A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
269 pág.
Sociologia e Antropologia - Marcel Mauss

Pré-visualização | Página 49 de 50

ver-
dadeiros ritos negativos que, mesmo não sendo perfeitamente obri-
gatórios, são no entanto impostos à observância de todos. A bem di-
zer, não é a sociedade ela própria que os sanciona por atos especiais;
os tabus mágicos de que falamos têm apenas sanções mecânicas; eles
se protegem pelos efeitos necessários resultantes de sua violação. To-
davia, é efetivamente a sociedade que impõe a idéia desses efeitos
necessários e que a mantém.
Os ritos negativos isolados, as precauções populares não são as
únicas proibições que a magia edita. Muitas vezes, como vimos, o rito
positivo é acompanhado de todo um cortejo de ritos negativos. São, em
particular, os que descrevemos como preparatórios à cerimônia ritual.
O mágico, ou o mágico e o interessado, que jejuam, permanecem cas-
tos ou purificam-se antes de operar, testemunham desse modo que sen-
tem uma espécie de incompatibilidade entre as coisas nas quais vão
tocar, ou que vão fazer, e a condição na qual se encontram na vida cor-
riqueira. Eles sentem uma resistência, e a magia não é, para eles, uma
porta aberta. Outras interdições, outros temores, que marcam os ritos
de saída, opõem-se a que eles abandonem, sem outras formalidades, o
mundo anormal no qual entraram. Aliás, eles não permaneceram incó-
lumes ali; como o sacrifício, a magia exige e produz uma alteração, uma
modificação do espírito. Esta se traduz pela solenidade dos gestos, pela
mudança de voz e, inclusive, pela adoção de uma nova linguagem, a
dos espíritos e dos deuses. Os ritos negativos da magia formam, por-
tanto, uma espécie de limiar em que o indivíduo abdica, para não ser
mais que um personagem.
Tanto em magia como em religião, aliás, há estreitas correlações
entre os ritos negativos e os ritos positivos. Supomos, sem poder atual-
mente demonstrá-lo de uma forma satisfatória, que todo rito positivo,
toda qualidade positiva correspondem necessariamente a um rito nega-
tivo ou a uma qualidade negativa; por exemplo, o tabu do ferro corres-
ponde às qualidades mágicas do ferreiro. Por mais facultativo que seja
161
um rito positivo, ele se liga, mais ou menos diretamente, a um rito nega-
tivo que, por sua vez, é ou obrigatório, ou pelo menos concebido como
sancionado por efeitos mecânicos, inelutáveis. Seres e atos, agentes e
mitos, não há, por assim dizer, nada que não seja dessa maneira cercado,
quase interdito, tanto na magia como na religião. As coisas mais vulga-
res, os seres mágicos mais familiares, o curandeiro da aldeia, uma ferra-
dura, inspiram sempre uma espécie de respeito. O rito mágico mais sim-
ples, a mais inocente das sessões espíritas nunca deixam de ser
acompanhados de apreensão; há sempre hesitação, inibição passageira
produzida, com freqüência, pela repugnância que a religião ordena. Ao
mesmo tempo que a magia atrai, ela repele. Voltamos aqui ao segredo,
ao mistério de que ela se envolve, que nos pareceu sua marca distintiva
quando a definimos e nos quais vemos agora o sinal das forças coletivas
que a criam. A magia, portanto, tem um sistema de interdições rituais
muito próprio dela, e tão pouco adventício que contribui para caracteri-
zá-la. Ademais, a magia solidariza-se intimamente com todo o sistema
das interdições coletivas, incluídas as interdições religiosas; e isso a tal
ponto que nem sempre se sabe se o caráter mágico resulta da interdição,
ou a interdição do caráter mágico. Assim, os restos de refeições são mági-
cos porque são tabus, e são tabus porque se teme a magia a que eles pos-
sam servir. A magia tem uma verdadeira predileção pelas coisas interditas.
A cura dos tabus violados, fontes de doença ou de infortúnio, é uma de
suas especialidades, pela qual concorre com a função expiatória da reli-
gião. Ela explora igualmente, para seu uso, as violações dos tabus, e dá
importância a todos os detritos cujo emprego a religião proscreve, res-
tos sacrificiais que deveriam ser consumidos ou queimados, mênstruos,
sangue etc. É desse modo que a magia, em sua parte negativa cujas fa-
ces múltiplas acabamos de ver, nos aparece como a obra da coletividade
mesma. Somente esta é capaz de legislar assim, de impor as proibições e
de sustentar as repugnâncias por trás das quais a magia se abriga.
Além de estas últimas serem observadas socialmente, perguntamo-
nos o que poderia, nesse ser teórico que é o indivíduo isolado, criar e
alimentar tais apreensões. A experiência repetida daquilo que é, em ge-
ral, prejudicial à espécie só tenderia a dar-lhe instintos que o precaves-
sem contra perigos reais. Mas não se trata disso; o espírito é povoado de
temores quiméricos, que não provêm senão da exaltação mútua dos in-
divíduos associados. Com efeito, se a quimera mágica é universal, o
objeto de temores varia segundo os grupos sociais. Esses temores,
162 Magia
produzidos pela agitação coletiva, por uma espécie de convenção invo-
luntária, transmitem-se tradicionalmente. São sempre específicos a deter-
minadas sociedades. A superstição que se poderia supor a mais difundida
de todas, a do mau-olhado, não se verifica expressamente nem na Austrá-
lia, nem na Melanésia, nem na América do Norte, nem mesmo, de uma
forma clara, na índia antiga e moderna não islamizada.
Somos, portanto, levados a pensar que, na raiz mesma da magia, há
estados afetivos, geradores de ilusões, e que esses estados não são indi-
viduais, mas resultam da mistura dos sentimentos próprios do indiví-
duo com os sentimentos de toda a sociedade. Percebe-se em que medida
nos aproximamos da teoria proposta por Lehmann. Este, colocando-se
no ponto de vista da psicologia individual, explica a magia, como se
sabe, por erros de percepção, ilusões, alucinações, de um lado, e, de
outro, por estados emotivos, agudos ou subconscientes, de expectativa,
de pré-possessão, de excitabilidade, uns e outros indo do automatismo
psicológico simples até a hipnose.
Como ele, vemos nas expectativas e nas ilusões que elas produzem
os fenômenos capitais da magia. Mesmo os ritos mais vulgares, que se
efetuam mais maquinalmente, são sempre acompanhados de um míni-
mo de emoções, de apreensões e, sobretudo, de esperanças. A força má-
gica do desejo é tão consciente que uma boa parte da magia consiste
apenas em desejos: a magia do mau-olhado, a dos pães bentos, a dos
eufemismos, a dos votos e, em suma, quase toda a das encantações. Por
outro lado, vimos que a direção de intenção e a escolha arbitrária, que
desempenham um papel preponderante na determinação do ritual e das
crenças mágicas particulares, vêm de atenções exclusivas e de estados
de monoideísmo. É o que se vê, por exemplo, nos casos em que um mes-
mo objeto pode servir a dois ritos contrários, como a madeira de arka,
cujos carvões ardentes são enterrados para fazer cessar a tempestade
(o relâmpago, arka) ou com a qual se acende uma fogueira para fazer vir
o sol (arka). Uma mesma idéia pode, à vontade, ser dirigida em dois
sentidos diferentes, sem contradição. A atenção é geralmente tão inten-
sa entre os agentes dos ritos e seus assistentes, e considerada tão preciosa,
que eles não podem admitir que ela seja, um único instante, desviada
sem prejuízo. Toda interrupção do rito rompe-o e estraga seu efeito: as
sessões espíritas não aceitam a distração. Um dos temas freqüentes dos
contos de magia popular mostra bem o valor associado à continuidade
163
da atenção nos ritos: é o do pedido de empréstimo feito durante um rito,
em particular um rito de contramagia exercido contra uma feiticeira:
uma velha aparece, é a feiticeira; ela pede que lhe emprestem um objeto
usual e, se for escutada, o encanto é rompido.
Admitimos portanto, como Lehmann, que a magia implica a excita-
bilidade mental do indivíduo, e que no descobridor de água, por exemplo,
desenvolve-se uma espécie de hiperestesia. Mas negamos que o mágico
possa chegar sozinho a esse estado e que ele próprio se sinta isolado. Por
trás de Moisés apalpando a pedra, há Israel inteiro,