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2011_DanielaMountian_VOrig

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pelo lirismo e pelo apuro na linguagem, foi responsá-
vel por uma grande retomada no campo da poesia, que talvez, depois de Aleksándr 
Púchkin, que consagrou o modelo linguístico e poético russo usado até os dias de 
hoje, e de alguns outros poetas de sua época, tenha ficado um pouco à sombra dos 
grandes romances do século XIX: 
[o simbolismo] não só trouxe de volta a poesia russa ao cenário internacio-
nal, mas recriou a teoria da poesia como arte verbal, deixando de lado as 
questões ideológicas fora da esfera da obrigatoriedade [...]
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 SCHNAIDERMAN, B. Dostoiévski através do tempo: ―o romancista-filósofo‖, o público, a crítica. 
Turbilhão e semente: ensaios sobre Dostoiévski e Bakhtin. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p.39. 
 
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Foi de fato o simbolismo um movimento profundamente poético (todos os 
prosadores simbolistas, como Fiódor Sologub, eram também poetas), de característi-
cas cuja ―conceituação é original, não importada‖, como diz Bernardini (2005), e a 
começar pela do próprio símbolo. Ampliaram sua fundamentação (como fez 
Merejkóvski, Ivánov, esse já aqui mencionado, Biély, e outros) e passaram para a cria-
ção de símbolos novos. Aqui se recita um poema de Zinaida Híppius (1869-1945), A 
costureira, no qual Bernardini (2005, p.171) destacou a lógica da construção do sím-
bolo – parte-se do plano real, ―vindo em seguida o figurativo e o emocional‖: o cetim 
(figurativo) vermelho (emocional: sangue, amor) da costureira (plano real). 
A costureira 
(Tradução de Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos) 
 
Há três dias não falo com ninguém... 
Mas tenho ideias ávidas, malignas. 
Doem-me as costas, meu olhar se detém 
Em algo e só vê manchas azulinas. 
 
Plange o sino e da igreja e emudece, 
O tempo todo estou comigo, a sós. 
A seda rubro-ardente range e cede 
Sob a inábil agulha do retrós. 
 
Sobre o que ocorre há um selo impresso, 
O um e o outro estão como fundidos. 
Se aceito um, induzo-me ao recesso 
Do outro, o por detrás, o escondido. 
 
E esta seda me parece Flama, 
E agora não mais flama, talvez Sangue 
E o sangue um indício apenas do que chamas 
Amor, na pobre língua, língua exangue. 
 
O amor? Um som... E a esta hora tardia, 
Do depois, do que vem... não vou dizer. 
Não é flama, nem sangue... vê, rangia 
O cetim sob a agulha de coser. 
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 BERNARDINI, F. A. Simbolismo brasileiro (Alphonsus de Guimaraens) e simbolismo russo. In: 
CAVALIERE, A.; VÁSSINA, E.; SILVA, N. (Org.) Tipologia do simbolismo do simbolismo nas culturas 
russa e ocidental. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, p.169. 
 
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E na tradução da própria Aurora F. Bernardini, um poema de Aleksándr Blok 
(1880-1921), de 1903, que ele dedicou à estátua equestre da ponte Ánitchkov, de São 
Petersburgo. No poema aparecem articulados: a ponte (plano real); o cavalo e o ca-
valeiro da estátua (figurativo); a neblina, a água, o negror, o arquejar, etc. (elementos 
emocionais). 
Na ponte de gusa trouxeram na brida o 
Cavalo. Sob os cascos corria negra a 
Água. Arfava o cavalo. Neblina 
Sem lua. Na ponte, o arquejar, para sempre. 
 
Os cantos da água e os sons do ofegar 
Tão perto se alargam no caos circunstante 
Que mãos invisíveis rasgaram ao largo. 
No negror da água, pairando, o semblante. 
 
O ferro soante em um tom ecoou. 
Sumia o diferente e o eterno dormia. 
Chiando, no abismo a correia carregou 
A noite sem fundo em que nada mexia. 
 
Assim se passou. Sem moto ou tormento 
Fixou o cavalo seu eterno arquejar. 
E na brida enredado, tendido e silente 
Ficou o cavaleiro no seu despencar
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A experiência sinestésica proporcionada pelo símbolo foi incorporada por toda 
arte simbolista, como pelo compositor Aleksándr Skriábin (1872-1915), que relacio-
nou cores e sons em busca da ―arte total‖. Conduzia-se o simbolista russo à totali-
dade, ao fim de todas as fronteiras das artes, e, de novo, numa busca acompanhada 
da profunda angústia de não se poder alcançá-la: ―a arte dos simbolistas está pró-
xima da morte da arte‖ (NIVAT, 2005, p.37). 
Temas como a morte, a loucura e o suicídio, que aparecem no curso do século 
XIX, estão integrados a uma consciência cada vez mais próxima do descontínuo; e no 
simbolismo se chega com eles ao paroxismo. Em obras simbolistas, sobretudo nas 
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 BLOK, A. Na ponte de gusa trouxeram na brida o. Tradução Aurora F. Bernardini. Revista Kalinka, 
São Paulo, Jun. 2011. Disponível em: <http://www.kalinka.com.br/index.php?modulo=Revista&id=13>. 
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russas, não raro a primeira de todas as dualidades, caos versus cosmos, tem uma ex-
pressão quase mítica, o que pode ser conferido na poesia, na música, na prosa. A 
desconstrução do herói na prosa, o qual praticamente desaparece no modernismo, 
acontece com a ajuda da bela agonia dos artistas simbolistas. 
Também graças aos simbolistas houve um renascimento cultural russo na 
virada do século: ―o simbolismo é considerado um dos principais responsáveis pela 
renovação cultural por que passou a Rússia entre 1890 e 1910‖18. Essa renovação, que 
trouxe novas perspectivas em arte e filosofia e mudanças de valores e comporta-
mentos, pode dar ao simbolismo russo a posição de movimento (termo já usado aqui, 
mas que não pode ser aplicado a todos os lugares onde houve simbolismo). 
No modo de viver simbolista, havia um contágio entre a arte e a vida de per-
sonalidades frequentemente geniosas e dramáticas. O poeta Vladisláv 
Khodassiévitch19 (1886-1939) descreveu a sedutora ambiência simbolista, da qual 
fizerem parte grandes poetas, compositores, pintores e dramaturgos, e também fi-
guras que, mesmo não deixando uma obra tão significativa, representavam em sua 
pessoa o hiperbólico mundo simbolista. É o caso da escritora Nina Petróvskaia, que 
acabou se suicidando num hotel miserável de Paris no ano de 1928. O caráter de-
pressivo e intenso e os tormentos por que passou nas relações com Biély e depois 
com Briussóv, ele mesmo dono de um caráter insaciável, fizeram de Nina uma das 
figuras emblemáticas entre os simbolistas russos, que viviam e criavam por entre es-
ses destinos melancólicos: 
Os simbolistas não queriam separar a figura do escritor da sua pessoa, a vida 
literária da pessoal. O simbolismo não queria ser apenas uma escola de arte, 
uma corrente literária. O tempo todo se esforçou por ser um método de cri-
ação vital, e nisso consistia sua mais profunda e inabalável verdade. 
(KHODASSIÉVITCH, 1976, p.8) 
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 ANDRADE, H. Breves noções sobre o simbolismo na Rússia. In: CAVALIERE, A.; VÁSSINA, E.; SILVA, N. 
(Org.) Tipologia do simbolismo do simbolismo nas culturas russa e ocidental. São Paulo: 
Associação Editorial Humanitas, 2005, p.148. 
19
 KODASSIÉVITCH, V. Nekrópol. Paris: YMCA-PRESS, 1976. 
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A implicação do artista na sua criação, ou o ―método de criação vital‖, foi um 
recurso essencial ao processo criativo simbolista − ―a minha vivência transforma o 
mundo; aprofundando-me eu me aprofundo na arte‖20 −, e as obras evidenciaram 
esse contágio de muitas maneiras. Mas decerto havia alguma afetação narcisista 
nesse lado inebriante de suas vidas. 
À parte com suas idiossincrasias, o outro reflexo do movimento, a ampliação 
do panorama cultural russo, constitui um dos seus maiores legados. Foi um momento 
muito profícuo de intercâmbios. Organizaram-se diversos círculos, nos quais artistas 
e pensadores de todo gênero debatiam fervorosamente. Todos conheciam o grupo 
de Dmítri Merejkóvski e da bela Zinaida Híppius, que praticamente conduziram o 
movimento simbolista em Petersburgo