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5-A documentação como fonte histórica

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das últimas décadas na historiografia 
mundial é o livro do historiador italiano Carlo Ginzburg (1986), O queijo e os vermes. 
Sua metodologia focaliza-se em Menocchio, dono de um moinho na aldeia de 
Montereale, região italiana do Friuli. Por meio desse homem, um herege descoberto 
por acaso em uma pesquisa que Ginzburg fazia nos processos da Inquisição nos 
arquivos da Cúria em Udine, o autor estudou os costumes e as ideias dos 
camponeses que viviam nessa região em meados do século XVI e apontou para as 
relações entre esse mundo do interior e os centros urbanos italianos da época. 
Menocchio foi condenado à morte pela Inquisição como herege religioso. 
Temos aqui um ótimo exemplo do que é um documento escrito de caráter 
oficial e de como o historiador pode utilizá-lo de maneira original. Ginzburg tinha em 
suas mãos um documento produzido pela Inquisição com o objetivo formal de reunir 
provas contra Menocchio para condená-lo. Na utilização que o historiador faz dele, o 
documento se torna uma fonte de leitura das ideias de um representante dos 
camponeses, de alguém pertencente às classes submetidas. Permite, portanto, o 
desvelamento simultâneo da visão de mundo das classes dominantes e das classes 
subalternas, e de como tais concepções circulam nesse ambiente cultural complexo. 
O que faz o historiador, portanto, diante de um documento oficial? Estuda-o 
criticamente. Apropria-se de tal fonte com novas perguntas. Utiliza-se das 
ferramentas mais modernas que lhe permite a erudição acadêmica. Assim, pode 
examinar correspondências, relatórios, ofícios, processos, editais, a fim de entende-
los em suas reais motivações. É o desbaratamento da história na apropriação da 
documentação oficial. 
 
A utilização dos documentos do cotidiano social 
 
 
Tornou-se prática comum entre os historiadores a pesquisa em outras fontes, 
que não se enquadram nos termos tradicionais que amparam a “história factual”. 
Uma tosca caderneta de controle de despesas familiares, por exemplo, torna-se um 
documento interessante para um pesquisador que queira medir o impacto do custo 
de vida no cotidiano das famílias proletárias de certo período histórico. 
Evidentemente, o trabalhador que anota as suas despesas não o faz 
pensando em qualquer tipo de providência para amparar a pesquisa histórica. 
Porém, ao registrar o seu controle, providencia, sem saber, uma fonte de informação 
muito mais fidedigna do que os registros oficiais, uma vez que tais anotações 
refletem com realismo a condição das classes exploradas. 
No que se refere ao exame das práticas das classes dominantes, pode-se 
fugir dos documentos oficiais para a obtenção de resultados bastante satisfatórios. 
Há estudos que tomam os comerciais da televisão de determinado período histórico 
como documento, a fim de revelar o comprometimento das empresas de 
comunicação com os grandes grupos econômicos, sustentáculos da ideologia 
burguesa. 
Da mesma forma, ainda referindo-se à televisão, há trabalhos sobre as 
telenovelas, os telejornais, os programas esportivos, e como tais programas, 
transformados pelo historiador em documento histórico e fonte de pesquisa, revelam 
as tramas dominantes de uma época. 
 
Conclusão 
 
O historiador não pode abrir mão das fontes documentais. Elas não somente 
concedem informação, mas são a evidência que o historiador precisa para ancorar 
firmemente a historiografia que produz no chão do passado histórico, afastando-se 
assim da mera opinião e da especulação. 
 
Saiba Mais 
 
Renascimento1: Período da história do Ocidente que geralmente está referido aos 
séculos XIV, XV e XVI. Liga-se aos processos de transformação europeia ao mundo 
dominado pelo capitalismo e sua cultura. 
 
Bula papal2: Documento dos papas da Igreja Católica Apostólica Romana. Tem o 
objetivo de divulgar decisões que tem força de lei no âmbito da igreja. 
Karl Marx3: Pensador alemão do século XIX e intelectual de fundamental 
importância. Principal articulador do pensamento de esquerda, conhecido como 
“materialismo histórico”. 
Friedrich Engels4: Parceiro de Karl Marx em alguns dos textos mais importantes 
produzidos no século XIX, onde faz uma crítica violenta e extremamente bem 
fundamentada ao capitalismo e à sociedade de consumo. 
 
Chegamos ao fim desta aula. Agora, acesse o Fórum para dividir a opinião 
com seus colegas. Se as dúvidas persistirem, não deixe de esclarecê-las com o seu 
professor. 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
BORGES, V. P. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 1981. 
GINZBURG, C. O queijo e os vermes – A trajetória de um moleiro perseguido pela 
Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. 
SMIT, J. O que é documentação. São Paulo: Brasiliense, 1987.