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como definido no parágrafo 3º, 
ou em função de outros critérios universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito 
internacional, relacionados com qualquer ato referido neste parágrafo ou com qualquer crime da 
competência do Tribunal; 
i) Desaparecimento forçado de pessoas; 
j) Crime de apartheid; 
k) Outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande 
sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental. 
 
Crimes de lesa-humanidade e imprescritibilidade 
Assim, como visto acima, o direito costumeiro internacional define como crimes de lesa-humanidade 
condutas como desaparecimentos forçados, execuções sumárias de pessoas ("execuções extrajudiciais"), 
tortura e outros delitos cometidos no contexto de ataque sistemático ou generalizado à população civil. 
 Informativo 
comentado 
 
 
 
Informativo 888-STF (11/01/2018) \u2013 Márcio André Lopes Cavalcante | 14 
Os delitos de lesa-humanidade devem ser submetidos à jurisdição universal e declarados imprescritíveis, 
conforme prevê a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a 
Humanidade, adotada pela Resolução 2391 da ONU. 
Por força desta Resolução, nos termos de seu artigo 3º, os Estados Membros obrigam-se a adotar todas 
as medidas internas, de ordem legislativa ou outra, que sejam necessárias a fim de permitir a extradição. 
Esta Resolução 2391 não foi ratificada pelo Estado brasileiro. Apesar disso, a Corte Interamericana de 
Direitos Humanos já decidiu, em diversas oportunidades, que os Estados integrantes do sistema 
interamericano de direitos humanos (dentre eles, o Brasil) deverão reconhecer a imprescritibilidade dos 
crimes de lesa-humanidade e punir os suspeitos de sua prática. Nesse sentido: Caso Barrios Altos versus 
Peru, mérito, sentença de 14 de março de 2001, par. 41; Caso La Cantuta, mérito, sentença de 29 de 
novembro de 2006, par. 152; e Caso Do Massacre de Las Dos Erres, sentença de 24 de novembro de 2009, 
par. 129. 
 
Crimes de lesa-humanidade não são imprescritíveis no Brasil 
O fato de o Estado requerente ter qualificado os delitos imputados ao extraditando como de lesa-
humanidade não torna tais crimes imprescritíveis no Brasil. São duas as razões para se chegar a esta 
conclusão: 
1) o Brasil não subscreveu a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes 
contra a Humanidade, nem aderiu a ela. Isso significa que a cláusula de imprescritibilidade penal que 
resulta dessa Convenção das Nações Unidas não se aplica, não obriga nem vincula, juridicamente, o Brasil, 
quer em sua esfera doméstica, quer no plano internacional. 
Não se pode querer aplicar, no plano doméstico, uma convenção internacional de que o Brasil nem sequer 
é parte, invocando-a como fonte de direito penal, o que se mostra incompatível com a CF/88. 
2) apenas a lei interna (lei brasileira) pode dispor sobre prescritibilidade ou imprescritibilidade de crimes 
no Brasil. Sendo o tema prescrição relacionado com o direito penal, deve-se concluir que ele está 
submetido ao princípio constitucional da reserva absoluta de lei formal, exigindo lei em sentido formal. 
Em matéria penal, prevalece, sempre, o postulado da reserva constitucional de lei em sentido formal. 
O Brasil não é, portanto, signatário de tratado internacional que determine a imprescritibilidade de crimes 
contra a humanidade. No entanto, ainda que houvesse norma de direito internacional de caráter cogente 
que estabelecesse a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, tal norma não encontraria 
aplicabilidade em nosso país. Isso porque, para que aqui pudesse valer, seria necessário que houvesse 
uma lei interna em sentido formal. 
 
Não se aplica ao Brasil a imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade 
Vale ressaltar ainda que o Estatuto de Roma não se aplica ao caso em análise porque os delitos teriam 
sido praticados pelo extraditando em 1973 e este tratado é posterior a isso, havendo, portanto, proibição 
de sua incidência com base no art. 5º, XV, da CF/88, segundo o qual \u201ca lei penal não retroagirá, salvo para 
beneficiar o réu\u201d. 
Assim, não importa qual o status jurídico que se atribua ao Estatuto de Roma (norma supralegal ou norma 
constitucional), o certo é que ele nunca poderia retroceder para prejudicar o réu. 
 
Não se aplica o art. 27 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados 
O art. 27 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados (Decreto 7.030/2009) prevê o seguinte: 
Artigo 27 
Direito Interno e Observância de Tratados 
Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento 
de um tratado. (...) 
 
 Informativo 
comentado 
 
 
 
Informativo 888-STF (11/01/2018) \u2013 Márcio André Lopes Cavalcante | 15 
O Brasil, ao negar a extradição com base no fato de o delito estar prescrito segundo a lei brasileira, violou 
o art. 27 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados? 
NÃO. O próprio Tratado de Extradição Brasil-Argentina proíbe a concessão da extradição \u201cquando a ação 
ou a pena já estiver prescrita, segundo as leis do Estado requerente ou requerido\u201d (art. III, c). 
Desse modo, o Brasil não está descumprindo o tratado com base em uma lei interna. Ao contrário, ele 
está aplicando fielmente o tratado ao exigir o requisito da dupla tipicidade. 
 
Em suma: 
O fato de o Estado requerente ter qualificado os delitos imputados ao extraditando como de lesa-
humanidade não torna tais crimes imprescritíveis no Brasil. Isso porque: 
1) o Brasil não subscreveu a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes 
contra a Humanidade, nem aderiu a ela; 
2) apenas a lei interna pode dispor sobre prescritibilidade ou imprescritibilidade de crimes no Brasil. 
STF. Plenário. Ext 1362/DF, rel. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Teori Zavascki, julgado em 9/11/2016 
(Info 846). 
STF. 1ª Turma. Ext 1270/DF, Rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 
12/12/2017 (Info 888). 
 
A 2ª tese do Estado requerente foi acolhida pelo STF? 
SIM. Com relação ao crime de sequestro, é possível considerar que se trata de crime ainda em curso, uma 
vez que as vítimas de Gonzales continuam desaparecidas. 
O crime de sequestro, por ser permanente, não prescreve enquanto não for encontrada a pessoa ou o 
corpo. 
STF. 1ª Turma. Ext 1270/DF, Rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 
12/12/2017 (Info 888). 
 
 
 
EXERCÍCIOS 
 
Julgue os itens a seguir: 
1) A imunidade formal prevista no art. 51, I, e no art. 86, caput, da CF/88 não se estende para os 
codenunciados que não se encontrem investidos nos cargos de Presidente da República, Vice-Presidente 
da República e Ministro de Estado. ( ) 
2) (Promotor MP/SP 2015) Compete privativamente ao Congresso Nacional autorizar, por dois terços de 
seus membros, a instauração de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os 
Ministros de Estado. ( ) 
3) (Promotor MP/RS 2017) Compete à Câmara dos Deputados autorizar, por dois terços de seus membros, 
a instauração de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado, 
julgando-os nos crimes de responsabilidade. ( ) 
4) Verificado empate no julgamento de ação penal, deve prevalecer a decisão mais favorável ao réu. ( ) 
5) O habeas corpus pode ser empregado para impugnar medidas cautelares de natureza criminal diversas 
da prisão. ( ) 
6) O crime de sequestro, por ser permanente, não prescreve enquanto não for encontrada a pessoa