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Resumo Perda de Sangue

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pela bebida alcoólica e outras drogas de abuso,
assim como com os sintomas de abstinência e os humores negativos relacionados com
problemas com a regulação dos sistemas cerebrais de recompensa ricos em DA. A
atividade dopaminérgica do núcleo acumbente é afetada por vários tipos de receptores
opioides e a ingestão aguda de etanol provoca a liberação de β-endorfinas. Em seguida,
essas ações ativam os receptores opioides μ do tegmento ventral e do núcleo acumbente,
resultando na liberação de DA. Desse modo, muitos dos efeitos do álcool no sistema de
recompensa e as alterações das formas como o SNC reage ao etanol (inclusive
sensibilização) podem estar relacionados com as alterações dos sistemas opioides.
A administração aguda de etanol está associada ao aumento significativo da
quantidade de 5-HT na fenda sináptica; o uso continuado de etanol provoca hiper-
regulação dos receptores da 5-HT. Os níveis mais baixos desse neurotransmissor na
sinapse, talvez relacionados com a recaptação mais rápida pelo transportador de 5-HT,
estão associados aos níveis mais altos de ingestão alcoólica e, possivelmente, aos graus
mais baixos de intensidade da reação às bebidas alcoólicas. As alterações dos sistemas
dopaminérgicos provavelmente também estão relacionadas com alterações dos níveis de
5-HT.
Os receptores canabinoides, principalmente o CB1 codificado pelo gene CNR1,
também são afetados pelo etanol. O CB1 é um GPCR expresso em grandes quantidades
no tegmento ventral, no núcleo acumbente e no córtex pré-frontal. A ativação do CB1
ocorre com a administração de etanol e afeta a liberação de DA, GABA e glutamato,
assim como os circuitos de gratificação do cérebro. Os antagonistas dos receptores CB1
(p. ex., rimonabanto) podem bloquear o efeito do etanol nos sistemas dopaminérgicos.
Proteinocinases e enzimas sinalizadoras
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
Os camundongos nocautes que não possuem a isoforma γ da PKC têm efeitos
atenuados do etanol aferidos por parâmetros comportamentais e supressão da
acentuação dos efeitos do GABA produzidos pelo etanol in vitro. As cascatas
intracelulares de transdução dos sinais (p. ex., MAPK, tirosinocinases e receptores dos
fatores neurotróficos) também parecem ser afetadas pelo etanol. A translocação da PKC e
da PKA entre os compartimentos subcelulares também é sensível ao álcool.
O etanol aumenta as atividades de várias isoformas da adenililciclase, mas a AC7 é
mais sensível. Isso aumenta a produção do AMP cíclico e, deste modo, amplia a atividade
da PKA. As ações do etanol parecem ser mediadas pela ativação da Gs e pela facilitação
da interação entre Gs e adenililciclase.
Consumo de etanol e função do SNC
O etanol causa uma série de efeitos relativamente comuns e transitórios com taxas
de prevalência relativamente altas, que refletem as alterações do sistema GABA que
geralmente são causadas pelos depressores do SNC. As doses altas de etanol podem
interferir com a codificação das memórias e causar amnésias anterógradas, geralmente
conhecidas como blecautes alcoólicos; os pacientes afetados não conseguem lembrar de
parte ou de todas as experiências que tiveram durante o período de ingestão maciça.
Mesmo com apenas 2 ou 3 drinques, a ingestão de etanol pode produzir alterações dos
padrões de sono, com despertares frequentes e sono inquieto; as doses altas estão
associadas a sonhos vívidos e perturbadores em consequência da supressão mais
precoce da fase de movimentos oculares rápidos do sono noturno pelos níveis
sanguíneos mais altos de etanol. Talvez em consequência do efeito do etanol nas
respirações e também seus efeitos relaxantes musculares, a ingestão maciça pode
causar apneia do sono, principalmente nos pacientes alcoólicos idosos. Os efeitos
neurológicos centrais transitórios da ingestão maciça de etanol que causam a “ressaca”
— a síndrome da “manhã seguinte” evidenciada por cefaleia, sede, náuseas e disfunção
cognitiva —, contribuem com grande parte do tempo de afastamento do trabalho e da
escola e podem ser causados por mecanismos semelhantes aos envolvidos na
abstinência branda do álcool, na desidratação e/ou na acidose branda.
Estudos demonstraram que a ingestão maciça e crônica de álcool aumenta a
probabilidade de desenvolver um deficit cognitivo mais duradouro conhecido como
demência alcoólica. Entretanto, os sinais de déficits cognitivos e atrofia cerebral
observados pouco depois de um período de ingestão maciça provavelmente regridem ao
longo das semanas ou dos meses seguintes em abstinência.
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
A deficiência de tiamina associada ao consumo maciço de álcool contribui para as
síndromes de Wernicke-Korsakoff; contudo, a ataxia e a
oftalmoparesia da síndrome de Wernicke e as amnésias anterógrada e retrógrada graves
da síndrome de Korsakoff são encontradas em menos de 1% dos pacientes alcoólicos
crônicos. Outras síndromes neurológicas graves associadas à ingestão maciça de álcool
incluem a degeneração cerebelar com atrofia associada do verme cerebelar (cerca de 1%
dos alcoólicos) e a neuropatia periférica (detectada em cerca de 10% dos alcoólicos). Os
mecanismos específicos envolvidos na lesão do cerebelo e dos nervos periféricos ainda
não foram definidos em definitivo.
Doses maciças de álcool ingeridas ao longo de vários dias ou semanas também
foram associadas às síndromes psiquiátricas “induzidas pelo álcool”, que são transitórias,
mas perturbadoras. Cerca de 40% dos indivíduos alcoólicos desenvolvem sintomas
depressivos relacionados com o álcool, que podem incluir pensamentos e
comportamentos suicidas transitórios. Do mesmo modo, diversos estados de ansiedade,
inclusive os que se caracterizam por ataques de pânico e ansiedade generalizada, são
prováveis em uma minoria expressiva dos pacientes dependentes do álcool durante a
síndrome de abstinência. 
Talvez 3% dos homens e das mulheres dependentes do álcool relatem vivenciar
alucinações auditivas e ilusões paranoides transitórias semelhantes à esquizofrenia, que
começam durante os períodos de intoxicação maciça; todas essas síndromes
psiquiátricas provavelmente melhoram expressivamente em alguns dias ou um mês em
abstinência, com sintomas residuais brandos continuando a melhorar depois deste
intervalo. Embora não existam dados definitivos acerca dos mecanismos desses
transtornos psiquiátricos induzidos pelo álcool, é lógico supor que as alterações que o
etanol produz nas vias neurológicas centrais (níveis de NE e 5-HT, equilíbrio entre as
atividades dos receptores GABAA e NMDA, atividade dopaminérgica) possam atuar
nestes casos, algo semelhante ao que se observa com a depressão, a ansiedade e os
distúrbios esquizofrênicos.
Sistema Cardiovascular
A ingestão de mais de três drinques comuns por dia aumenta o risco de ataques
cardíacos e acidentes vasculares encefálicos hemorrágicos. Na verdade, as doenças
vasculares estão entre as causas principais de morte precoce entre os pacientes
alcoólicos. Esse risco inclui um aumento de 6 vezes do risco de doença arterial
coronariana, predisposição às arritmias cardíacas e alta incidência de insuficiência
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
cardíaca congestiva. As causas são complexas e as observações são dificultadas por
alguns efeitos favoráveis produzidos por pequenas doses de etanol.
Lipoproteínas séricas e efeitos cardiovasculares
Em muitos países, o risco de mortalidade atribuída à cardiopatia coronariana (CC)
correlaciona-se com a ingestão