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2011_DanielaMountian_VOrig

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A obra de Sologub começou a aparecer em almanaques literários nos anos de 
1880 − em 1884 seu primeiro poema, a fábula Lissitsa i Ioj (A raposa e o ouriço), foi 
publicado numa pequena revista, a Vesná (Primavera). Enquanto servia em províncias 
do norte, ele enviava textos a revistas como Sviét (Luz), Illiustrírovannyi mir (Mundo 
(Ilustrado) e Lutch (Feixe de luz). O ano de 1896, de volta à Petersburgo havia alguns 
anos, marcou sua vida de escritor em definitivo quando publicou três livros: Stikhi 
(Poemas); Tiéni (Sombras, contos e versos); e o romance Tiajiólye sny (Sonhos maus). 
O pseudônimo Sologub, sobrenome de um antigo conde e escritor russo, foi 
escolhido em 1891 por Nikolai Mínski e Akim Volýnski, então editor da Siévernyi 
Viéstnik (Mensageiro do Norte), para evitar confusões com as iniciais do famoso poeta 
Fiódor Tiútchev (1803-1873): 
No ano de 1891 eu vim direto de uma província do norte a Petersburgo es-
pecialmente para ver Merejkóvski e Mínski. Eu não encontrei Merejkóvski na 
cidade, mas Mínski me recebeu com muito interesse. E com esse interesse e 
cordialidade ele passou a me receber dali em diante. Ele havia mandado 
meus versos a Siévernyi Viéstnik, onde haviam publicado algo com a assina-
tura de F. T., naquele tempo Tiútchev era muito famoso. Na redação surgiu 
uma conversa sobre a necessidade de eu usar um pseudônimo. Mínski e 
Volýnski pegaram um nome da província onde nasceram. Para mim, um na-
tivo de Petersburgo, seria totalmente absurdo tomar aquele pseudônimo. 
Então na redação começaram a procurar um nome ―aristocrático‖. Não sei 
por que eles acabaram em Sologub. [...] Eu estive indiferente a tudo isso, 
pois, em geral, o homem não escolhe o próprio nome – batizaram-me Fiódor 
sem pedir meu consentimento. 
(SOLOGUB, 1912) 
Sologub não escolheu seu nome de poeta, mas por causa dele conseguiu es-
capar da dura censura do período de Nicolau II, que deu prosseguimento à política 
conservadora do pai, Alexandre III. O assassinato do czar Alexandre II (1818-1881) 
abriu as portas para uma contrarreforma na Rússia; a autocracia religiosa era defen-
dida por nomes ultraconservadores como Konstantin Pobedonóstsev (1827-1907), 
procurador geral do Santo Sínodo, conselheiro e tutor dos czares Alexandre III (1845-
1894) e Nicolau II (1868-1918). O reinado de Nicolau II, de 1894 a 1917, representou 
um retrocesso em todas as áreas, inclusive culturalmente. Muitos periódicos foram 
fechados e inúmeras sanções foram aplicadas aos escritores e às ideias consideradas 
perigosas. Assim, sendo o professor Fiódor Kuzmítch Tetiérnikov um servidor público, 
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as autoridades não podiam fazer nada contra o escritor Fiódor Sologub, cujo nome, 
oficialmente, não constava em lugar nenhum. 
No mundo dos literatos e artistas, a imagem sombria de Fiódor Sologub cau-
sou alguma estranheza. Ninguém sabia ao certo de seu passado, a não ser que havia 
escrito um livro de geometria. Muitos se mostraram exultantes com sua obra, como 
Khodassiévitch, Tchulkhóv, Biély e Teffi (1872-1952), e o descreviam como um ho-
mem calado e que nunca sorria, sempre com o pincenê, as pernas cruzadas e os 
olhos entreabertos. Assim escreveu Khodassiévitch (1976, p.158): 
Alguns contavam como Sologub às vezes abandonava uma reunião repleta 
de pessoas que tinham ido visitá-lo – ele dirigia-se silenciosamente para o 
seu gabinete e ficava lá por muito tempo. Era um anfitrião hospitaleiro, mas 
sua ânsia de solidão era mais forte do que a sua hospitalidade. Quando, no 
entanto, na companhia de outras pessoas, era como se de vez em quando se 
ausentasse. Ouvia sem ouvir. Calava. Fechava os olhos. Dormia. Pairava em 
algum lugar, cuja porta de entrada estava vetada a nós. Chamavam-no de 
mago, feiticeiro, bruxo. 
Eu o vi pela primeira vez no início do ano de 1908, em Moscou, na casa de 
um literato. Ele já era aquele mesmo Sologub do conhecido retrato pintado 
com grande exatidão por Kustódiev. 
 
 
 
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Houve duas mulheres na vida de Fiódor Sologub: Olga Kuzmínichna, sua irmã, 
e Anastassia Nikoláevna, com quem ele casou depois da morte de Olga. Quando 
Sologub foi transferido para Kresty, levou com ele a irmã e a mãe, que faleceu em 
1894. Fiódor manteve uma relação forte e protetora com Olga, uma mulher contida, 
quase sempre de preto, que morreu de tuberculose em 1907, na época em que O 
Diabo Mesquinho foi publicado pela Chipóvnik e tornou-se muito popular. 
Sua esposa Anastassia Nikoláevna Tchebotariévskaia, conhecida pelo caráter 
enérgico, foi tradutora, dramaturga, crítica e sua colaboradora. Como Sologub, 
Tchebotariévskaia teve participação ativa na editora Chipóvnki, produziu textos críti-
cos sobre a obra do marido, e dizem que os últimos trabalhos de Sologub foram es-
critos em parceria com ela. Fiódor conheceu Anastassia em Petersburgo, numa das 
reuniões na casa de Ivánov, e casou-se com ela em 1908. Muitos poemas de Sologub 
foram dedicados à Olga e à Anastassia. 
 
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A vida pessoal de Sologub foi conservada longe do público. Na década de 
1910, já um famoso poeta e escritor, apenas fatos esparsos de sua biografia eram 
conhecidos. Questionado sobre isso em entrevista, Sologub (1912) disse: 
Antes de tudo e acima de tudo, considero todas as informações exteriores 
muito pouco elucidativas em relação à vida de uma pessoa. Importa mesmo 
saber que meu pai foi um camponês de Poltava, que minha mãe foi uma 
camponesa petersburguesa, e que eu nasci e cresci em Petersburgo? O que 
isso pode dizer a uma pessoa de fora, que me desconhece? Lendo essa 
breve lista de fatos superficiais, alguém de fora os enxerga de modo isolado, 
desarticulado, pois apenas para mim isso representa uma vida plena, organi-
camente coerente, na qual, por sinal, não há fronteiras claras – infância, ju-
ventude... –, nela tudo está integrado, e em toda parte eu sou um só. Final-
mente, a alma de qualquer acontecimento não está no exterior dele, mas em 
raízes psicológicas, com as quais o acontecimento foi admitido, vivenciado e 
sentido. Ao dar fatos desnudos, sem essa narrativa psicológica, diga-me, que 
sentido haverá nisso? 
(SOLOGUB, 1912) 
Além do mistério que o circundava, era lembrado pelo caráter genioso, não 
perdoava uma ofensa, e não raro estava cercado de pequenas discórdias. Contrariado 
com algum dos artigos de Biély ainda da época da Vessy, Sologub ouviu com desa-
grado um discurso proferido em sua homenagem pelo poeta, que profundamente o 
admirava. Comemoravam o sexagésimo aniversário de Fiódor Sologub (quase vinte 
anos depois do acontecido): 
[Biély] proferiu, como sempre, um discurso ―demasiadamente exaltado, im-
petuoso e entusiástico‖, nas palavras de um dos ouvintes. Ao terminar seu 
discurso, Biély abriu um sorriso, o entusiasmado e plástico de sempre, e 
apertou a mão de Sologub com muita força. Sologub franziu o rosto com 
asco e disse pausadamente e por entre os dentes: 
— O senhor está me machucando. 
E nada mais. O efeito do entusiástico discurso foi num átimo arruinado. 
Sologub se vingara. 
(KHODASSIÉVITCH, 1976, p.173) 
A imagem que muitos simbolistas trouxeram de Sologub talvez esconda um 
lado bastante prático de sua vida, para o qual Mikhail Bakhtin (1895-1975)33 chama a 
atenção. Pela origem muito pobre, Sologub lutou por uma situação estável,