Frankl   Teoria e Terapia das Neuroses
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Frankl Teoria e Terapia das Neuroses


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o que fez surgir a depressão endógena (no sentido da patogênese); ao 
contrário, é a depressão endógena que faz surgir o abismo (no sentido de patog­
nomia) . Não é a tensão existencial que torna o homem doente, mas sim a doença 
da depressão endógena que faz com que o homem se dê conta dessa tensão de 
maneira desfocada e ampliada. 
E o que é a depressão endógena em si? Apesar de tudo, ela continua sendo 
algo somatogênico - uma "somatose". E talvez sua caracterização mais efetiva seja 
a de uma baixa vital. Contudo talvez também seja válido falar de uma vazante do 
"biotônus" (Ewald) . 
E quando se enxerga um recife na vazante? Ninguém vai ousar afirmar que 
o recife seja a causa da vazante; ao contrário: é a maré vazante que o torna visível. 
Acontece algo diferente com o abismo entre o ser e o dever? Ele também não é ape­
nas visível pela depressão endógena, por essa vazante (baixa) vital? Dessa maneira, 
vale o seguinte: assim como a maré vazante não é causada pelo recife que surge, a 
psicose também não é causada por um trauma psíquico, um complexo ou um conflito. 
Para ficarmos na parábola da maré vazante: se a maré continua a vazar, o recife 
vai aumentando. Algo análogo acontece na vazante vital chamada depressão endógena. 
7 0 T E O R I A E T E R A P I A D A S N E U RO S E S 
Conhecemos uma paciente com depressão endógena que trabalhou 
como auxiliar no correio durante a Primeira Guerra Mundial, no lu­
gar de colegas homens recrutados. Décadas mais tarde, durante uma 
anamnese numa fase depressiva endógena, ela afirmou ter roubado um 
saco inteiro de correspondências naquela época. É sabido que a culpa 
real quase não aparece nas autoincriminações alucinatórias de pacientes 
com depressão endógena. Depois de mais questionamentos, descobriu­
-se que o roubo foi de um saco de correspondências velho, vazio . . . sem 
correspondências ! O fato de a paciente lembrar-se desse mínimo delito 
é efeito da depressão endógena, e não sua causa. Nem a grande culpa 
subjetiva nem a pequena culpa objetiva eram patogênicas nesse caso; 
eram apenas patognomônicas. 
1 .3. Causa e desencadeamento 
Além da inversão citada acima da relação entre efeito e causa, a psiquia­
tria não poucas vezes cai no erro de não distinguir a causa psíquica autêntica e o 
mero desencadeamento psíquico. Doenças que são desencadeadas pelo anímico 
(ou seja, não são verdadeiramente causadas por ele) não devem receber o nome de 
psicogênicas; trata-se de uma pseudopsicogênese. 
É trivial dizer que doenças psíquicas, e portanto também psicoses, po­
dem ser desencadeadas por excitações. Precisamos apenas lembrar aqui que esse 
tipo de excitação não precisa ser apenas da natureza da angústia: excitações de 
felicidade também podem colocar em andamento uma doença psíquica. De um 
ou de outro modo, trata-se sempre de um efeito de estresse psíquico. Por outro 
lado, não podemos deixar de notar que não são apenas essas cargas extremas que 
podem atuar como fator patogênico de desencadeamento de algo psíquico, mas 
também o liberar-se dessas cargas, principalmente uma descarga brusca. Cito 
nesse contexto a situação característica da libertação de um campo de concen­
tração ou de um cativeiro de guerra. 2 
2 Cf. Viktor E. Frankl, Ãrztliche Seelsorge. Viena, 1 946, p. 8 1 : "A súbita libertação, a liberação da 
pressão anímica, significa [ . . . ] um perigo. O que ameaça aqui, no plano caracterológico, representa 
nada mais do que a contrapartida psíquica da doença de Caisson". 
E S Q U E M A DA T E O R I A D A S N E U RO S E S 7 1 
No entanto, é característico das doenças psicóticas, em alguns casos, não 
necessitar de um fator desencadeante. E já que acabamos de falar de prisão nos 
campos de concentração: conhecemos um paciente que foi acometido por uma 
mania no campo de Dachau; depois de sua libertação, entretanto, apesar da 
surpresa feliz de uma chance de emigração absolutamente favorável, ele ficou 
seriamente depressivo no sentido de uma fase melancólica. Tudo isso atesta a 
pura independência das psicoses autênticas da fatalidade - ou em outras pala­
vras : aponta para o caráter de destino dos processos psicóticos em si . Em rela­
ção a isso, as pesquisas estatísticas de ]. Hirschmann apresentaram de maneira 
mais que suficiente a relativa "estabilidade em relação ao mundo" das psicoses 
e também das neuroses. 3 
Por fim, a possibilidade de desencade\ufffdmento de doenças psicóticas -
sem nos referirmos às suas causas! - é um fato bem conhecido e reconhecido 
no campo somático: basta que nos recordemos do típico desencadeamento de 
quadros psicóticos por intercorrências somáticas como typhus abdominalis4 ou 
commotio cerebrU Mas não só isso: não apenas esses processos patológicos mas 
também processos fisiológicos podem ser considerados fatores desencadeantes 
do campo somático. Citemos a puberdade como um tempo típico de predile­
ção para o surgimento de ataques esquizofrênicos (típico na medida em que 
esse estado recebeu o antigo nome de dementia praecox) , enquanto para fases 
endógenas depressivas o tempo típico de predileção seria o climatério. Ambos -
puberdade e climatério - são como um desencadeamento por parte do sistema 
3 Max Malzacher, Jõrg Merz e Daniel Ebnõther ("Einschneidende Lebensereignisse im Vorfeld 
akuter schizophrener Episoden': Arch. Psychiatr. Nervenhk., vol. 230, 198 1 , p. 227), da direção de 
pesquisas da Clínica Psiquiátrica da Universidade de Zurique, analisando um grupo de 70 pa­
cientes que apresentavam sua primeira manifestação de psicose esquizofrênica, não conseguiram 
comprovar a função desencadeadora de eventos decisivos de vida para psicoses esquizofrênicas 
postulada por Brown e Birley. 
4 As experiências de Hoff e Heilig, relatadas na p. 95, explicam que o tifo pode ser desencadeado por 
via inversa, a partir do psíquico. 
5 Viktor E. Frankl, "Manisch-depressive Phasen nach Schãdeltrauma': Monatsschrift für Psychiatrie 
und Neurologie, vol. 1 19, 1 950, p. 307. 
7 2 T E O R I A E T E R A P I A D A S N E U RO S E S 
endocrinológico; mesmo assim, ninguém chegaria a dizer que a depressão endó­
gena é uma doença endócrina. 
É compreensível que justamente no caso de estados depressivos 
desencadeados no climatério se questione também um desencadeamento simul­
tâneo do psíquico: pensemos no pânico ante a finitude da vida e no balanço exis­
tencial - isto é, o balanço entre aquilo que a vida deve ao indivíduo e aquilo que o 
indivíduo continua devendo a ela; se esse resulta negativo, mesmo se somente do 
ponto de vista da suposição e da subjetividade, então, se quisermos, tratar-se-á 
menos de um desencadeamento psíquico de uma psicose endógeno-depressiva e 
mais de uma combinação de uma depressão endógena, psicótica, com uma de­
pressão psicogênica, neurótica. 
Se nos perguntarmos qual é a diferença última e essencial entre causa 
e desencadeamento, em certo sentido veremos que o desencadeamento tam­
bém é uma causa, quando não a causa principal; é, por assim dizer, uma cau­
sa secundária. Porém, uma causa secundária, nesse sentido, não é apenas um 
desencadeamento, mas também o que chamamos comumente de condição. 
Afinal, condicionar algo também não quer dizer originar e causar esse algo. 
É sabido que existem as condições necessárias e suficientes, e podemos dizer o 
seguinte: enquanto a causa principal pode ser compreendida como a condição 
suficiente, o desencadeamento - enquanto ele possa ser também compreendi­
do como condição -, como causa secundária, não é condição nem suficiente e 
muito menos uma condição necessária. Seria preciso cunhar um termo novo 
para ela: (mera) condição possível! 
1 .4. Patogênese psíquica e patoplástica psíquica 
1 . 4. 1 Patoplástica temática 
Psicogênicos, no sentido mais amplo da palavra, são os conteúdos - por 
exemplo, os conteúdos de ideias delirantes: