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Apostila Direito das Obrigações - UGF[1]

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deve-se anotar a regra 
geral de que o credor não pode ser obrigado a receber outra, mesmo mais valiosa 
(CC, art. 313. ―O credor não é obrigado a receber prestação diversa da que lhe é 
devida, ainda que mais valiosa‖). Isso significa que não é possível a substituição, 
pelo devedor, da coisa prometida, que importaria em alterar o objeto da prestação, 
a menos que haja concordância expressa do interessado, destinando-se a 
satisfazer o interesse do credor, a prestação não pode sofrer alteração, nem 
mesmo cumprimento por partes, pois somente a entrega da res visada libera o 
 
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devedor do ônus assumido. Importam, em descumprimento, tanto a não entrega 
da coisa, como a oferta de coisa diversa. 
Na entrega, a coisa deve ser acompanhada dos acessórios, mesmo 
não mencionados, salvo se o contrário resultar do título, ou das circunstâncias do 
caso (―Art. 233. A obrigação de dar coisa certa abrange os acessórios dela 
embora não mencionados, salvo se o contrário resultar do título ou das 
circunstâncias do caso.‖). Podem as partes convencionar, por expresso, a 
exclusão dos acessórios. 
Em consonância com o sentido da obrigação de dar, ao devedor 
compete conservar a coisa até a tradição, empregando o zelo e as diligências 
próprias do titular do bem e defendendo-a de eventuais ações de terceiro. Mas, 
caso ocorra perda, diferentes soluções encontram-se na lei, à luz da apreciação 
da conduta do devedor: se com culpa, ou sem culpa, se deu o perecimento. Não 
havendo culpa, resolve-se a obrigação, se a coisa se perde antes da entrega, ou 
quando pendente condição suspensiva (art. 234 ―Se, no caso do artigo 
antecedente, a coisa se perder, sem culpa do devedor, antes da tradição, ou 
pendente a condição suspensiva, fica resolvida a obrigação para ambas as partes; 
se a perda resultar de culpa do devedor, responderá este pelo equivalente e mais 
perdas e danos.‖). Como o devedor alienante ainda é o proprietário do bem (art. 
492, caput ―Até o momento da tradição, os riscos da coisa correm por conta do 
vendedor, e os do preço por conta do comprador.‖), sofre as conseqüências de 
seu desaparecimento, ou da pendência da condição (art. 125 ―Subordinando-se a 
eficácia do negócio jurídico à condição suspensiva, enquanto esta se não verificar, 
não se terá adquirido o direito, a que ele visa.‖), pois, inexistindo direito adquirido, 
o risco da coisa é suportado pelo titular. Havendo culpa do devedor na perda, fica 
 
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ele responsável pelo equivalente, mais as perdas e danos (art. 234, 2a parte, já 
mencionado). Em consonância com a regra da obrigação de reparar (art. 159, 
anteriormente citado ou art. 392, conforme decorra de ilícito extracontratual ou 
contratual), além do valor do bem à ocasião, o devedor arca com a perda sofrida 
pelo credor pela não recepção da coisa e os lucros que disso deixou de auferir 
(art. 1.059). 
―Art. 392. Nos contratos benéficos, responde por simples 
culpa o contratante, a quem o contrato aproveite, e por dolo 
aquele a quem não favoreça. Nos contratos onerosos, 
responde cada uma das partes por culpa, salvo as exceções 
previstas em lei. 
―Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos 
resultantes de caso fortuito ou força maior, se 
expressamente não se houver por eles responsabilizado. 
Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se 
no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou 
impedir.‖ 
Se, ao invés de perda, ocorrer a deterioração da coisa, também em 
função da análise da subjetividade do agente se manifesta o regramento existente: 
se se ocasionar sem culpa do devedor, abre-se ao credor opção de resolver a 
obrigação, ou aceitar a coisa, abatido de seu preço o valor que perdeu (art. 236. 
―Sendo culpado o devedor, poderá o credor exigir o equivalente, ou aceitar a coisa 
 
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no estado em que se acha, com direito a reclamar, em um ou em outro caso, 
indenização das perdas e danos.‖). 
No caso de culpa do devedor, ao credor compete optar entre exigir o 
equivalente, ou aceitar a coisa na situação em que se encontre, podendo, 
ademais, reclamar indenização por danos e perdas (art. 236), em qualquer das 
hipóteses. 
Havendo aumento no valor da coisa, como os decorrentes de 
acréscimos ou melhoramentos (denominados cômodos), pode o devedor exigir 
aumento do preço, como compensação pelos riscos que suporta até a tradição 
(arts.1.267. ―A propriedade das coisas não se transfere pelos negócios jurídicos 
antes da tradição. Parágrafo único. Subentende-se a tradição quando o 
transmitente continua a possuir pelo constituto possessório; quando cede ao 
adquirente o direito à restituição da coisa, que se encontra em poder de terceiro; 
ou quando o adquirente já está na posse da coisa, por ocasião do negócio 
jurídico‖ e ―Art. 237. Até a tradição pertence ao devedor a coisa, com os seus 
melhoramentos e acrescidos, pelos quais poderá exigir aumento no preço; se o 
credor não anuir, poderá o devedor resolver a obrigação.‖) (commodum eius essa 
debet, cuius et periculum). Se o credor não anuir, poderá o devedor resolver a 
obrigação. Os frutos percebidos também pertencem ao devedor, ficando com o 
credor os pendentes. 
No descumprimento da obrigação, ao credor cabe a ação para 
execução. 
Como subespécie da obrigação de dar encontra-se a de restituir, que se 
caracteriza pela existência de coisa alheia em poder do devedor, a quem cumpre 
devolvê-la ao titular. A obrigação de restituir consiste na necessidade de 
 
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devolução de algo que, a título contratual, se encontra legitimamente em poder do 
devedor. 
A mudança de perspectiva assinalada faz com que, na disciplinação da 
obrigação de restituir coisa certa (art. 238. ―Se a obrigação for de restituir coisa 
certa, e esta, sem culpa do devedor, se perder antes da tradição, sofrerá o credor 
a perda, e a obrigação se resolverá, ressalvados os seus direitos até o dia da 
perda.‖), a perda havida antes da tradição, desde que sem culpa do devedor, seja 
suportada pelo credor, resolvendo-se a obrigação, ressalvados seus direitos até a 
data daquela. Se a perda for decorrente de culpa do devedor (art. 239. ―Se a coisa 
se perder por culpa do devedor, responderá este pelo equivalente, mais perdas e 
danos.‖), responderá pelo equivalente, mais as perdas e danos. 
Na deterioração da coisa, sem culpa do devedor (art. 240. ―Se a coisa 
restituível se deteriorar sem culpa do devedor, recebê-la-á o credor, tal qual se 
ache, sem direito a indenização; se por culpa do devedor, observar-se-á o 
disposto no art. 239.‖), ao credor caberá recebê-la no estado em que esteja, sem 
direito a indenização (pois os riscos correm contra o titular). Se houver culpa do 
devedor, poderá o credor exigir o equivalente, ou aceitar o bem no estado 
correspondente, com direito a indenização por perdas e danos em qualquer 
hipótese (arts. 240, 2a parte, e 236). 
 
5.3.1.2 Obrigação de dar coisa incerta 
 A obrigação de dar coisa incerta é aquela em que a 
coisa devida é indicada apenas por suas características gerais. Compreende-
 
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se, pois, em seu contexto, coisa indeterminada, mas possível de determinação 
à ocasião do cumprimento, que é precedida pela escolha da res.