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O meu Púchkin de Marina Ts - Paula 60

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seguiram a rotina das condenações políticas da época. Após um mês 
sob tortura no presídio de Lubianka, a moça “confessou” e foi condenada a oito 

























































53 Policia secreta do Partido Comunista da União Soviética. 
54 TODOROV, Tzvetan. “Prefácio”. In: Vivendo sob o fogo, p. 51. 
55 Tzvetan Todorov aponta duas razões possíveis para esta acusação: primeiro, a troca do chefe 
da NKVD resultou na eliminação daqueles que pertenceram ao grupo anterior; segundo, a 
confissão de Efron desempenharia papel central no processo de algum quadro ilustre do 
partido que viria a ser acusado de atos anti-stalinistas. (cf. Vivendo sob o fogo, p. 706-707). 

 

anos de trabalhos forçados no campo do Grande Norte, acusada de espionagem 
e atividade anti-soviética. Serguei Efron, por sua vez, jamais admitiu ter sido 
espião contra a União Soviética, e muito menos chefe de um grupo de espiões a 
serviço da França, mas foi devidamente condenado por crime de espionagem, 
dois anos após a sua prisão. 
Entretanto, Marina Tsvetáieva tentava inutilmente provar a inocência dos 
familiares, escrevendo cartas a burocratas do regime. Ariadna e Serguei 
continuavam presos e a poeta buscava em vão obter permissão para visitá-los. 
Sua vida cotidiana resumia-se ao trabalho doméstico, e ela quase não escrevia 
mais poemas. A última tentativa (infrutífera) de publicação data de 1940, e diz 
respeito a uma coletânea de poemas dedicados a Efron, escritos em 1920 e 
revisados para uma possível edição soviética. As suas condições materiais eram 
péssimas, o pouco rendimento que conseguia com traduções de poemas56 mal 
dava para o sustento seu e do filho. Tsvetáieva estava deprimida, pois tinha sido 
privada justamente daquilo “que lhe dava a sensação de viver: amor, criação 
artística, família.”57



Para Marina Tsvetáieva, cuya vida fue signada por el exilio, sólo la 
palabra escrita tenía el poder de anular la separación, de animar la 
ausencia, de saturar el deseo. (…) Existen muchos tipos de exilio: el 
más dolorosa tal vez sea el del retorno al país natal, el del destierro 
dentro de su propia tierra. Marina Tsvetáieva, con su clarividencia 
excepcional, y por haberlos vividos todos, no ignoraba la variedad de 

























































56 Na verdade, Tsvetáieva reescreve em versos traduções literais feitas a partir das mais diversas 
línguas, particularmente, dos poemas do georgiano Vaia Pchavela (1861-1915). 
57 TODOROV, Tzvetan. “Prefácio”. In: Vivendo sob o fogo, p. 59. 

 

los exilios. El poeta, por ser poeta es siempre un exilado: y por haber 
sido como poeta, revolucionaria, Marina fue víctima de la historia.58 


Em 1941, na noite de 21 para o dia 22 de julho, a Alemanha invadiu a 
URSS, e deu início aos bombardeios contra Moscou. A cidade foi evacuada. 
Marina Tsvetáieva deixou a capital em 8 de agosto. Depois de 20 dias de 
viagem, chegou com o filho a Elábuga, cidade pertencente à República do 
Tartaristão. Nesse momento, a última decisão parecia já ter sido tomada. Se 
deveriam morrer, seria ela a primeira. Antes de suicidar-se, escreveu três cartas: 
na primeira, destinada a quem encontrasse o seu corpo, ela pedia que 
acompanhassem o seu filho Gueórgui até a casa de certo escritor, para quem, 
aliás, endereçara a segunda carta, e na terceira, que era para o filho, reafirmava 
o amor pela família, e se dizia “num beco sem saída”. Em 31 de agosto, Marina 
Tsvetáieva enforcou-se. Fez-se o silêncio.59



































































58 Carta a la Amazona y otros escritos, p. 14. 
59 Com a entrada da Rússia na Segunda Guerra Mundial e a invasão de Moscou, os presídios 
precisavam ser esvaziados e, por isso, seus internos foram executados. Serguei Efron estava 
entre eles; foi fuzilado em outubro de 1941, um mês e meio após a morte de Tsvetáieva. 
Gueorgui Efron alista-se no Exército Vermelho e morre no front em 1944. Assim que termina 
sua pena, em 1947, Ariadna Efron é libertada. Em 1949 é detida novamente e, pelos mesmos 
motivos, é condenada à prisão perpétua, cumprida na Sibéria. Com a morte de Stálin, é 
finalmente libertada e dedica o resto de sua vida a reunir e publicar as obras de sua mãe. 
Ariadna Efron morre em julho de 1975.

 

 

Nota
geral
à
tradução



O
ensaio
Meu
Púchkin
 foi
publicado
pela
primeira
vez
no
número
64
da
 revista
 Notas
 contemporâneas
 (Современые
 Записки),
 em
 1937.
 Esta
tradução
baseou‐se
na
versão
publicada
em
Марина
Цветаева
–
в
завтра

речь
 держу...
 –
 Автобиографическая
 проза
 (Marina
Tzvetáieva
 –
 deixo
 as

palavras
 para
 amanhã...
 –
 Prosa
 autobiográfica),
 uma
 coletânea
 de
 textos
em
 prosa
 de
 Marina
 Tsvetáieva
 organizada
 por
 Anna
 Saakiants
 e
 Lev
Mukhin,
em
2005.


Com
o
intuito
de
proporcionar
ao
leitor
um
melhor
entendimento
da
obra,
serão
comentadas
nas
notas
de
rodapé
questões
relativas
à
tradução,
fatos
 da
 biografia
 de
 Tsvetáieva
 e
 de
 Púchkin,
 e
 os
 poemas
 deste
 que
aparecem
 citados
 pela
 autora.
 Nesse
 sentido,
 cabe
 dizer
 que
 na
 tradução
ora
apresentada,
procurou‐se
preservar,
na
medida
do
possível,
as
rimas
e
a
métrica
 dos
 originais.
 Desse
 modo,
 os
 versos
 iâmbicos
 e
 trocaicos
 dos
tetrâmicos
 puchkinianos
 na
 versão
 para
 o
 português
 foram
 recriados
 em
versos
octassílabos,
decassílabos
ou
dodecassílabos.


A
 poesia
 e
 a
 prosa
 de
 Marina
 Tsvetáieva
 distingue‐se
 por
 um
 uso
particular
do
tirete.
Além
dos
usos
habituais
da
língua
russa,
na
qual
o
sinal
gráfico
aparece
como
marca
do
verbo
“ser/estar”
(no
presente
do
indicativo
e
nos
 casos
de
 aposto
 e
de
orações
 explicativas)
 e
no
 lugar
dos
parêntesis
ou
 das
 vírgulas
 (a
 exemplo
 do
 que
 se
 passa
 em
 português),
 a
 escritora
 se
vale
desse
meio
tipográfico
para
dar
maior
destaque
a
palavras
e
 frases
do


 

seu
discurso.
Nos
escritos
de
Tsvetáieva,
o
tirete
faz
as
vezes
de
um
sinal
de
igualdade,
 de
 equivalência.
 Sendo
 assim,
 em
nossa
 tradução
 reproduzimos
todos
 os
 tiretes
 que
 aparecem
 no
 original,
 com
 exceção
 daqueles
 que
substituem
o
verbo
“ser/estar”,
pois
tal
recurso
nem
sempre
é
praticável
na
língua
portuguesa.





 




















 

 
 
 
 
 
Meu Púchkin 
 
Marina Tsvetáieva 















 

Começa
 como
 um
 capítulo
 do
 romance
 de
 cabeceira
 de
 todas
 as
nossas
mamães
e
vovós
–
“Jane
Eyre”
–
O
segredo
do
quarto
vermelho.60


No
quarto
vermelho
havia
um
armário
secreto61.



Mas,
antes
do
armário
secreto,
havia
outra
coisa,
havia
um
quadro
no
quarto
de
mamãe
–
“O
duelo”62.

Neve,
 galhos
 negros
 de
 arbustos,
 dois
 homens
 negros
 arrastam
 um
terceiro
 pelas
 axilas
 para
 o
 trenó
 –
 e
 um
 ainda,
 outro,
 que
 se
 afasta
 de
costas.
O
arrastado
é
Púchkin,
o
que
se
afasta
–
d’Anthès.
D’Anthès
desafiou
Púchkin
para
um
duelo,
ou
seja,
atraiu‐o
para
a
neve
e,
lá,
entre
os
arbustos
negros
e
desfolhados,
matou‐o.

A
primeira
coisa
que
eu
 fiquei
sabendo
de
Púchkin
 foi
–
que
o
tinham
matado.
Depois,
 fiquei
sabendo
que
Púchkin
era
um
poeta
e
d’Anthès
–
um
francês.
 D’Anthès
 cismara
 de
 odiar
 Púchkin,
 porque
 ele
 próprio
 não
 era
capaz
de
escrever
versos,
e
desafiou‐o
para
um
duelo,
ou
seja,
atraiu‐o
para
a
neve
e,
 lá,
com
um
tiro
de
pistola
na
barriga,
matou‐o.
Eu
tinha
três
anos
quando
fiquei
sabendo
que
poeta
tem
barriga
e
–
penso
em
todos
os
poetas
com
 os
 quais
 algum
 dia
me
 encontrei
 –
 com
 essa
 barriga
 de
 poeta,
 quase
sempre
vazia
e
pela
qual
Púchkin
 foi
morto,
preocupava‐me
não
menos
do
que
 com
sua
alma.
O
duelo
de
Púchkin
 fez
nascer
em
mim
a
 irmã.
 Eu
diria

























































60
 Jane
 Eyre:
 romance
 da
 escritora
 inglesa
 Charlotte
 Brontë
 (1816‐1855).
 O
 segredo
 do
quarto
vermelho
é
um
episódio
da
infância