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Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

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elas fornecem o meio de utilizar as associações simpáticas ou de utilizar
simpaticamente as coisas. Como são tanto estranhas quanto gerais, elas
colorem com sua extravagância todo o conjunto da magia e fornecem
um dos traços essenciais de sua imagem popular. O altar do mágico é
seu caldeirão mágico. A magia é uma arte de dispor, de preparar mistu-
ras, fermentações e manjares. Seus produtos são triturados, moídos,
amassados, diluídos, transformados em perfumes, em bebidas, em infu-
sões, em pastas, em bolos com formas especiais, em imagens, para se-
rem fumigados, bebidos, comidos ou guardados como amuletos. Essa
cozinha, química ou farmácia, não tem somente por objeto tornar utili-
záveis as coisas mágicas, ela serve para dar-lhes a forma ritual, que é
parte, e não a menor, de sua eficácia. Ela própria é ritual, muito formal
e tradicional; os atos que comporta são ritos. Esses ritos não devem ser
classificados indiferentemente entre os ritos preparatórios ou concomi-
tantes de uma cerimônia mágica. A preparação dos materiais e a confec-
ção dos produtos é o objeto principal e central de cerimônias completas,
com ritos de entrada e ritos de saída. Essa cozinha é no rito mágico o
equivalente ao que é a preparação da vítima no sacrifício.
Essa arte de dispor as coisas complica-se de outras indústrias. A
magia prepara imagens, feitas de pasta, argila, cera, mel, gesso, metal ou
papel machê, papiro ou pergaminho, areia ou madeira etc. A magia es-
culpe, modela, pinta, desenha, borda, tricota, tece, grava; faz bijuteria,
marchetaria, e não sabemos quantas outras coisas. Esses diversos ofícios
lhe fornecem suas estatuetas de deuses ou de demônios, seus bonecos de
feitiço, seus símbolos. Ela fabrica manipanços, escapulários, talismãs,
amuletos, objetos que devem ser considerados, todos, apenas como
ritos continuados.
Os ritos orais. — Os ritos orais mágicos são geralmente designados pelo
nome genérico de encantações, e não vemos razão para não seguir me-
todicamente o costume. Mas isso não quer dizer que haja apenas uma
única espécie de ritos orais em magia. Longe disso, o sistema de encan-
tação possui tal importância na magia que, em algumas delas, ele é ex-
tremamente diferenciado. Não parece que alguma vez se tenha levado
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em conta a parte exata que lhe cabe. Lendo-se alguns repertórios mo-
dernos, poder-se-ia supor que a magia compõe-se apenas de ritos ma-
nuais; os ritos orais só são mencionados como registro e desaparecem
na longa enumeração do resto. Outras compilações, ao contrário, como
a de Lõunrot em relação à magia finlandesa, contêm somente encanta-
ções. É raro que nos dêem uma idéia suficiente do equilíbrio dessas
duas grandes classes de ritos, como o fizeram Skeat em relação à magia
malaia, ou Mooney em relação à dos Cherokee. Os rituais ou os livros
de mágicos mostram que uns não costumam ir sem os outros. Estão tão
intimamente associados que, para dar uma idéia exata das cerimônias
mágicas, seria preciso estudá-los juntamente. Se uma das duas classes
tendesse a predominar, seria antes a das encantações. É duvidoso que
tenha havido verdadeiros ritos mudos, enquanto é certo que um grande
número de ritos foi exclusivamente oral.
Encontramos na magia mais ou menos todas as formas de ritos
orais que conhecemos na religião: juramentos, votos, aspirações, preces,
hinos, interjeições, simples fórmulas. Mas, assim como não tentamos
classificar os ritos manuais, não tentaremos classificar sob essas rubri-
cas os ritos orais. Elas não correspondem aqui a grupos de fatos bem
definidos. O caos da magia faz que a forma dos ritos não responda exa-
tamente a seu objeto. Há desproporções que nos surpreendem: vemos
os hinos mais altos associados às finalidades mais mesquinhas.
Existe um grupo de encantações que corresponde ao que chamamos
de ritos simpáticos. Elas próprias agem simpaticamente. Trata-se de no-
mear os atos ou as coisas e de suscitá-los assim por simpatia. Num encan-
tamento de cura ou num exorcismo, jogar-se-á com as palavras que sig-
nificam afastar, repelir, ou então com as que designam a doença ou o
demônio, causa do mal. Os trocadilhos e as onomatopéias figuram entre
os meios empregados para combater verbalmente, por simpatia, a doen-
ça. Um outro procedimento, que dá origem a uma espécie de classe de
encantações simpáticas, é a descrição mesma do rito manual correspon-
dente: IIá0o' ãua xai Xéye tcãrra. tá AéAxpi ôoç òatíx Ttáacrtü [Páss' ama
kaí lége taüta. Tá Délphidos ostía passo, Verte e, ao mesmo tempo, pro-
nuncia essas palavras: Verto os ossos de Delfide] (Teócrito, n, 21). Pare-
ce que se supôs com freqüência que a descrição, ou a menção do ato, são
suficientes tanto para produzi-lo quanto para produzir seu efeito.
Assim como a magia contém sacrifícios, ela contém igualmente
preces, hinos e, particularmente, preces aos deuses. Eis aqui uma prece
^
védica pronunciada durante um simples rito simpático contra a hidro-
pisia (Kauçika sutra 25, 37-55): "Este Asura reina sobre os deuses; certa-
mente, a vontade do rei Varuna é verdade (realiza-se infalivelmente);
disto (desta doença), eu, que sobressaio em toda parte por meu feitiço,
da cólera do terrível (deus) retiro este homem. Que a honra te seja
(prestada), ó rei Varuna, à tua cólera; pois, ó terrível, conheces todo o
embuste. Mil outros homens, entrego-os a ti juntos; que, por tua bon-
dade (?), viva cem outonos este homem" etc. Varuna, deus das águas,
que castiga as faltas pela hidropisia, é implorado naturalmente ao longo
desse hino (Atharva Veda, i, 10) ou, mais exatamente, dessa fórmula
(Brahman, verso 4). Nas preces a Artêmis e ao sol assinaladas nos papi-
ros mágicos gregos, o belo teor lírico da invocação é desnaturado e
abafado pela intrusão de toda a barafunda mágica. As preces e os hinos
que lembram muito, mesmo agregados a esse aparato insólito, os que
estamos habituados a considerar como religiosos, provêm com freqüên-
cia de rituais religiosos, em particular rituais abolidos ou estrangeiros.
Assim, Dietrich acaba de extrair do grande papiro de Paris todo um
trecho de liturgia mitraica. Do mesmo modo que os textos sagrados,
coisas religiosas podem eventualmente tornar-se coisas mágicas. Os
livros sagrados, Bíblia, Alcorão, Vedas, Tripitaka [livro santo do budis-
mo] forneceram encantações a uma boa parte da humanidade. Que o
sistema dos ritos orais de caráter religioso tenha se estendido a esse
ponto nas magias modernas, não deve nos surpreender; tal fato é cor-
relativo à extensão desse sistema na prática da religião, assim como a
aplicação mágica do mecanismo sacrificial é correlativa à sua aplicação
religiosa. Não há, para uma sociedade dada, senão um número limitado
de formas rituais concebíveis.
O que os ritos manuais não fazem normalmente na magia é relatar
mitos. Em contrapartida, temos um terceiro grupo de ritos verbais, que
chamaremos de encantações míticas, dos quais uma primeira espécie
consiste em descrever uma operação semelhante à que se quer produzir.
Essa descrição tem a forma de um conto ou de um relato épico, e seus
personagens são heróicos ou divinos. Compara-se o caso presente ao
caso descrito como se este fosse um protótipo, e o raciocínio adquire a
seguinte forma: Se alguém (deus, santo ou herói) pôde fazer tal ou tal
coisa (geralmente mais difícil) em tal circunstância, assim também, ou
com mais forte razão, pode-se fazer o mesmo no caso presente, que é
análogo. Uma segunda classe desses encantamentos míticos é formada
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pelos chamados ritos de origem; estes descrevem a gênese, enumeram as
qualidades e os nomes do ser, da coisa ou do demônio visados pelo rito;
é uma espécie de denúncia que desvela o objeto do encantamento; o
mágico move-lhe um processo mágico, estabelece sua identidade, acos-
sa-o, força-o, torna-o passivo e lhe dá ordens.
Todas essas encantações são capazes de atingir dimensões conside-
ráveis. É mais