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o inspetor geral - nicolai gogol

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Não nos desampare, senhor! Fazem ofensas sem motivos.
Khlestakóv
Quem?
Um dos Comerciantes
Sempre o prefeito. Um prefeito como esse, senhor, nunca tivemos. Comete tantas 
injustiças que nem se podem descrever. Faz a gente alimentar todos os 
regimentos que passam por aqui. Dá vontade de pôr a corda no pescoço. Faz cada 
uma. Segura a gente pela barba e diz: “Ah, seu tártaro!” Juro por Deus! Se ao 
menos a gente lhe faltasse com o respeito, mas sempre nos comportamos bem! 
Vestidos para a esposa e a filhinha, nunca lhe negamos. Mas, que coisa, para ele 
é sempre pouco! É sim! Chega na loja e tudo o que lhe cai nas mãos, ele carrega. 
Logo que vê uma peça de lã, diz assim: “Ah, meu caro, é mesmo um bom tecido. 
Leve lá pra minha casa”. Então a gente leva, mas a tal peça mede no mínimo 
cinquenta metros.
Khlestakóv
Mas será possível? Que vigarista!
Comerciantes
Por Deus! Nunca se viu um prefeito assim. A gente tem que esconder tudo lá na 
loja quando vê que ele vem vindo. E não é por falar, mas não é só coisa boa que 
ele leva, não. Ele leva toda e qualquer porcaria. Até numas ameixas que estavam 
no barril há sete anos, e que nem mesmo o meu criado quer comer, ele passa a 
mão aos montes. No dia do seu santo, santo António, a gente leva pra ele do bom 
e do melhor. Só que ele ainda quer mais; diz que santo Onofre também é seu 
santo. O que é que se há de fazer? A gente lhe presenteia no dia de santo Onofre 
também.
Khlestakóv
Mas é simplesmente um bandido!
Comerciantes
Isso não é nada! E vai a gente dizer alguma coisa. Ele manda todo um regimento 
de soldados pra dentro da sua casa. Ou então manda trancar as portas. Diz ele: 
“Não vou te castigar fisicamente nem vou te torturar. E proibido por lei. Mas, meu 
caro, você vai comer o pão que o diabo amassou”. 
Khlestakóv
Mas que vigarista! E o caso de mandá-lo para a Sibéria. 
Comerciantes
Para onde Vossa Excelência decidir mandá-lo será bom, conhuiin que seja para 
bem longe de nós. Não recuse, paizinho, nosso pão e nosso sal. Oferecemos 
também açúcar e vinho.
Khlestakóv
Não, senhores, nem pensar. Não costumo aceitar suborno de espécie alguma. 
Agora, por exemplo, se preferirem me emprestar trezentos rublos, aí sim, já é 
outra coisa. Um empréstimo, posso, sim, aceitar.
Negociantes
Como não, paizinho! (Tiram o dinheiro.) Mas por que só trezentos? Melhor ainda 
quinhentos, contanto que nos ajude.
Khlestakóv
De acordo. Um empréstimo, sim. Nada contra.
Comerciantes
(Entregam-lhe o dinheiro numa bandeja de prata.) Aceite também, por favor, a 
bandejinha.
Khlestakóv
Por que não? A bandejinha também.
Comerciantes
(Fazendo uma reverência.) Então, aceite também o açúcar.
Khlestakóv
De jeito nenhum; suborno, nunca.
Óssip
Vossa Excelência! Por que não pega? Pegue sim! Para a viagem, tudo serve. 
Passem pra cá o açúcar e o vinho! Passem tudo pra cá, tudo vai ser útil. O que é 
aquilo? Uma cordinha? Passem pra cá também a cordinha! Uma cordinha pode 
servir na viagem. Vai que a carruagem ou qualquer outra coisa quebre, então, a 
gente pode amarrar.
Comerciantes
Faça essa caridade, Vossa Alteza! Se não nos atender, então não saberemos mais 
o que fazer. Só nos resta a forca. 
Khlestakóv
Sem falta, sem falta! Farei todo o possível.
(Os comerciantes saem. Ouve-se uma voz de mulher: “Não se atreva a me proibir 
de entrar! Vou me queixar de você diretamente a ele. Não me empurre que 
machuca”.)
Quem é que está aí? (Aproxima-se da janela.) O que deseja, mãezinha?
Vozes de Duas Mulheres
Vossa misericórdia, paizinho, por favor! Rogamos, senhor, que nos ouça.
Khlestakóv
(Na janela.) Deixem-nas passar.
Cena 11
Khlestakóv, a mulher do serralheiro e a mulher do subtenente.
Mulher do Serralheiro
(Curvando-se até o chão.) Peço vossa misericórdia...
Mulher do Subtenente
Peço vossa misericórdia...
Khlestakóv
Quem são as senhoras?
Mulher do Subtenente
Sou a mulher do tenente Ivánov.
Mulher do Serralheiro
Sou a mulher do serralheiro, Fevrônia Petróvna Pochliópkina, paizinho.
Khlestakóv
Esperem aí. Fale uma de cada vez. Você, o que deseja?
Mulher do Serralheiro
Suplicar vossa misericórdia, vossa graça contra o prefeito! Que toda a maldição 
recaia sobre ele! Que ele, esse vigarista, seus filhos, tios e tias, nunca tenham 
nada que se preze!
Khlestakóv
E por quê?
Mulher do Serralheiro
Ordenou que meu marido fosse recrutado pelo exército. Nem tinha chegado a vez 
dele, esse vigarista! Ainda por cima, é proibido por lei. Era casado.
Khlestakóv
Como é que ele pôde fazer uma coisa dessas? 
Mulher do Serralheiro
Fez porque fez, o vigarista. Que Deus o castigue, neste e no outro mundo! E se ele 
tiver uma tia, então que caia sobre ela a maior desgraça. E se o pai ainda estiver 
vivo, que também ele, o canalha, estique as canelas ou fique estropiado para todo 
o sempre, esse vigarista! O filho do alfaiate, aquele bêbado, este sim, tinham que 
ter levado. Mas os pais mandaram um belo presente e, então, o prefeito caiu em 
cima da comerciante Panteléieva. Mas a Panteléieva também mandou para a 
mulher dele três peças de tecido, e aí é que ele veio pra cima de mim. “Pra que é 
que você precisa de marido? Ele não presta pra nada”. Eu é que sei se ele presta 
ou não presta pra nada. Isso é da minha conta, seu vigarista! E disse mais: “Ele é 
um ladrão, se não roubou nada até agora, tanto faz, porque vai acabar roubando 
mesmo e de qualquer maneira vai ser recrutado no ano que vem”. E eu, como é 
que fico sem marido? Sou uma mulher fraca, patife! Que toda sua família pereça 
sem a luz do sol. E se tem sogra, que a sogra também...
Khlestakóv
Está bem, está bem... E você?
Mulher do Serralheiro
(Saindo.) Não se esqueça de mim, paizinho, tenha piedade! 
Mulher do Subtenente
Também por causa do prefeito, paizinho...
Khlestakóv
O que foi? Fale. Seja breve.
Mulher do Subtenente
Me deu uma surra, paizinho!
Khlestakóv 
Como assim?
Mulher do Oficial
Por engano, paizinho! Duas comadres brigaram na feira, a polícia não chegou a 
tempo, então me pegaram. Me bateram tanto... fiquei dois dias sem poder sentar.
Khlestakóv
E o que é que podemos fazer agora?
Mulher do Subtenente
Claro que agora não se pode fazer nada. Mas obrigue-o a pagar uma multa pelo 
seu erro. Não seria nada mal, pois um dinheirinho agora me cairia muito bem.
Khlestakóv
Está bem, está bem! Podem ir embora, podem ir! Vou dar as ordens!
(Pela janela surgem mãos com petições.)
Quem mais está aí? (Aproxima-se da janela.) Não quero, não quero! Já chega, já 
chega! (Afastando-se.) Estou farto, que vão Por detrás, em perspectiva, mais 
algumas pessoas.) Saia já daqai! Saia! Aonde pensa que vai? (Empurra a barriga 
dele com às mãos, vai junto para a ante-sala e fecha a porta atrás de si.)
Cena 12
Khlestakóv e Mária Antónovna.
Mária Antónovna
Ah!
Khlestakóv
Por que se assustou, senhorita?
Mária Antónovna
Não me assustei, não.
Khlestakóv
(Afetado.) Perdão, senhorita, muito me agrada que me tenha tomado por uma 
pessoa que... Tomo a liberdade de lhe perguntar: para onde tinha a intenção de 
ir?
Mária Antónovna
Pra dizer a verdade, pra lugar nenhum.
Khlestakóv
E por que, por assim dizer, pra lugar nenhum?
Mária Antónovna
Pensei que, talvez, a minha mãezinha estivesse aqui...
Khlestakóv
Não é isso. Gostaria de saber por que iria a senhorita pra lugar nenhum.
Mária Antónovna
Eu o incomodei. O senhor estava ocupado com assuntos importantes.
Khlestakóv
(Afetado.) Seus olhos são mais importantes do que assuntos importantes... A 
senhorita jamais poderia me incomodar. De maneira nenhuma poderia me 
incomodar. Pelo contrário, só pode me dar prazer.
Mária Antónovna
O senhor fala como gente da capital.
Khlestakóv
Para uma pessoa tão encantadora como a senhorita. Será que eu poderia tomar a 
liberdade de ter a felicidade de lhe oferecer uma cadeira? Mas não! O que a 
senhorita merece é um trono, e não uma cadeira.
Mária