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Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

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que os mágicos modernos, assim
que foi descoberta a geometria com mais de três dimensões, apodera-
ram-se de suas especulações para legitimar seus ritos e suas idéias.
Essa noção explica bem o que se passa na magia. Ela funda a idéia
necessária de uma esfera superposta à realidade, na qual se passam os
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ritos, na qual o mágico penetra, que os espíritos animam, que os eflú-
vios mágicos atravessam. Por outro lado, ela legitima o poder do mágico,
justifica a necessidade dos atos formais, a virtude criadora das palavras,
as conexões simpáticas, as transferências de qualidades e de influências.
Explica a presença dos espíritos e sua intervenção, já que faz conceber
toda força mágica como espiritual. Motiva, enfim, a crença geral asso-
ciada à magia, pois é a ela que se reduz a magia quando a despojamos de
seus invólucros, e alimenta essa mesma crença, pois é ela que anima to-
das as formas que a magia assume.
Por ela, a verdade da magia é posta fora de toda discussão e a pró-
pria dúvida volta-se a seu favor. Com efeito, essa noção é a condição
mesma da experimentação mágica e permite interpretar os fatos mais
desfavoráveis em benefício de seu preconceito. De fato, ela escapa a
qualquer exame. É dada a priori, previamente a qualquer experiência.
Ela não é, propriamente falando, uma representação da magia como o
são a simpatia, os demônios, as propriedades mágicas. Ela rege as repre-
sentações mágicas, é a condição delas, sua forma necessária. Funciona à
maneira de uma categoria, tornando possíveis as idéias mágicas assim
como as categorias tornam possíveis as idéias humanas. Esse papel de
categoria inconsciente do entendimento, que lhe atribuímos, é justa-
mente expresso pelos fatos. Vimos o quanto era raro ela chegar à cons-
ciência, e mais raro ainda encontrar nesta sua expressão. É que ela é
inerente à magia assim como o postulado de Euclides é inerente à nossa
concepção do espaço.
Mas é óbvio que essa categoria não é dada no entendimento indi-
vidual, como o são as categorias de tempo e de espaço; prova disso é
que ela pôde ser fortemente reduzida peles progressos da civilização
e que varia, em seu conteúdo, com as sociedades e com as diversas fa-
ses da vida de uma mesma sociedade. Ela só existe na consciência dos
indivíduos em razão da existência da sociedade, à maneira das idéias de
justiça ou de valor; diríamos de bom grado que é uma categoria do
pensamento coletivo.
De nossa análise resulta também que a noção de mana é da mesma or-
dem que a noção de sagrado. Num certo número de casos, as duas no-
ções se confundem: em particular, a idéia de manitu, entre os Algonqui-
nos, a idéia de orenda, entre os Iroqueses, a idéia de mana, na Melanésia,
são tanto mágicas quanto religiosas. Além disso, vimos que na Melané-
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sia existem relações entre a noção de mana e a de tabu; vimos que um
certo número de coisas com mana eram tabu, mas que só eram tabu
coisas com mana. Do mesmo modo, entre os Algonquinos, se todos os
deuses são manitus, nem todos os manitus são deuses. Por conseguinte
não apenas a noção de mana é mais geral que a de sagrado, como esta
também está compreendida naquela, destaca-se daquela. É provavel-
mente exato dizer que o sagrado é uma espécie da qual o mana é o gênero.
Assim, sob os ritos mágicos, teríamos encontrado mais do que a noção
de sagrado que ali buscávamos, teríamos reencontrado sua origem.
Mas voltamos ao dilema de nosso prefácio. Ou a magia é um fenô-
meno social e a noção de sagrado é claramente um fenômeno social, ou
a magia não é um fenômeno social e então a noção de sagrado não o é
tampouco. Sem querer entrar aqui em considerações sobre a noção de
sagrado tomada em si mesma, podemos fazer um certo número de ob-
servações que tendem a demonstrar o caráter social ao mesmo tempo da
magia e da noção de mana. A qualidade de mana, ou de sagrado, asso-
cia-se a coisas que têm uma posição muito especialmente definida na
sociedade, a tal ponto que são geralmente consideradas como postas
fora do domínio e do uso comum. Ora, essas coisas ocupam na magia
um lugar considerável; são suas forças vivas.
Seres e coisas que são, por excelência, mágicos, são as almas dos
mortos e tudo o que diz respeito à morte: testemunha-o o caráter emi-
nentemente mágico da prática universal da evocação dos mortos, teste-
munha-o a virtude em toda parte atribuída à mão do morto, cujo con-
tato torna invisível como o próprio morto, e muitos outros fatos. Esses
mesmos mortos são igualmente o objeto dos ritos funerários, às vezes
dos cultos de ancestrais nos quais se marca o quanto sua condição é
diferente da dos vivos. Acaso nos dirão que, em certas sociedades, a
magia não se ocupa de todos os mortos, mas sobretudo daqueles que
morreram de morte violenta, os criminosos em particular? Essa é uma
prova a mais do que queremos mostrar; pois estes últimos são o objeto
de crenças e de ritos que fazem deles indivíduos completamente dife-
rentes, não apenas dos mortais, mas também dos outros mortos. Mas,
em geral, todos os mortos, cadáveres e espíritos, formam, em relação
aos vivos, um mundo à parte, do qual o mágico tira seus poderes de
morte, seus malefícios.
Do mesmo modo, as mulheres, cujo papel em magia é teoricamen-
te tão importante, só se acreditaram mágicas, depositárias de poderes,
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por causa da particularidade de sua posição social. Elas são reputadas
qualitativamente diferentes dos homens e dotadas de poderes específi-
cos: os mênstruos, as ações misteriosas do sexo e da gestação são apenas
os sinais das qualidades que lhes atribuem. A sociedade, a dos homens,
alimenta em relação às mulheres fortes sentimentos sociais que, da parte
delas, são respeitados e mesmo partilhados. Daí sua situação jurídica,
especialmente sua situação religiosa diferente ou inferior. Mas é isso,
precisamente, que faz que elas sejam votadas à magia e que esta lhes dê
uma posição inversa da que ocupam na religião. As mulheres produzem
constantemente influências malignas. Nirrtir hi stri, "a mulher é a mor-
te", dizem os velhos textos bramânicos (Maitrayâni samhitâ, i, 10, u).
Elas são a miséria e a feitiçaria, possuem o mau-olhado. Eis por que, se
a atividade das mulheres, em magia, é menor que a fizeram os homens,
ela é no entanto maior que a que tiveram em religião.
Como o mostram esses dois exemplos, o valor mágico das coisas
resulta da posição relativa que elas ocupam na sociedade ou em relação
a esta. As duas noções de virtude mágica e de posição social coincidem
na medida em que uma produz a outra. Em magia, trata-se sempre, no
fundo, de valores respectivos reconhecidos pela sociedade. Esses valo-
res não se devem, de fato, às qualidades intrínsecas das coisas e das pes-
soas, mas ao lugar e à posição que lhes são atribuídos pela opinião
pública soberana, por seus preconceitos. Eles são sociais e não experi-
mentais. É o que provam excelentemente a força mágica das palavras e
o fato de, com freqüência, a virtude mágica das coisas residir em seu
nome; donde resulta que, ao depender dos dialetos e das línguas, os
valores em questão são tribais e nacionais. Assim, as coisas e os seres,
bem como os atos, são ordenados hierarquicamente, impondo-se uns
aos outros, e é segundo essa ordem que se produzem as ações mágicas,
quando vão do mágico a uma classe de espíritos, desta a uma outra clas-
se, e assim por diante, até o efeito. O que nos seduziu na expressão "po-
tencialidade mágica" que Hewitt aplica às noções de mana e de orenda, é
que ela implica precisamente a existência de uma espécie de potencial
mágico, e isso é efetivamente o que acabamos de descrever. O que
chamávamos lugar relativo ou valor respectivo das coisas, poderíamos
chamar igualmente diferença de potencial. Pois é em virtude dessas di-
ferenças que elas agem urnas sobre as outras. Não nos basta dizer, por-
tanto, que a qualidade de mana se associa a certas coisas em razão de sua
posição