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ASTRESIRMAS

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Peço-lhe que se acontecer alguma cosia, ou se elas precisarem... 
OLGA 
- É claro. Pode ficar tranqüilo. (Pausa) Amanhã não restará um único soldado na cidade, 
tudo se transformará em lembrança, e para nós, naturalmente, começará uma vida nova... (Pausa) 
Nem tudo acontece como nós gostaríamos. Não quis ser diretora, no entanto acabei sendo. Eu 
certamente não irei a Moscou... 
VERCHININ 
- Bem... Agradeço por tudo... perdoe-me se porventura algo...Falei muito...demasiado... me 
perdoe por isso, e não me queira mal. 
OLGA (enxuga os olhos) 
- Onde está Macha? 
VERCHININ 
- Que mais posso dizer como despedida? Filosofar sobre o quê (Ri) A vida é difícil. A 
muitos parece ser sem sentido, mas devemos reconhecer que a cada dia ela se torna mais clara e 
leve, e parece já não estar muito longe o momento em que ela se tornará totalmente clara (Consulta 
o relógio) Tenho de ir, está na hora. Antes a humanidade vivia em função das guerras, toda a sua 
existência era ocupada com marchas, assaltos, vitórias. Agora que isso acabou, ficou um enorme 
espaço vazio que ainda não sabemos como preencher; a humanidade busca com ardor, e 
naturalmente entornará aquilo que procura. Oh, que seja o quanto antes! (Pausa) Sabe, se a 
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dedicação ao trabalho se juntar à cultura, e se a cultura se juntar à dedicação ao trabalho... (Consulta 
o relógio) Porém, já está na hora... 
OLGA 
- Ela está chegando. 
(ENTRA MACHA) 
VERCHININ 
- Vim me despedir. (Olga se afasta um pouco para não atrapalhar a despedida.) 
MACHA (olha-o no rosto) 
- Adeus... (Longo beijo) 
OLGA 
- Já chega... 
(MACHA SOLUÇA CONVULSIVAMENTE) 
VERCHININ 
- Escreva-me... Não se esqueça de mim...Deixe-me... tenho de ir... Olga, 
leve-a daqui, eu já... tenho de ir...estou atrasado... (Beija , comovido, as mãos de Olga, abraça 
Macha mais uma vez e sai rapidamente) 
OLGA 
- Não chore, Macha, não chore... querida... (Entra Kuliguin) 
KULIGUIN (embaraçado) 
- Deixe-a chorar... Deixe... Minha boa e querida Macha, você é minha mulher e eu estou 
feliz apesar de tudo... Não me queixo e nem lhe farei recriminações... Olga é testemunha... 
Recomeçaremos a nossa vidinha de antigamente e não lhe direi uma única palavra, não farei a 
menor alusão, nunca... 
MACHA (reprime os soluços) 
- “À beira-mar há um carvalho... uma corrente de ouro pende de seus galhos... uma 
corrente de ouro pende de seus galhos...” Vou enlouquecer! À beira-mar... há... um ... carvalho...” 
OLGA 
- Acalme-se, Macha... Acalme-se.. Dê-lhe água! 
MACHA 
- Já não choro. 
KULIGUIN 
- Ela já não chora. É uma boa mulher. (Um tiro ao longe) 
MACHA 
- À beira-mar há um carvalho.. uma corrente de ouro pende de seus galhos... À beira-mar a 
corrente de ouro... o carvalho...”Estou louca! (Bebe água) Ai, que vida infeliz é a minha...Já não 
quero mais anda...logo me acalmarei... Tanto faz... Por que esses versos me atormentam? Meus 
pensamentos se confundem. 
(ENTRA IRINA) 
OLGA 
- Acalme-se, Macha... Assim.. Agora você está sendo inteligente... Vamos para o quarto. 
MACHA (irada) 
- Não vou entrar. (Soluça, mas se contém na mesma hora.) Não entrarei mais nesta casa. 
IRINA 
- Vamos sentar, e pelo menos fiquemos em silêncio juntas, pois amanhã eu viajo... (Pausa) 
KULIGUIN 
- Ontem tomei de um aluno malcomportado de terceira série esta barba e estes bigodes. 
(Coloca-os no rosto) Pareço o professor de alemão. (Ri) Como são malandros esses alunos, não é 
mesmo? 
MACHA 
- Olhe só, não é que parece mesmo como professor de alemão? 
OLGA (ri) 
- Sem tirar nem pôr. 
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(MACHA CHORA) 
IRINA 
- Não chore, Macha. 
KULIGUIN 
- Igualzinho. 
(ENTRA NATACHA) 
NATACHA (à criada) 
- Entendeu? O senhor Protopopov ficará com Sofotchka e Andrei irá levar Bobik para 
passear. Quanto aborrecimento causa uma criança... (A Irina) Irina... Você viaja amanhã que pena! 
Fique pelo menos mais uma semana (Repara em Kuliguin e solta um grito; este ri e tira o bigode e a 
barba.) Ai, como me assustou! (A Irina) Acostumei-me com você e não me será fácil a separação. 
Colocarei Andrei no seu quarto, lá ele poderá tocar violino à vontade. E o quarto dele será de 
Sofotchka. É uma menina encantadora. Ela me olhou hoje com aqueles olhinhos e disse: mamãe! 
KULIGUIN 
- De fato, é uma ótima criança. 
NATACHA 
- Então amanhã estarei sozinha aqui. (Suspira) Antes de mais nada mandarei cortar os 
abetos da alameda, depois esse álamo aqui... À noite são tão feios... (A Irina) Querida, esse conto 
não lhe fica bem... É simplesmente de mau gosto. Devia usar algo mais claro. E aqui plantarei flores 
por toda parte, flores bonitas e perfumadas (Em tom severo) Quem deixou esse garfo aqui no 
banco... pergunto eu? (Entra na casa; à criada) O que faz o garfo no banco (Grita) Cale a boca! 
KULIGUIN 
- Já começou! (Da rua chega o som de uma banda militar. Todos ficam escutando) 
OLGA 
- Estão indo embora. 
(ENTRA TCHEBUTIKIN ) 
MACHA 
- Os nossos vão embora. O que se pode fazer... Boa viagem! (Ao marido) Vamos para 
casa... Onde está meu chapéu e o casaco? 
 
KULIGUIN 
- Levei-os para dentro da casa... Já lhe trago. 
OLGA 
- Sim, já está na hora de ir para casa. 
TCHEBUTIKIN 
- Olga Serguêievna! 
OLGA 
- O que é (Pausa) O que é? 
TCHEBUTIKIN 
- Não é nada... Não sei como dizer... (Segreda-lhe algo no ouvido) 
OLGA (Aterrorizada) 
- Não é possível! 
TCHEBUTIKIN 
- É isso... Uma história idiota... Estou cansado e enjoado e não quero dizer mais nada. 
(Zangado) Mesmo porque tanto faz! 
MACHA 
- O que aconteceu? 
 
OLGA (abraça Irina) 
- Que dia terrível, hoje. Não sei como lhe dizer, querida... 
IRINA 
- O que é? Digam-me depressa: o que aconteceu? Santo Deus! (Desata a chorar) 
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TCHEBUTIKIN 
- O barão acaba de morrer num duelo. 
IRINA (chora baixinho) 
- Eu sabia, eu sabia... 
TCHEBUTIKIN (senta-se num banco fundo) 
- Estou cansado.. (Retira do bolso um jornal) Que chore... (Cantarola em voz baixa) 
Trarará-tchim-bum... Além do mais, tanto faz! (As três irmãs, de pé, abraçam-se.) 
MACHA 
- Oh, como soa a música! Eles vão embora, um já se foi completamente... Completamente 
e para sempre. E nós ficaremos sozinhas, e recomeçaremos a vida. É preciso viver... É preciso 
viver... 
IRINA (inclina a cabeça sobre o peito de Olga) 
- Chegará o dia em que todos saberemos o porquê de tudo isso, por que todo esse 
sofrimento, e então não haverá mais mistério...Porém, até então temos de viver e trabalhar. 
Trabalhar sempre! Amanhã viajarei sozinha... irei à escola, ensinarei e dedicarei a vida àqueles que 
talvez precisem dela. Estamos no outono; logo chegará o inverno, a neve cobrirá tudo, e eu seguirei 
trabalhando, trabalhando sempre... 
OLGA (abraça as duas irmãs) 
- A música está tão alegre, tão animada, me dá uma vontade imensa de vire! Ai meus 
Deus! O tempo vai passando, nós partiremos, e seremos esquecidos para sempre. Esquecerão nosso 
rosto, nossa voz e também quantos éramos, porem o nosso sofrimento se transformará em alegria 
para aqueles que virão depois de nós, a felicidade e a paz reinarão sobre a terra, e as pessoas se 
lembrarão com gratidão daqueles que vivem agora, e os abençoarão. Oh, queridas irmãzinhas, a 
nossa vida ainda não chegou ao fim. Viveremos! A música soa tão alegre, tão cheia de felicidade! E 
parece-me que logo saberemos por que vivemos, por que sofremos... Ai, se soubéssemos por quê. 
Se soubéssemos por quê!... 
(A MÚSICA VAI DIMINUINDO CADA VEZ MAIS. KULIGUIN, SORRIDENTE E ALEGRE, 
TRAZ O CHAPÉU E O CASACO, ANDREI EMPURRA O CARRINHO DE BEBÊ ONDE 
BOBIK ESTÁ SENTADO. 
TCHEBUTIKIN (canta à meia voz) 
- “Trarará-tchim-bum... agarrei-me num poste...”(Lê o jornal) Tanto faz! Tanto faz! 
 
OLGA 
- Se soubéssemos, por quê, se soubéssemos por quê! 
 
CORTINA 
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