A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
186 pág.
Ventura, M. Direitos H e Saúde

Pré-visualização | Página 18 de 50

Comunitária
Para além das medidas internas ao processo de fecha-
mento da Casa de Saúde, viu-se a necessidade de ampliar o 
olhar da desinstitucionalização, extramuros. Seria fundamental 
envolver todos os atores locais, para que tivessem um compro-
misso real e fossem partícipes da nova situação. 
Uma vez que o retorno à sociedade é a orientação das 
políticas públicas em saúde mental, o manicômio em Paracambi, 
atualmente, está sendo gradativamente desocupado e substituído 
por uma rede de serviços independentes, como por exemplo, a 
construção de 21 residências terapêuticas. Essa nova perspectiva 
de vida, que implica em construir novos espaços e devolver aos 
antigos moradores da Casa de Saúde uma participação integrada 
na cidade, exige compromissos e posições que enfrentem os desa-
fios trazidos pela reconstrução do novo paradigma da assistência 
psiquiátrica e de sua planificação.
A cidade, com seus territórios e comunidades, passa a ser en-
tendida como recurso terapêutico e como referência imprescindível 
na construção das relações sociais. Atividades que permitam maior 
trânsito dos antigos moradores da Dr. Eiras, no espaço urbano, fazem 
da cidade um importante protagonista no processo de reabilitação 
pretendido e na recuperação das condições de cidadania.
Segundo a reflexão de Garcia, durante a Primeira Jornada sobre 
Direitos Humanos e Saúde, o tema sobre os direitos dos grupos com maior 
precariedade social é visto com indiferença pelos mais privilegiados por 
não se identificarem com essa realidade. Para uma eficaz estratégia de 
Gina Ferreira Direitos Humanos na Cidade dos Excluídos: Estratégia de cidadania
62
política de integração social, seria indispensável uma 
intervenção na comunidade que toque/transforme o 
imaginário social, para que as reivindicações possam 
ser assumidas como compromisso por todos, estabele-
cendo-se assim uma pauta de condutas públicas mar-
cada pela cidadania. A cidadania implica na relação de 
compromisso com a cidade; implica na forma pela qual 
ela se desenvolve. Uma cidade pode ser considerada 
humanizada quando esse desenvolvimento corresponde 
às necessidades reais de seus habitantes (Veciana, I. & 
Olivé, R.: 2002).
O contexto social da cidade de Paracambi, sofreu por 
décadas influência de um poder negativo propiciando a pro-
dução de doenças e desajustes sociais tanto no real quanto 
no simbólico das representações da comunidade sobre a 
cidade e sobre si próprios.
O fechamento e quebra financeira sucessiva das uni-
dades fabris, que fortaleciam o poder social e mantinham 
relações sócio-afetivas no cotidiano da comunidade, criou um 
perfil de passividade entre os moradores, sem questionamento 
ou reflexão crítica, frente aos problemas sociais. Kelly e outros 
(in Sanchez: 2007) “define a intervenção comunitária como in-
fluência na vida de um grupo, organização ou comunidade para 
prevenir ou reduzir a desorganização social e pessoal e promover o 
bem estar da comunidade”6. Considerando essa definição tornou-
-se importante uma abordagem de mediações na comunidade 
onde se conjugam multiplicidade de ações, com potencialidade 
para resgatar habilidades e superar adversidades, propiciando a 
conquista de direitos. Em Paracambi a falência das fábricas traz a 
concentração do desemprego, causando o desequilíbrio econômico 
e social, e a única alternativa possível passa a ser um grande mani-
cômio tanto na oferta de trabalho quanto na seguridade social. Não 
houve efetividade na promoção da qualidade de vida da população, 
tanto do ponto de vista econômico, social ou emocional.
Uma abordagem sistêmica trabalharia a reintegração de forma 
global sem fragmentação dos grupos societários. Segundo Camarotti 
(2005) a concepção sistêmica percebe o mundo através de relações e 
integração, valoriza o todo e as relações com as partes que o constituem. 
Sendo assim o todo é o resultado de uma relação com seus constituintes 
e não com a soma deles. 
A utilização de estratégias de empoderamento na intervenção co-
munitária torna-se importante, uma vez que atinge o ponto crucial de 
6 Tradução da autora.
Gina Ferreira Direitos Humanos na Cidade dos Excluídos: Estratégia de cidadania
63
transformação, ou seja, o desenvolvimento da au-
tonomia. Esta significa a capacidade dos indivíduos 
e grupos poderem decidir sobre as questões que lhe 
são próprias, seja através do campo político, cultural 
ou econômico. Dessa forma, empoderar, nesta concep-
ção, significa também abrir canais de participação da 
vida institucional em espaço público e distribuir forças 
de poder, dos mais fortes para os menos favorecidos. 
Nesse sentido qualquer ação emancipatória deve estar 
junto às demandas sociais, seja através dos sujeitos, ou 
das organizações, significando resistência à dominação e 
contribuindo para a equidade social. 
O projeto: Cinema na Praça
Em 2004, época em que se inicia a intervenção na Casa 
de Saúde Dr. Eiras e frente a nova contingência da retirada 
gradativa dos pacientes da instituição para habitarem casas 
populares alugadas pela prefeitura do município, verificou-se 
a importância de se construir projeto de inclusão ao convívio 
social. Este projeto é voltado para os pacientes internados, 
em processo de alta, e também deveria motivar a reflexão e 
possibilitar o esclarecimento sobre as condições de vida dos 
portadores de sofrimento psíquico, como forma de transformar a 
maneira como a sociedade lida com a loucura e com as pessoas 
vinculadas ao manicômio.
Utilizando o cinema como instrumento de intervenção para 
modificar o imaginário social sobre a loucura e sobre os meios 
de tratamento excludentes, o projeto busca trazer a inclusão so-
cial para um grupo duplamente excluído – pelos longos anos de 
asilamento forçado, cronificados por uma prática de total afasta-
mento do convívio social e também vitimados pelo preconceito que 
a desinformação sobre o sofrimento psíquico provoca na sociedade.
O projeto está no momento em sua terceira e última fase de 
realização, A primeira edição consistiu em se exibir mensalmente, 
uma seleção de filmes brasileiros, escolhidos por uma competente 
curadoria, na principal praça da cidade de Paracambi. Equipamentos 
de ótimo nível garantem uma projeção de qualidade, que funciona 
como catalisador para o encontro entre a população local e os usuários 
da Casa de Saúde Dr. Eiras, portadores de sofrimento psíquico. Nesse 
espaço de convívio em torno de uma atividade cultural, da qual a região 
é carente, a interação entre esses dois grupos, separados por décadas, 
propicia uma transformação que vem de encontro à valorização da cida-
dania, sob a forma de aceitação e solidariedade. Também desejávamos 
que a conexão entre intervenção e cinema, proporcionasse outros efeitos e 
que a experiência vivida construísse o dialogo com o mundo, o ser humano 
Gina Ferreira Direitos Humanos na Cidade dos Excluídos: Estratégia de cidadania
64
e a natureza. Para isso seria importante que os nossos 
objetivos não fossem totalmente restritos, mas que se 
deixassem seguir livremente, sem fronteiras e sem fim, 
como o conceito imagem definido por Cabrera (2006). 
Este conceito concerne em viver uma experiência “sem 
contornos totalmente nítidos e definitivos, uma espécie 
de encaminhamento no sentido de, “pôr-se a caminho” 
numa direção compreensiva, mas sem fechá-la, e que a 
experiência vivida levasse a um impacto emocional”.
As sessões foram realizadas em um sábado por mês, 
durante doze meses. Percorríamos os pavilhões da Casa 
de Saúde Dr. Eiras e reuníamos os pacientes previamente 
escolhidos pelos coordenadores. Um dos critérios de parti-
cipação no projeto, definido pela equipe da instituição, era 
que seriam participantes das sessões, os pacientes que não 
estivessem em crise e desejassem ir ao cinema, incluindo 
aqueles de difícil locomoção.