A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
438 pág.
A hidrovia Paraguai Paraná e seu significado para a diplomacia sul americana do Brasil

Pré-visualização | Página 3 de 50

oferece
oportunidade de meio de transporte competitivo e é importante
instrumento de consecução do objetivo prioritário da atual política
externa.
2
 SILVA, Luiz Inácio Lula da. Declaração à imprensa, feita por ocasião da visita do
Presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, ao Brasil. Brasília, Palácio Itamaraty,
em 14 out. 2003. Texto disponível em <www.mre.gov.br>. Acesso em 23 mar. 2004.
3
 Ver em BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Nota à imprensa no. 591, de 09
dez. 2004. Declaração de Cusco sobre a Comunidade Sul-Americana de Nações. Texto
disponível em <www.mre.gov.br>. Acesso em 11 dez. 2004. Na III Reunião de Presidentes
Sul-Americanos, realizada em Cusco nos dias 08 e 09 de dezembro de 2004, foram
impulsionados 31 projetos de integração constantes do documento “Agenda de
Implementación Consensuada 2005-2010”, aprovado pela “VI Reunión Del Comitê de
Dirección Ejecutiva de la Iniciativa IIRSA”, nos dias 23 e 24 de novembro de 2004, na
cidade de Lima. Informe disponível em <www.iirsa.org>. Acesso em 11 dez. 2004.
4
 “En el caso brasileño, hay una clara decisión del gobierno de transformar el Banco
Nacional de Desarollo Económico y Social (BNDES) en una importante agencia de
fomento, no sólo para el desarollo nacional, sino para el desarollo de la región (...). Es
evidente que tenemos que pensar que mientras no se creen instituciones más sólidas,
mientras no se definan formas de financiación más importantes son necesarios (sic)
activar mecanismos intermedios de transición de gran importancia, como la dinamización
de los convenios de crédito recíproco (CCR), que estaban un poco paralizados por
algunas medidas burocráticas en Brasil y que nosostros tuvimos la condición de
activarlos”. Ver em GARCIA, Marco Aurélio. [Palestra proferida]. In: Seminario
Regional sobre Integración Productiva Argentina-Brasil, 10 jun. 2004, Hilton Hotel,
Salón Buen Ayre, Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Texto desgravado. “A questão de
financiamento a projetos de infra-estrutura, no atual momento de definição de prioridades
na execução de projetos, é também crucial e a maior participação do BNDES está sendo
examinada. Está sendo intensificada a relação do banco brasileiro de desenvolvimento
com a CAF e o FONPLATA, no sentido do seu maior envolvimento nos projetos da
17INTRODUÇÃO
A HPP, via natural navegável, encerra importante significado
histórico, econômico e diplomático. Constitui o eixo fluvial longitudinal
mais extenso da América do Sul, banha vasto e rico território, tanto
do ponto de vista ambiental quanto de desenvolvimento econômico-
social, no centro do continente. Seu papel como opção de
escoamento natural de cargas dos países ribeirinhos em direção aos
mercados regionais e internacionais tem sido resgatado não apenas
em função de seu interesse econômico, mas também como instrumento
de integração regional.
O tema da navegação e do transporte fluvial no eixo Paraguai-
Paraná mereceu particular ênfase no âmbito do processo institucional
da Bacia do Prata, iniciado em 1967, quando se realizou em Buenos
Aires a I Reunião de Chanceleres dos países da região. Constituiu uma
IIRSA. A idéia, portanto, é utilizar recursos do BNDES como instrumento financeiro na
implementação de projetos de integração regional atendendo a critérios técnicos daquela
entidade, levando em consideração as prioridades da política externa do País. Pensamos
que isto permitirá dar maior impulso ao processo de integração regional e consolidar o
papel que cabe ao Brasil no momento em que a América do Sul busca meios de superar
os entraves ao seu desenvolvimento”. Ver em GUIMARÃES, Luiz Filipe de Macedo
Soares. Política Geoeconômica da América do Sul. [Trabalho apresentado]. S.L. 2003.
“(...) o BNDES tem servido de estímulo muito importante para o projeto de integração
física, de infra-estrutura, em países vizinhos, desde que contem com a participação de
empresas brasileiras. É importante mencionar também que o BNDES tem procurado
aumentar sua associação com a Corporação Andina de Fomento, exatamente com esse
objetivo de estimular projetos de infra-estrutura, que possam melhorar a integração
com países vizinhos”. Ver em FELÍCIO, José Eduardo Martins. Amazônia e América
do Sul. [Entrevista concedida]. [S.l.][S.d.] Em discurso proferido na cerimônia de
encerramento do Seminário “Integração da América do Sul: Desafios e Oportunidades”,
ocorrida no dia 16 out. 2003 em Buenos Aires, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
deu a conhecer haver instruído o BNDES a “financiar projetos de integração física em
cooperação com outras instituições, como a Corporação Andina de Fomento (CAF), o
FONPLATA e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)”. No Seminário
“Integração da América do Sul: I Encontro Brasil-Argentina, possibilidades de
financiamento à infra-estrutura”, promovido pelo BNDES, o vice-presidente do banco,
Darc Costa, anunciou a retomada do CCR e o financiamento de US$ 700 milhões a
projetos de infra-estrutura de interesse do governo argentino, dentre os quais a Hidrovia
Paraguai-Paraná, no valor de US$ 80 milhões. Ver em NASCIMENTO, Daisy. Efeitos
da falta de infra-estrutura no comércio da América do Sul é tema de debate no Rio.
Agência Brasil, Rio de Janeiro, 23 ago. 2004. Disponível em <www.agenciabrasil.gov.br>.
Acesso em 23 ago. 2004.
ELIANA ZUGAIB18
das áreas de interesse prioritário do Tratado da Bacia do Prata,
assinado em Brasília em 1969, e foi objeto de tratamento específico
em reuniões técnicas de representantes governamentais instituídas por
resoluções dos Chanceleres das nações platinas. Um dos aspectos
discutidos nesse foro era o da melhoria das condições de
navegabilidade dos rios da Bacia, mormente naqueles em que se
requeriam obras de dragagem, retificação, sinalização e balizamento,
entre outras.
O desenvolvimento do processo da Bacia do Prata esteve
fortemente condicionado pelas divergências entre o Brasil e a
Argentina acerca da utilização dos rios internacionais, sobretudo no
que se referia ao seu aproveitamento energético. A questão da
navegação ou do transporte fluvial não chegou a ter incidência direta
nessas divergências, na medida em que, desde o século XIX, após a
Guerra do Paraguai, já se havia consolidado o princípio da livre
navegação nos rios internacionais da Bacia. Foi muito acentuada a
influência de visões geopolíticas e estratégicas, em geral contaminadas
por atitudes confrontacionistas. Tanto no Brasil quanto na Argentina,
entre as décadas de 1930 e de 1980, houve uma profusão de estudos
geopolíticos que tiveram ampla repercussão. O momento de inflexão
que contribuiu para o arrefecimento dessas tendências foi, sem dúvida,
o acordo sobre Itaipu e Corpus, de 1979, mediante o qual o Brasil e
a Argentina lograram equacionar, de modo prático, a controvérsia
sobre a questão do aproveitamento dos rios internacionais de curso
sucessivo e em particular das hidrelétricas do alto Paraná, dando
início a processo de entendimento e cooperação que, mais tarde, iria
resultar na constituição do Mercosul e na formulação da aliança
estratégica entre os dois vizinhos.
A HPP constitui a primeira proposta de projeto regional de
utilização fluvial compartilhada na América do Sul, de iniciativa
brasileira, cuja importância transcende seu significado geoeconômico
no espaço integrado da Bacia do Prata e do Mercosul. Alguns
19INTRODUÇÃO
autores, sobretudo argentinos5, ressaltam o valor da Hidrovia como
exemplo emblemático da passagem do paradigma secular do
antagonismo geopolítico, predominante até o início ou meados da
década de 1980, que se pautava pelo esquema de eixos longitudinais
versus eixos transversais. A HPP serve assim como via do comércio
regional e inter-regional, contribuindo para integrar economicamente
os territórios mediterrâneos e possibilitando seu desenvolvimento
sustentável.
Nesse contexto, o trabalho propõe-se discutir a relevância da
HPP