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ou dois segmentos do texto. Não se podem ligar, com esses relatores, segmentos que não se opõem. Às vezes, a oposição se faz entre significados implícitos no texto.
	Choveu na semana passada, mas não o suficiente para se começar o plantio.
g) embora, ainda que, mesmo que: são relatores que estabelecem ao mesmo tempo uma relação de contradição e de concessão. Servem para admitir um dado contrário para depois negar seu valor de argumento. Trata-se de um expediente de argumentação muito vigoroso: sem negar as possíveis objeções, afirma-se um ponto de vista contrário.
Observe o exemplo:
	Ainda que a ciência e a técnica tenham presenteado o homem com abrigos confortáveis, pés velozes como o raio, olhos de longo alcance e asas para voar, não resolveram o problema das injustiças.
	Como se nota, mesmo cedendo ou admitindo as grandes vantagens da técnica e da ciência, afirma-se uma desvantagem maior.
	O uso do embora e conectivos do mesmo sentido pressupõe uma relação de contradição, que, se não houver, deixa o enunciado descabido. Exemplo:
	Embora o Brasil possua um solo fértil e imensas áreas de terras plantáveis, vamos resolver o problema da fome.
h) Certos elementos de coesão servem para estabelecer gradação entre os componentes de uma certa escala. Alguns, como mesmo, até, até mesmo, situam alguma coisa no topo da escala; outros, como ao menos, pelo menos, no mínimo, situam-na no plano mais baixo.
	O homem é ambicioso. Quer ser dono de bens materiais, da ciência, do próprio semelhante, até mesmo do futuro e da morte.
					Ou
	É preciso garantir ao homem seu bem-estar; o lazer, a cultura, a liberdade, ou, no mínimo, a moradia, o alimento e a saúde.
	Para encerrar essas considerações sobre o uso dos elementos de coesão, convém dizer que, às vezes, criar-se o paradoxo semântico provocando determinados efeitos de sentido. Pode-se conseguir, por exemplo, um efeito de humor ou de ironia ou revelar preconceitos estabelecendo-se uma relação de contradição entre dois segmentos que, usualmente, não são vistos como contraditórios. Sirva de exemplo uma passagem como esta:
	Ela é mulher, mas é capaz.
	Como se nota, o mas passa a estabelecer uma relação de contradição entre ser mulher e ser capaz. Essa relação revela humor ou preconceito do enunciador. Nos dois casos, no entanto, pressupõe-se que as mulheres não sejam capazes.
	É claro que o uso desses paradoxos deve ser feito com cuidado e dentro de um contexto que não dê margem a ambigüidades.
A retomada ou a antecipação de termos
	Observe o trecho:
	
	José e Renato, apesar de serem gêmeos, são muito diferentes. Por exemplo, este é calmo, aquele é explosivo.
	O termo este retoma o nome próprio “Renato”, enquanto aquele faz a mesma coisa com a palavra “José”, “Este” e “aquele” são chamados anafóricos.
	Anafórico, genericamente, pode ser definido como uma palavra ou expressão que serve para retomar um termo já expresso no texto, ou também para antecipar termos que virão depois. São anafóricos, por exemplo, os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele), os pronomes relativos (que, o qual, onde, cujo), advérbios e expressões adverbiais (então, dessa feita, acima, atrás), etc.
	Quando um elemento anafórico está empregado num contexto tal que pode referir-se a dois termos antecedentes distintos, isso provoca ambigüidade e constitui uma ruptura de coesão. Na escrita, é preciso tomar cuidado para que o leitor perceba claramente a que termo se refere o elemento anafórico.
	Eis alguns exemplos de ambigüidade por causa do uso dos anafóricos:
	O PT entrou em desacordo com o PMDB por causa de sua proposta de aumento de salário.
	
	No caso, sua pode estar se referindo à proposta do PT ou à do PMDB.
	O uso do pronome relativo pode também provocar ambigüidade, como na frase que segue:
	Via ao longe o sol e a floresta, que tingia a paisagem com suas variadas cores.
	No caso, o pronome que pode estar se referindo a sol ou a floresta.
	Há frases das redações escolares em que simplesmente não há coesão nenhuma. É o que ocorre nessa frase, cita pela Profª Maria Tereza Fraga no seu livro sobre redação no vestibular:
	Encontrei apenas belas palavras o qual não duvido da sinceridade de quem as escreveu.
	Como se vê, o enunciado fica desconexo porque o pronome o qual não recupera antecedente algum.
Um arriscado esporte nacional.
	Os leigos sempre se medicaram por conta própria, já que de médico e louco todos temos um pouco, mas esse problema jamais adquiriu contornos tão preocupantes no Brasil como atualmente. Qualquer farmácia conta hoje com um arsenal de armas de guerra para combater doenças de fazer inveja à própria industrial de material bélico nacional. Cerca de 40% das vendas realizadas pelas farmácias nas metrópoles brasileiras destinam-se a pessoas que se automedicam. A indústria farmacêutica de menor porte e importância retira 80% de seu faturamento da venda “livre” de seus produtos – isto é, das vendas realizadas sem receita médica.
	Diante desse quadro, o médico tem o dever de alertar a população para os perigos ocultos em cada remédio, sem que, necessariamente, faça junto com essas advertências uma sugestão para que os entusiastas da automedicação passem a gastar mais em consultas médicas. Acredito que a maioria das pessoas se automedica por sugestão de amigos, leitura, fascinação pelo mundo maravilhoso das drogas “novas” ou simplesmente para tentar manter a juventude. Qualquer que seja a causa, os resultados podem ser danosos.
	É comum, por exemplo, que um simples resfriado ou uma gripe banal leve um brasileiro a doses insuficientes ou inadequadas de antibióticos fortíssimos, reservados para infecções graves e com indicação precisa. Quem age assim está ensinando bactérias a se tornarem resistentes a antibióticos. Um dia, quando realmente precisar do remédio, este não funcionará. E quem não conhece aquele tipo de gripado que chega a uma farmácia e pede ao rapaz do balcão que lhe aplique uma “bomba” na veia, para cortar a gripe pela raiz? Com isso, poderá receber na corrente sanguínea soluções de glicose, cálcio, vitamina C, produtos aromáticos – tudo isso sem saber dos riscos que corre pela entrada súbitas destes produtos na sua circulação.
(Medeiros, Geraldo – Veja, 18 dez. 1985)
	No comentário deste texto, vamos nos limitar à análise do uso de alguns conectivos e anafóricos. É evidente que este comentário estudará então apenas um aspecto do texto. Como a finalidade desta lição é o estudo dos elementos coesivos, seu objetivo se cumpre em nossos comentários.
- Linha 1: já que – introduz uma justificativa para o que se disse na oração anterior.
- Linha 2: e – liga dois atributos que ocorrem simultaneamente. 
- Linha 2: um pouco – orienta no sentido da afirmação da propriedade. Opõe-se a pouco. Se se dissesse “de médico e louco todos temos um pouco”, a orientação seria no sentido da restrição da propriedade.
- Linha 2: mas – coloca um argumento mais forte em favor do que foi dito: os leigos sempre se automedicam, mas hoje se automedicam mais. Há uma oposição de intensidade entre as duas orações. 
- Linha 3: tão... como – é um marcador de comparação: o fenômeno da automedicação jamais foi tão preocupante como o é atualmente. Embora se trate de um comparativo de igualdade, o advérbio jamais nega a existência dessa igualdade e põe à mostra o fato de que o fenômeno hoje é mais preocupante do que era antes.
- Linha 8: que – é um anafórico, cujo antecedente é pessoas.
- Linha 10: isto é – introduz uma explicação a respeito do que é a venda “livre” dos produtos farmacêuticos.
- Linha 12: sem que – indica a exclusão de um fato que poderia constituir um argumento contrário ao que se afirmou anteriormente.
- Linha 17: ou – marca uma relação de alternância (e/ ou): todos os elementos podem ocorrer, embora não simultaneamente.
- Linha 25: E – introduz uma interrogação retórica