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A hidrovia Paraguai Paraná e seu significado para a diplomacia sul americana do Brasil

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115A NAVEGAÇÃO NOS RIOS DA BACIA DO PRATA
queria a Argentina, mas apenas a informá-la, o que equivalia, em última
análise, a mantê-la alijada de qualquer decisão, já que o Acordo de
Nova Iorque não estabelecia quem deveria decidir sobre os eventuais
efeitos prejudiciais. Ademais, o próprio documento assinado deixava
claro que a informação não facultava a nenhum Estado “retardar ou
impedir os programas e projetos de aproveitamento (...)”246.
O ambiente na Argentina, onde a esquerda peronista dominara
o governo Cámpora (maio a outubro de 1973), já era de hostilidade
ao Brasil247, e agravou-se por ocasião do enchimento da represa de
Ilha Solteira no rio Paraná, quando a atitude do Brasil foi interpretada
pela parte argentina como demonstração de falta de vontade de
facilitar a informação a respeito, em tempo hábil. Embora o Acordo
pudesse haver resistido às críticas que suscitou, não sobreviveu ao
episódio de Ilha Solteira, conhecido como “traje de banho”248, que
precipitou sua denúncia, em 10 de julho de 1973, pelo Chanceler
Juan Carlos Puig, cuja atuação já se fazia em nome de um governo
peronista249.
Nem a denúncia, contudo, do Acordo de Nova Iorque, nem
mesmo o complexo mecanismo da Bacia do Prata, com seus comitês
e grupos de trabalho, haviam servido à Argentina para ganhar tempo e
recuperar seu atraso no aproveitamento dos rios internacionais,
sobretudo o do alto Paraná. O anúncio de Ilha Solteira não viria sozinho.
O Brasil não se demoveu de sua determinação de dar curso à preparação
de seus projetos. O mais importante deles, Itaipu, seria formalizado
em 26 de abril de 1973 e, já em maio, com a aprovação de seu tratado
246
 Ibidem.
247
 Moniz Bandeira, 2003, op. cit., p. 420.
248
 O Ministro Plenipotenciário Expedito Freitas Resende, encarregado das questões do
Prata no Itamaraty, encontrando-se em traje de banho numa piscina de natação, informou o
embaixador argentino no Brasil, José Maria Alvarez de Toledo, que o Brasil procederia ao
enchimento da represa de Ilha Solteira. O fato causou grande mal-estar ao governo de
Buenos Aires e o Brasil resistia a formalizar uma “informação” que a Argentina julgava
indispensável. Ver em Lanús, op. cit., p. 301 e 302 e em Sánchez-Gijón, op. cit., p. 140-141.
249
 Sánchez-Gijón, op. cit., p. 141.
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constitutivo, por Decreto Legislativo, era dado início ao cronograma
de execução de suas obras250. A assinatura desse Tratado encerrava
importante significado para os interesses geopolíticos dos “dois grandes”
na região. Itaipu era para o Brasil um projeto essencialmente político
e, na visão de muitos analistas, enquadrava-se na estratégia da Escola
Superior de Guerra para estabelecer a supremacia brasileira na região.
Ao optar por solução binacional em detrimento de outra multinacional,
como pretendia a Argentina, o Paraguai abandonaria, pela primeira
vez, desde a paz imposta pela Tríplice Aliança em 1870, sua posição
pendular em relação aos dois atores principais do jogo geopolítico na
Bacia. Com efeito, o Paraguai “optava pelo Brasil, incorporando-se
praticamente a ele”251.
Contrariamente ao esperado, ao substituir Cámpora na
presidência, Perón promoveu período de distensão no relacionamento
com o Brasil, ao abandonar a ótica centrada na disputa pelo poder e
na avaliação geopolítica anti-integracionista com que os governos
militares vinham tratando a questão do Prata e que havia levado o país
à paralisia. Convencido da ineficácia das batalhas jurídicas e por
entender que o “fundamental era o aproveitamento dos rios e não as
normas que o deveriam regulamentar”, Perón inaugurava uma nova
era em busca da recuperação do tempo perdido, durante a qual o país
deveria passar a expressar-se politicamente através de fatos e da
realização de obras, colocando fim à chamada diplomacia dos papéis
na Bacia do Prata252.
Não demoraria até que o interesse do Paraguai de
contrabalançar a aparência de que havia feito opção pelo Brasil, aliado
ao desejo dos peronistas de apresentar reação de fato à condução
da questão de Itaipu pelos governos anteriores, resultaria na
assinatura, em dezembro de 1973, do Tratado argentino-paraguaio
250
 Lanús, op. cit., p. 302 e 305.
251
 Schilling, op. cit., p. 140 e 146.
252
 Ver em Moniz Bandeira, 2003, op. cit., pp. 420-421 e em Lanús, op. cit., p. 305.
117A NAVEGAÇÃO NOS RIOS DA BACIA DO PRATA
para a construção de Yaciretá. Ao mesmo tempo, eram impulsionados
os projetos de Corpus e Salto Grande, até então estancados. Esses
três temas passariam a permear as relações dos dois países a partir
da VI Reunião Ordinária de Chanceleres. Destacou-se à época a
áspera questão da compatibilização de Itaipu e Corpus, assunto a
respeito do qual já se haviam cruzado considerações geopolíticas
antagônicas no momento mais tenso das rivalidades entre o Brasil e a
Argentina, com acentuada postura “não alinhada” da Argentina e o
alegado “ocidentalismo pró-norte-americano” do Brasil. Aquela
questão colocaria uma vez mais à prova o Tratado da Bacia do
Prata253.
A Argentina assinava, naquele mesmo ano, com o Uruguai, o
Tratado do Rio da Prata, que colocava fim ao litígio sobre seus limites
fluviais e seria, mais tarde, o pivô do questionamento do Tratado de
Paz, Amizade, Comércio e Navegação de 1856 e da Convenção
Fluvial, de 20 de novembro de 1857, pelo Governo do General Jorge
Rafael Videla, que inaugurou, em março de 1976, a restauração do
regime autoritário, conhecida como o Processo de Reorganização
Nacional. Em resposta à nota que recebera do Brasil solicitando
esclarecimentos sobre os efeitos do Tratado do Rio da Prata, o novo
governo questionou implicitamente a validade daqueles atos
internacionais celebrados no século XIX, que asseguravam a livre
navegação no Rio da Prata, ao assinalar que Buenos Aires não estava
integrada à Confederação Argentina, quando esta última os firmou com
o Império do Brasil. No início de 1977, o Brasil reagiu com firmeza à
atitude de Buenos Aires. Reclamou, por nota, pronunciamento a respeito
das incertezas levantadas acerca da livre navegação no Prata, cuja
garantia viria a ser dada em julho de 1977, quando da reabertura das
negociações para superar as divergências sobre a construção das
represas de Corpus e Itaipu. Concorreram para essa garantia, os sérios
problemas externos enfrentados pela Argentina, com a Grã-Bretanha,
253
 Sánchez-Gijón, op. cit., p. 143 e 144. Ver também em Lanús, op. cit., pp. 307-311.
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em torno das Ilhas Malvinas, e, com o Chile, por causa da disputa na
região do Canal de Beagle254.
Apesar dos esforços empreendidos no início da instauração
do Processo de Reorganização Nacional, o clima para o diálogo com
o Brasil não se restabeleceu e a ótica geopolítica para o encaminhamento
da cooperação na Bacia do Prata foi retomada por Videla255. Pretendia
ele impor política de equilíbrio na região, onde o Brasil já havia
incorporado a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai ao seu hinterland
comercial e expandia-se na direção do Pacífico256. Com essa nova
orientação política, a obra de Yaciretá-Apipé não foi iniciada e as
atividades dos projetos de Garabi, San Pedro e Roncador, sobre o rio
Uruguai, considerados de maior interesse para o Brasil do que para a
Argentina, foram condicionadas a um acordo sobre Corpus, cuja cota
negociada, mais tarde, acabaria sendo inferior à inicialmente oferecida
pelo Brasil.
Assim, não só a alternância de poder na Argentina havia
impedido o país de recuperar o tempo perdido, conforme pretendeu
Perón, como o Brasil perseguia com determinação sua política de
fazer obras. A presença brasileira no alto Paraná já não mais se
limitava às obras de aproveitamento hidrelétrico. Estendia-se também
às novas conexões rodoviárias e ferroviárias desenvolvidas no sentido
Leste-Oeste que rompiam a natural geografia dos rios da Bacia, no
sentido Norte-Sul, e favoreciam a saída da produção