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Ventura, M. Direitos H e Saúde

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e saneamento no meio rural de Mo-
çambique. Por um lado, questiona as formas de organização 
e funcionamento dos Fórum Locais na implementação dos pro-
gramas de abastecimento de água e, por outro lado, interroga 
se a forma de participação das comunidades locais permite um 
empoderamento das mesmas e um maior envolvimento nas ac-
ções de promoção da saúde. Com base na análise bibliográfica 
e, de algumas experiências de campo, procuramos discutir as 
formas de implementação dos projectos de água e saneamento 
num período atravessado pela promoção dos direitos humanos 
bem como o da promoção da saúde na comunidade. 
Palavras-chave: promoção da saúde, poder decisório, mu-
dança de mentalidade, comunidades locais
LOCAL COMMUNITIES IN HEALTH PROMO-
TION: REFLECTIONS ON THE IMPLEMENTATION 
OF DECENTRALIzATION MEASURES IN THE WATER 
AND SANITATION RURAL SECTOR IN MOzAMBIQUE
Abstract: In this article, we examine the participation of local 
communities at implementing the measures and procedures for de-
centralization of the water supply and sanitation sector in Mozambique 
rural area. On the one hand, we question local forums organization and 
operation in the implementation of programs for water supply; and, on 
the other hand, we question whether the participation of local communities 
Rehana Dauto Capurchande Comunidades locais na Promoção da Saúde: reflexões em torno da implementação de medidas de 
descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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allows their empowerment and a greater involvement 
in health promotion. Based on literature review and 
on some field experiments, we discuss ways of imple-
menting water and sanitation projects over a period 
traversed by human rights promotion, as well as by the 
promotion of community’s health.
Keywords: Health promotion, decision-making 
power, change of mind, local communities
Rehana Dauto Capurchande Comunidades locais na Promoção da Saúde: reflexões em torno da implementação de medidas de 
descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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Introdução 
O acesso à água potável e saneamento básico 
nas zonas rurais de Moçambique constitui uma das 
questões sociais centrais nos debates das arenas política 
e científica. Se, por um lado, coloca-se em questão a 
exclusão e a violação dos direitos humanos no que con-
cerne à satisfação das necessidades básicas, por outro 
lado, questiona-se o consumo da água imprópria e seu 
impacto na qualidade de vida dos membros das comuni-
dades, sobretudo num período atravessado pelos debates 
sobre a promoção do exercício dos direitos humanos bem 
como o da promoção de saúde1.
Desde o reconhecimento do Relatório Lalonde na 
década 70, da contribuição da Conferência de Alma Ata na 
década 90 e da promulgação da Carta de Ottawa na década 
802, ao nível internacional, ampliou-se o conceito de pro-
moção da saúde através da incorporação dos determinantes 
sociais, culturais e políticos no campo da saúde. 
Em Moçambique, a promoção da saúde como campo 
conceptual e prático tem vindo a ganhar relevo nas últimas 
décadas. O tema tem suscitado debates políticos e científicos 
propiciando quer diferentes abordagens sobre os problemas 
que afectam as populações, quer ainda sob diversas iniciativas 
que permitem adicionar a qualidade de vida das colectividades. 
Assim, a evolução dos actuais debates tem colocado em causa não 
somente os determinantes sociais, culturais e económicos da saúde 
mas também a necessidade de políticas públicas e empoderamento 
das comunidades locais. Para tal, uma das medidas tomadas no 
Plano Económico e Social3 (PES) de 2009, no campo da promoção 
da saúde, consiste no reforço do envolvimento comunitário para a 
saúde e na ênfase no saneamento do meio e promoção da higiene4.
1 Nos últimos tempos, a promoção da saúde tornou-se um tema de interesse em várias arenas. As discussões 
têm se polarizado em termos de desafios que se colocam sobretudo no campo das políticas públicas e o da 
participação social.
2 De referir que a Carta de Ottawa promulgada em 1986 define a Promoção da saúde como processo de ca-
pacitação da comunidade para actuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde. A mesma dá ênfase do 
impacto a nível económico, social, cultural e político sobre os fenómenos de saúde e propõe um conjunto de 
estratégias, a saber, a criação de políticas públicas para a promoção de saúde, reorientação dos serviços de 
saúde e ao reforço das acções comunitárias em prol da melhoria da qualidade de vida, (WHO, 1984).
3 O Plano Económico e Social é um documento produzido anualmente pelo Governo de Moçambique para 
cada sector de intervenção cujo objectivo é implementar intervenções que visam alcançar metas definidas pelo 
Programa Quinquenal do Governo (PQG) e Metas do Desenvolvimento do Milénio. Assim, o PES materializa 
para além do PQG e das Metas do Desenvolvimento do Milénio, o Plano Estratégico de cada um dos sectores, 
podendo estes ser, o da saúde, água e saneamento, agricultura, entre outros.
4 Para além destas acções foram definidas como prioridades, melhorar a capacidade de análise de águas e o 
reforço da segurança de alimentos. Estas acções são complementadas pelo reforço da capacidade do Serviço 
Nacional de Saúde com atenção especial para o desenvolvimento de recursos humanos, de infra-estruturas e 
respectivo apetrechamento, (PES, 2009). 
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descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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É deste modo que a preocupação central do 
Governo de Moçambique na área de Saúde centra-se 
em “promover a saúde e o bem-estar dos moçambica-
nos, com especial atenção para os grupos vulneráveis 
através de intervenções inovativas e prestar cuidados 
de Saúde de boa qualidade e sustentáveis, tornando-os 
gradualmente acessíveis a todos os moçambicanos com 
equidade e eficiência”. (PES, 2009).
Se, por um lado, é dever do Estado promover as 
condições indispensáveis ao exercício dos direitos do ci-
dadão à saúde, por outro, não se excluem os deveres das 
comunidades locais e da sociedade civil de participação 
em acções sustentáveis e tomada de responsabilidades no 
desenvolvimento local. Com efeito, desde o início da década 
90 que o Governo de Moçambique e seus parceiros interna-
cionais tem vindo a implementar programas no âmbito da 
Governação, Água e Saneamento. Uma das medidas tomadas 
como prioridade, consistiu na recuperação dos serviços básicos 
de água, em particular, o abastecimento de água em todas as 
regiões do país: rurais, urbanas, peri-urbanas.
Em particular nas zonas rurais, e como resultado das 
reformas e medidas de descentralização em vigor no país, 
foi introduzido o Princípio da Procura com vista a assegurar a 
sustentabilidade dos sistemas novos ou reabilitados. De acordo 
com este princípio, na planificação das actividades definidas no 
âmbito dos projectos de abastecimento de águas, as comunidades 
locais solicitam a fonte e acompanham os custos de investimento 
como forma de garantir a sustentabilidade das infra-estruturas, 
(MOPH, 2001). 
Paralelamente, o Governo de Moçambique definiu como priori-
dades as acções de mobilização e de envolvimento das comunidades 
na promoção e defesa da sua saúde. É neste contexto que o presente 
artigo se debruça, sobre o envolvimento das comunidades locais na 
implementação dos programas e das medidas de descentralização do 
sector de águas e saneamento básico na comunidade questionando 
em que medida a participação das comunidades locais permite um 
empoderamento das mesmas e um envolvimento nas acções de pro-
moção da saúde.
O Distrito como Pólo de Desenvolvimento
O Governo de Moçambique tem vindo a implementar desde o início 
dos anos 90 um conjunto de programas e reformas