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Applebaum   Gulag

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tirando-os do âmbito do sistema judiciário comum, quase
certamente se deu a mando de Stalin. Em 1929, ele já se interessava muitíssimo
pela polícia secreta. Acompanhava as carreiras dos chefes da OGPU e
supervisionava a construção de residências confortáveis para eles e suas famílias.
{246} Em contraste, a administração prisional do Comissariado do Interior não
lhe despertava interesse algum: seus líderes haviam apoiado os oponentes de
Stalin nas implacáveis lutas internas do Partido à época.{247}
Todos os que participaram da Comissão Yanson deviam conhecer muito bem
esses detalhes, o que já deve ter sido suficiente para convencê-los a colocar as
prisões nas mãos da OGPU. Mas Stalin também interveio diretamente nas
decisões da comissão. Em certa altura daquelas confusas deliberações, o
Politburo chegou a reverter a própria determinação original, declarando o
propósito de tirar da polícia secreta o sistema prisional e tornar a entregá-lo ao
Comissariado do Interior. Essa perspectiva deixou Stalin indignado. Numa carta
de 1930 a Vy acheslav Molotov (um colaborador muito próximo), atacou a idéia
qualificando-a de "intriga" orquestrada pelo comissário do Interior, que "é
totalmente podre". Stalin mandou o Politburo implementar a resolução original e
pôs fim ao Comissariado do Interior.{248} A decisão de Stalin de dar os campos à
OGPU determinou o futuro caráter deles. Tirou-os da supervisão judiciária
comum e os colocou firmemente nas mãos da burocracia de urna polícia secreta
cujas origens remontavam ao mundo obscuro e extralegal da Cheka.
Embora haja menos indícios sólidos para corroborar essa teoria, pode ser que
também tenha vindo de Stalin a ênfase constante na necessidade de construir
"campos ao estilo de Solovetsky ". Como já mencionamos, os campos de
Solovetsky nunca foram rentáveis, nem em 1929, nem nunca. No ano
administrativo que foi de junho de 1928 a junho de 1929, a Slon ainda recebia do
orçamento estatal um subsídio de 1,6 milhão de rublos.{249} Não obstante a Slon
talvez ter parecido mais bem-sucedida que outras empresas locais, qualquer um
que entendesse de economia sabia que ela estava longe de oferecer concorrência
justa. Um exemplo: os campos madeireiros que se utilizavam de presos
pareciam sempre mais produtivos que os empreendimentos comuns do setor só
porque os camponeses empregados por esses últimos trabalhavam apenas no
inverno, quando ficavam impossibilitados de praticar a agricultura.{250}
Apesar disso, achava-se que os campos de Solovetsky fossem rentáveis - ou pelo
menos Stalin achava que fossem. Ele também acreditava que fossem rentáveis
justamente por causa dos métodos "racionais" de Frenkel - a distribuição de
rações conforme o trabalho produzido pelo preso, a eliminação de "supérfluos". A
prova de que o sistema de Frenkel ganhara o beneplácito dos mais altos escalões
está nos resultados: não apenas esse sistema se viu rapidamente copiado no resto
do país, mas o próprio Frenkel foi encarregado de chefiar a construção do Canal
do Mar Branco, o primeiro grande projeto do Gulag na era stalinista, um cargo
extremamente alto para um ex-condenado.{251} Depois, como veremos,
Frenkel foi protegido da prisão e possível execução graças à intervenção do
primeiríssimo escalão.
Indícios de que Stalin preferia a mão-de-obra prisional à comum também se
acham no contínuo interesse dele pelas minúcias da administração dos campos.
Durante toda a vida no poder, ele exigiu informes regulares sobre a
"produtividade por detento" nos campos, freqüentemente requerendo estatísticas
específicas: quanto carvão e petróleo os campos tinham produzido, quantos
prisioneiros empregavam, quantas medalhas seus administradores haviam
recebido.{252} Estava particularmente interessado na minas auríferas da
Dalstroi, o complexo de campos na região de Koly ma, no extremo nordeste, e
exigia informações regulares e precisas sobre a geologia de Koly ma, a
tecnologia mineira da Dalstroi e a exata qualidade e quantidade do ouro
produzido. Para garantir que suas determinações pessoais fossem cumpridas
mesmo nos campos mais longínquos, enviava equipes de inspeção e, muitas
vezes, mandava que os administradores viessem a Moscou.{253}
Quando algum projeto lhe interessava em especial, ele às vezes se envolvia ainda
mais. Os canais, por exemplo, cativavam sua imaginação, e de quando em
quando parecia que queria construí-los a torto e a direito. Certa feita, Yagoda foi
obrigado a escrever a Stalin, objetando polidamente ao desejo irrealista de abrir
um canal, usando trabalho escravo, no centro de Moscou.{254} A medida que
Stalin assumia maior controle sobre os órgãos do poder, ele também forçava os
colegas a focalizarem a atenção nos campos. Em 1940, o Politburo discutia este
ou aquele projeto do Gulag quase toda semana.{255}
Contudo o interesse de Stalin não era apenas teórico. Também tinha interesse
direto pelos seres humanos envolvidos no trabalho dos campos: quem fora detido,
onde fora condenado, o que seria feito de tal e tal pessoa. Lia, e comentava, ele
mesmo as petições de soltura que lhe eram enviadas pelos presos ou pelas
esposas destes, freqüentemente respondendo com uma ou duas palavras
("Mantenha-o trabalhando" ou "Solte-o").{256} Numa fase posterior, exigiria
com regularidade informações sobre presos ou grupos de presos que lhe
interessavam, como os nacionalistas da Ucrânia ocidental.{257}
Também há indícios de que a curiosidade de Stalin por determinados presos nem
sempre era puramente política e de que ela não se voltava apenas para seus
inimigos pessoais. Já em 1931, antes de consolidado seu poder, Stalin fez o
Politburo aprovar uma resolução que lhe dava enorme influência pessoal sobre a
prisão de certas categorias de especialistas técnicos.{258} E o padrão das
detenções de engenheiros e especialistas naqueles primeiros tempos faz mesmo
pensar em algum nível superior de planejamento. Talvez também não tenha sido
apenas coincidência que o primeiríssimo grupo de presos mandados para os
novos campos nas jazidas auríferas de Koly ma abrangesse sete conhecidos
peritos em mineração, dois peritos em organização do trabalho e um experiente
engenheiro hidráulico.{259} E pode não ter sido mero acaso que a OGPU haja
prendido um dos principais geólogos da URSS às vésperas de uma expedição
para, como veremos, construir um campo perto das reservas petrolíferas da
República Komi.{260} Tais coincidências não podem ter sido planejadas por
chefes regionais do Partido que apenas reagiam às pressões do momento.
 Por fim, uma prova totalmente circunstancial, mas ainda assim interessante,
sugere que as detenções em massa no final dos anos 1930 e nos anos 40 talvez
também tenham sido ordenadas, em certa medida, para saciar o desejo de Stalin
por mão-de-obra escrava, e não - ao contrário do que a maioria sempre supôs -
para punir seus pretensos ou potenciais inimigos. Os autores da mais fidedigna
história dos campos que até hoje se escreveu em russo assinalam a "relação
positiva entre o sucesso da atividade econômica nos campos e o número de
presos enviados para lá". Eles argumentam que não deve ter sido por acaso que
as penas para crimes de pouca gravidade se tornaram muito mais severas
justamente quando os campos se expandiam e, por isso, precisavam com
urgência de mais trabalhadores.{261}
 Alguns documentos catados em arquivos aqui e ali fazem pensar o mesmo. Em
1934, por exemplo, Yagoda escreveu uma carta a seus subordinados na Ucrânia,
requerendo de 15 mil a 20 mil presos, todos "aptos para o trabalho": eram
necessários com urgência para concluir as obras do canal Volga-Moscou. A carta
estava datada de 17 de março, e nela Yagoda também exigia que os chefes locais
da OGPU tomassem "medidas adicionais" para garantir que os detentos
chegassem até 1º de abril. Todavia, não ficava claro de onde deveriam aparecer
esses 15 mil a 20 mil presos. Teriam sido detidos para atender à requisição