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CHAUÍ Marilena - Brasil Mito Fundador

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reinos se unirão em um cetro, todas 
cabeças obedecerão a urna suprema cabeça e todas as coroas rematarão 
num só diadema”. Um só rebanho e um só pastor, profetizados por Isaías, 
são a condição para realização do futuro.
Resta saber o que a construção judaico-cristã da história, seja na 
versão providencial da instituição eclesiástica, seja na versão profética 
joaquimita, teria a ver com o achamento do Brasil.
Se o Brasil é “terra abençoada por Deus”, se é paraíso reencontrado, 
então somos berço do mundo, pois somos o mundo originário e original. E 
se o país está “deitado eternamente em berço esplêndido” é porque 
fazemos parte do plano providencial de Deus. Pero Vaz julgou que Nosso 
Senhor não os trouxera aqui “sem causa” e Afonso Celso escreveu que ''há 
urna lógica imanente: de tantas premissas de grandeza só sairá grandiosa 
conclusão”, pois Deus “não nos outorgaria dádivas tão preciosas para que 
as desperdiçássemos esterilmente. [...]. Se aquinhoou o Brasil de modo 
especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos”.
Nosso passado assegura nosso futuro num continuum temporal que 
vai da origem ao porvir e se somos, como sempre dizemos, “Brasil, país do 
futuro”, é porque Deus nos ofereceu os signos para conhecermos nosso 
destino: o Cruzeiro do Sul, que nos protege e orienta, e a Natureza-Paraíso, 
mãe gentil.
No entanto, no período da conquista e da colonização, não é a história 
providencial eclesiástica que prevalece entre os navegantes e os 
evangelizadores, mas a história profética milenarista de Joaquim de Fiori.
Eis por que, ao escrever aos reis católicos, Colombo explicara que, 
para seu feito, não haviam sido necessários mapas-múndi nem bússola, 
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mas lhe bastaram as profecias de Isaías e do abade Joaquim. Essa idéia 
também é conservada por franciscanos e parte dos jesuítas, porque essas 
duas ordens se julgam a realização das duas ordens religiosas profetizadas 
por Fiori para o milênio ou o tempo do Espírito (a ordem dos pregadores 
ativos e a ordem dos contemplativos).
Qual o sinal de que as profecias de Joaquim de Fiori sobre o milênio 
estão sendo cumpridas? O primeiro sinal são as próprias viagens e o 
achamento do Mundo Novo, pois é evidente que foram cumpridas, de um 
lado, as profecias de Isaías - a de que o povo de Deus se dispersaria na 
direção dos quatro ventos, mas Deus viria “a fim de reunir todas as nações 
e línguas”, e a de que seriam vistas novas terras e novas gentes, porque 
Deus estava para criar “novos céus e nova terra” - e, de outro, a profecia 
de Daniel sobre o esquadrinhamento de toda a terra no tempo do fim.
Que disse Isaías? “Assim, tu chamarás por uma nação que não 
conheces, sim, uma nação que não te conhece acorrerá a ti” (Isaías 55, 6).
Que disse Daniel? “Quanto a ti, Daniel, guarda em segredo essas 
palavras e mantém lacrado o livro até o tempo do fim. Muitos 
esquadrinharão a terra e o saber se multiplicará” (Daniel 12, 4).
Se tais profecias se cumpriram, são elas o sinal de que a mais 
importante, feita por Isaías, está para ser cumprida:
“Eu virei, a fim de reunir todas as nações e línguas; elas virão e verão 
minha glória [...] Sim, da maneira que os novos céus e a nova terra 
que eu estou para criar subsistirão na minha presença, assim 
subsistirá a vossa descendência e o vosso nome” (Isaías 66,18-22).
Deus virá às nações e línguas, e elas virão a Ele: está profetizada a 
obra da evangelização dos novos céus e da nova terra, que foram 
efetivamente criados. Por que a evangelização foi profetizada? Por que o 
profeta fala em “nações” que acorrerão a Deus, isto é, em gente sem fé, 
sem rei e sem lei que deverá tornar-se Povo de Deus por obra dos 
evangelizadores. As nações vêm a Deus, e Deus virá a elas: essa vinda 
divina, restauração de Sião descrita pelo profeta, será a obra de unificação 
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de todas as nações e línguas, a unificação do mundo sob um único poder, 
isto é, por um único cetro e um único diadema, o Quinto Império, 
profetizado por Daniel.
É exatamente essa a perspectiva defendida com vigor, no século XVII, 
pelo Padre Antônio Vieira ao escrever a História do Futuro ou Do Quinto 
Império do Mundo e as Esperanças de Portugal.28
Numa interpretação minuciosa dos grandes profetas, particularmente 
de Daniel e Isaías, versículo por versículo, o Padre Vieira demonstra que 
Portugal foi profetizado para realizar a obra do milênio e cumprirá a 
profecia danielina, instituindo o Quinto Império do Mundo, tendo à frente 
o Encoberto, um rei que será o último avatar de El Rei Dom Sebastião.
Que disse Isaías para que Vi eira tenha essa esperança? “Quem são 
estes que vêm deslizando como nuvens, como pombas de volta aos 
pombais?”, indaga o profeta. Responde o jesuíta: “As nuvens que voam a 
estas terras para as fertilizar são os Portugueses pregadores do Evangelho, 
levados ao vento como nuvens; e chamam-se também pombas porque 
levam estas nuvens a água do batismo sobre que desceu o Espírito Santo 
em figura de pomba”.
Para o Padre Vieira, as profecias de Daniel, se somadas às de Isaías, 
permitem recolher os sinais de que estão sendo cumpridas as condições 
para a Quinta Monarquia ou o Quinto Império e a chegada do Reino de Mil 
Anos: a aparição de uma “nação desconhecida” ou de um Mundo Novo, a 
dispersão do Povo Eleito (no caso, a Igreja) na direção dos quatro ventos, e 
a descoberta de uma “nova gente a espera e “anjos velozes”.
Para provar que Portugal é o sujeito e o objeto das grandes profecias, 
Vi eira terá de mostrar qual o lugar do Brasil no plano de Deus. Ele o faz, 
provando que o Brasil foi profetizado por Isaías como feito português.
O profeta Isaías diz:
“Ai da terra dos grilos alados, que fica além dos rios da Etiópia. Que 
envia mensageiros pelo mar em barcos de papiro, sobre as águas! Ide 
mensageiros velozes, a uma nação de gente de alta estatura e de pele 
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bronzeada, a um povo temido por toda parte, a uma nação poderosa e 
dominadora cuja terra é sulcada de rios” (Isaías 18, 1- 2).
Interpreta o Padre Vieira:
“Trabalharam muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira 
explicação deste texto; mas não atinaram nem podiam atinar com ele 
porque não tiveram notícia nem da terra, nem das gentes de que 
falava o profeta [...] que falou Isaías da América e do Novo Mundo se 
prova fácil e claramente. Pois esta terra que descreve o profeta que 
está situada além da Etiópia e é terra depois da qual não há outra, 
estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América [...] 
Mas porque Isaías nesta descrição põe tantos sinais particulares e 
tantas diferenças individuantes, que claramente estão mostrando que 
não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum, senão de 
alguma província particular dele [...]. Digo primeiramente que o texto 
de Isaías se entende do Brasil...”
Donde a dupla conclusão: a primeira é que a interpretação dos textos 
de Isaías revela que este profeta “verdadeiramente se pode contar entre os 
cronistas de Portugal, segundo fala muitas vezes nas espirituais 
conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores 
convertem à Fé”. A segunda é que os tempos estão prontos para seu 
remate porque “há profecias que são mais do que profecias”, como as de 
João Batista, que prometeu o futuro com a voz e mostrou o presente com o 
dedo:
“Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam minhas 
esperanças e que, se nos prometem as felicidades futuras, também 
hão de mostrar presentes. [...]. Só digo