da perso-
nalidade. Ora, é notável que o mágico seja, numa certa medida, o senhor
de sua possessão; ele é capaz de provocá-la e, com efeito, provoca-a
por práticas apropriadas, como a dança, a música monótona, a intoxica-
ção. Em suma, é uma das qualidades profissionais, não somente mítica
mas física, dos mágicos poderem ser possuídos, e é uma ciência da qual
foram por muito tempo os depositários. Encontramo-nos agora muito
próximos de nosso ponto de partida, já que a exalação da alma e a intro-
dução de uma alma não são senão, para o indivíduo como para a socie-
dade, duas maneiras de representar um mesmo fenômeno, alteração da
personalidade, do ponto de vista individual, transporte para o mundo
dos espíritos, do ponto de vista social. Essas duas formas de representa-
ção podem aliás coincidir; assim, o xamã sioux ou ojibwa, que só age
quando possuído, somente adquire seus manitus animais, dizem, duran-
te um passeio de sua alma.
Todos esses mitos do mágico encaixam-se uns nos outros. Não
teríamos de nos ocupar deles tão longamente se eles não fossem as
marcas das opiniões sociais de que os mágicos são o objeto. Assim
como o mágico é definido por suas relações, com os animais, assim tam-
bém ele é definido por suas relações com os espíritos e, em última
análise, pelas qualidades de sua alma. Aliás, a ligação do mágico e do
espírito vai até a confusão completa; ela é naturalmente mais fácil
quando o mágico e o espírito mágico têm o mesmo nome; o fato é tão
freqüente que é quase a regra; geralmente não há necessidade de dis-
tingui-los um do outro. Vê-se por aí a que ponto o mágico saiu do
mundo; ele o faz sobretudo quando exala sua alma, isto é, quando age;
então pertence realmente, como dizíamos mais acima, antes ao mundo
dos espíritos que ao mundo dos homens.
Assim, mesmo quando o mágico não está já qualificado por sua
posição social, ele o está, no mais alto grau, pelas representações coe-
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rentes de que é o objeto. Ele é, antes de tudo, um homem que tem qua-
lidades, relações e, enfim, poderes especiais. A profissão de mágico é,
em última instância, uma das profissões melhor classificadas, talvez
uma das primeiras que o tenham sido. Ela é tão claramente matéria de
qualificação social que o indivíduo nem sempre ingressa nela de ma-
neira autônoma e de bom grado. Cita-se mesmo exemplos de mágicos
contra a própria vontade.
É a opinião, portanto, que cria o mágico e as influências que ele li-
bera. É graças à opinião que ele sabe de tudo, que ele pode tudo. Se não
há segredo para ele na natureza, se obtém diretamente suas forças das
fontes mesmas da luz, do sol, dos planetas, do arco-íris ou do seio das
águas, é a opinião pública que quer que ele assim as obtenha. Aliás, essa
opinião nem sempre reconhece a todos os mágicos poderes ilimitados
ou os mesmos poderes; na maior parte do tempo, mesmo em grupos
muito fechados, os mágicos têm faculdades diversas. A profissão de
mágico não apenas constitui uma especialidade, como também possui
ela própria, normalmente, suas especialidades.
2) A iniciação, a sociedade mágica. — De que maneira, aos olhos da opi-
nião e para si mesmo, alguém se torna mágico? Vira-se mágico por
revelação, por consagração e por tradição. Esse triplo modo de quali-
ficação foi assinalado pelos observadores, pelos próprios mágicos, e
com muita freqüência levou à distinção de diferentes classes de feiti-
ceiros. O sutra de Patanjali já citado (iv, i) diz que "os siddhi (pode-
res mágicos) provêm do nascimento, das plantas, das fórmulas, do
ardor ascético, do êxtase".
Há revelação sempre que o mágico crê