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Silvia (tese) completa

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seu sonho se desmoronar? 
V.: Isso eu vejo claramente que eu transfiro essa minha ansiedade, essa 
minha insegurança, eu transfiro para eles, não sei... posso estar errada, não sei... 
S.: Então você não quer que o Caio fique dependente como você? 
V.: Isso. Pode ser. Quando o sonho dele se acabar (ri muito), ele vai sentir a 
mesma coisa que eu sinto. Então, se você pensar que eu sou uma pessoa 
depressiva, eu sou. Eu entro em depressões constantes, eu entro, eu saio, eu entro 
ou estou sempre em depressão, não sei. Eu tenho que conviver com isso, se você 
conhecer pessoas ligadas ao meu círculo, eles vão dizer que eu sou alegre, estou 
sempre de bom astral, levantando todo mundo. Mas acho que quando eu chego em 
casa e vejo aquela situação, eu também já recaio porque...ele já questionou 
algumas vezes comigo, o Marco: "Mãe, você não vai embora, como o papai foi? 
Mãe, se algum dia eu for em algum lugar, você pode vir a me esquecer e nunca mais 
ir me buscar?". Aí, eu falo que não, uma mãe nunca faria isso com um filho. “Então, 
por quê um pai faz?" “- Não é que um pai faz, é que de repente seu pai, mora em 
outra casa e ele sabe que eu estou cuidando de você, então, ele não se preocupa.” 
Outro erro também que eu tenho e...que...e eu posso até falar que eu sei o 
que estou fazendo, mas, sem querer, sai. É, tipo assim... é... quando ele me pede 
alguma coisa e eu pergunto se ele pensa que eu sou uma caixa de dinheiro, pois eu 
tenho que me virar para tudo, “Se tivesse o seu pai,” aí, eu falo, “Pede para o seu 
pai, vê se ele vai fazer alguma coisa, sempre sou eu que tenho que fazer tudo!” Aí 
na hora que eu falo, eu falo ‘aiiii!’ (ri). 
Então, o outro dia ele falou assim; “Sabe a minha mãe? ela se encheu do meu 
pai porque ele não fazia nada para ela, então eu tenho que ser bom para ela, porque 
se um dia ela se encher de mim, ela pode fazer a mesma coisa (ri) “. 
S.: Vanessa, e você à noite? Como é que você é? Quando chega a noite? 
V.: Sou normal. 
S.: Você chega em casa, vê aquela situação, como você disse... você estava 
alegre fora.... 
V.: Não, eu continuo sendo a mesma pessoa, mas por exemplo, se eu estiver 
em depressão aquilo tudo me faz mal. Não que eu faça alguma coisa com eles... tipo 
assim, nunca bati, bati, assim, o normal, né? Uma palmadinha de vez em quando. 
Mas eu sou uma mãe assim, que está sempre junto, eu sempre estou lendo 
histórias... a gente está sempre muito junto, assistindo filme... a gente fica muito 
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junto... tanto que eu acho que é uma das coisas que faz também ele ser assim, 
mesmo o outro (o irmão) a gente está sempre os três um ligado ao outro. Mas, às 
vezes, eu choro, eu sou uma pessoa muito emotiva, eu estou segurando para não 
chorar aqui. Não vou chorar, né? 
S.: Pode chorar... 
V.: (rindo) E..... às vezes, por exemplo, eu fico olhando para aquela situação: 
a gente não tem dinheiro... a gente tem que se segurar... isso me faz mal. Eu falo: 
“Puxa, por que eu fui fazer aquilo”. Eu não consigo admitir o meu erro, sabe? Por 
quê eu fui casar com ele se eu sabia de mais a mais que ele não era uma pessoa 
que tinha responsabilidade... que a gente ia seguir...Eu achava que não, que ele ia 
mudar, a minha ambição ia fazer com que ele melhorasse, subisse na vida, tal... 
então, isso é uma coisa que me deixa amolada e me deixa triste, mas... que nem 
você perguntou, como é a sua noite...? 
S.: Você me disse que quando você era casada, que o Luís não chegava e 
que o Caio era sua segurança. Que segurança você procurava nele à noite? 
V.: De ter alguém, de ter uma companhia, eu acho que o Luís nunca fez 
companhia, ele sempre foi uma pessoa ausente, então, o Caio era alguém que me 
dava esta companhia, eu estava com ele, eu estava falando, eu estava brincando... 
então, eu dizia às vezes para o Luís, desde que eu estava grávida, (eu fiquei grávida 
dois meses depois que eu casei), eu dizia para o Luís que, daquele dia em diante, 
nunca mais eu estava sozinha. Se ele me pegasse no banheiro, falando sozinha, eu 
nunca mais ia estar sozinha, eu sempre ia ter alguém para conversar agora, dentro 
da minha barriga eu ia ter alguém para conversar.Aí o Caio nasceu... Nossa! Foi 
uma alegria! 
S.: Ele foi planejado? Vocês tinham idéia de ter filho logo? 
V.: Eu tinha. Sempre tive. Sempre quis ter um filho, acho que eu casei para 
ter um filho (ri). Eu sempre quis ter um filho. Eu trabalho com isso, eu tenho uma 
escola... Eu tenho uma escola há quinze anos. 
S.: E o Caio estuda lá? 
V.: Estudava até o ano passado, eu tenho até o pré. Hoje ele está na primeira 
série, numa escola perto. E... Ele foi uma criança planejada, ele foi uma criança que 
veio... na hora, eu soube que eu estava grávida, ao contrário do outro. O outro foi 
assim... porque eu já não vivia mais legal, eu já não queria mais estar ali com o Luís, 
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então, o outro, na hora que eu soube foi depressivo... Eu falei: "Meu Deus, e agora, 
já não tenho nem para um, como é que eu vou fazer para outro" 
S.: Então você diz que seu erro não foi ter se separado, foi ter se casado. Aí 
que você acha que errou? 
V.: É, eu acho. 
S.: O que você não aceita, é a pessoa que você escolheu? 
V.: É. É isso. 
S.: Não é tanto o fato de ter se separado. Você embarcou no sonho errado... 
V.: (rindo) É, é... não é o fato de eu ter separado porque, senão, eu estaria 
com ele, né? Tentando, como eu tentei. 
(............) 
S.: E essa sensação que o Caio tem: “se a minha mãe deixou meu pai, meu 
pai não fazia nada... Como é que você falou? Eu vou ter que ser bonzinho senão... ” 
V.: Que “minha mãe pode me mandar embora, como ela mandou meu pai.. ” 
ou “pode deixar a gente, como deixou meu pai... “ 
S.: Quer dizer a sensação dele não é que o pai o deixou, mas é que você 
deixou o pai. 
V.: Foi o que a família do Luís disse para ele, o Luís diz isso até hoje para ele: 
“Eu gostaria muito de estar na sua casa junto com vocês, mas quem não deixa é a 
sua mãe, ela não deixa eu estar lá, por mim, eu estaria lá com vocês”. E, às vezes, 
ele questiona: “Pôxa, mãe, por que eu não moro lá junto, por que o papai não mora 
aqui?” 
Aí digo ; “Não dá mais, existe uma coisa chamada amor e eu não sinto mais 
nada pelo seu pai, não dava mais para conviver com ele”. Então, eu digo que ele 
não tinha responsabilidade de... de sustentar uma casa, para ele estava tudo bem... 
estava tudo jóia.... se pagasse uma conta, estava tudo bem, se não pagasse, ia para 
protesto... 
S.: Ele não trabalhava? 
V.: Hoje ele trabalha, mora no interior; hoje, ele tem daqueles mercados que 
é um mercado, açougue, padaria, é tudo dentro de um lugar só. 
S.: E aqui, ele fazia o que? 
V.: O Luís teve milhares de empregos, ele tem até o segundo grau completo, 
mas ele nunca teve um emprego definido, o pai dele sempre foi açougueiro. Ele já 
trabalhou com o pai, depois trabalhou no banco... abriu vários negócios... Nossa! 
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Fez tanta coisa! Agora faz uns seis meses ele está com esse negócio... e vai indo 
bem... mas a gente não tem conhecimento... 
S.: Essa sensação que o Caio tem, de que você poderia deixá-lo, você atribui 
só a isso que o pai fala? 
(silêncio prolongado) 
V.: Eu não sei, Silvia, se sou eu com essa minha insegurança, como você 
mesmo disse, se eu não passo isso para ele. 
S.: Eu não sei se você é insegura.... Uma pessoa insegura, talvez não 
deixasse o marido, que poderia dar uma certa segurança. Como é que você vê isso? 
Por que é que você concordou tão prontamente... (ambas riem) 
V.: ....acho que você falou tateando.... 
S.: .... eu estou tentando conhecer você... 
V.: Ah.... deixa eu ver...eu não vou te dizer que eu me considero uma pessoa 
insegura. Eu acho