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Resumo Perda de Sangue

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Sidney Ferreira de Moraes Neto
Módulo
Perda de Sangue
Campo Grande 
2017
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
Resumo de Perda de Sangue
Problema 1
Metabolismo e Efeitos do Álcool
Depois da administração oral, o etanol é rapidamente absorvido no estômago e no
intestino delgado e levado à corrente sanguínea, onde se distribui na água corporal total
(0,5-0,7 L/kg). Os níveis sanguíneos máximos ocorrem cerca de 30 min depois da
ingestão do etanol quando o estômago está vazio. Como a absorção ocorre mais
rapidamente no intestino delgado que no estômago, os fatores que retardam o
esvaziamento gástrico (p. ex., presença de alimentos) prolongam a absorção do etanol.
Em virtude do metabolismo de primeira passagem, cujas reações são dependentes
das álcool-desidrogenases (ADHs) gástrica e hepática, a ingestão oral do etanol resulta
em NSA menores do que seriam observados se a mesma quantidade fosse administrada
por via intravenosa. O metabolismo gástrico do etanol é menor nas mulheres que nos
homens e isso pode contribuir para a maior sensibilidade das mulheres ao álcool. O ácido
acetilsalicílico aumenta a biodisponibilidade do etanol porque inibe a ADH gástrica.
O etanol é metabolizado principalmente pela oxidação hepática sequencial,
primeiro em acetaldeído pela ADH e depois em ácido acético pela aldeído-
desidrogenase (ALDH). Todas as etapas metabólicas necessitam de NAD+; deste modo,
a oxidação de 1 mol de etanol (46 g) em 1 mol de ácido acético requer 2 mol de NAD+
(cerca de 1,3 g). Essa quantidade é muito maior que o suprimento de NAD+ no fígado; na
verdade, a disponibilidade deste composto limita o metabolismo do etanol a cerca de 8 ou
10 g/mL (cerca de 170 mmol) por hora em adultos de 70 kg, ou cerca de 120 mg/kg/h.
Desse modo, o metabolismo hepático do etanol esgota-se funcionalmente com níveis
sanguíneos relativamente baixos, em comparação com os NSAs elevados atingidos; além
disso, o metabolismo do etanol é um processo de ordem zero (quantidade constante por
unidade de tempo). Quantidades pequenas de etanol são excretadas na urina, no suor e
no ar expirado, mas o metabolismo em acetato é responsável pela excreção de 90-98%
do etanol ingerido, principalmente devido ao metabolismo hepático pela ADH e pela
ADLH.
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
Uma enzima do citocromo P450 hepático, CYP2E1, também pode contribuir,
especialmente quando as concentrações de etanol são mais altas e em condições como o
alcoolismo, no qual sua atividade pode estar induzida. A catalase também pode converter
o etanol em acetaldeído, mas a disponibilidade de H2O2 no fígado geralmente é muito
pequena para resistir ao fluxo significativo de etanol por essa via metabólica. Embora
geralmente não seja um fator significativo no metabolismo do etanol, a CYP2E1 pode ser
uma enzima importante nas interações do etanol com outros fármacos. Essa enzima é
induzida pelo consumo crônico de etanol, aumentando a depuração dos seus substratos e
a ativação de algumas toxinas como o CCl4. Entretanto, a depuração dos mesmos
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fármacos pode ser reduzida depois do consumo agudo de etanol, porque o álcool
compete com eles pela oxidação por meio desse sistema enzimático (p. ex., fenitoína e
varfarina).
O aumento expressivo da relação entre NADH:NAD+ hepáticos durante a oxidação
do etanol tem consequências profundas, além de limitar sua taxa de metabolismo. As
enzimas que dependem do NAD+ são inibidas e, desse modo, o lactato acumula-se, a
atividade do ciclo do ácido tricarboxílico diminui e a acetilcoenzima A (acetil-CoA)
acumula-se (e é produzida em quantidades maiores a partir do ácido acético derivado do
etanol). A combinação dos aumentos do NADH e da acetil-CoA favorece a síntese dos
ácidos graxos e o armazenamento e a acumulação dos triacilglicerídeos. Os corpos
cetônicos são formados em seguida e agravam a acidose láctica. O metabolismo do
etanol pela CYP2E1 produz quantidades aumentadas de NADP+, limitando a
disponibilidade do NADHP para a regeneração da glutationa reduzida (GSH) e, desse
modo, acentuando o estresse oxidativo.
Os mecanismos responsáveis pela doença hepática induzida pelo consumo maciço
de etanol provavelmente refletem uma combinação complexa desses fatores metabólicos,
a indução da CYP2E1 (e o aumento da oxidação das toxinas e da formação de H2O2 e
radicais do oxigênio) e, possivelmente, a liberação de quantidades aumentadas de
endotoxina em consequência do efeito do álcool na flora gram-negativa do trato GI. Os
efeitos da ingestão maciça de etanol nos diversos órgãos estão resumidos a seguir; a
lesão dos tecidos quase certamente reflete o estado nutricional precário dos alcoólicos
(desnutrição e carências das vitaminas A e D e de tiamina), a supressão da função
imunológica pelo etanol e vários outros efeitos generalizados.
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Efeitos do Etanol nos Sistemas Fisiológicos
William Shakespeare descreveu os efeitos farmacológicos agudos da ingestão de
etanol na cena do Porteiro (ato 2, cena 3) de Macbeth. O Porteiro, despertado do sono
induzido por álcool por Macduff, explica os três efeitos do álcool e depois fala sobre um
quarto efeito que combina os aspectos contraditórios do excesso de confiança com a
limitação física: 
➔ Porteiro: …e a bebida, senhor, é um grande provocador de três coisas.
➔ Macduff: Quais são as três coisas que a bebida provoca especialmente?
➔ Porteiro: Ora, senhor, nariz vermelho (vasodilatação cutânea), sono
(depressão do SNC) e urina (em decorrência da inibição da secreção do
hormônio antidiurético [vasopressina]), agravada pela ingestão voluntária de
maiores quantidades de líquidos. A lascívia, senhor, a bebida provoca e deixa
sem efeito: provoca o desejo, mas impede sua execução. Por isso, pode-se
dizer que a bebida em quantidade usa de subterfúgios: ela cria a lascívia e a
destrói; anima o homem e desencoraja-o; o faz ficar de pé e depois o obriga a
recolher-se (a fugir dos desejos imaginários que o corpo cavernoso não pode
satisfazer). Em suma, leva-o a dormir com muita lábia e, lançando-lhe o
desmentido, abandona-o à sua própria sorte.
Pesquisas mais recentes acrescentaram detalhes à descrição de Shakespeare —
ver acréscimos entre colchetes às palavras do Porteiro reproduzidas no parágrafo
precedente e a seção sobre os efeitos do álcool nos sistemas do corpo, que é
apresentada adiante —, mas as consequências mais notáveis do uso recreativo do etanol
também são bem resumidas pelo Porteiro gregário e tagarela, cuja conduta encantadora e
maliciosa demonstra a influência comumente observada das concentrações modestas de
etanol no SNC. As próximas seções detalham os efeitos do etanol nos sistemas
fisiológicos.
Sistema Nervoso Central
Embora as pessoas geralmente vejam as bebidas alcoólicas como estimulantes, o
etanol é basicamente um depressor do SNC. A ingestão de quantidades moderadas de
álcool, assim como de outros depressores como os barbitúricos e os benzodiazepínicos,
pode ter ações ansiolíticas e produzir desinibição comportamental em uma ampla
variação de doses. Os sinais específicos de intoxicação variam de afeto expansivo e vivaz
a oscilações descontroladas do humor e a explosões emocionais que podem ter
componentes violentos. Nos casos de intoxicação mais grave, as funções do SNC
geralmente são deprimidas e, por fim, instala-se uma condição semelhante à anestesia
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geral. Entretanto,