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Silvia (tese) completa

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significar facilitação para um novo pedido de ajuda ou facilitação para suportar a 
espera do início de um outro processo” (MAHFOUD, M. 1987 p 82). 
A partir daí, passei a preocupar-me em tentar compreender como uma 
entrevista de triagem poderia tornar-se uma intervenção psicológica significativa. 
Penso que antes de abordar esta aspecto do meu interesse, é necessário refletir 
sobre esta modalidade de atendimento psicológico e suas especificidades. 
 
8 Minha dissertação de Mestrado versou sobre trabalho (Grupos de Espera) com clientes já triados, 
que aguardavam diagnóstico psicológico para seus filhos. 
9 O autor não se detém na expressão referência-existencial, mas a interpreta como significando que a 
sessão com a cliente pode se transformar em um momento significativo, um marco na vida do cliente, 
ao qual ele poderá ‘retornar’ como ponto de referência para orientar-se no decorrer de sua existência 
9 
 
 
 
 
II 
PRATIQUEMOS! 
 
 
 
10 
Triagem, do francês triage, significa “seleção, escolha; separação”1 e 
tradicionalmente esta tem sido a finalidade destas entrevistas. Seus objetivos 
costumam ser : 
 
- verificar se o cliente se adequa aos tipos de atendimento que a 
instituição oferece; 
- inscrevê-lo no setor apropriado; 
- encaminhá-lo para outra agência de atendimento, se for o caso. 
 
Em instituições de atendimento gratuito, normalmente a população que as 
procura não tem condições de arcar com os gastos de um acompanhamento 
psicológico particular. O encaminhamento, portanto, torna-se extremamente difícil, 
pois o problema da demanda excessiva é antigo e geral2. 
Nestas instituições, as entrevistas de triagem costumam ser a porta de 
entrada do cliente. É o momento em que eles vêm, necessitados de ajuda, querendo 
obter algum resultado imediato ou ter a garantia de que algo será feito rapidamente. 
Paralelamente, porém, há certo desânimo e desesperança porque, com freqüência 
estas pessoas viveram atendimentos ineficientes, encaminhamentos inúteis e 
esperas intermináveis. 
Por sua vez, os psicólogos os atendem frequentemente carregados de 
ansiedade por saberem de antemão que terão dificuldades em dar-lhes o 
encaminhamento adequado, porque a procura é muito maior do que as vagas 
disponíveis . Esta realidade que, no Brasil, atinge níveis dramáticos (seis meses a 
dois anos de espera),3 também não deixa de existir em países do primeiro mundo, 
como atestam trabalhos de Freund, Russel e Schweitzer (1991), Folkins (1980), e 
Schueman(1980). Nestes casos, porém, fala-se em dias de espera! 
Em levantamento feito em clínicas-escola de São Paulo que, acredito, 
refletem a situação geral das instituições de saúde, Ancona-Lopez, M. (1986) coloca: 
 
1 BUARQUE DE HOLANDA (1987, p 1417). 
2 Conforme pesquisa realizada por Marília ANCONA-LOPEZ (1986) 
3 I nf or m aç ão ob t i da at ravés de levan t am ent o in form al , já que não é esse o pr opósi t o dest e 
t rabalho. 
11 
(...) o fato é que os clientes são encaminhados para outras instituições 
porque não podem ser atendidos naquelas que procuraram, mas sem 
nenhuma garantia de que a situação que encontrarão no novo local 
será diferente. O sucesso das indicações não é verificado por quem as 
faz. Será o encaminhamento realizado na crença de que poderá ser 
efetivo? (p 55). 
Prossegue a autora 
(...)parece-nos que o encaminhamento é a saída que o profissional 
encontra diante da impossibilidade de responder satisfatoriamente ao 
pedido de atendimento: indicar outro local funcionaria como forma de 
apaziguamento, deixando o profissional com a sensação de ter feito 
algo pelo cliente. (idem p 56) 
Uma mudança de atitude dos psicólogos que atuam em instituições que 
enfrentam o problema da demanda pode levá-los a ver nas entrevistas de triagem 
uma oportunidade de engajarem os clientes no seu próprio atendimento, tornando-
os responsáveis pelo seu problema e não iludi-los com a possibilidade, que vai se 
mostrar irreal para a maioria, de encaminhamento para um atendimento de longa 
duração. Além disso, facilitar, propiciar ou estar disponível para que algo aconteça 
durante estas entrevistas poderá torná-las um momento importante na vida do 
cliente, influenciando inclusive seu percurso e seu destino dentro e fora da 
instituição. 
A atitude usual4 nas entrevistas de triagem é considerar esta atividade pouco 
mais que uma coleta de dados sobre os quais se organiza um sumário – raciocínio 
clínico que vai orientar o encaminhamento. Nas palavras de Vilarinho: 
(...) os pedidos de atendimento distribuem-se em duas 
categorias distintas: os pedidos elegíveis que atendem aos critérios 
institucionais – as pessoas serão inscritas como clientes, como num 
ritual de passagem – e aguardarão a chamada para início do 
atendimento, e os não-elegíveis, que não atenderam aos critérios 
estabelecidos e, portanto, serão encaminhados ou reencaminhados 
para outras instituições. (1992). 
A escuta e o olhar do psicólogo triador tornam-se selecionadores e ele ficará 
ocupado, fazendo um levantamento das práticas psicológicas oferecidas pelas 
instituições que conhece (a sua e as outras), para poder decidir em que fila de 
espera colocará a pessoa que está à sua frente. Ele não consegue ver o novo que 
 
4 No início deste ano, 1996, um grupo de profissionais que atua nas instituições de atendimento 
psicológico vem se reunindo para discutir os procedimentos de triagem. Estes encontros organizados 
pelo Dr. Mauro Hergemberg, no Sedes Sapientiae, denominados “Reunião de Triadores”, mostram as 
inquietações que cercam esta atividade e que a atitude em relação a ela está mudando. 
12 
lhe é trazido, pois habituou-se a pensar de forma fragmentada, privilegiando mais as 
especialidades que tem a oferecer do que as necessidades do cliente. Pode-se, 
aqui, fazer um paralelo com o que Jurandir Freire da Costa relata em seu livro 
História da Psiquiatria no Brasil (1989): 
O psiquiatra não mais se dispõe a ouvir. Ele passa a falar antes 
de escutar, a buscar, antes de ser procurado. Não mais acompanha a 
loucura, antecipa-a. Corre em frente, monta o hipogrifo5 e promete 
reconduzir, a todos quantos o seguirem, ao lugar onde se encontra a 
razão perdida. (p64) 
Evidentemente, dedicando-se a esta contabilidade mental, o pobre psicólogo 
não terá oportunidade de acolher o pedido do cliente e a entrevista terá pouco 
sentido ou interesse para este último. Assim, a situação de triagem é um momento 
de transição, passaporte para o atendimento posterior, este sim, tido como 
significativo, no qual o cliente encontrará acolhida para suas dúvidas ou sofrimento. 
Deste modo, a relação que se estabelece nestas entrevistas estará mediada 
pelo profissional ausente (aquele a quem o cliente será encaminhado), o que 
prejudicará a aproximação entre psicólogo e cliente durante o atendimento. Na 
medida em que o psicólogo entender que o papel de entrevistador é diferente do de 
terapeuta, tenderá a se distanciar durante a entrevista de triagem, evitando uma 
intervenção mais eficaz, mantendo uma atitude investigativa e resguardando suas 
impressões sobre o cliente. Neste caso, acredito que o processo perderá muito de 
seu sentido e mesmo de interesse ou utilidade para o cliente. 
Como tive a oportunidade de desenvolver em trabalho anterior (Ancona-
Lopez, S., 1995), a meu ver, toda atuação psicológica é uma ação de intervenção 
cujo significado será dado pelo campo relacional que se estabelece entre as partes e 
que é exclusivo e peculiar àquele momento e àquela relação. 
 No entanto, de acordo com o pensamento psicológico