A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
205 pág.
Silvia (tese) completa

Pré-visualização | Página 34 de 50

com uma 
normalidade, coisa que não acontece com a minha mãe. Mas ele se afastou 
126 
completamente da gente e dos n-e-t-o-s! Os filhos, para ele, eram tudo. O Caio, 
para ele, era um outro filho, sabe? 
S.: Sei.. 
V.: O Caio tem as manias do meu pai, tem jeito do meu pai... 
S.: Sei.... 
V.:... porque ele conviveu muito com meu pai, de modo que foi um choque 
para a gente, para os três filhos. 
S.: Você é a mais velha? 
V.: Não, eu sou a mais nova, eu tenho dois irmãos homens, e eu. Pros três 
filhos foi um choque. Meus irmãos também adoram o meu pai, tem verdadeira 
loucura por ele. Agora, isso foi um choque para os três, e para os dois filhos meus. 
Porque meu pai não teve muito contato com os outros netos, só aquela coisa de 
vovô, beijinho, abraço, mas não assim de sofrer se meu filho está doente, de ir atrás, 
de ir ao pediatra, de ir atrás. Então o Caio quando eu ia deixá-lo na escola ele falou: 
“Faz um tempão que não vou no clube com meu avô.” Eu falei para que ele falasse 
com o avô, que conversasse com ele, dissesse que queria ir ao clube com ele. Então 
os meus filhos sentiram bastante esta ausência do avô. 
S.: Ele está apaixonado? 
V.: Ele tá. Ele está assim amando, e a gente conversa com ele, questiona, 
fala ‘pai, não pode’. Imagina! E quando você fala ele muda, aquela semana ele 
muda, ele vem, ele procura as crianças, ele fica perto da gente, mas você vê que a 
cabeça dele... ele está amando, ele fala que não, ele fala que ela é só uma 
companheira. 
S.: Foi ele que contou para vocês? 
V.: Não, ele não contou para a gente, se eu te contar como eu descobri, foi a 
maior fatalidade da minha vida (ri muito)58. Eu entrei numa livraria perto da escola e 
ela trabalhava lá. Ele comprou alguns livros lá e foi aí que ele a conheceu. É perto 
da escola, eu fui comprar uns livros e comecei a conversar com essa moça, eu 
comecei a falar, ela perguntou se eu era casada, eu disse que não, que eu era 
separada e ela falou: “quanta gente é separada”, eu falei: “é”, ela falou: “ você sabe 
que eu tenho um amigo, meio íntimo, e ele também tem uma filha separada”, e ela 
começou a contar a história da minha separação... 
 
58 Alguns detalhes foram modificados nesta narrativa para preservar o sigilo. 
127 
S.: Sim... 
V.: Como tinha acontecido a separação, você não pode imaginar (ri muito).... 
S.: Que situação! 
V.:... eu fui me afundando assim na cadeira, fui olhando para ela.... mas, 
assim, igualzinho como tinha acontecido.... Eu pensava: Não! (rindo) Mais isso na 
minha vida. Não! 
S.: Meu Deus! 
V.: E aí foi isso eu perguntei: “ Vocês são muito amigos?” “Nós somos. A 
gente está começando agora, ele tem uma mulher doente...” aí eu peguei virei as 
costa e fui embora. 
Cheguei na escola chorei, falei para a minha amiga; “não me conformo”.E 
essa amiga, a minha secretária, mora atrás da escola, ela vai fazer ginástica em 
frete da livraria, e ela disse: “Olha, eu sinto muito em falar, mas seu pai vem todo dia 
buscá-la, a primeira vez que eu vi, não me conformei, mas eu achei que não tinha o 
direito de te contar.” Aí, tinham se confirmado os fatos e eu guardei isso a sete 
chaves, não contei para os meus irmãos, nada. 
Aí, um dia o meu irmão falou : “Olha, eu preciso te contar uma coisa, mas eu 
queria que você estivesse preparada, porque eu sei que você ama muito o papai, ele 
é um Deus para você, mas eu preciso te contar uma coisa...” eu olhei para a cara 
dele (rindo) e falei: “Não precisa contar” (rindo) 
S.: Que coisa! 
V.: Que fatalidade, né? (rindo). Aí, faz menos de um ano a minha mãe veio a 
descobrir, porque era uma coisa lógica, né? Ele ia para o clube todo perfumado e 
bonito, cheiroso, ninguém vai jogar bola desse jeito, né? (rindo). Chegava às duas 
horas da manhã em casa, minha mãe começou a se ligar. Aí, minha mãe descobriu, 
não sabe quem é, acha que a gente não sabe quem é também. E aí, um dia minha 
mãe ficou internada no hospital e ele veio conversar comigo, que a gente não tinha o 
direito de tirar a moça da vida dele, que era uma coisa que ele gostava muito. Aí, ele 
perguntou para mim, como eu soube, aí eu contei. Nunca mais eu entrei naquela 
livraria. Nunca mais encontrei com ela, nada, nada. Nunca. E depois ela veio a saber 
que eu era a dona da escola, ela ficou sabendo de tudo, tanto que ele me contava 
fatos das crianças passarem lá na porta e ela brincava com as crianças porque ela 
sabia que a escola era minha. Aí, eu contei, ele não se conformava, é pai, eu soube 
disso. Nossa, meu pai falou fazia uma semana que tinha saído com ela pela 
128 
primeira vez. Isso foi uma coisa que me magoou muito na minha vida, que me fez 
muito mal de também ter perdido um elo afetivo forte com o meu pai. 
S.: Você acha que você perdeu? Por que? 
V.: Ah, porque... 
S.: Você perdeu o seu lugar? 
V.: Acho que sim. (ri) Perdi a companhia, aquela coisa de estar sempre junto, 
e perdi... aquela coisa de pai, de ficar com a gente, de ficar com as crianças, de 
passear os finais de semana juntos. Você vê que quando ele está na praia, ele fica, 
assim, num outro mundo, sabe? 
S.: Ele deixou de ser pai e virou homem? 
V.: Virou...eu achei que isso nunca ia acontecer com o meu pai. 
S.: É complicado. 
V.: Meus irmãos falaram assim para ele: “ Olha, você pode fazer o que você 
quiser, sair com a mulher que você quiser, só não pode se apegar a ninguém, você 
não tem esse direito de se apegar a alguém” Eu acho até bonito da parte do meu 
pai. Que nem ele falou: “eu não sei ver uma mulher que está passando na rua, eu 
falo, entra aí, saio com ela, transo e acabou, eu não consigo esse tipo de coisa. 
Sabe isso, não tem lógica, eu quero uma companheira, eu quero alguém que eu 
sinta amor, mas eu não estou apaixonado por ela, não pense que eu amo, que eu 
dou dinheiro para ela”. Não pense que eu tenho essa preocupação, porque eu 
conheço tão bem o meu pai, que eu acho que ele não seria nenhum louco, de dar 
assim dinheiro, ele pode até dar, sair com ela, claro, mas no dia em que ele for 
embora e não estiver mais aqui, a gente ter que dividir bens com ela.... 
S.: Sei. 
V.: Eu tenho certeza que meu pai seria incapaz de tirar as coisas da minha 
mãe. E, por outro lado, eu penso assim, tudo o que ele tem, ele conquistou. Eu acho 
que ele tem o direito de fazer aquilo que ele tem vontade. Eu acho que ele está até 
certo de ter uma companheira, foi o que ele disse e para mim um dia: “ Eu nunca me 
intrometi na vida de vocês três, vocês escolheram o companheiro que vocês 
quiseram, não deu certo, eu te acolhi, hoje você está com o Marco. Você acha que 
ele é bom para você, você acha que estaria certo eu virar para você falar: ‘Ah!, eu 
não quero’, então eu acho que vocês não tem esse direito comigo!” Eu acho que ele 
está certo, né? Mas porque é pai., né? (ambas riem) 
S.: É difícil engolir. Ele pode estar certíssimo, mas engolir é outra coisa, né? 
129 
V.: Aceitar é outra coisa. 
S.: Você está separada há quatro anos e isso aconteceu há dois. 
V.: Com o Marco... com o meu pai... sim. 
S.: Seu pai há dois, na época em que você conheceu o Marco. 
V.: Foi na época exata, foi tudo junto. 
(............) 
S.: Eu estou aqui pensando na sua depressão. Que você disse ‘eu sou 
depressiva’. Você sempre foi? Ou isso aconteceu depois desses fatos? 
V.: Não, eu sempre fui uma pessoa depressiva. Antes, eu não encarava 
como depressão, eu encarava como uma pessoa emotiva. Então, eu achava que 
não estava legal... essa falta de contato com a minha mãe, foi uma coisa que me 
afetou na adolescência.... e, então, eu me achei uma pessoa emotiva, mas 
depressiva... foi quando