A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
269 pág.
Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

Pré-visualização | Página 45 de 50

seres, de forças e de
qualidades mágicas ou religiosas. "Ele quer dizer ser, substância, ser ani-
mado, e é bem provável que, em certo grau, todo ser com alma seja um
manitu. Mas ele designa mais particularmente todo ser que não tem ainda
um nome comum, que não é familiar: de uma salamandra, uma mulher
dizia que tinha medo, era um manitu; zombam dela dizendo-lhe o nome.
As pérolas dos traficantes são as cascas de um manitu, e a bandeira, essa
coisa maravilhosa, é a pele de um manitu. Um manitu é um indivíduo que
faz coisas extraordinárias, o xamã é um manitu; as plantas têm manitu; e
148 Magia
um feiticeiro que mostrava um dente de cascavel dizia que este era um
manitu; quando descobriram que não matava, ele disse que o dente não
tinha mais manitu" (Tesa, Studidel Thavenet. 1881: 17).
Segundo Hewitt, entre os Sioux, as palavras mahopa, yube (Omaha),
wakan (Dakota), significam também o poder e a qualidade mágicos.
Entre os Shoshone em geral, a palavra pokunt possui, segundo
Hewitt, o mesmo valor, o mesmo sentido que a palavra manitu entre os
Algonquinos; e Fewkes, o observador dos Hopi ou Moki, afirma que,
entre os Pueblos em geral, a mesma noção está na base de todos os ritos
mágicos e religiosos. Mooney parece nos designar um equivalente dela
entre os Kiowa.
Sob o termo naual, no México e na América central, acreditamos
reconhecer uma noção correspondente. Ela é ali tão persistente e tão
extensa que quiseram fazer dela a característica de todos os sistemas
religiosos e mágicos, chamados pelo nome de nagualismo. O naualé um
totem, geralmente individual. Mas ele é mais; é uma espécie de gênero
muito mais vasto. O feiticeiro é naual, é um naualli; o naual é especial-
mente seu poder de metamorfosear-se, sua metamorfose e sua encarna-
ção. Vê-se por aí que o totem individual, a espécie animal associada ao
indivíduo por ocasião de seu nascimento, parece ser apenas uma das
formas do naual. Segundo Seler, a palavra significa, etimologicamente,
ciência secreta; e todos os seus diversos sentidos e seus derivados vincu-
lam-se ao sentido original de pensamento e de espírito. Nos textos
nauhatl, a palavra significa o que está escondido, envolto, disfarçado.
Assim, essa noção afigura-se-nos como sendo a de um poder espiritual,
misterioso e separado, que é exatamente aquele que a magia supõe.
Na Austrália encontra-se uma noção do mesmo gênero; mas, pre-
cisamente, ela é restrita à magia e, de modo mais particular, ao malefí-
cio. A tribo de Perth lhe dá o nome de boolya. Na Nova Gales do Sul,
os negros designam pela palavra koochie o mau espírito, a má influência
pessoal ou impessoal, e que tem provavelmente a mesma extensão.
É ainda o arungquiltha dos Arunta. Esse "poder maligno" que emana
dos ritos de enfeitiçamento é ao mesmo tempo uma qualidade, uma
força e uma coisa existente por si mesma, que os mitos descrevem e à
qual atribuem uma origem.
A raridade dos exemplares conhecidos dessa noção de força-meio má-
gico não deve nos fazer duvidar que ela tenha sido universal. Com
149
efeito, estamos muito mal informados sobre esse tipo de fatos; há três
séculos que se conhecem os Iroqueses, mas somente há um ano nossa
atenção foi chamada para o orenda. Aliás, a noção pode ter existido
sem ter sido expressa: um povo tem tão pouca necessidade de formu-
lar tal idéia quanto teria de enunciar as regras de sua gramática. Em
magia, como em religião e em lingüística, são as idéias inconscientes
que agem. Ou alguns povos não tiveram uma consciência distinta des-
sa idéia, ou alguns outros ultrapassaram o estágio intelectual em que
ela pode funcionar normalmente. De qualquer maneira, eles não pu-
deram dar-lhe uma expressão adequada. Uns esvaziaram sua antiga
noção de poder mágico de uma parte de seu conteúdo místico inicial;
ela tornou-se então semicientífica; é o caso da Grécia. Outros, depois
de terem constituído uma dogmática, uma mitologia, uma demonolo-
gia completas, conseguiram reduzir de tal modo a termos míticos tudo
o que havia de impreciso e de obscuro em suas representações mági-
cas, que substituíram, ao menos aparentemente, o poder mágico, sem-
pre que era preciso explicá-lo, pelo demônio, pelos demônios ou por
entidades metafísicas. É o caso da índia. Em suma, eles fizeram mais
ou menos desaparecer tal noção.
No entanto, reencontramos ainda seus vestígios. Eles subsistem,
na índia, fragmentados, sob os nomes de brilho, glória, força, destrui-
ção, sorte, remédio, virtude das plantas. Enfim, supomos que a noção
fundamental do panteísmo hindu, a de brahman, está ligada a ela por
laços profundos e parece mesmo perpetuá-la, se ao menos admitimos,
por hipótese, que o brahman védico e o dos Upanixades e da filosofia
hindu são idênticos. Em suma, parece-nos que se produziu uma verda-
deira metempsicose das noções, das quais.vemos o começo e o fim, sem
perceber as fases intermediárias. Nos textos védicos, dos mais antigos
aos mais recentes, a palavra brahman, neutra, quer dizer prece, fórmula,
encanto, rito, poder mágico ou religioso do rito. O sacerdote mágico,
ademais, tem o nome de brahman, masculino. Entre as duas palavras não
há senão uma diferença suficiente, por certo, para marcar uma diversi-
dade de funções, mas insuficiente para marcar uma oposição de noções.
A casta bramânica é a dos brâhmanas, isto é, dos homens que têm brahman.
O brahman é aquilo pelo qual agem os homens e os deuses, e, de manei-
ra mais especial, a voz. Além disso, existem alguns textos que dizem que
ele é a substância, o coração das coisas (pratyantam), o que há de mais
interior: são justamente textos atharvânicos, isto é, textos do Veda dos
150 Magia
mágicos. Mas essa noção já se confunde com a do deus Brahmâ, nome
masculino tirado do tema brahman, que começa a aparecer. A partir dos
textos teosóficos, o brahman ritual desaparece, não resta senão o brah-
man metafísico. O brahman torna-se o princípio ativo, distinto e ima-
nente, da totalidade do mundo. O brahman é o real, todo o resto não
passa de ilusão. Disso resulta que todo aquele que se transporta ao seio
do brahman pela mística (yoga: união) torna-se umyogin, umyogíçvara,
um siddha, isto é, obteve todos os poderes mágicos (siddhi: obtenção) e
desse modo, dizem, está em condições de criar mundos. O brahman é o
princípio primeiro, total, separado, animado e inerte do universo. É a
quintessência. É ainda o tríplice Veda, e também o quarto, isto é, a reli-
gião e a magia.
Na índia, somente o fundo místico da noção subsistiu. Na Grécia,
praticamente subsiste apenas sua ossatura científica. Ali a encontramos
sob o aspecto da <púmc, na qual se detêm, em última análise, os alquimis-
tas, e também da Ôúva^iiç, instância última da astrologia, da física e da
magia. A ôúvct|iiç é a ação da <pÚ0iç, e esta é o ato da 6úva(itç. E pode-se
definir a q>úaiç como uma espécie de alma material, não individual,
transmissível, uma espécie de inteligência inconsciente das coisas. Em
suma, ela é também muito próxima do mana.
E lícito, portanto, concluirmos que em toda parte existiu uma noção
que envolve a do poder mágico. É a noção de uma eficácia pura, que no
entanto é uma substância material e localizável, ao mesmo tempo que
espiritual, que age à distância e no entanto por conexão direta, quando
não por contato, móvel e movente sem mover-se, impessoal e assumindo
formas pessoais, divisível e contínua. Nossas idéias vagas de sorte e de
quintessência são pálidas sobrevivências dessa noção muito mais rica.
Ela é, conforme vimos, ao mesmo tempo que uma força, também um
meio, um mundo separado e no entanto acrescentado ao outro. Poder-
se-ia dizer ainda, para exprimir melhor de que maneira o mundo da ma-
gia sobrepõe-se ao outro sem separar-se dele, que tudo se passa como se
ele estivesse construído numa quarta dimensão do espaço, cuja existên-
cia oculta seria expressa, por assim dizer, por uma noção como a de mana.
A imagem se aplica tão bem à magia