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A hidrovia Paraguai Paraná e seu significado para a diplomacia sul americana do Brasil

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 O escoamento da soja para o mercado europeu fazia-se por ferrovia brasileira até a
costa atlântica a um custo que, se bem elevado, era suportável tendo por base o preço
da mercadoria. A queda do preço da soja e o aumento considerável do custo do transporte
por via terrestre fez com que os bolivianos, por intermédio das Câmaras de Comércio,
impulsionassem com maior vigor o rompimento de sua mediterraneidade, mediante a
utilização da via fluvial, com saída ao Rio da Prata. Malins, op. cit., p. 311.
193APRESENTAÇÃO DO PROJETO HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ
de Bolivia al río Paraguay, y a través del sistema del Río
Paraguay y Paraná, la salida al Atlántico433.
O acesso da região ao rio Paraguai, na fronteira com o Brasil,
é viabilizado pelo sistema Tamengo, hidrologicamente dependente desse
rio e pertencente quase integralmente ao Brasil434. As autoridades
bolivianas têm manifestado preocupação com problemas apresentados
principalmente em decorrência da redução do fluxo de água do Canal
Tuiuiú que deságua na Lagoa Cáceres, supostamente causada por
obstáculos de cimento no lado brasileiro. Alegam que estudos
hidrológicos indicam a possibilidade de a Lagoa de Cáceres vir a secar
e ameaçar sua única saída de acesso ao mar435.
O tratamento do assunto passou a ser recorrente nas reuniões
do CIH e, em setembro de 2003, por ocasião da III Reunião de
Comandos Navais Fronteiriços Brasil-Bolívia, decidiu-se pela realização
de estudos para o levantamento das causas do assoreamento do
Sistema Tamengo e possíveis soluções para a questão. Em maio de
433
 Sanguinetti, op. cit., p. 80.
434
 Para os territórios do Norte boliviano (zona de Beni), o acesso ao Oceano Atlântico,
por meio da Bacia do Amazonas é alternativo, já que não contam com acessos rodoviários
e ferroviários até La Paz ou Santa Cruz de la Sierra. A rede rodoviária brasileira oferece
opção para a saída dos produtos dessa região próxima ao porto de Manaus, onde
atracam embarcações de ultramar, com saída ao Atlântico. Bloch, op. cit., p. 162.
435
 Assim como o sistema Tamengo inunda os campos por meio das enchentes do rio
Paraguai e de precipitações extraordinárias, também pode chegar a secar em épocas de
estiagem severa. Há evidência de que esteve completamente seco no período de 1960-
1969, ainda que o rio Paraguai tenha mantido os níveis críticos de água. ANGULO
CABRERA, Gildo. La Navegabilidad en el Río Paraguay: Proyectos Portuarios
Bolivianos. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía Paraguay-Paraná, Factor de
Integración, Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento n 763-G-11, p. 157, invierno
1991. Comenta ainda Angulo Cabrera que possíveis alternativas de saída ao Atlântico
seriam Puerto Busch ou a canalização do Bermejo que uniria grande parte do território
boliviano com um porto no curso das águas do rio Paraguai, proporcionando acesso
mais próximo ao Atlântico do que Puerto Busch ou o canal Tamengo, distância que seria
reduzida em 1300 km. Outras opções de a Bolívia ligar-se à Hidrovia seriam as Lagoas
de Uberaba, Gaiba e Mandiore, que se comunicam com o Paraguai por pequenos canais
brasileiros navegáveis temporariamente. Ver também em BRASIL. Ministério das
Relações Exteriores. Circular Telegráfica n. 42864/154, de 01/03/2002.
ELIANA ZUGAIB194
2004, por sugestão do chefe da delegação brasileira, acordou-se
aprofundar os mencionados estudos, para o que foi criada Comissão
Mista Técnica Brasil-Bolívia, com a missão de realizar trabalhos de
investigação e apresentar propostas de solução para o problema, no
que diz respeito a aspectos hidrológicos e ambientais436.
Outra reivindicação do governo boliviano diz respeito à
flexibilização das limitações da dimensão de comboios que transitam
pelo Canal Tamengo, impostas pela Marinha do Brasil e justificadas
por questões de segurança de navegação e da possibilidade de que a
tomada de água da cidade de Corumbá possa afetar seriamente a vida de
cerca de 125 mil habitantes437. Embora essas regras sejam condicionadas
por questões de segurança438 e não impliquem discriminação de bandeira,
representam custos excessivamente onerosos para os exportadores
bolivianos.
Nesse sentido, o governo boliviano formulou pedido para que
as Normas e Procedimentos da Capitania Fluvial do Pantanal fossem
revistas para permitir o tráfego de comboios maiores no trecho
compreendido entre o Farolete Balduíno e o sistema de captação de
água de Corumbá, com vistas a evitar que a obrigatoriedade de seu
desmembramento prejudique a economia do país. Em atenção ao pleito
do governo boliviano, o Brasil dispôs-se a diminuir o prazo de conclusão
dos estudos iniciados pelos dois países, destinados a avaliar a
possibilidade de mudança da configuração de comboios e de atribuir
436
 MELO, Renato Batista de. Considerações sobre a Hidrovia Paraguai-Paraná.
BRASIL. Marinha do Brasil. Divisão de Assuntos Marítimos e Ambientais. Brasília, 1
set. 2004. pp.9 e 10. Texto mimeografado.
437
 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Circular Telegráfica nr. 46065/321, de
19/05/2003.
438
 As restrições aplicam-se não apenas à passagem na tomada de água da cidade de
Corumbá, mas a todo o trecho que se estende até o Farolete Balduíno, em função das
características do fundo rochoso do rio no espaço entre o Farolete e sua margem. Ver em
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Despacho telegráfico n. 415 para a
Embaixada em La Paz, de 06/10/2003, que relata as conversações mantidas entre os
chefes das delegações brasileira e boliviana à margem da XXXIII Reunião do CIH,
realizada em Santa Cruz de la Sierra, de 22 a 25 de setembro de 2003.
195APRESENTAÇÃO DO PROJETO HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ
tratamento diferenciado às embarcações de acordo com o tipo de carga
transportada e do risco que representa para o meio ambiente439.
Embora as regras de tráfego de comboios tenham sido
alteradas, em reunião bilateral realizada em maio de 2004, não
atendem plenamente a reivindicação boliviana. A existência de
obstáculos na área – as reduzidas larguras e profundidades em
determinados trechos e épocas do ano, bem como a presença de
algumas construções, como o sistema de captação de água da cidade
de Corumbá e o Farolete Balduíno – constituem o principal
impedimento à passagem de comboios com 4 barcaças (2x2+1) em
tempo integral, como quer a Bolívia440.
O espírito de cooperação no atendimento das reivindicações
bolivianas foi consignado no Comunicado Conjunto dos Presidentes
Lula e Mesa:
(...) os presidentes coincidiram que a Hidrovia Paraguai-Paraná
constitui um eixo de desenvolvimento sócio-econômico binacional
e regional. Nesse sentido, determinaram o exame de medidas
que, preservando o meio ambiente, facilitem a navegação e as
operações fluviais nas águas jurisdicionais da Bolívia e do Brasil
e a busca de uma solução para a questão da tomada de água no
Canal Tamengo441.
O Comunicado, associado às iniciativas mencionadas, corrobora
a postura de colaboração do governo brasileiro na solução dos
problemas apresentados no Canal Tamengo.
439
 Ver em BRASIL. Ministério das Relações Exteirores. Despacho telegráfico n. 415
para a Embaixada em La Paz, de 06/10/2003.
440
 MELO, Renato Batista de. op. cit., p.8.
441
 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Comunicado Conjunto dos Presidentes
da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da República da Bolívia,
Carlos D. Mesa. Brasília. 18 nov. 2003. Disponível em <www.mre.gov.br/portugues/
imprensa/nota_detalhe.asp?ID_RELEASE=2014>. Acesso em: 13 mar. 2004.
ELIANA ZUGAIB196
2.5.3. BRASIL
O Brasil é o país da região que menos depende da Bacia do Prata
para seu desenvolvimento. Dispõe da maior e mais importante parte da Bacia
Amazônica, com 4,5 milhões de km²; extenso litoral de 8,5 mil km, bem
posicionado em relação aos EUA, à Europa e à África, além de possuir
potencial hidrelétrico que pode alcançar