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2011_DanielaMountian_VOrig

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de cavanhaque, no Dom Quixote do 
baile de máscaras, principalmente pela reação de Matchíguin ao vê-lo no salão: ―— 
Ótima sátira! Esses funcionários pensam que são muito importantes, gostam de usar 
uniformes e distintivos, agora são eles que estão na berlinda, e bem feito!‖ 
(SOLOGUB, 2008, p.360). Não seria improvável Fiódor Sologub ter-se integrado à sua 
obra, sendo este um procedimento do processo de criação simbolista (ver cap. I 
desta pesquisa). 
Bruce Holl aproxima O Diabo Mesquinho e Dom Quixote em várias direções, 
por episódios pontuais, mas sobretudo pela narração, que, em princípio, mostra-se 
confiável e objetiva ao descrever e separar da realidade e dos outros personagens as 
visões delirantes dos heróis, mas algumas vezes compartilha delas. Nas duas obras, 
mais na segunda, aqui e ali se deflagra a impossibilidade de definir fronteiras claras 
entre a lucidez e a loucura. Em Cervantes, em algumas ocasiões Sancho Pança, que 
tem a função de indicar ao cavaleiro a face objetiva e material do mundo, torna-se 
um cúmplice dele, além de Quixote mostrar-se algumas vezes com uma visão muito 
mais lúcida101 do que a do mundo que o rodeia (HOLL, 1989, p.543). 
Em O Diabo Mesquinho, Peredonov, à diferença de Dom Quixote, em boa parte 
da história não foi considerado um louco pelos moradores, sendo muitas vezes apoi-
ado por eles em suas ações: ―Ela [Varvara] pensava que talvez Ardalión Boríssytch 
tivesse razão em fazer os esconjuros (SOLOGUB, 2008, p.247)‖. No entanto, essa 
cumplicidade continuou evidente quando o professor indicava visíveis sinais de per-
turbação. Quando passou a receber cartas de Ardalión Peredonov com denúncias 
contra os conhecidos, o carneiro, as cartas de baralho, etc., o tenente-coronel 
__________________________ 
 
o que fazia, reparando em que era de ouro puríssimo, fundiu a outra metade para seu proveito, e 
desta fez isto que se parece com bacia de barbeiro, como tu dizes‖. SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. 
Dom Quixote. São Paulo, Abril Cultural, 1978, cap. XXI, p. 116. 
101
 Ver: SAAVEDRA, 1975, cap. XXI. 
116 
 
Rubóvski sabia que eram denúncias absurdas, mas algumas ―[...] ele conservou con-
sigo para qualquer eventualidade‖ (SOLOGUB, 2008, p.268). Mas não apenas a atua-
ção ao redor do professor torna o narrador pouco confiável, ou cúmplice dele. Como 
visto no capítulo I, a narração descreve as alucinações de Peredonov como parte da 
realidade, e essa articulação torna-se ainda mais flagrante na impecável construção 
da nedotýkomka, que será a seguir analisada. 
Quanto à leitura de Field e Ivanits, que consideram Peredonov uma inversão 
do cavaleiro errante, Holl discorda em parte por ambos levarem em consideração a 
versão romântica de Dom Quixote, sendo que não era por meio dela que Sologub 
normalmente discorria sobre o tema, mas segundo acepções do simbolismo. Para 
Holl (1989), o traço comum entre os dois personagens é o reconhecimento da insani-
dade do mundo e da própria impotência diante dele: 
Don Quixote‘s quest for his ideal underlies the quest of Peredonov. It is in 
the sense that Peredonov can most accurately be described as ―Don done 
over‖. [...] The tragedy of Don Quixote‘s death consists not so much in the 
loss of his ideal at death, as in the impotence of that ideal in his life. Society 
is surely implicated in this impotence [...] 
(HOLL, 1989, p. 551) 
Pode-se, sem dúvida, estabelecer uma relação de igualdade entre Dom Qui-
xote e Ardalión Peredonov pela identificação de uma realidade hostil e opressora: 
―Em todos os lugares, moravam pessoas estranhas a ele, inóspitas. Para Peredonov, 
talvez algumas estivessem tramando contra ele‖ (SOLOGUB, 2008, p. 152). Há, no 
entanto, uma diferença importante entre os dois personagens, também não 
desconsiderada por Holl. Na esfera da pequena burguesia, Peredonov afasta-se de 
Quixote, e é até mesmo possível tomá-lo por uma inversão da criação de Cervantes, 
como assinalou Ivanits (1973). Enquanto Dom Quixote sempre se manteve distante 
do mundo que tentava salvar, Ardalión Boríssytch Peredonov pertencia a ele: 
―Peredonov, in contradistinction to Dom Quixote, at the beginning of the novel per-
ceives the world no more no less lucidy than the people who surround him, i.e., the 
townspeople of Melkij bes‖ (HOLL, 1989, p.552). A aproximação entre os heróis se 
fortalece quando Ardalión Peredonov é percebido em sua expressão mítica, ou seja, 
117 
 
na progressão de sua loucura, então sobressaem dois heróis que buscam delinear o 
equilíbrio no caos e fracassam, apontando a impossibilidade do herói épico. 
A face quixotesca de Peredonov, portanto, revela-se quando o trickster desdo-
bra-se no herói cultural arcaico, daí as alucinações do professor, que nascem do caos 
de sua mente e da sociedade, ganham concretude e consistência na trama como for-
ças antagônicas cósmicas, e ele passa a guerrear com elas: 
[...] os tricksters mitológicos muitas vezes guerreiam com o herói, mas ao 
mesmo tempo são seus irmãos (pertencem ao mesmo mundo ‗próprio‘ ou 
chegam a ser até um segundo ‗eu‘ do próprio herói) 
(MELETÍNSKI, 2002, p.108) 
4.1. Nedotýkomka 
Dos inúmeros duelos travados por Peredonov, a nedotýkomka foi sua grande 
batalha. O aparecimento da nedotýkomka tem vários desdobramentos na trama e na 
loucura de Peredonov. 
Conforme indicou Greene (1985), o termo nedotýkomka, um neologismo, é 
formado pelos prefixos de negação ne (não) e do (até) e o verbo tykat, que pode sig-
nificar ―cutucar‖, ―fincar‖, ―cravar‖, ou seja, é uma criatura na qual não se pode fincar 
alguma coisa, algo impenetrável ou inalcançável. Na mesma direção, Pávlova (2007, 
p.272) observa que a palavra é também derivada de ―nedotroga (sensível, melindrosa, 
irritável); algo em que é impossível tocar (...)‖102. Eis umas das descrições de 
Peredonov ao lado da nedotýkomka: 
_____________ 
 
 102 
Há uma provável referência à formação do neologismo no romance V svoióm kráiu (Em minha 
terra, 1864) do crítico, filósofo, escritor e diplomata Konstantín Leontiev (1831-1891). No romance um 
médico de Moscou recorda sua infância: 
―Retratos do passado? Onde estão esses queridos retratos? Do pai esqueceu-se inteiramente, e graças 
a Deus! Da mãe recordava-se apenas na primeira infância. E que beleza de primeira infância! Mas será 
mesmo que ele não lembrava ao menos um pouco, que sequer uma pessoa não lhe contou como fora 
um menino selvagem, fraco, medroso, zangado? Ele tinha medo de vacas e de cachorros, de dormir 
perto da estufa branca, e também das visitas. As outras crianças, vermelhas e fortes, faziam algazarra, 
brincavam, brigavam, tinham jogos, atreviam-se a lutar, e ele era pálido e sozinho, como uma vela 
num canto da igreja.  
 
118 
 
Quando ele tentava apanhá-la, ela escapava velozmente, fugia para trás da 
porta ou para baixo do armário e, num minuto, ressurgia, tremia e o provo-
cava — cinza, ágil e disforme. 
(SOLOGUB, 2008, p.158) 
Há um famoso poema de 1899103 do próprio Sologub dedicado a 
nedotýkomka: 
Недотыкомка серая 
Всѐ вокруг меня вьется да вертится,- 
То не Лихо ль со мною очертится 
Во единый погибельный круг? 
 
Недотыкомка серая 
Истомила коварной улыбкою, 
Истомила присядкою зыбкою,- 
Помоги мне, таинственный друг! 
 
Недотыкомку серую 
Отгони ты волшебными чарами, 
Или наотмашь, что ли, ударами, 
Или словом заветным каким. 
 
Недотыкомку серую 
Хоть со мной умертви ты, ехидную, 
Чтоб она хоть в тоску панихидную 
Не ругалась над прахом моим. 
 
1 октября 1899 
 
Nedotýkomka cinza 
Em redor tudo não serpeia 
Em mim o Mal não delineia 
Num círculo pernicioso? 
 
Nedotýkomka cinza 
Extenuou-me