A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
269 pág.
Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

Pré-visualização | Página 25 de 50

Mas não temos o direito de supor
que tenha havido aí apenas um simples artifício. Os mágicos teriam sido
as primeiras vítimas disso, tornando assim sua profissão impossível. A im-
portância e a proliferação ilimitada desses ritos deve-se diretamente aos
caracteres essenciais da magia mesma. Cumpre notar que a maior parte
das circunstâncias a observar é de circunstâncias anormais. Por mais
banal que seja o rito mágico, quer-se fazê-lo raro. Não é sem razão que
se empregam somente as ervas dos dias de São João, de São Martinho,
do Natal, da Sexta-feira Santa, ou ervas da lua nova. São coisas não co-
muns, e trata-se, em suma, de dar à cerimônia o caráter anormal para o
qual tende todo rito mágico. Os gestos são o inverso dos gestos normais,
ou pelo menos daqueles admitidos nas cerimônias religiosas; as condi-
ções de tempo e as outras são aparentemente irrealizáveis; todo o mate-
rial é de preferência imundo, e as práticas, obscenas. O conjunto tem
uma aparência de extravagância, de afetação, de antinaturalidade, tão
afastado quanto possível da simplicidade a que alguns dos teóricos re-
centes reduziram a magia.
2) A natureza dos ritos. — Chegamos agora às cerimônias essenciais e dire-
tamente eficazes. Elas geralmente compreendem ao mesmo tempo ritos
manuais e ritos orais. Fora dessa grande divisão, não tentamos uma
classificação dos ritos mágicos. Constituímos simplesmente, para as ne-
cessidades de nossa exposição, um certo número de grupos de ritos, en-
tre os quais não há distinção bem definida.
Os ritos manuais. — No estado atual da ciência das religiões, o grupo dos
ritos simpáticos ou simbólicos é o primeiro que se apresenta como ten-
do mais particularmente um caráter mágico. Sua teoria foi suficiente-
mente elaborada e repertórios bastante consideráveis foram constituí-
dos, para que sejamos dispensados de insistir neles. À leitura desses
repertórios, poder-se-á talvez pensar que o número dos ritos simbólicos
é teoricamente indefinido e que todo ato simbólico é, por natureza, efi-
caz. Pensamos, ao contrário, sem podermos no entanto fornecer a prova,
que, para uma magia dada, o número dos ritos simbólicos, prescritos e
executados, é sempre limitado. Acreditamos, além disso, que eles só são
executados porque são prescritos, e não porque são logicamente realizá-
veis. Diante da infinidade dos simbolismos possíveis, mesmo dos sim-
bolismos observados no conjunto da humanidade, o número daqueles
87
que são válidos para uma magia é singularmente pequeno. Poderíamos
dizer que há sempre códigos limitativos de simbolismos, se encontrásse-
mos de fato catálogos de ritos simpáticos; é natural não dispormos des-
ses catálogos, pois os mágicos tiveram necessidade de classificar os ritos
apenas por objetos, e não por procedimentos.
Acrescentaremos que, se o procedimento simpático é de emprego
geral em todas as magias e em toda a humanidade, se há mesmo verda-
deiros ritos simpáticos, os mágicos não especularam livremente, em ge-
ral, sobre a simpatia. Eles se preocuparam menos com o mecanismo de
seus ritos do que com a tradição que os transmite e com o caráter formal
ou excepcional deles.
Em conseqüência, essas práticas nos aparecem, não como gestos
mecanicamente eficazes, mas como atos solenes e verdadeiros ritos.
Com efeito, dos rituais que nos são conhecidos, hindus, americanos ou
gregos, seria muito difícil extrair uma lista dos ritos simpáticos puros.
As variações sobre o tema da simpatia são tão numerosas que este é
como que obscurecido por elas.
Mas não há somente ritos simpáticos em magia. Há, em primeiro
lugar, toda uma classe de ritos que eqüivalem aos ritos da sacralização e
da dessacralização religiosas. O sistema das purificações é tão impor-
tante que a çânti hindu, a expiação, parece ter sido uma especialidade
dos brâmanes do Atharva Veda, e que a palavra xa0ap(ióç [katharmós, puri-
ficação], na Grécia, acabou por designar o rito mágico em geral. Essas
purificações são feitas com fumigações, banhos de vapor, passagens
pelo fogo, pela água etc. Uma boa parte dos ritos curativos e dos ritos
conjuratórios são feitos de semelhantes práticas.
Há, a seguir, ritos sacrificiais, como na Mavreía Kpovixrj, de que
falamos mais acima, e no enfeitiçamento hindu. Nos textos atharvâni-
cos, além dos sacrifícios obrigatórios de preparação, a maior parte dos
ritos são sacrifícios ou implicam sacrifícios: assim, a encantação das fle-
chas se faz sobre um fogo de madeira de flechas, que é sacrificial; em
todo esse ritual, uma parte de tudo o que é consumido é necessariamen-
te sacrificado. Nos textos gregos, as indicações de sacrifícios são no mí-
nimo freqüentes. A imagem do sacrifício se impôs inclusive a ponto de
tornar-se, em magia, uma imagem diretriz, segundo a qual se ordena no
pensamento o conjunto das operações; assim, nos livros alquímicos gre-
gos, encontramos diversas vezes a transmutação do cobre em ouro ex-
plicada por uma alegoria sacrificial. O tema do sacrifício, e em particu-
88 Magia
lar do sacrifício da criança, é comum no que conhecemos da magia
antiga e da medieval; exemplos encontram-se um pouco em toda parte;
todavia, eles nos vêm antes do mito que da prática mágica. Consideramos
todos esses ritos como sacrifícios, porque de fato eles nos são dados como
tais; os vocabulários não os distinguem do sacrifício religioso, como tam-
pouco distinguem as purificações mágicas das purificações religiosas.
Aliás, eles produzem os mesmos efeitos que os sacrifícios religiosos, mani-
festam influências, poderes, e são meios de se comunicar com estes últimos.
Na Mavteía Kpovixr) , o deus está verdadeiramente presente na cerimô-
nia. Os textos nos informam também que, nesses ritos mágicos, as maté-
rias tratadas vêem-se realmente transformadas e divinizadas. É o que se
lê num encantamento que não nos parece, aliás, ter sofrido uma influên-
cia cristã: Sú ei oívoç oüx ei olvoç, àXXrj xecpaXf] tfjç A6nvãc, aú £Í olvoç,
oüx EÍ olvoç, àXXá tá aTtXáyxva TOÜ 'Oadpíoç, tá OTrXáyxva ToülcuS [sú ei
oínos ouk ei oinos, ali' he kephalê tês Athenâs, sú ei oínos ouk ei oínos, ali'
tá splánkhna toa Oseíros, tá splánkhna toa laó, Tu és vinho, não és vinho,
mas a cabeça de Atena, tu és vinho, não és vinho, mas as vísceras de
Osíris, as vísceras de lao] (Papyrus, cxxi [B. M.], 710).
Há portanto sacrifícios na magia, mas não os encontramos em to-
das as magias; entre os Cherokee ou na Austrália, eles estão ausentes.
Na Malásia, são muito reduzidos: lá, as oferendas de incenso e flores são
provavelmente de origem búdica ou hinduísta, e os sacrifícios, muito
raros, de cabras e galos parecem ter origem muçulmana. Em princípio,
onde está ausente o sacrifício mágico, o sacrifício religioso também o
está. Em todo caso, o estudo especial do sacrifício mágico não é tão ne-
cessário ao estudo da magia quanto o do rito simpático e reservamo-lo
a um outro trabalho, no qual iremos comparar especialmente o rito má-
gico ao rito religioso. Todavia, pode-se já estabelecer em tese geral que
na magia os sacrifícios não formam, como na religião, uma classe bem
fechada de ritos muito especializados. Por um lado, como no exemplo
citado acima do sacrifício de madeiras de flechas e, por definição, em
todos os casos de sacrifícios expiatórios mágicos, eles não fazem senão
envolver o rito simpático, do qual são então, propriamente falando, a
forma. Por outro lado, eles dizem respeito à cozinha mágica, não são
mais do que uma maneira entre mil de fazê-la. Assim, na magia grega, a
confecção dos xoXXoúpict não se distingue dos sacrifícios; os papiros
dão às misturas mágicas destinadas às fumigações ou a qualquer outra
coisa o nome de è
89
Achamo-nos aqui diante de uma grande classe de práticas mal de-
finidas que possuem, na magia e em seus sistemas doutrinais, unia enor-
me importância; pois elas confinam com o emprego das substâncias
cujas virtudes devem ser transmitidas por contato; em outros