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A hidrovia Paraguai Paraná e seu significado para a diplomacia sul americana do Brasil

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Dentre os projetos compartilhados, figurava o de medidas para
a melhoria das condições dos rios Paraguai, Paraná, Uruguai e Prata,
com vistas à sua navegação permanente; e, dentre os apresentados
individualmente pelos países membros, incluía-se o da modernização e
possível incorporação do Porto do Rio Grande ao sistema platino,
vitória diplomática cara ao Embaixador Pio Corrêa. De acordo com
os termos da referida Ata, decidiam os Chanceleres:
(...) Estudiar los problemas a resolver y proyectar las
medidas a tomar (dragado, remoción de obstáculos,
señalización, balizamiento, etc.) para permitir la navegación
permanente y asegurar su mantenimiento en los ríos Paraguay,
Paraná, Uruguay y de la Plata, especialmente en los tramos
de Corumbá-Asunción, Asunción-Confluencia, Confluencia-
Río de la Plata, Salto Grande-Nueva Palmira, y prever el
sistema más adecuado para la recuperación de las inversiones
169APRESENTAÇÃO DO PROJETO HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ
que resulte necesario efectuar y la compensación de los
servicios que demande el cumplimiento de este programa (...)
Teniendo en cuenta la posición especial del puerto de Río
Grande, que brinda intensa cooperación al área de la Cuenca
del Plata a la que está conectada por ferrocarril y carretera,
se recomienda la promoción de estudios con vistas a su
modernización y posible integración al sistema (...)373.
As circunstâncias em que ocorreu a coexistência desses dois
projetos ilustra uma das razões de o processo da Bacia do Prata haver-
se prestado durante longos anos mais como foco para solucionar os
diferenda entre as posições adotadas pelo Brasil e pela Argentina do
que para o desenvolvimento dos objetivos consagrados no tratado
constitutivo da Bacia do Prata, que seria assinado em 1969, por ocasião
da I Reunião Extraordinária de Chanceleres.
Inspirado nos propósitos da Declaração de Buenos Aires e da
Ata de Santa Cruz de la Sierra, o Tratado estabelece em seu artigo 1o
que “As partes contratantes convêm conjugar esforços com o objetivo
de promover o desenvolvimento harmônico e a integração física da
Bacia do Prata e de suas áreas de influência direta e ponderável”374,
em cujo âmbito se insere o projeto HPP, instrumento natural de
integração física da região375.
373
 Acta de la II Reunión Ordinaria de Cancilleres de los Países de la Cuenca del Plata. In:
PARAGUAY. Cuenca del Plata. Conferencias de Cancilleres, Documentos Básicos
(1967-1977). IX Reunión de Cancilleres, Asunción,: Ministerio de Relaciones
Exteriores,pp. 52-53, 5/8 dic. 1977.
374
 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Coleção de Atos Internacionais, no.633
– Tratado da Bacia do Prata. Rio de Janeiro, 1971. p. 3.
375
 Idem, pp. 3 e 4. Para atingir os objetivos previstos no Artigo 1o. do Tratado da Bacia
do Prata, seu parágrafo único estipula que os países partes deverão promover a
identificação de áreas de interesse comum e a realização de estudos, programas e obras,
bem como a formulação de entendimentos operativos e instrumentos jurídicos que
julguem necessários e que propendam, inter alia, à facilitação e assistência em matéria
de navegação e ao aperfeiçoamento das interconexões rodoviárias, ferroviárias, fluviais,
aéreas, elétricas e de telecomunicações.
ELIANA ZUGAIB170
Passados menos de dois anos, em junho de 1971, os
Chanceleres reunidos em Assunção, ao mesmo tempo em que
aprovavam a controvertida Resolução nr. 25 sobre o aproveitamento
dos rios internacionais, já declaravam, pela Resolução nr. 3, “de interés
prioritario para la Cuenca del Plata, los trabajos de mejoramiento
de los ríos Paraguay, Paraná, Uruguay y de la Plata, como vías
navegables para asegurar su uso permanente”376.
1.3.1. GÊNESE DO PROJETO HPP: PROCESSO INSTITUCIONAL RUMO À
INTEGRAÇÃO
A preocupação com as intervenções de melhoramento dos rios
do sistema platino era registrada desde a II Reunião de Chanceleres
dos Países da Bacia do Prata, antes mesmo da assinatura de seu tratado
constitutivo377. Como decorrência, foi aprovada na XVII Reunião
Ordinária de Chanceleres, a resolução nr. 210 (XVII), na qual se
reiterava ser “de interés prioritario de los países miembros el
376
 Acta de la IV Reunión de Cancilleres de la Cuenca del Plata, realizada em Assunção,
em 3 de junho de 1971. In: PARAGUAY. Cuenca del Plata. Conferencias de Cancilleres.
Documentos Básicos (1967-1977). IX Reunión de Cancilleres. Asunción: Ministerio
de Relaciones Exteriores de Paraguay, p.80, 5/8 dic. 1977.
377
 No entanto, há autores que enfatizam que o interesse em assegurar a navegação
contínua na HPP, em toda sua extensão, de Porto Cáceres, no interior do Mato Grosso,
a sua desembocadura, no Rio da Prata, foi expressamente manifestada, pela primeira
vez, na XIV Reunião Ordinária dos Ministros de Transporte e Obras Públicas do
Cone Sul, realizada, em La Paz, em 1987. PAEZ, Rodolfo. Historia del Problema.
Síntesis de la Situación. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía Paraguay-Paraná,
Factor de Integración, Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento n 763-G-11, p.
331, invierno 1991. Ver também DURRIEU, Mario A. e VAIHINGER, Carlos A. Las
enseñanzas de Storni y la situación actual. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía
Paraguay-Paraná, Factor de Integración, Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento
n. 763-G-11, p.217, invierno 1991; CASTILLO. Jose Luis. Hidrovía Paraguay-Paraná.
In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía Paraguay-Paraná, Factor de Integración,
Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento n. 763-G-11, p.304, invierno 1991;
MAJAS, Antonio Pedro. Aspectos jurídicos e institucionais da Hidrovía Paraguai-
Paraná. In: Revista Marítima Brasileira. v. 111 (7/9 e 10/12), p. 149, jul./set. e out./
dez/ 1991.
171APRESENTAÇÃO DO PROJETO HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ
desarrollo del transporte fluvial determinado por los ríos Paraguay,
Paraná y Uruguay”378.
Tardariam, contudo, duas décadas até que o plano da retórica
cedesse espaço ao dos fatos concretos. A partir de então, o processo
de incorporação do Programa da Hidrovia ao sistema do Tratado da
Bacia do Prata, que culminaria com a aprovação das resoluções nrs.
238 e 239379, pela XIX Reunião de Chanceleres, em 1989, obedeceu
a uma cronologia surpreendentemente rápida, baseada em situação
econômica concreta e em ação política decidida, motivada pela
necessidade de integração, que já vinha sendo pressentida desde o
início da década de 80, porém não se havia materializado.
Os países envolvidos nesse objetivo comum tinham presente
que a Hidrovia não era simples projeto de transporte, mas espaço
econômico para a integração e o desenvolvimento da região. Essa
aproximação física estava ligada aos anseios de irmanar vínculos
políticos e de crescimento econômico através da inter-relação de
seus mercados. O Mercado Comum Europeu e a união comercial
entre Estados Unidos, Canadá e México davam mostras suficientes
de que a América Latina não poderia mais postergar o início do
processo de sua própria integração.
Ao unir os países platinos, a Hidrovia representava
necessidade histórica e econômica, devendo ser o primeiro passo
em direção à integração regional e continental. Constituía o núcleo
do surgimento e desenvolvimento dos espaços internos latino-
378
 Resolução N. 210 (XVII), acordada por ocasião da XVII Reunião Ordinária dos
Chanceleres da Bacia do Prata. Texto mimeografado. Disponível nos arquivos do
Comitê Intergovernamental dos Países da Bacia do Prata (CIC). Note-se que a
Resolução N. 3 (IV), emanada da IV Reunião de Chanceleres dos Países da Bacia do
Prata, realizada em Assunção, em 3/6/1971, já explicitava os mesmos termos da
Resolução N. 210, de forma mais contundente: “Resolve: 1. Declarar de interés
prioritario para la Cuenca del Plata, los trabajos de mejoramiento de los ríos Paraguay,
Paraná, Uruguay y La Plata, como vías navegables para asegurar su uso permanente”.
379
 O Programa da Hidrovia