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Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

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sem que o caráter do
todo seja modificado. Há ritos mágicos que não respondem a nenhuma
noção consciente, como os gestos de fascinação e um bom número de
imprecações. Inversamente, há casos em que a representação absorve o
rito: nos encantamentos genealógicos, o enunciado das naturezas e das
causas é por si só o rito. Em resumo, as funções da magia não são espe-
cializadas. A vida mágica não está dividida em departamentos como a
vida religiosa. Ela não produziu instituições autônomas como o sacrifí-
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cio e o sacerdócio. Assim não encontramos categorias de fatos mágicos,
pudemos apenas decompor a magia em seus elementos abstratos. Por
toda a parte ela permanece em estado difuso. Em cada caso particular,
estamos diante de um todo que, como dizíamos, é mais real que suas
partes. Demonstramos portanto que a magia, como todo, tem uma rea-
lidade objetiva, que ela é uma coisa; mas que gênero de coisa ela é?
Já ultrapassamos nossa definição provisória ao estabelecer que os
diversos elementos da magia são criados e qualificados pela coletividade.
Esse é um segundo ganho real que cabe registrar. O mágico é qualifica-
do com freqüência pela sociedade mágica da qual faz parte e, sempre,
pela sociedade em geral. Os atos são rituais e repetem-se por tradição.
Quanto às representações, umas são tomadas de empréstimo a outros
domínios da vida social, como a idéia de seres espirituais, e remetemos
aos estudos a serem feitos diretamente sobre a religião a tarefa de demons-
trar que essa noção é ou não é o produto da experiência individual; as
outras, enfim, não procedem das observações nem das reflexões do indi-
víduo, e sua aplicação não se presta à iniciativa deste, pois há receitas e
fórmulas que a tradição impõe e que se utilizam sem exame.
Se os elementos da magia são coletivos, acontece o mesmo com o
todo? Dito de outro modo, há na magia algo de essencial que não seja
objeto de representações ou fruto de atividades coletivas? Mas não é
absurdo e contraditório supor que a magia possa ser, em sua essência,
um fenômeno coletivo, quando, justamente, entre todos os caracteres
que ela apresenta, escolhemos, para opô-la à religião, os que a afastam
da vida regular das sociedades? Dissemo-la praticada por indivíduos,
isolada, misteriosa e furtiva, dispersa e fragmentada, enfim, arbitrária e
facultativa. Ela se mostra tão pouco social quanto possível, se ao menos
o fenômeno social for reconhecido sobretudo pela generalidade, pela
obrigação, pela exigência. Seria ela social à maneira do crime, porque é
secreta, ilegítima, proibida? Mas ela não pode sê-lo exclusivamente as-
sim, pois não é exatamente o contrário da religião, como o crime é o
contrário do direito. Ela deve sê-lo à maneira de uma função especial da
sociedade. Mas como concebê-la então? Como conceber a idéia de um
fenômeno coletivo em que os indivíduos ficassem perfeitamente inde-
pendentes uns dos outros?
Há duas ordens de funções especiais na sociedade, das quais já
aproximamos a magia. São, de um lado, as técnicas e as ciências, de ou-
tro, a religião. Seria a magia uma espécie de arte universal, ou bem uma
124 Magia
classe de fenômenos análogos à religião? Numa arte ou numa ciência,
os princípios e os meios de ação são elaborados coletivamente e trans-
mitidos por tradição. É por esse motivo que as ciências e as artes são
claramente fenômenos coletivos. Além disso, a arte ou a ciência satisfa-
zem necessidades que são comuns. Mas, dados os elementos, o indiví-
duo voa com as próprias asas. Sua lógica individual lhe basta para passar
de um elemento a outro e, daí, à aplicação. Ele é livre; pode mesmo re-
montar teoricamente até o ponto de partida de sua técnica ou de sua
ciência, justificá-la ou retificá-la, a cada passo, em seus riscos e perigos.
Nada é subtraído a seu controle. Portanto, se a magia fosse da ordem
das ciências e das técnicas, a dificuldade que acabamos de perceber esta-
ria afastada, uma vez que as ciências e as técnicas não são coletivas em
todas as suas partes essenciais, e uma vez que, embora sendo funções
sociais, embora tendo a sociedade por beneficiária e veículo, elas têm
por promotores apenas indivíduos. Mas nos é difícil assimilar a magia às
ciências e às artes, pois pudemos descrevê-la sem jamais constatar nela
semelhante atividade criadora ou crítica dos indivíduos.
Resta-nos portanto compará-la à religião e, nesse caso, a dificul-
dade permanece inteira. Com efeito, continuamos a postular que a re-
ligião é um fenômeno essencialmente coletivo em todas as suas partes.
Tudo nela é feito pelo grupo ou sob a pressão do grupo. Suas crenças e
práticas são, por natureza, obrigatórias. Na análise de um rito tomado
como tipo, o sacrifício, estabelecemos que a sociedade estava ali, em
toda parte, imanente e presente, e que ela era o verdadeiro ator, por
trás da comédia cerimonial. Chegamos até a dizer que as coisas sagra-
das do sacrifício eram coisas sociais por excelência. Do mesmo modo
que o sacrifício, a vida religiosa não admite iniciativa individual: nela a
invenção só se produz sob forma de revelação. O indivíduo sente-se
constantemente subordinado a poderes que o ultrapassam e o incitam a
agir. Se pudermos mostrar que, em toda a extensão da magia, reinam
forças semelhantes às que agem na religião, teremos demonstrado com
isso que a magia tem o mesmo caráter coletivo que a religião. Não nos
restará senão explicar como essas forças coletivas se produziram, ape-
sar do isolamento em que parecem se achar os mágicos, e seremos
levados à idéia de que esses indivíduos não fizeram senão se apropriar
das forças coletivas.
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iv. Análise e explicação da magia
Reduzimos assim progressivamente o estudo da magia à busca das for-
ças coletivas que agem nela como na religião. É lícito pensar que, se as
encontrarmos, explicaremos ao mesmo tempo o todo e as partes. Basta
lembrar, com efeito, o quanto a magia é contínua e a que ponto seus
elementos, intimamente solidários, não parecem ser senão os diversos
reflexos de uma mesma coisa. Os atos e as representações são aqui tão
inseparáveis que se poderia perfeitamente chamá-la uma idéia prática.
Mesmo considerando a monotonia de seus atos, a pouca variedade de
suas representações, sua uniformidade em toda a história da civilização,
pode-se prejulgar que ela constitui uma idéia prática da ordem mais
simples. Podemos assim esperar que as forças coletivas nela presentes
não sejam demasiado complexas, nem demasiado complicado o método
que o mágico utilizou para apoderar-se dela.
Buscaremos determinar essas forças perguntando-nos, em primei-
ro lugar, de que espécie de crença a magia foi o objeto, e analisando a
seguir a idéia de eficácia mágica.
1. A crença
A magia é, por definição, objeto de crença. Mas os elementos da magia,
não sendo separáveis uns dos outros e mesmo confundindo-se uns com
os outros, não podem ser o objeto de crenças distintas. Eles são, todos
ao mesmo tempo, o objeto de uma mesma afirmação. Esta não incide
apenas sobre o poder de um mágico ou o valor de um rito, mas sobre o
conjunto ou sobre o princípio da magia. Assim como a magia é mais
real que suas partes, assim também a crença na magia em geral é mais
enraizada que aquela da qual seus elementos são o objeto. A magia,
como a religião, é um bloco, nela se crê ou não se crê. É o que se pode
120 Magia
verificar nos casos em que a realidade da magia foi posta em dúvida.
Quando tais debates se elevaram, no começo da Idade Média, no século
xvn, e lá onde prosseguem ainda obscuramente em nossos dias, vemos
que a discussão incide sobre um único fato. Trata-se, em Agobard, por
exemplo, sobretudo dos fazedores de mau tempo; mais tarde, da impo-
tência causada por malefício ou do vôo das acompanhantes de Diana;
em Bekker (de belooverde werld, Amsterdã, 1693), da existência dos de-
mônios e do diabo; entre nós, do corpo astral, das materializações, da
realidade da quarta