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Ventura, M. Direitos H e Saúde

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podem ser analisados 
a partir de um duplo ponto de vista: (i) do empoderamento9 das 
comunidades partindo das formas de organização e participa-
ção activa nos processos de consulta e tomada de decisão para 
o melhoramento do processo de planificação e implementação 
das actividades no sector de água e saneamento e, (ii) da pres-
tação de serviços a partir do Governo Distrital, as comunidades 
e outros intervenientes que fornecem e gerem serviços de água 
e saneamento onde, neste processo, assumem responsabilidades 
na operação, manutenção e expansão de serviços.
O quadro legal no sector de águas trouxe alguns avanços 
significativos em termos de desenvolvimento do quadro institucio-
nal com vista ao melhoramento da provisão dos serviços de água; 
construção e reabilitação de infraestruturas de água e acesso à 
água a população rural. Contudo, os objectivos traçados pelo Go-
verno e suas Metas dos Objectivos do Milénio anteriormente refe-
ridas ainda se revelam críticos. Se, por um lado, colocam-se como 
limitações a necessidade de reforço da incorporação da abordagem 
que integre a provisão de água com a dos meios de saneamento e a 
educação sanitária, por outro lado, a existência de fontes e furos de 
água inoperáveis colocam em questão o alcance das metas definidas 
com vista a melhorar a qualidade de vida da população através do 
consumo da água potável. Á medida que se aumenta a abertura de no-
vos furos de água, em simultâneo aumenta-se o número das fontes não 
operacionais. Estará na base deste constrangimento a ideia segundo a 
qual as comunidades por si só estão capacitadas para enfrentar os custos 
9 No campo da promoção da saúde a palavra empoderamento tem sido utilizada para se referir ao processo 
pelo qual há um aumento de poder e autonomia pessoal e colectiva de indivíduos e grupos nas relações inter-
pessoais e institucionais. Importa referir que o mesmo termo tem sido incorporado nos debates sobre equidade 
em saúde e promoção da saúde. A questão do empoderamento focaliza as oportunidades que as pessoas têm a 
seu favor bem como o acesso às oportunidades de diferentes formas de participação. Para mais detalhes vide, 
Ciências & Saúde Coletiva, 2004.
Rehana Dauto Capurchande Comunidades locais na Promoção da Saúde: reflexões em torno da implementação de medidas de 
descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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operacionais e de manutenção das fontes sem terem 
sido criadas as condições locais em termos materiais e 
de recursos de forma a garantir a sustentabilidade dos 
projectos? Ou, estará em questão o papel desempenha-
do pelas elites locais na implementação de actividades 
de promoção da saúde? Com efeito, as experiências de 
campo revelam alguns indícios que levam a considerar 
de forma afirmativa os questionamentos colocados.
Os Comités de gestão de Água na 
Promoção da Saúde Comunitária
Em quase todas as zonas rurais de Moçambique exis-
tem acções de mobilização e de envolvimento das comu-
nidades para a promoção e defesa da própria saúde. Para 
tal, no âmbito do Plano Estratégico de Saneamento e Água 
Rural (PESAR) foram definidas como prioridades acções que 
visam mobilizar e empoderar as comunidades em activida-
des de promoção da saúde, nomeadamente: (i) mobilizar as 
comunidades para a adopção de estilos de vida saudáveis; (ii) 
reforçar as actividades de educação para a saúde e; (iv) utilizar 
os meios de comunicação social para a difusão das mensagens 
de saúde na comunidade, (PESAR-ASR, 2007).
Deste modo, pretende-se incentivar as comunidades a 
discutirem, cada vez mais, os seus problemas e a encontrarem 
soluções para os mesmos. No contexto da implementação das 
medidas de descentralização do sector de águas, enfatiza-se a 
participação das comunidades e utentes da água, com ênfase no 
papel da mulher no planeamento, implementação, gestão, utili-
zação e manutenção das infraestruturas de água e saneamento. 
A inclusão das comunidades no processo de decisão ao nível 
local constitui também um dos fundamentos da institucionalização 
das Instituições de Participação e Consulta Comunitária (IPCC). Resu-
midamente, de acordo com os dispositivos legais é responsabilidade 
a nível da comunidade eleger os elementos que compõem o comité 
de água com as seguintes responsabilidades:
• Organizar a comunidade para participar em todas as fases do 
ciclo do projecto;
• Recolher a contribuição da comunidade para a provisão do 
abastecimento de água rural;
• Recolher as contribuições para a criação de fundos de operação, 
manutenção, reparação, reposição e organizar a sua gestão;
• Organizar a comunidade para eleger os gestores do fundo e de-
finir a modalidade e formas de gestão e de prestação regular de contas;
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descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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• Organizar a eleição pela comunidade do gru-
po de manutenção que se deve ocupar da operação 
e operações das infraestruturas;
• Servir de facilitador das actividades, controle e 
monitoria das actividades dos grupos de manutenção;
• Informar regularmente às autoridades distritais 
sobre a situação de abastecimento de água, (MOPH, 
2001:9).
Com a aprovação da Lei dos Órgãos Locais do 
Estado e o seu regulamento em 2003 e 2005, as Insti-
tuições de Participação e Consulta Comunitária passam 
a ser reconhecidas legalmente. Contudo, na prática as 
mesmas revelam limitações sob um duplo ponto de vista: 
o de sua composição e funcionamento e legitimidade. 
Grande parte das zonas rurais foram criados os Comités 
de Água, entretanto, nem todos obedecem as normas de 
composição legalmente instituídas não obstante aquando 
da sua criação tenham passado por processos e actividades 
de promoção, informação prévia e consciencialização de 
seu papel. 
Na fase de promoção, as comunidades são chamadas a 
conhecer a existência dos projectos de abastecimento de água 
com ênfase nas oportunidades que este oferece, suas implicações 
e formas de acesso aos serviços. Neste processo, os Comités de 
Gestão de Água tomam decisões sobre o tipo e nível de serviços; 
sobre a participação dos membros da comunidade na escolha 
da zona preferida para a instalação da fonte em respeito aos es-
tudos de viabilidade técnica; sobre a contribuição para os custos 
de investimento correspondente ao nível do serviço escolhido e; 
pela tomada de responsabilização pela operação, manutenção, 
reposição e gestão dos sistemas e eleição dos membros do Comité 
de Gestão de Água. 
A maior parte destas actividades (promoção e conscienciali-
zação) são fornecidas pelas Organizações não Governamentais. Os 
referidos processos baseiam-se em metodologias participativas de 
intervenção na comunidade. A título de exemplo, a escolha do local 
para a abertura dos furos de água tem obedecido a mecanismos 
que permitem a participação das comunidades bem como o reforço 
da coesão social partindo de uma abordagem da base para o topo. 
Grande parte dos furos de água é aberta em locais apontado pelas 
comunidades como preferenciais e com respeito aos significados e 
valores sócio-culturais contextuais. Os estudos de viabilidade técnica, 
procuram preservar e salvaguardar os significados e valores sociais 
atribuídos pela comunidade à esses espaços. De referir que sobretudo 
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descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
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no meio rural a utilização, apropriação e manuten-
ção das infra-estruturas de água depende em grande 
medida dos locais e significados atribuídos aos locais 
onde os serviços são instalados. 
A consciencialização sobre a importância dos 
projectos constitui um dos processos