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CHAUÍ Marilena - Brasil Mito Fundador

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a fisionomia do Estado 
absolutista, obra de burocratas, funcionários do Estado, versados no 
direito romano: os letrados, de Portugal e Espanha, os maltres de requêtes, 
da França, os doctores, da Alemanha.
Estamento a serviço dos interesses monárquicos, os burocratas ou 
funcionários do rei estavam encarregados não somente da imposição das 
teses jurídicas, mas também do funcionamento do sistema civil e fiscal. 
Seus serviços eram cargos e tais cargos podiam ser adquiridos ou por um 
favor do rei ou por compra (os gastos com essa aquisição sendo fartamente 
compensados pelo uso dos privilégios do cargo e pela corrupção). Assim, a 
“expansão da venda de cargos foi, naturalmente, um dos subprodutos 
mais surpreendentes da crescente monetarização das primeiras economias 
modernas e da ascensão relativa, no seio destas, da burguesia mercantil e 
manufatureira”.
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A política fiscal não tributava a nobreza e o clero e, graças aos cargos, 
pouco ou quase nada tributava a burguesia, de sorte que o peso dos 
impostos recaía sobre as massas pobres, não sendo casual que os 
coletores de impostos viessem acompanhados de fuzileiros e que revoltas 
populares espocassem em toda parte. Todavia, porque um princípio 
jurídico estabelecia que “o que tange a todos deve ser aprovado por todos”, 
os monarcas eram forçados a convocar os estamentos ou as “ordens” - 
nobreza, clero e burguesia - ou os “estados do reino” (as Cortes, de 
Portugal e Espanha) para o estabelecimento das políticas fiscais e para “os 
altos negócios do reino”. Pouco convocados na prática, os “estados do 
reino” ou as Cortes tornaram-se o espaço da disputa entre clientelas 
nobres, religiosas e burguesas, formando redes rivais de apadrinhamento 
no aparelho de Estado. O estamento, como lembra Faoro31, é um grupo 
fechado de pessoas cuja elevação se calca na desigualdade social e que 
busca conquistar vantagens materiais e espirituais exclusivas, 
assegurando privilégios, mandando, dirigindo, orientando, definindo usos, 
costumes e maneiras, convenções sociais e morais que promovem a 
distinção social e o poderio político. Um estamento define um estilo 
completo de vida.
Para exercer o pleno controle sobre essa rede intricada de privilégios e 
poderes estamentais, essa teia de clientelas e favores, corrupção e 
venalidade, a monarquia absoluta precisará de uma teoria da soberania 
com que possa livrar o monarca desses mandos intermediários que se 
interpõem entre ele e o seu próprio poder. Essa teoria será o direito divino 
do rei, graças à qual o poder político conserva estamentos (nobreza e clero) 
e gera estamentos (os letrados e funcionários vindos da burguesia), mas os 
limita, sobrepujando-os como instância que dá origem à lei e se situa 
acima da lei porque obedece apenas à lei divina, da qual o rei é o 
representante, e o único representante.
A moderna teoria do direito divino dos reis está fundamentada numa 
nova teoria da soberania como poder uno, único e indivisível. Todavia, só 
alcançaremos sua força persuasiva se a entrelaçarmos com a teoria do 
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direito natural objetivo como ordem jurídica divina natural, que oferece o 
fundamento para uma concepção teocrática do poder político, isto é, uma 
concepção que afirma que o poder político vem diretamente de Deus. 
(Teocracia é uma palavra vinda do grego e se compõe de dois vocábulos 
gregos: théos, deus; e kratós, poder, comando. Um regime no qual o poder 
pertence a deus ou emana diretamente da vontade de deus é um regime 
teocrático.)
A formulação desse poder teocrático depende de duas formulações 
medievais diferentes, mas complementares. A primeira delas afirma que, 
pelo pecado original, o homem perdeu todos os direitos e, portanto, 
também o direito ao poder. Este pertence exclusivamente a Deus, pois, 
como lemos na Bíblia: “Todo poder vem do Alto/Por mim reinam os reis e 
governam os príncipes”. De acordo com essa teoria, se algum homem 
possuir poder é porque o terá recebido de Deus, que, por uma decisão 
misteriosa e incompreensível, o concede a alguém, por uma graça ou favor 
especial. A origem do poder humano é, assim, um favor divino àquele que 
representa a fonte de todo poder, Deus. Isso implica uma idéia muito 
precisa da representação política: o governante não representa os 
governados, mas representa Deus, origem transcendente de todo poder. 
Representante de Deus, o governante age como Seu mandatário supremo, 
e governar é realizar ou distribuir favores. É por uma graça ou por um 
favor do rei que outros homens terão poder, pelo qual se tornam 
representantes do rei.
A segunda fonte da concepção teocrática, sem abandonar a noção de 
favor divino, introduz a idéia de que o governante representa Deus porque 
possui uma natureza mista como a de Jesus Cristo. Assim como Jesus 
Cristo possui uma natureza humana mortal e uma natureza divina eterna 
e imperecível, assim também o governante possui dois corpos: o corpo 
físico mortal e o corpo político ou místico, eterno, imortal, divino. O rei 
recebe o corpo político ou o corpo místico no momento da coroação, 
quando recebe as insígnias do poder: o cetro (que simboliza o poder para 
dirigir), a coroa (que simboliza o poder para decidir), o manto (que 
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simboliza a proteção divina e aquela que o rei dará aos súditos), a espada 
(que simboliza o poder de guerra e paz) e o anel (que simboliza o 
casamento do rei com o patrimônio, isto é, a terra).
Escolhido por Deus para ser o pastor do Seu rebanho e dele cuidar 
como pai (isto é, como um senhor), o governante pela graça de Deus, ao 
receber o corpo político, recebe a marca própria do poder: a vontade 
pessoal absoluta com que representa a vontade divina. Essa tese teológica 
se acomoda perfeitamente à tese jurídica de Ulpiano de que “o que apraz 
ao rei tem força de lei”, e à tese complementar, isto é, não tendo recebido o 
poder dos homens e sim de Deus, o rei está acima da lei e não pode ser 
julgado por ninguém, mas apenas por Deus. A teoria do corpo político 
místico também se adapta à idéia jurídica do fundo público (a terra) como 
domínio e patrimônio régios: a terra (entendida como todos os territórios 
herdados ou conquistados pelo rei e todos os produtos que neles se 
encontram ou nele são produzidos) se transforma em órgão do corpo do 
governante, transmissível a seus descendentes ou podendo ser, em parte, 
distribuída sob a forma do favor. Essa terra patrimonial é, em sentido 
rigoroso, a pátria (cujo sentido vimos acima) e é ela que os exércitos do rei 
juram defender quando juram “morrer pela pátria”. A concepção 
patrimonial se ajusta perfeitamente à idéia de monopólio exclusivo da 
Coroa sobre os produtos do território metropolitano e colonial, monopólio 
que é um dos pilares da monarquia absolutista do período mercantilista.
Como o poder teocrático da monarquia absoluta se realiza na colônia 
do
Brasil? Antes de mais nada, convém lembrar que é pela teoria do favor 
que é dada base jurídica para a distribuição das sesmarias e para as 
capitanias hereditárias, distribuições que mantêm o rei como o senhor 
absoluto das terras concedidas por favor aos senhores. A capitania é um 
dom do rei e seus senhores são donatários.
Parte integrante do sistema capitalista mercantil, a sociedade colonial 
é estamental do ponto de vista político, dos usos e dos costumes. As 
classes sociais (senhores de terra