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Meteorologia e Climatologia - Varejão/ Silva

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atrofia. Tais fatos revelam a adaptação dos animais ao clima,
mediante o desenvolvimento de caracteres que lhe asseguram um intercâmbio mais eficiente
de energia com o ambiente. 
A influência da temperatura é tão importante para certas espécies de aves, por exem-
plo, que as obriga a migrar de suas regiões preferenciais, buscando temporariamente outras
termicamente mais agradáveis, mesmo que situadas a consideráveis distâncias.
A temperatura do ar exerce influência decisiva no crescimento das plantas. Como foi
dito, à medida que a temperatura se afasta da faixa específica ótima, a elongação é inibida,
chegando a cessar completamente quando certo limite (máximo ou mínimo) é atingido. Tam-
bém o desenvolvimento de muitas espécies vegetais está intimamente relacionado com a tem-
peratura ambiente. O surgimento dos órgãos de reprodução muitas vezes não depende apenas
da amplitude térmica à qual está submetida a planta, mas da alternância de sua exposição a
certos valores de temperatura. Essa alternância é chamada termoperíodo. Há espécies que
necessitam de um termoperíodo anual, bem definido, que lhes possibilitem entrar em fase de
repouso vegetativo, sem o que não conseguem iniciar a floração. Outras exigem um certo ter-
moperíodo diário, tornando-se a temperatura mínima mais importante que o comportamento
térmico observado durante o fotoperíodo. É clássico o exemplo do tomate, para o qual, se a
temperatura noturna não estiver dentro de determinada faixa (cerca de 15 a 20 oC) na época
propícia, a floração e a frutificação são inibidas. A couve, a cenoura, a beterraba e a cebola,
dentre outras, precisam de um termoperíodo com temperaturas noturnas baixas para desenca-
dear a fase de floração. Com a alface, dá-se exatamente o contrário: o florescimento é favore-
cido quando o termoperíodo diário local envolve temperaturas elevadas (entre de 21 e 27 oC,
aproximadamente, dependendo da cultivar).
A adaptação de cultivares e de raças a faixas de oscilação térmica diferentes daquelas
observadas em seu ambiente de origem (normalmente aceitas pelos indivíduos), constitui uma
difícil e paciente tarefa de aclimatação, a cargo de melhoristas e geneticistas. Em alguns casos
têm sido desenvolvidas raças e cultivares tolerantes. No Brasil, dentre as culturas de maior
expressão econômica, o exemplo da soja é, talvez, o mais recente: trazida de regiões mais
frias, foi sendo adaptada ao clima tropical brasileiro e hoje sua exploração expande-se para o
norte, ganhando o Planalto Central e penetrando no Nordeste. 
Quando a aclimatação for impraticável e a lucratividade compensar o investimento,
pode-se apelar para o controle artificial da temperatura, melhorando o nível de conforto térmi-
co, quer utilizando sistemas de aquecimento ou arrefecimento ambiental, quer explorando de
forma inteligente os recursos naturais do meio. O cultivo em casas de vegetação, o sombrea-
mento de culturas e pastagens, as técnicas para prevenir geadas ou minimizar seus efeitos, a
escolha da encosta mais apropriada ao cultivo sob o ponto de vista térmico, a orientação de
estábulos, pocilgas e outras instalações para animais, assim como a adequação de sua arqui-
tetura, ilustram a possibilidade de tornar o meio, em certas circunstâncias, termicamente mais
condizente com as exigências dos seres vivos.
No que se refere ao gênero humano, a temperatura também está intimamente associa-
da à sensação de conforto físico. Sabe-se que sob temperaturas elevadas as pessoas normal-
mente tendem a diminuir a atividade motora e intelectual. Uma razoável parte do consumo
mundial de energia, debitada aos processos de climatização de ambientes, constata o esforço
do Homem para melhorar as condições reinantes em recintos fechados. 
METEOROLOGIA E CLIMATOLOGIA
Mário Adelmo Varejão-Silva
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11. Graus-dia.
A temperatura média do ar à superfície reflete, de certa forma, a disponibilidade de
energia às plantas e isto tem incentivado vários estudiosos a investigar sua relação com a rapi-
dez com que se completa o ciclo vegetativo de culturas. Em tais estudos, à temperatura mais
baixa tolerada por uma planta, aquém da qual cessa o crescimento, chama-se temperatura-
limite inferior (tI). Reciprocamente, a mais elevada temperatura em que isso se verifica é referi-
da como temperatura-limite superior (tS). Aceita-se que cada cultivar possui temperaturas-limite
(superior e inferior) bem definidas.
Um grau-dia corresponde à ocorrência, durante um dia, de temperatura do ar 1oC dentro
da faixa térmica adequada ao metabolismo da cultura em estudo, ou seja: acima da temperatu-
ra-limite inferior e abaixo da temperatura-limite superior. 
Para o cômputo dos graus-dia podem ser usados diferentes processos. A título de ilus-
tração será reproduzida adiante, por sua simplicidade, a metodologia proposta por Villa Nova et
al. (1972), que leva em conta as temperaturas máxima (tX) e mínima (tN) diárias, conhecidas as
temperaturas-limite, superior (tS) e inferior (tI) da cultivar em estudo. Serão citadas as situações
possíveis, analisando-se um modelo simplificado da curva típica que representa a variação
diária da temperatura do ar (Villa Nova et al., 1972) em um dado local.
Caso I - dias em que tN > tI e tX < tS. 
Observando a curva correspondente (Fig. II.18), verifica-se que a área sob ela equivale,
aproximadamente, à soma da área do triângulo ABC, cuja base é unitária (1 dia) e a altura é (tX
– tN)/2, com a área do retângulo ACDE, de igual base e tendo por altura tN – tI. 
Assim, o número de graus-dia (GD), será:
GD = (tN – tI) + (tX – tN)/2. (II.11.1)
Caso II - dias em que tN ≤ tI e tX < tS.
A área útil sob a curva (Fig. II.18), obtida por semelhança dos triângulos (ABC e EBF,
este com base unitária), permite estabelecer que:
GD = (tX – tI)2/{2(tX – tN)}. (II.11.2)
Caso III - dias em que tN > tI e tX > tS. 
O raciocínio inicial é idêntico ao da situação I, mas é necessário subtrair a parte da área
sob a curva que se situa acima da temperatura-limite superior (tS). Usando semelhança de
triângulos (Fig. II.18) verifica-se que essa porção é dada por (tX – tS)
 2/{2(tX – tN)}. 
Logo:
GD = (tX – tI) + (tX – tN)/2 – (tX – tS)
 2/{2 (tX – tN)} (II.11.3)
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CASO ITx
T
N
T
N
T
N
T
N
B
A C
DE
CASO IITx B
A C
DE
CASO IIITx
Ts
B
F G
A C
DE
CASO IVTx
Ts
TI
TI
TI
TI
B
G H
A C
FE
1 Grau-dia
Fig. II.18 - Processo simplificado para cômputo de graus-dia, em quatro situações distintas,
em função das temperaturas máxima (tX) e mínima (tN) temperaturas-limite, su-
perior (tS) e inferior (tI), exigidas pela planta, segundo Villa Nova et al. (1972).).
Caso IV - dias em que tN ≤ tI e tX > tS
Também aqui o raciocínio inicial é semelhante ao adotado na situação II, devendo-se,
igualmente, retirar a porção da área mencionada acima. Então:
GD = (tX – tI)
 2/{2(tX – tN)} – (tX – tS)
 2/{2 (tX – tN)}. (II.11.4)
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Ometto (1981) detalha um método simples que permite estimar as temperaturas-limite
requeridas por uma dada cultivar.
Argumenta-se que cada cultivar exige um determinado número de graus-dia para com-
pletar o ciclo vegetativo, o qual constituiria a sua "constante térmica". Assim, conhecida a
"constante térmica" da cultura e as temperaturas máxima e mínima diárias esperadas (valores
médios) em determinada área, seria fácil estimar a duração do ciclo vegetativo e estabelecer a
época do plantio em função da ocasião mais interessante para a colheita. Essa técnica, evi-
dentemente, só funcionaria a contento naquelas áreas em que as médias das temperaturas
máxima e mínima (decendiais ou mensais) não variassem significativamente de um ano para
outro e cujos valores diários não oscilassem muito em torno do respectivo valor médio.
O conceito de grau-dia que, segundo Chang (1968), vem sendo desenvolvido há mais
de 200 anos, é susceptível