A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
145 pág.
2011_DanielaMountian_VOrig

Pré-visualização | Página 29 de 40

do caso de amor dos dois. 
A terceira parte do livro, conforme a divisão adotada pela pesquisa, está vol-
tada às cenas que sucedem o casamento de Peredonov, realizado no capítulo XXIII, 
as quais marcam o ápice da loucura de Peredonov − o herói é isolado da sociedade 
(ele é afastado do ginásio), e sua única preocupação agora é defender-se dos inimi-
gos. Aqui são retomados vários motivos arquetípicos (luta, isolamento e aprisiona-
mento do herói). 
A coroação89 de Peredonov e Varvara, o casamento da bruxa com o diabo, 
diferentemente dos banquetes de muitos contos de magia, com convivas ilustres de 
feições solenes, acontece entre hostilidades e zombarias. Entre os presentes, convi-
dados e não convidados, constavam, por exemplo, os padrinhos, o fantasmagórico 
Rutílov e o tolo Volódin; as irmãs Rutílova, com ―o riso de fúrias indomadas‖; Múrin, 
―desgrenhado e empoeirado como sempre‖; e, naturalmente, a nedotýkomka. 
No conto de magia, sobretudo quando o motivo está centrado na obtenção 
de uma noiva ou de um noivo, a conclusão normalmente envolve a cerimônia do ca-
samento e a coroação dos noivos, ou, quando não há concretização, acontece a pro-
messa de um casamento. E o conto finaliza nesse momento. Em Miélkii Biés há um 
prosseguimento: Peredonov, ao casar com Varvara, não recebe seu reino, o lugar de 
inspetor escolar, e mata a princesa, a ―Grande Mãe‖, ao atear fogo às cartas de bara-
lho (cap. XXIV). 
Nos capítulos finais do livro, ocorre ainda o baile de máscaras, em que aconte-
cem a perseguição e o desmascaramento do falso herói, momento essencial ao conto 
de magia. Sacha, perseguido por todos os convivas, é salvo por um ―herói germano‖, 
a fantasia do ator local, que retira sua máscara de gueixa. Nesse momento, os sonhos 
de Ludmila confundem-se com a realidade e com o desdobramento de Sacha. 
 
_____________ 
 
89
 Na Rússia, em cerimônias religiosas ortodoxas, os noivos usam coroas. 
105 
 
3. Rumo ao caos 
Afirmou-se mais de uma vez que o enredo se conduz ao caos mítico. Mas o 
caos está deflagrado desde o começo do romance, então se vai alastrando pela 
cidade junto da loucura de Peredonov. Vale pensar, portanto, em que tipo de caos é 
esse e como ele se constrói na narrativa. 
Quando o princípio do caos é direcionado para o mundo social, assim como 
acontece nas personagens, ele afasta-se dos arquétipos antigos. Meletínski (2002, 
p.204), acerca de Gógol, observa que o ―caos em Almas Mortas está como desmitolo-
gizado por completo [...]‖. Uma espécie de ―demonismo na vida cotidiana‖ caracteriza 
o mundo do negociante de almas mortas, assim como o de muitas obras da fase pe-
tersburguesa de Gógol. Mesmo que o cotidiano de Miélkii Biés não esteja ―desmito-
logizado por completo‖, o universo vazio e desordenado de Tchítchikov fornece 
muitos elementos ao mundo de Peredonov. No entanto, o processo de enlouqueci-
mento do professor Ardalión Boríssytch leva o princípio do caos também ao homem, 
à semelhança de várias personagens de Dostoiésvski, e então voltamos às novelas 
ucranianas de Gógol, como Vii, nas quais ―as forças demônicas são apresentadas 
através de imagens do conto de magia e das historietas – bruxas, diabos, feiticeiras 
etc. [...]‖ (MELETÍNSKI, 2002, p. 186). Com a loucura de Peredonov, os outros persona-
gens aproximam-se de suas configurações originais. A cidadezinha saturada de ecos 
verbais e comportamentais, reproduzindo maledicências e galhofas, insere-se num 
embate metafísico, no conflito entre o caos evidente e o cosmos inatingível: 
No entanto, no processo de desenvolvimento e da gradual corporificação 
[do romance], este intento inicial transformou-se na abstração dos persona-
gens e dos acontecimentos concretos, e o romance crítico-social sobre uma 
vítima da sufocante vida da província converteu-se num texto mítico sobre a 
vida contemporânea e sobre o sentido de vida das pessoas. 
(PÁVLOVA, 2007, p.237) 
Deve-se, então, considerar o caos tanto na esfera social como na individual, 
que são reunidas no desfecho do romance. O caos tanto pode ser visto como o vazio 
primordial e disforme que antecede a vida, ou como algo em estado desordenado à 
106 
 
espera de uma força que o coloque em equilíbrio. Assim, o silêncio e a balbúrdia são 
igualmente expressões do caos, o que se revela também tanto no coletivo como no 
homem. 
Quanto aos caos aplicado ao homem, a Peredonov, além do ―diabo bobo‖, afi-
gura-se diante de nós um ser ―apático‖ e ―sombrio‖. ―Sombrio‖ é o termo mais usado 
na narrativa, construída por meio de reiterações, para definir Ardalión Peredonov. A 
falta de vida e a escuridão evidenciam parte do mundo caótico do professor: 
―Peredonov levantou os olhos sombrios e olhou através da cerca com raiva‖90; 
―Peredonov voltou para casa sombrio como sempre‖; ―Peredonov andava pelas ruas 
escuras, sombrio e carrancudo‖; ―‘Sim, é verdade, está parecendo um louco‘, pensou 
Khripátch percebendo sinais de confusão e pavor no rosto apático e sombrio de 
Peredonov‖. 
A apatia, no entanto, quase sempre vem reunida ao desordenado, produzindo 
no professor o desejo de destruir tudo ao seu redor. No capítulo IX, o caos dentro de 
Peredonov está já demarcado: 
Entre a aflição dessas casas e ruas, sob essa alienação do céu, sobre essa 
terra suja e impotente, caminhava Peredonov afligindo-se com temores des-
conhecidos — para ele, não havia consolo espiritual nem conforto naquilo 
que é deste mundo, porque agora, como sempre, ele olhava para as coisas 
com os olhos de um morto, como um demônio aflito por sua solidão som-
bria, feita de medo e melancolia. 
Seus sentimentos eram apáticos; sua consciência, uma engrenagem que 
corrompia e matava. Tudo o que chegava a ela transformava-se em infâmia e 
lama. Nos objetos, ele percebia apenas os defeitos, e isso o alegrava. 
Quando passava em frente a um poste reto e limpo, sentia vontade de en-
tortá-lo ou sujá-lo. Ria com alegria quando sujavam algo em sua presença. 
(SOLOGUB, 2008, p.116) 
Apesar de sempre oprimido por angústias e temores, Peredonov, assim como 
os heróis de Dostoiévski, não pode ser caracterizado pela melancolia ou pela depres-
são. O sofrimento humano está representado, não o do indivíduo. Não há um conflito 
pessoal desenvolvido na trama, mas um complexo de forças que atraem o homem ao 
_____________ 
 
90
 SOLOGUB, 2008, p. 23, p.102, p.231, p.232, respectivamente no parágrafo. 
107 
 
caos e à destruição. Essa expressão exteriorizada de Peredonov deve-se muito à sua 
construção paródica e de base folclórica. 
No capítulo XXIV, Peredonov aparece já completamente confuso e submerso 
numa insanidade grotesca e primitiva: 
Na destruição das coisas, alegrava-se o antigo demônio, o espírito da confu-
são pré-histórica, o antigo caos, enquanto os olhos selvagens de um homem 
louco refletiam um pavor semelhante aos monstruosos tormentos da agonia 
derradeira. 
(SOLOGUB, 2008, p.315) 
As agonias de Ardalión Boríssytch são muitas vezes concretizadas no enredo 
por meio de atitudes violentas e infundadas, normalmente direcionadas a Varvara e 
aos ginasianos, com traços de crueldade. O professor, por exemplo, passou a castigar 
seus alunos de noite, fora do ginásio, e gabava-se de seu comportamento: ―No dia 
seguinte, Peredonov contava suas façanhas à classe. Ele não mencionava os sobre-
nomes, mas as vítimas acabavam se entregando pela própria perturbação‖ (SOLO-
GUB, 2008, p.174). 
É difícil, no entanto, saber até que ponto o fato de Peredonov castigar os alu-
nos fisicamente realmente chocou algum leitor da época de Sologub. Na Rússia pe-
nalidades envolvendo castigos corporais, generalizadas a toda sociedade, foram por 
muito tempo